Frances Blá blá blá…

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Amadurecer ou não amadurecer, eis a questão que perturba o diretor americano Noah Baumbach. Desde que debutou na direção de longas, com “Kicking and Screaming” (1995), Baumbach não consegue identificar a fronteira que separa o campus universitário do conjunto de prédios comerciais, a chopada do curso de Letras do drinque com os colegas de escritório. As circunstâncias emocionais que impedem o pleno cumprimento do rito de passagem da juventude para a vida adulta são o foco da proposta estética do cineasta. Quando seus personagens conseguem cumprir as exigências do ambiente acadêmico e caem no mercado, são assolados pela insegurança crônica, resquício de uma adolescência cheia de traumas, dúvidas e indefinições.

O ciúme doentio em “Mr. Jealousy” (1997), o recalque e a frustração em “A lula e a baleia” (2005), a indefinição profissional e afetiva em “Greenberg” (2010) ilustram as tendências de Noah. Talvez o ponto de inflexão para o olhar desatento seja “Margot e o casamento” (2007), que mais se aproxima de um “Festa de casamento” (1998), de Thomas Vinterberg. Isso se o relacionamento complicado entre as duas irmãs do filme eclipsar a figura do noivo Malcolm (Jack Black), o artista fracassado que tenta ganhar a vida como pode, alguém com olhar não convencional.

É curioso perceber que os jovens adultos de Baumbach se confundem com a figura do artista, sujeito capaz de perceber a realidade de forma diferenciada, transitando entre a loucura e a genialidade, o apupo e a ovação, o ridículo e o significativo: escritores, pintores, músicos, dançarinos/coreógrafos…

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France Ha” continua trocando a beca de formatura pelo conjunto terno e gravata (ou melhor, pelo tailleur), evidenciando a disfuncionalidade social de Frances, interpretada pela musa indie de Noah Baumbach, Greta Gerwig. Frances é um projeto de dançarina de balé clássico que tem seus sonhos de palco estilhaçados e se vê às voltas com urgências mais prosaicas, como arrumar dinheiro para pagar o aluguel. Uma Clarice Falcão oxigenada (de tão fofinha irrita), ela é uma mistura que usa saias das neuroses de Woody Allen com a ingenuidade de Charles Chaplin. Sua dificuldade em amadurecer se confunde com um ensaio sobre a superação. Mesmo sem ter onde cair morta, insiste em consumir o que não pode: uma viagem a Paris, por exemplo. ‘Fecha o olho e joga no cartão (os juros joga para Deus)’ deveria ser o lema da geração ianque produto das crises.

A verborrágica Frances constrói para os outros, conformando a realidade às suas aspirações, a imagem que deseja para si. Baumbach faz de sua produção em preto e branco uma homenagem ao movimento nouvelle vague. Referências explícitas a obras de François Truffaut, como “Jules e Jim” (1962), mesclam-se com elementos dos filmes de Jean-Luc Godard. A direção de fotografia de Sam Levy dialoga mais com a câmera documental – experimental, suja e nervosa – de John Cassavetes do que com as sequências refinadas de “Manhattan” (1979), de Woody Allen. O trabalho do compositor francês Georges Delerue está referendado nos créditos. Delerue, além de participar de projetos de Truffaut e Godard, compôs para produções de Alain Resnais, Louis Malle e Bernardo Bertolucci.

A necessidade de verbalizar cada pensamento (ou de moldar circunstâncias adversas por meio da palavra, solilóquio mitômano que funciona como um mantra de autoajuda para Frances) arrefece a força da sugestão, dos gestos e dos silêncios, artifícios da linguagem cinematográfica que casam tão bem com um filme em preto e branco. Frances não cala a boca, uma contradição se pensarmos na geração SMS. Os diálogos espertinhos do roteiro têm linhas em excesso, esquizofrenia pura. Se não é fácil para a própria personagem compreender suas inquietações e diagnosticar o que há de errado, imagine para quem escuta. Está na hora de o cinema de Noah Baumbach crescer.

Carlos Eduardo Bacellar

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