Arquivo do mês: julho 2013

Tensão entre real e realidade

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É preciso ver a vida inteira como no tempo em que se era criança, pois a perda desta condição nos priva de uma maneira de expressão original, isto é, pessoal” (Henri Matisse)

O cineasta francês Michel Gondry tensiona real e realidade em “A espuma dos dias”, longa baseado no romance L’Ecume des Jours, de seu conterrâneo Boris Vian, publicado originalmente em 1947. Uma interpretação possível para a estética artesanal de Gondry seria a apreensão inocente do mundo que nos cerca, uma metáfora da percepção infantil: o olhar original. Com essa poética crua do olhar primeiro, Gondry daria formas com papel machê, cola, tesoura e massa de modelar a seu mundo interior.

Francisco Bosco colocou essa leitura em suspeição ao conferir novos significados a uma frase atribuída a Friedrich Nietzsche: “Sem a música, a vida seria um erro”. As ideias foram exploradas num ensaio de Bosco sobre encadeamentos onomatopeicos que sublinham explosões de felicidade na música, publicado no livro Alta Ajuda (Editora Foz, 2012) e (re)discutido em um dos encontros da Flip 2013 – o filósofo e ensaísta dividiu com a deusa franco-iraniana da literatura Lila Azam Zanganeh a mesa O prazer do texto, sob mediação do jornalista Cassiano Elek Machado.

Primeiro é necessário diferenciar a linguagem verbal da música. Nas palavras de Bosco, a linguagem verbal é o campo da errância. Diferentemente dos animais, nós estamos separados da experiência com o real, que seriam as coisas em sua brutalidade, em sua crueza. Nós não temos acesso direto às coisas. Elas só nos são acessíveis pela linguagem verbal. A linguagem ao mesmo tempo conhece e produz o que conhece. Portanto, a linguagem verbal, paradoxalmente, nos condena a uma aproximação e a um distanciamento do real. Distância e proximidade, conhecimento e produção são os binômios que fundamentam o conceito do que chamamos de realidade.

Bosco salienta que nós não podemos conhecer com certeza o real, pois nós vivemos no campo da linguagem verbal, que é o campo da errância. Não é o campo do erro, nem da certeza – não se dá por categorias de certo e errado. Já a música é certa, não representa nada, não lida com símbolos, signos.

A palavra cantada se dá no meio da tensão entre música e verbo, palavra e som – híbrido do real da música, do certo da música, com a realidade da linguagem verbal. Há determinados momentos em que a canção não suporta sua tensão e quer virar plenamente música. Para isso, ela se afasta da linguagem e passa ao real puro dos fonemas – a música desiste de ser palavra e vira som, deixa de significar e passa a ser. Como define Bosco em seu ensaio, é a passagem da palavra ao som, da transitividade do semântico à intransitividade do melódico – a música é o que é (algo que ele chama de intransitividade). O tê tê tê, têtêretê “levanta defunto” da canção Taj Mahal, de Jorge Ben, ilustra a explicação. Não à toa, esses momentos são a expressão maior da felicidade de quem entoa a melodia.

É filmando suas inquietações em estado bruto, elaboradas como projetos da educação infantil, que Gondry almeja que elas simplesmente sejam, sem as exegeses inerentes ao existir. Daí sua paródica abordagem do pensador francês Jean-Paul Sartre. Na história de amor entre Colin (Romain Duris) e Chloé (Audrey Tautou), fadada ao fracasso por causa de uma flor de lótus que cresce no pulmão da moça, as ideias existencialista são ininteligíveis não porque são enigmáticas, mas na medida em que requerem construção de sentido.

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A expressão artística de “A espuma dos dias” é totalmente refratária à ideia do olhar original ou da falta de ferramentas conceituais para elaboração da realidade. Gondry não se dá ao trabalho de refletir; está mais preocupado em sentir. Ele já havia flertado com esse tipo de experimentação mambembe em projetos anteriores. O curta em que parodia “Taxi Driver” (Martin Scorsese, 1976) e o longa “Rebobine por favor” (2008), sua ode de amor ao cinema, são exemplos de trabalhos que podem ser atribuídos, erroneamente, à síndrome de Peter Pan do diretor.

O realizador francês, em seu filme mais político (irônico…), deixa o pensar para críticas à Igreja, ao consumismo – ecos do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que postula em sua liquidez teórica que “vínculos humanos tendem a ser conduzidos e mediados pelos mercados de bens de consumo” – e à exploração trabalhista do indivíduo. A transição de tópicos entre real e realidade dá o meio-tom entre fantasia e drama, entre as cores e o espetáculo de Baz Luhrmann e um filme de Tim Burton.

No campo das perturbações do sujeito, nas expressões mais íntimas e amorfas de suas abstrações, o diretor se esquiva de erros e acertos, certezas e dúvidas. Talvez por isso os personagens fiquem em segundo plano, à sombra das coisas. Como na música, só há o que há, ou melhor, é o que é: o certo para Gondry. A errância fica para as instituições humanas, invenções que escravizam seus criadores – seres que deixaram de ser e sentir para pensar, pensar em excesso, esquecendo o outro.

Subvertendo Nietzsche, melhor seria dizer que sem o cinema de Gondry, a vida seria um erro.

Carlos Eduardo Bacellar

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp