A liberdade (não) é azul

azul e a cor mais quente

O amor é abstrato demais, e indiscernível. Ele depende de nós, de como nós o percebemos e vivemos. Se nós não existíssemos, ele não existiria. E nós somos tão inconstantes… Então o amor não pode não o ser também.” (Clémentine)

Se Adèle atribuísse uma cor à liberdade, ela seria azul. Mas seu daltonismo emocional revela que essa percepção é tão falsa quanto uma propaganda de absorvente. O amor que ela nutre por Emma, a mulher dos cabelos cor de oceano, que a draga pelo tesão, não corresponde às expectativas da moral conservadora. O resultado é uma negação do que sente; uma supressão de si. O martírio de Adèle é confundir desejo com vergonha num enclausuramento de silêncio velado pelo tabu.

Com as ambiguidades que cercam de inconstância essa paixão, o diretor tunisiano Abdellatif Kechiche moldou livremente para as telas as páginas da graphic novel Azul é a cor mais quente (editada aqui pela Martins Fontes), da francesa Julie Maroh, e transformou a HQ num pop-up audiovisual homônimo, permeado pela licença poética. As atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux foram escaladas para os papéis de Adèle e Emma, respectivamente – nos quadrinhos Adèle atende por Clémentine.

Uma história de amor homossexual condenada pelas convenções ortodoxas não tem nada de simples, principalmente quando envolve uma adolescente em processo de formação. Mas há algo além de um romance perturbado pelo preconceito e pela incompreensão.

azul e a cor mais quente_quadrinhos

Para Emma, sua sexualidade era um bem como outros. Um bem social e político. Para mim, é a coisa mais íntima que há”, declara Clémentine/Adèle numa passagem do texto de Maroh. A fronteira entre o público e o privado, para Adèle, se torna tão delimitada e imóvel – mas borrada pelas lágrimas de angústia – como a divisa entre o que deseja e o que pensa que deveria desejar. Emma, a Ramona Flowers que Adèle disputa com suas dúvidas, considera que a afirmação de sua opção sexual é algo a ser compartilhado e um veículo para a felicidade; uma identidade. Negação e aceitação. Polos opostos se atraem.

Adèle, num primeiro momento, em conflito, sem entender o que se passa dentro de si, tenta se enquadrar na moldura social estipulada para ela pelos outros – família, parcela careta da sociedade, amigos intransigentes. Procura se envolver com um dos gatos do colégio, pois acha que gostar de meninos é o certo – nada no amor é certo, só não amar é errado. Só que ninguém escolhe de quem vai gostar. A concepção de felicidade acaba se impondo, para o bem ou para o mal, pelas frestas que dilaceram um coração que se tolhe.

Num primeiro momento, Adèle desafia, inconscientemente, convenções castradoras: leva o carinha em que tentava se amarrar para a cama, finge um orgasmo, mete o pé na bunda do coitado, cai na balada em bares frequentados por gays – se descobre, se esconde. Envolvida com Emma, ela é assombrada pelas mesmas convenções conservadoras, entranhadas em sua constituição durante anos de lavagem cerebral – e confundida pela companheira com covardia. Adèle gosta de crianças, anseia em seu íntimo por um filho. Como, com Emma? E sua família, os amigos, os outros, o que vão pensar? Esconder por quanto tempo? Seu amor é realmente Emma? Sim, não… Esgarçada, Adèle se move com o corpo para um lado e o sentimento para outro. As cenas de entrega entre as duas deixam claro que a dissociação termina entre quatro paredes. Nada é mais certo do que aqueles momentos.

blue is the warmest color

A menstruação azul é uma forma de a publicidade conceituar um tabu e vender produtos preservando sensibilidades. Uma maneira de mascarar o real e não atingir suscetibilidades. Mas Emma não quer a mentira, ela quer a verdade: um “amor [que] se inflama, morre, se quebra, nos destroça, se reanima… nos reanima.” Um amor que a tinja de vermelho. A liberdade é vermelha. Sua maior conquista não foi se aceitar – “eu lutava tão obstinadamente contra mim mesma, contra os meus desejos, que não conseguia mais controlar o meu medo e a minha raiva, e por isso eu era tão agressiva”–, mas salvar Adèle de um mundo estabelecido sobre preconceitos e diretrizes morais absurdos.

azul e a cor mais quente III

A sensibilidade de Julie Maroh diz que a fórmula para o amor eterno é a mistura de paz e fogo. Diga isso para quem se ama, se consome, se inflama… E tem urgência do outro não para viver, mas para estar vivo.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Fernanda Lima, com seu ousado modelito plastificada em folhas douradas no sorteio da Copa, me deixou pensando um monte de sacanagem… Aproveito a masturbação mental para destacar uma passagem do texto de Luiz Carlos Merten sobre o filme “Azul é a cor mais quente”, cujo título original é “La Vie d’Adèle Chapitres 1 et 2″… Lá pelas tantas, provocado por Merten numa coletiva qualquer – “o diretor é um voyeur e tem prazer filmando as mulheres. Não filmaria cenas dessa intensidade com dois homens” –, Abdellatif Kechiche diz que tem vontade de realizar uma continuação, cujo título seria “A Vida de Adèle 3 e 4”. O objetivo é mostrar sua predileção por orgias sem discriminação de gênero: “terá uma cena de sexo entre Adèle e dois homens, e será bem gráfica”. Alguém diga para o Kechiche tentar algo mais criativo… Esse filme já foi feito pelo Lars von Trier. No original, deve ter sido intitulado “A Vida de Gainsbourg 69 e 69”, ou algo do tipo. O que pegou foi “Ninfomaníaca”. Estreia por aqui em 2014. Fuck, yeah!

p.s. 2 A fixação oral do diretor, potencializada no cinema e muito comentada pela crítica, foi extraída da graphic novel de Julie. O desejo começa pela boca.

p.s.3 Ouça a trilha sonora de “Azul é a cor mais quente”.

azul e a cor mais quente II

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

3 Respostas para “A liberdade (não) é azul

  1. Pingback: Top 10: filmes | Doidos por Cinema

  2. Carlos,
    Minha opinião.
    Não acredito, de maneira alguma, que Adèle ‘’nega o que sente’’ ou ‘’se supre’’. Ela surpreendeu-me exatamente pelo contrário. Ela, assim como defende sua posição de ser professora maternal no jantar com os pais de Emma, também mantém o amor homossexual de uma forma tranquila e madura. Ela não apresenta Emma aos seus pais como namorada. Isso é uma maneira de negação? De maneira alguma. Ela chora quando descobre a sua paixão, mas ela beija Emma e samba na cara da sociedade. De todo o texto, essa frase eu discordo do início ao fim: ‘’O martírio de Adèle é confundir desejo com vergonha num enclausuramento de silêncio velado pelo tabu.’’ Adèle não sofre pelo tabu. E, além disso, também não vejo nada relacionada na história que chegue perto de um ‘’romance perturbado pelo preconceito e pela incompreensão.’’ O elemento menos importante é que a história é protagonizada por um casal homossexual. Logo, essas questões não são debatidas. Adèle se surpreende redescobrindo-se? Sim, mas ela logo se entrega, pula nesse oceano azul.

    Abraço

    PS: Não use opção sexual. Ninguém escolhe amar uma mulher ou um homem, como você mesmo fala. Orientação sexual é a melhor forma para referir-se.

    • Vamos lá, Júlia… Você possui benefícios aqui na casa, portanto, deixei passar a ressaca do carnaval para te responder com calma. Adèle não apresenta Emma a seus pais por medo de ser repreendida, o que acorre de forma violenta na HQ, inclusive com uma ruptura. Você tem razão quando diz que isso não é uma forma de negação: é uma forma de se preservar e não criar um conflito familiar. Na passeata, ela não mais está num ambiente conservador e castrador. Pode se entregar à sua paixão numa situação em que é anônima (e não deve prestar contas a ninguém). Ela se angustia, sim, com as consequências que (imagina) o preconceito pode desencadear. Talvez a palavra preconceito não esteja clara na cabeça dela. Adèle sofre porque acredita que seu desejo está desvirtuado. Possivelmente consequência do ambiente “careta” em que foi criada. Gostei do seu último entendimento. Vou passar a dizer orientação sexual. Como você mesmo disse (e achei lindo isso), ninguém escolhe a quem amar. Você andou sumida… Apareça sempre.
      Abraços do amigo!
      CEB

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s