Poesia como instância criadora

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O filósofo Vilém Flusser, numa tentativa de explicar o pensamento humano, dizia que a língua criava a realidade. Mas, o que ou quem criava a língua? A poesia, instância primeira. Tais especulações, perdidas no texto de Gustavo Bernardo – que atiça o espírito crítico –, inquietam quando convergem para leituras do filme “As aventuras de Pi”, de Ang Lee, baseado no romance Life of Pi de Yann Martel.

Lee, um diretor da imagem, e não da palavra, subverte Flusser e colide a retórica metafórica com a função referencial da linguagem para provocar o embate entre ceticismo e crença. O juiz, a dúvida – um meio caminho entre os opostos. O texto de Martel reconstrói o real por meio da linguagem figurada, numa tentativa de convencer os céticos acerca da existência de Deus.

Por meio de uma fábula que tem início com um naufrágio, cujos únicos sobreviventes são um jovem indiano, Pi, uma zebra, uma hiena, um tigre e um orangotango, que lutam pela vida num bote salva-vidas, o roteiro de David Magee aposta na fórmula infantil de uma história da carochinha de modo a propor a reformulação alegórica da realidade – véu que atenua o horror e o desespero. O objetivo: provocar a dicotomia entre uma estratégia de sobrevivência psicológica para suportar o insuportável e a fabulação de uma experiência que carrega o simbolismo de uma força maior, inexplicável por meio do pensamento racional.

Apesar do requinte visual e de todo esmero dispensado a uma mega produção, encantadores, não tenha dúvida, sobra uma discussão que, jogando com construções poéticas manjadas na tentativa de catequizar os infiéis, se torna uma fábula de Esopo, um aforismo desenvolvido, em vez de uma reflexão filosófica sobre os sentidos da religião, a força espiritual e o conforto proporcionados por ela.

A ficção é poderosa. Ela envolve a atenção em mecanismos intrínsecos ao seu realizar e, paradoxalmente, impede uma fuga, apesar de proporcionar exatamente isso. Por isso somos compelidos a ler um livro até o fim, mesmo cientes de seu desenlace. Ao tentar compreender se Deus é ou não uma ficção, Ang Lee entrega sua resposta enquanto formula a pergunta. Como um Paulo Coelho do cinema, ele evoca o sagrado sem desrespeitar o religioso. Assim, evita o profano. De que outra forma o cinema de espetáculo poderia existir, se não como ficção cética permeada de mensagens edificantes?

Carlos Eduardo Bacellar

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1 comentário

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

Uma resposta para “Poesia como instância criadora

  1. Anon

    Portubromation, muito bom ao escrever livros, não a textos para internet. Falou bastante, mas não fez a critica.

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