Arquivo do mês: agosto 2013

Frances Blá blá blá…

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Amadurecer ou não amadurecer, eis a questão que perturba o diretor americano Noah Baumbach. Desde que debutou na direção de longas, com “Kicking and Screaming” (1995), Baumbach não consegue identificar a fronteira que separa o campus universitário do conjunto de prédios comerciais, a chopada do curso de Letras do drinque com os colegas de escritório. As circunstâncias emocionais que impedem o pleno cumprimento do rito de passagem da juventude para a vida adulta são o foco da proposta estética do cineasta. Quando seus personagens conseguem cumprir as exigências do ambiente acadêmico e caem no mercado, são assolados pela insegurança crônica, resquício de uma adolescência cheia de traumas, dúvidas e indefinições.

O ciúme doentio em “Mr. Jealousy” (1997), o recalque e a frustração em “A lula e a baleia” (2005), a indefinição profissional e afetiva em “Greenberg” (2010) ilustram as tendências de Noah. Talvez o ponto de inflexão para o olhar desatento seja “Margot e o casamento” (2007), que mais se aproxima de um “Festa de casamento” (1998), de Thomas Vinterberg. Isso se o relacionamento complicado entre as duas irmãs do filme eclipsar a figura do noivo Malcolm (Jack Black), o artista fracassado que tenta ganhar a vida como pode, alguém com olhar não convencional.

É curioso perceber que os jovens adultos de Baumbach se confundem com a figura do artista, sujeito capaz de perceber a realidade de forma diferenciada, transitando entre a loucura e a genialidade, o apupo e a ovação, o ridículo e o significativo: escritores, pintores, músicos, dançarinos/coreógrafos…

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France Ha” continua trocando a beca de formatura pelo conjunto terno e gravata (ou melhor, pelo tailleur), evidenciando a disfuncionalidade social de Frances, interpretada pela musa indie de Noah Baumbach, Greta Gerwig. Frances é um projeto de dançarina de balé clássico que tem seus sonhos de palco estilhaçados e se vê às voltas com urgências mais prosaicas, como arrumar dinheiro para pagar o aluguel. Uma Clarice Falcão oxigenada (de tão fofinha irrita), ela é uma mistura que usa saias das neuroses de Woody Allen com a ingenuidade de Charles Chaplin. Sua dificuldade em amadurecer se confunde com um ensaio sobre a superação. Mesmo sem ter onde cair morta, insiste em consumir o que não pode: uma viagem a Paris, por exemplo. ‘Fecha o olho e joga no cartão (os juros joga para Deus)’ deveria ser o lema da geração ianque produto das crises.

A verborrágica Frances constrói para os outros, conformando a realidade às suas aspirações, a imagem que deseja para si. Baumbach faz de sua produção em preto e branco uma homenagem ao movimento nouvelle vague. Referências explícitas a obras de François Truffaut, como “Jules e Jim” (1962), mesclam-se com elementos dos filmes de Jean-Luc Godard. A direção de fotografia de Sam Levy dialoga mais com a câmera documental – experimental, suja e nervosa – de John Cassavetes do que com as sequências refinadas de “Manhattan” (1979), de Woody Allen. O trabalho do compositor francês Georges Delerue está referendado nos créditos. Delerue, além de participar de projetos de Truffaut e Godard, compôs para produções de Alain Resnais, Louis Malle e Bernardo Bertolucci.

A necessidade de verbalizar cada pensamento (ou de moldar circunstâncias adversas por meio da palavra, solilóquio mitômano que funciona como um mantra de autoajuda para Frances) arrefece a força da sugestão, dos gestos e dos silêncios, artifícios da linguagem cinematográfica que casam tão bem com um filme em preto e branco. Frances não cala a boca, uma contradição se pensarmos na geração SMS. Os diálogos espertinhos do roteiro têm linhas em excesso, esquizofrenia pura. Se não é fácil para a própria personagem compreender suas inquietações e diagnosticar o que há de errado, imagine para quem escuta. Está na hora de o cinema de Noah Baumbach crescer.

Carlos Eduardo Bacellar

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Cultura da vulgaridade: do luxo ao lixo

The Bling Ring

Um cínico é o homem que sabe o preço de tudo, mas o valor de nada.” (Oscar Wilde)

Os suspeitos usavam Louboutins (The suspects wore Louboutins). O título da reportagem assinada pela jornalista americana Nancy Jo Sales e publicada na revista Vanity Fair, cujos direitos de filmagem foram comprados pela cineasta Sofia Coppola, copia das entrelinhas e cola nos perfis do Facebook de aspirantes a celebridade um significado de valor repaginado, que não deixa ninguém bem na fita.

Parte de uma edição especial dedicada a Hollywood, que chegou às bancas em 2010, a matéria de Nancy ironiza logo de cara a conceituação moral de valor, deturpada pelo culto ao materialismo – que se mescla com a fama instantânea e, quase sempre, efêmera – a qualquer preço. A escolha das palavras do título deixa claro que valor se refere à precificação e não mais à educação: a perversão transforma autuação em exposição de marcas. Uma reafirmação de que não existe publicidade negativa. Crime é não estar sob os holofotes. Abrir mão de atitudes condenáveis para chegar lá (o Olimpo midiático) um agravante. O Código Penal é desconsiderado. Em seu lugar, as diretrizes editoriais do TMZ, leis do sucesso.

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Desdobrada primeiro no livro Bling Ring: a gangue de Hollywood (editado em português pela Intrínseca), de autoria da própria Nancy Jo Sales, e depois no filme homônimo de Sofia Coppola, a reportagem, ao investigar a história de jovens de classe média alta de Los Angeles que invadiram e roubaram, entre 2008 e 2009, casas da nova geração de astros de Hollywood – entre eles Paris Hilton, Lindsay Lohan, Audrina Patridge, Rachel Bilson e Orlando Bloom –, questiona a obsessão de nossa cultura em relação à fama. Os integrantes da Bling Ring que iam “às compras” nas casa de famosos tiveram os nomes trocados no filme. Diana Tamayo, Jonathan Ajar, Alexis Neiers, Rachel Lee, Nick Prugo, Courtney Ames e Roy Lopez foram enquadrados na investigação policial. No filme de Sofia, destacando as principais peças, Rachel é Rebbeca (Katie Chang), Prugo é Marc (Israel Broussard), Neiers é Nicki (Emma Watson) e Lopez é Ricky (Gavin Rossdale). Taissa Farmiga interpreta Sam, que é a versão para os cinemas de Tess Taylor, “irmã adotiva” de Neiers, única não indiciada pelas invasões seguidas de roubos.

A bolha da fama, antes distante, feérica e impenetrável, se transformou numa vitrine midiática com o advento dos reality shows, da internet – com seus sites e blogs de fofocas –, das redes sociais e das revistas especializadas na cobertura de celebridades. Vitrines não com manequins, mas com gente de carne e osso, como qualquer um. Na consciência coletiva da geração tabloide, louca por um dano cerebral que a sequelasse numa celebutard (uma celebridade burra e extravagante), era cada vez menos impossível atravessar a tela da televisão ou do computador e fazer parte daquele mundo aparentemente perfeito, sustentado por estratégias de marketing que utilizavam a linguagem da ficção como atrativos para ambientes e experiências de consumo, ostentação, diversão e sexo – sempre relacionados ao dinheiro (muito dinheiro!) e o que ele pode comprar. Como corolário dessa lavagem cerebral na formação de indivíduos, egoísmo, individualismo, narcisismo, cinismo, frivolidade, hipersexualização e alienação disfuncionalizando caracteres.

Bling Ring (2013) Katie Chang and Israel Broussard

Em seu livro-reportagem, lá pelas tantas Nancy questiona “por que Kim Kardashian era famosa”. A periguete de luxo, com seus modelitos sob medida para exames ginecológicos, foi alçada ao estrelado por um vídeo em que aparece seminua com o cantor Ray J. Aprendeu direitinho com Paris Hilton a encontrar o melhor ângulo de suas partes íntimas. A jornalista desfia a linha de raciocínio com sua explicação: “porque era muito boa em marketing pessoal, só por isso – e hoje em dia, é o que basta. As corporações agora são pessoas, e as pessoas são novos produtos, conhecidos como ‘marcas’. Numa época em que 1% da população está ficando mais rica, os 99% restantes de repente estavam tentando imitar o comportamento das Kardashian.

Em entrevista concedida à revista VEJA, Nancy disse que jovens “são bombardeados com mensagens que dizem que eles devem ser sexy o tempo todo e acabam acreditando nelas”. As gerações Y e Z, segundo a jornalista, nascida na Flórida e radicada em Nova Iorque, sofrem de depressão e ansiedade por causa da obsessão pelo universo dos famosos. “Crianças de países em desenvolvimento, que deveriam estar preocupadas em ser médicas, professoras, estão querendo ser estrelas do pop, rappers. Eu falo com crianças há dez ou quinze anos para fazer reportagens e, quando pergunto a elas o que querem ser, elas respondem: ‘Quero ser modelo’. Ou algo do tipo. Por que essas crianças querem isso? Estamos promovendo a ideia de que isso é uma profissão viável para qualquer um, e não é. O número de modelos bem-sucedidas no mundo é minúsculo”, declara Nancy. Idiossincrasias prontas para serem roteirizadas.

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Sofia Coppola, na interpretação de Nancy, explora em seus filmes aspectos mais filosóficos do material que alimenta a imprensa sensacionalista: a obsessão com a celebridade, a arrogância dos jovens ricos, o vazio que cerca a fama enquanto aspiração ou modo de vida. Sofia deixa da lado a pirotecnia cinematográfica para focar nos dramas humanos. Em especial quando a superexposição, atrelada à fama, torna o privado público: impresso, televisionado, postado, tuitado ou simplesmente devassado pela câmera invasiva do cinema. A análise da jornalista da filmografia da diretora é precisa: “’As virgens suicidas’ (1999), baseado no romance de Jeffrey Eugenides, era sobre uma família de meninas ricas em Gross Point, Michigan, que se suicidam inexplicavelmente, tornando-se por isso ‘famosas’ em sua vizinhança. A Maria Antonieta de Sofia, interpretada por Kirsten Dunst, era uma adolescente mimada e uma espécie de estrela do rock da época (até, é claro, perder a cabeça). ‘Encontros e desencontros’ (2003) – filme com o qual Sofia ganho o Oscar de Melhor Roteiro Original em 2004 – retratava um ator de filmes de ação (Bill Murray) que é vítima da superexposição provocada pela fama; e em ‘Um lugar qualquer’, Stephen Dorff interpreta um ator famoso que mora no lendário hotel Chateau Marmont e se dá conta de que sua existência no centro de Hollywood é vazia e sem sentido”.

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Em “Bling Ring: a gangue de Hollywood”, Sofia, com sua assinatura estética usual, aproxima-se do registro documental e deixa de lado experimentalismos estéticos e metáforas. Ela não julga ou manipula situações com a câmera para que se conformem ao seu juízo de valor. Deixa que as próprias situações encenadas pelos atores naquele mundinho de subcelebridades ardam numa fogueira de vaidades e exalem as ironias peculiares daquele “estilo de vida”. Um noticiário do absurdo consumido pelos espectadores como um Big Brother, indicando que a prisão perpétua da opinião pública é ao mesmo tempo bênção e maldição. O registro cru de Sofia talvez seja seu equívoco nesta produção. A pesquisa jornalística se apega a contradições e inconsistências. Quando essas fraturas são confrontadas com os discursos e atitudes dos membros da Bling Ring, mentirosos patológicos, o tom irônico, o humor doentio, o deboche e o escárnio escorrem das páginas. Não é tão fácil com uma câmera naturalista capturar essa linguagem incongruente e, portanto, incomodamente engraçada. Sofia Coppola se aproximaria muito de Franz Kafka se o escritor fosse despido das alegorias.

Além disso, Sofia apenas tangencia temas que seriam causas daquele comportamento, como a negligência e permissividade dos pais. Passa ao largo de questões políticas, sociais, culturais e econômicas que foram determinantes na mudança de valores da sociedade americana da década de 1970 para cá. Questões contempladas na pesquisa para o livro e nem ao menos sugeridas no filme. Um contexto que faz falta para uma reflexão que transcenda consequências. Bling Ring…” pende mais para a trama policial do que para o drama psicológico.

Dois membros da gangue de delinquentes abonados, numa sequência emblemática, destacada por Isabela Boscov em texto sobre o filme publicado na revista VEJA desta semana, invadem a casa de Audrina Petridge. Quem assiste ao filme acompanha tudo a distância. Os dois adolescentes lembram ratos de laboratório num labirinto, nas palavras de Boscov. O simbolismo instiga outras leituras. Eles não controlam seus atos, suas vidas, são controlados pelas circunstâncias; e estão submetidos ao voyeurismo alheio, com sua intimidade devassada – assim como as celebridades que sonham ser.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Sonhando em cair na balada com a Paris ou a Lindsay? Vai se iludindo no embalo da trilha sonora do filme: aqui

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Homo passionis

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Ao amor.

O que eu quis foi propor [em “O sacrifício”, 1986] questões e demonstrar problemas que vão diretamente ao núcleo de nossas vidas e, desse modo, levar o espectador de volta às fontes dormentes e ressequidas de nossa existência. Figuras, imagens visuais, estão muito mais capacitadas para realizar essa finalidade do que quaisquer palavras, particularmente hoje, quando o mundo perdeu todo mistério e magia, e falar tornou-se mero palavrório.” Andrei Tarkovski (1932–1986)

Amor pleno” encerra em seu título em português uma contradição. A plenitude do sentimento amoroso é algo que escapa ao diretor Terrence Malick na medida em que ela é uma utopia. Amar é estar cindido entre amor e ódio, extremos opostos que não caracterizam polos nem limites, mas as ambiguidades da condição humana que insistem em se sobrepor. Como escreveu a escritora e crítica literária Noemi Jaffe no texto de apresentação do livro de contos Meu amor (Editora 34, 2009), de Beatriz Bracher, quem ama hesita, duplica, abusa, confessa e pouco explica. “Explicar é desfazer as dobras; complicar é acrescentar mais dobras. O amor é mesmo todo dobrado, complicado; um nó falso, que nada prende nem solta e que, por ser feito de tantas dobras, confunde as mãos e os olhos”, declara Jaffe.

O amor, tema central das produções de Malick, é Barroco. Em sua explanação sobre o movimento que floresceu no século XVII, abrangendo não somente a arte como a ciência, a filosofia e a política, Sergio Paulo Rouanet aponta como tema central do Barroco a dobra: “figura fundamental […] para exprimir um espaço sem limites, em que não há lado de fora, mas simplesmente uma sucessão de dobras, que se desdobram e redobram ao infinito”. O Barroco, segundo Rouanet, foi uma síntese de elementos modernos, como a ciência, o capitalismo e o estado nacional, e de elementos tradicionais, vindos da religiosidade medieval. O choque entre a nobreza feudal e uma alta burguesia que aspirava ao enobrecimento – ambas assombradas pelo medo da perda de privilégios, ameaçados pela ascensão de novos estratos urbanos – resultou numa ação conservadora que acolhia e execrava os valores e ideais da Renascença: sua sensualidade, seu antropocentrismo, seu quase paganismo. O corolário foi a absorção de elementos antitéticos, combinando o humanismo renascentista com a religiosidade mais exaltada, a carne com o espírito, o hedonismo com a santidade, a terra com o céu. Os extremos no Barroco não são disjunções, explica Rouanet; não há escolha entre o céu e a terra, mas copresença. Foi uma forma de contrarrevolução cultural, sublinha Rouanet, um grande projeto de condicionamento coletivo destinado a refrear os impulsos que pudessem pôr em xeque o absolutismo real e o dogmatismo eclesiástico.

Malick, em seus filmes, explora a analogia entre a língua torta e ambivalente do discurso amoroso e a dualidade do homem. Para expressar essa similitude, o diretor, como um iniciado no tecnoxamanismo de Alejandro Jodorowsky, mescla o empirismo científico com a metafísica religiosa. Os verbetes estéticos de seus fragmentos do discurso amoroso geralmente se perdem no meio das referências religiosas, da predileção por paisagens do Meio-Oeste americano, dos planos contemplativos, da música clássica, de galãs hollywoodianos em papéis de destaque, das imagens em detrimento dos diálogos. A impossibilidade de amar plenamente está expressa no contraste entre a expectativa dos protagonistas (“realidade” subjetiva) e em como seus anseios são recebidos e processados (“realidade” objetiva) – lembrando sempre que realidade é uma construção, como lembra Francisco Bosco. “Badlands” (1973), o “Bonnie e Clyde” (Arthur Penn, 1967) de Malick, gênese de “Kalifornia” (Dominic Sena, 1993), road movie aditivado por sangue, suor e lágrimas, trata da relação conturbada (não tire essa palavra da cabeça, pois ela vai se repetir bastante) entre um delinquente sempre com o dedo no gatilho, ansiando pelo próximo homicídio doloso (interpretado por Martin Sheen) e uma inocente garota de família, doida pelo boyzinho desvirtuado que tentava impressionar; “Days of heaven” (1978), “As vinhas da ira” (John Ford, 1940) selo Malick de qualidade, aborda a relação conturbada entre dois peões de lavoura que armam um plano para ludibriar um rico senhor de terras; “The thin red line” (1998) dramatiza as sequelas da guerra – a batalha de Guadalcanal, embate entre japoneses e americanos, numa ilha do Pacífico na década de 1940 – no relacionamento de um soldado conturbado pela distância; “The new world” (2005) utiliza como pano de fundo o descobrimento da Virgínia no século XVII para contar a história do conturbado relacionamento entre uma nativa e um desbravador (Colin Farrell), o choque de civilizações; “The tree of life” (2011) ambienta a conturbada relação de um núcleo familiar cujo pai (Brad Pitt) é extremamente conservador, em descompasso com a mãe, amorosa e permissiva; finalmente “To the wonder”, o drama conturbado entre um americano enigmático (Ben Affleck) e uma francesa na iminência da deportação: sua salvação seria o casamento, que garantiria o green card. Como linha guia, sempre a tendência à fusão de contrários, entrelaçados pela retórica afetiva e ambígua do discurso amoroso.

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O ensaio de Roaunet e os filmes de Malick e Tarkovski se sobrepõem: “O Barroco de modo geral se dirigia aos sentidos, e não à razão”. Portanto o privilégio dado à imagem, ao código visual. Essas palavras poderiam se referir a um roteiro dos diretores supracitados, ou a uma resenha crítica acerca da obra dos dois, ou, como é o caso, ao texto de um acadêmico. A tentativa de conformar conceitos aparentemente imiscíveis – espiritualidade e pragmatismo, religioso e filosófico, criacionismo e evolucionismo, danação e salvação, devoção e desveneração, ceticismo e fé, sagrado e profano, o ateísmo de Richard Dawkins e as leituras bíblicas de Luiz Paulo Horta – por meio de imagens fragmentadas nada mais é do que uma metáfora da expressão do amor, inerente ao que é humano, signo caótico (porque em constante transformação) definidor do rumo da vida.

A atomização proposta pelas montagens menos lienares de dois filmes emblemáticos de Malick, “The tree of life” e “To the wonder”, em que passado, presente e futuro são embaralhados, deve crédito a Alain Resnais e seu “Hiroshima, meu amor” (1959). O filme de Resnais emprega em sua constituição duas vertentes antagônicas do lembrar, intimamente ligado ao discurso amoroso: memória e esquecimento. O paradoxo proposto por “Hiroshima…” – tornar-se consciente do esquecimento – ilumina nas obras de Malick a ilusão proposta pelo amor: nunca poder esquecer. Congelar-se no momento.

A única maneira de ser feliz é amar. A menos que você ame, a vida passará rapidamente”, diz a personagem de Jessica Chastain em “The tree of life”. Se você não ama, é dragado pela força do rio (símbolo do tempo que escorre), expresso neste filme de Malick pelo fluxo de água numa cachoeira. A personagem de Emmanuelle Riva, à beira de um rio nipônico, esgarçada entre duas histórias de amor no filme de Resnais, encontra-se estagnada na interseção do passado com o presente – presa na ambiguidade de seus sentimentos, entre o prazer e a dor, o céu e o inferno.

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A principal função da cultura barroca era inocular a obediência à Igreja e ao soberano. Espírito e carne, ou espírito ou carne, ou nem espírito nem carne. A impossibilidade de controlar o que controla. Procurar entender o inexplicável. As variáveis são tantas que o sentimento se torna infinito e a procura eterna. Javier Bardem interpreta um padre que questiona sua vocação. O personagem de Ben Affleck parece acometido de uma depressão que não se esvai. Os dois se tornam cientes da utopia do amor. A ignorância pode ser uma bênção.

Romântico, Terrence Malick está, sim, buscando o sentido da existência. Tarefa fadada ao fracasso, porque o que confere sentido à vida é amar, um vírus mutante como a gripe que insiste em se esquivar de placebos psicanalíticos, mas não para de contaminar.

Não existem explicações. Há o que há: um enigma de mistérios insondáveis. Os filmes de Terrence Malick, como o amor, vão continuar encantando e assustando.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. “Amor pleno” chega às locadoras já neste mês.

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