Na carne e na alma

Além-das-Montanhas-Poster

Além das montanhas”, do controverso diretor romeno Cristian Mungiu, explicita no título seu ceticismo, traduzido na dificuldade em distinguir a loucura pela religião da loucura religiosa. A impossibilidade do conhecimento absoluto agrega à religião o componente da interpretação. Dependendo de quem lê, a exegese das escrituras pode se desdobrar nas mais belas ações ou nos mais hediondos atos.

A harmonia de um convento na Romênia é perturbada pela chegada de Alina (Cristina Flutur, soberba). A jovem vai colocar à prova a fé de Voichita (a anestesiada Cosmina Stratan, de inexpressividade autista semelhante à de Fukaeri de Haruki Murakami em 1Q84 – Livro 1), a inseparável amiga de outrora, companheira de orfanato em tempos de mais violações de preceitos religiosos e menos espiritualidade. O desejo de Alina é retirar Voichita do convento e levá-la para a Alemanha, onde reside. Convencê-la a desistir de seu votos não será tarefa fácil na medida em que o relacionamento entre as duas ultrapassa os limites impostos pelo cristianismo ortodoxo.

A obsessão de Alina pela amiga se torna doentia, e é confundida pelos membros da comunidade, liderada pelo personagem de Valeriu Andriuta, com possessão demoníaca. Novamente Mungiu coloca seu dedo sobre uma ferida infeccionada chamada tabu. Em “4 meses, 3 semanas e 2 dias” (2007), filme com o qual ganhou a Palma de Ouro em Cannes, escancarou a questão do aborto.

Além das montanhas” provoca questionamentos acerca do fervor religioso ao colocá-lo sob outro parâmetro, ou parâmetros; deformando-o com filtros de interesses e expectativas. Voichita abstrai os imperativos do desejo por meio da imersão na ascese ao mesmo tempo que se digladia com sua humanidade, fraturada pelo novo tipo de relação com a amiga – que quer bem, mas a distância. O padre e as freiras são esgarçados entre a fraternidade, a dúvida e o sentimento de repulsa a um envolvimento que consideram impuro (uma desculpa para aliviar a consciência em prol da manutenção da doutrina). Alina, em seu egoísmo exacerbado, engendra artifícios psicológicos, armas de chantagem emocional, que a obrigam a transitar entre crença, incredulidade e descontrole irracional. Atuando na construção de um estado emocional apócrifo, ela comunga e blasfema, numa bipolaridade inerentemente contraditória para satisfazer seus interesses. Alina é pecado e virtude, perdição e salvação, anjo e demônio. Alina é todos nós.

Carlos Eduardo Bacellar

Trailer_”Além das montanhas”

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

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