Medicina alternativa

Paris-Manhattan opening film poster s

Woody Allen como panaceia para todos os males. Esse é o lema da farmacêutica Alice (Alice Taglioni, a Kim Basinger da França, devastadoramente bonita), que adotou uma alternativa radical à alopatia. Melhor teria sido fazer faculdade de cinema, já que na fórmula de suas receitas favoritas sempre há trabalhos do diretor nova-iorquino. Para Alice, o problema não está no corpo, mas na cabeça: “Assista a ‘Manhattan’ (1979) e a ‘Tudo o que você queria saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar’ (1972) após o jantar. Pela manhã me ligue se ainda não estiver sentindo bem. Tenho mais algumas dezenas de filmes de Woody Allen, se for o caso de uma internação em frente à sua televisão. Não há contraindicação, mas a overdose é uma possibilidade e podem causar dependência”.

Alice procura aliviar a somatização alheia ou se automedicar? Se não fosse tão indecentemente bonita, ela poderia ser uma versão feminina de Allen, e parece óbvio ser o que pretende a diretora-roteirista Sophie Lellouche em seu longa de estreia: “Paris-Manhattan”. Retraída, insegura, hipocondríaca (seu tratamento prescreve quilos de remédios e metros de filmes, hoje quantificados em arquivos digitais), desajustada quando se trata de homens e eventos sociais, solitária, antagoniza com a irmã, sofre bullying da família (judia, que coincidência, imagine você…) para arrumar um marido.

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Alice ainda esconde um segredo. A farmacêutica se conecta com seu ídolo de forma muito especial, transcendendo sua íntima ligação com a cinematografia woody-alleniana. Em seu quarto há um pôster em preto e branco do diretor, seu confidente, com quem Alice conversa na tentativa de entender os meandros de nossa vã filosofia. Ninguém melhor que o cronista do cotidiano, que enxerga a comicidade no prosaico, expondo com ironia nossas falhas, preconceitos e perversões como esquetes de um teatro burlesco, para orientá-la no jogo das relações interpessoais. Só que esse Woody Allen, o genérico, é uma projeção do subconsciente de Alice, assim como o ex-jogador de futebol Eric Cantona, em “À procura de Eric” (2009), filmaço de Ken Loach, é uma ilusão criada pelo cérebro do carteiro Eric Bishop num momento de dificuldade.

Você é o que você quer ver. E todos criam narrativas em que são heróis (no caso em questão, uma anti-heroína) ou vítimas, para justificar comportamentos e atitudes, mesmo equivocados. O resultado pode ser uma autossabotagem psicológica. Alice lê sua vida como um roteiro escrito por Allen, compreensão reforçada pelos DVDs que não se cansa de assistir, e não consegue se desvencilhar de tobogã de altos e baixos que a conduz para um poço de expectativas frustradas. Não poderia ser de outra forma, já que o script vai de encontro à sua formação conservadora e à sua ingenuidade, o que a leva à frustração e ao confronto moral. Novamente chegamos a Woody Allen, que, convenhamos, não é o melhor substituto para valium. Talvez para convencer um suicida a optar pelo caminho errado…

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A medicação aqui tem outro nome: o técnico em equipamentos eletrônicos de segurança Victor (Patrick Bruel, o Dustin Hoffman francês), que se torna uma constante de afeição nas incertezas e tropeços da moça. Com ele Alice é resgatada da ficção que encena para si e encontra sua ovelha em meio à multidão. Além de ter um padrinho de peso (aguarde as sequências finais…), para surpresa de Alice, ela não bale. 

Um filme com seus defeitos, mas doce, encantador, envolvente… Caso não precise mentir, diga que vai ficar durante 77 minutos na sala escura babando por Alice Taglioni. Não perca!

Carlos Eduardo Bacellar

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4 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

4 Respostas para “Medicina alternativa

  1. Vou procurar (infelizmente não chega nada nos cinemas daqui…como faço, Carlos??). Me resta só a internet. Abraço

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