Vigiar e punir

TheHunt

Estivemos a ponto de execrar Thomas Vinterberg, compelidos a um debate sobre “A Caça” que acabávamos de ver. Sentíamo-nos vítimas de um embuste: ele, o diretor, nos falhara. Ao final, tão ansiosamente aguardado, não nos deu a resposta, embaralhou as cartas cuidadosamente perfiladas! A nós, espectadores desarmados, captados à tela com competência, isso era praticamente um abuso sexual — o que supostamente sofre a menina Klara (Annika Wedderkopp, incrível) no filme — e nossa revolta era parelha ao olhar da vitima/herói Lucas (Mads Mikkelsen, magnânimo). Rendidos à obra, trazíamos ele e ela pela escada rolante. O filme se tornara uma questão pessoal.

Merda… Por que nos deixou sem conhecer o culpado entre os possíveis, mesmo um fulano improvável, o pedófilo da vez? Por que nos abandonou sem saber se Klara foi ou não “tocada”? Chegamos a pontificar que indicar um culpado era um dever do roteiro ou uma questão de justiça com a vítima. Ou melhor, vítimas, ele, ela e nós. Desejávamos urgente esclarecimento ou a salvação. O insolente Thomas nos subtraíra a solução, com um corte abrupto no script, uma inflexão em tela preta, bem no clímax.

Era um sinal. Após o tal corte, o filme nos introduz numa festa de aldeia (Nota: Vinterberg ingressou na galeria de Cannes com “Festa de Família” – “The Celebration”, no original, filme indicado à Palma de Ouro em 1998 e que saiu do balneário francês com o Prêmio do Júri, empatado com “Class Trip”, de Claude Miller; ironicamente Vinterberg não teve seu nome creditado como diretor em “Festa…” — devido a uma da regras do voto de castidade do Dogma 95), onde os algozes e as vítimas confraternizam-se conciliados. Como se não houvesse o passado ou como se a solução fosse dada, celebra-se a passagem de rapazes aprendizes ao time de maduros caçadores, em que a entrega do rifle é símbolo do sacramento. Não bastando, o laureado da noite vem a ser o filho de Lucas, o suposto pedófilo. Olho de trás para frente e mudo a perspectiva: “A Caça” é, sobretudo, o drama de uma comunidade refém de si mesma, do cotidiano, de sua incapacidade de mudar, de transcender, fadada à repetição, cujo horizonte é apenas um bosque para caça.

No entanto, Vinterberg não se mostra um fatalista do azar civilizatório Diferentemente de Lars von Trier, seu parceiro de fundação do movimento Dogma 95, é a sua inquietação que nos mobiliza e persiste. O filme estimula percepções à revelia da própria narrativa, sem pista nem digitais, intencionalmente obstruídas. Por outro lado, o roteiro sustenta o suspense como um exemplar hitchcockiano. Planta outros suspeitos, um aqui, outro lá, na malícia, no detalhe. Provoca até a participação da plateia, que não contém palpites nem reações, como se fosse um teatro. Lucas, o suspeito número 1 da aberração, desde sempre é, para nós, o terno substituto dos pais para a imaginativa Klara, carente de afeto. Se para a comunidade a relação entre os dois é a base da acusação, para nós, ela vem da força da fantasia, hipótese esta incogitável no código da aldeia. Trava-se então uma curiosa batalha entre personagens e audiência, entre filme e “realidade”, onde se inverte o lugar da culpa e o padrão do script policial. Arrebatadora como cinema.

Agora, voltando à intriga da saída, por que precisamos vigiar e punir (!) um culpado?

Claudia Furiati

Trailer_”A caça”

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