Peter Jackson reescreve “O hobbit” e transforma obra de Tolkien num apêndice de sua trilogia “O Senhor dos Anéis”

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“– Que você sempre apareça quando for mais necessário e menos esperado!”, disse o Rei Élfico da Floresta das Trevas a Gandalf, quando se despediram na fronteira leste de Mirkwood. Ainda falta muito para chegarmos a essa parte da história, que deverá ser concluída por Peter Jackson em 2014. Mas, por meio do extrato, é possível compreender a estratégia narrativa do diretor neozelandês para amalgamar o produto inicial de sua versão para as telas de O hobbit, romance do escritor sul-africano John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973), publicado originalmente em 1937, à sua trilogia “O Senhor dos Anéis”: incorporar o que for mais necessário, mesmo que inesperado.

O diretor estava mais interessado em reescrever a história de Thorin Escudo de Carvalho e sua companhia para conformá-la a seu trabalho anterior na mitologia de Tolkien do que em respeitar a intenção do texto e algumas determinações intrínsecas a ele. A comitiva de Thorin, influenciada por Gandalf, contrata os serviços do hobbit Bilbo Bolseiro como ladrão furtivo, habilidade que não constava em seu currículo, e empreende missão suicida para livrar Erebor, a Montanha Solitária, localizada próximo à borda oriental da Floresta das Trevas, do jugo do dragão Smaug, o Dourado, recuperar o tesouro dos anões e restituir o trono e o título de Rei sob a Montanha a Thorin, filho de Thrain e neto de Thor.

Mapa das Terras Ermas_O Hobbit

O roteiro deforma o papel de personagens que são só citados no livro, como Radagast, o Marrom, que é um dos Istari (espíritos Maiar enviados à Terra-Média para auxiliar os povos livres no combate a Sauron), juntamente com Gandalf, o Cinzento, Saruman, o Branco, e outros dois magos Azuis – não sei por que diabos Peter Jackson não os enfiou na trama também –, e extrapola a narrativa adicionando situações e fatos que não aparecem em O hobbit. Esse (des)controle sobre o formato é baseado em apêndices, anotações e outras histórias do universo de Tolkien. Tal “licença poética” seria perdoável se não fosse um mecanismo para ressaltar o super projeto de Jackson – com “a intenção de estabelecer melhor uma hexalogia”, bem dito por Érico Borgo em sua crítica – em detrimento do livro, sagrado para a comunidade de fãs do autor.

Jackson já havia feito alterações pontuais, que não descaracterizam a condução das aventuras, em “O Senhor do Anéis”. Na estruturação deste primeiro filme, cujo título é “O hobbit – uma jornada inesperada”, ele também faz o mesmo. Em paralelo a essa opção de abordagem, ele “prepara” o público para a chegada de Sauron. Aqui ele é descoberto por Radagast, apresentado no livro por Gandalf como seu primo, quando ele e Bilbo se apresentam ao homem-urso Beorn. O mago Marrom, numa incursão a Dol Guldur, fortaleza abandonada que fica no sul da Floresta das Trevas, descobre o Necromante, a alcunha de Sauron naquela época. Em Dol Guldur, Radagast entra em confronto com um Nazgûl, o espectro de um antigo rei dos homens que foi corrompido pelo poder de um dos anéis mágicos de Sauron – “They are the Nazgûl. Ringwraiths, neither living nor dead” (Aragorn)

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A ambiguidade moral de Saruman e seu caráter duvidoso também começam a ser contextualizados. O Branco destila sua astúcia atuando como advogado do diabo. Em outra sequência da imaginação dos roteiristas, provavelmente derivada do Apêndice A (Anais dos reis e governantes), tópico III (O povo de Durin) do terceiro volume de O Senhor do Anéis (Martins Fontes, 2a edição, 2000), há um encontro, em Valfenda (Rivendell), entre o mago Branco, Galadriel, senhora élfica da floresta de Lothlórien, Elrond e Gandalf. O tópico em discussão é a veracidade ou não de rumores dando conta de que um mal cresce ao sul da Floresta das Trevas. Alarme soado por Radagast e seu trenó de coelhos movidos a esteroides. Depois dos acontecimentos de O hobbit, Gandalf acaba convencendo Saruman e o Conselho Branco a atacar Dol Guldur, forçando Sauron a se retirar para Mordor. O resto da história nós já sabemos. Será que Jackson vai viajar longe assim?

Bilbo

Azog, assassino de Thor e filho de Bolg, líder orc esmagado por Beorn na Batalha dos Cinco Exércitos – Jackson certamente vai chegar lá e explorar toda potencialidade das batalhas épicas geradas pelo que existe de mais moderno na computação gráfica – é pinçado da página 24 de O hobbit (Martins Fontes, 2a edição, 1998) e se torna o antagonista figadal de Thorin. Todo herói precisa de um inimigo.

Todos artifícios de roteiro para conquistar corações e mentes. O espectador menos leniente com aspectos pedagógicos vai imaginar que está sendo tratado com condescendência excessiva – ou ler o filme como flashbacks da trilogia do anel; o que fizer uma análise comparativa entre a literatura de Tolkien e as realizações de Jackson poderá encarar “O hobbit” como uma tentativa de o diretor inflar seu ego de autor. Os ganchos narrativos utilizados por Tolkien para fisgar o leitor são subvertidos e colocados em prática para amarrar “O hobbit” não como um prelúdio, mas com um apêndice da saga de Frodo e da Sociedade do Anel.

Os próprios anões ganham constituições mais guerreiras. No livro são mais tapados e despreparados que os anões da Branca de Neve, salvo raríssimas situações (como na batalha final, em que Erebor e seus tesouros estão em jogo), dependendo de Bilbo e Gandalf para livrá-los das enrascadas em que se metem. Bilbo representa a esperteza, a bondade e a coragem improvável; Gandalf invoca a sabedoria e a experiência e surge como um Deus ex machina em situações extremas.

A

Fora isso, um investimento tão alto, apontado como o mais caro da história do cinema, girando em torno dos US$ 500 milhões, segundo Alessandro dos Santos, da revista Playboy, precisa ser capitalizado ao máximo. Três filmes significam lucro triplo. Achou que Jackson se importava com suas predileções literárias, seu tolinho? O resultado, uma produção arrastada, cansativa, que se estende por desnecessários 169 minutos, com muitas cenas longas e irregulares. E toma paisagens exuberantes que se perdem no horizonte, uma maneira de o diretor de fotografia Andrew Lesnie ilustrar com imagens a obsessão descritiva de Tolkien. Pelo menos deve ser a mentira que ele conta para si mesmo antes de dormir. Não havia opção a não ser enxertar no primeiro filme os planos e sequências que fossem possíveis para esticá-lo, diluindo a força da jornada ao leste. Mas o público atura, sempre ansiando pelo próximo combate, a próxima sequência de ação, hipnotizado pela qualidade técnica – a tecnologia a serviço de seres e cenários fantásticos. Um escapismo do prosaico é garantido, se é só isso que se espera de “O hobbit”.

Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens e Guillermo del Toro (que abandonou a Terra-Média mais cedo, mas conseguiu seu quinhão do tesouro), os famigerados roteiristas, cometem o erro capital de adaptar O hobbit para encaixar na trilogia cinematográfica “O Senhor dos Anéis”, e não para lograr da matriz de Tolkien o que se esperava: a elevação do objeto.

carlos_bacellar

p.s. Quem não gostou que venha preparado, pois estou empunhando Orcrist, a Fende-Orc.

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1 comentário

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

Uma resposta para “Peter Jackson reescreve “O hobbit” e transforma obra de Tolkien num apêndice de sua trilogia “O Senhor dos Anéis”

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