Arquivo da categoria: Cristiano Kusbick Poll

ULTIMATEMAN

Nosso colaborador bissexto de Curitiba resolveu dar sinal de vida e propôs uma reflexão tardia acerca de “The Dark Knight Rises”, longa que encerra a trilogia do homem-morcego de Christopher Nolan. Como o editor é um cara legal e aqui pode tudo, menos mulher feia – o padrão de qualidade do Doidos flutua entre Anne Hathaway e Eva Green –, o blog publica. Que venham outros textos do Cris!

Fonte: deviantart

Quem, no Brasil de hoje, não quer ver policiais encontrando amarrado um Cachoeira, a seus pés provas documentais de mil e um crimes? Mas quem teria capacidade e vontade pra realizar isso? Espionar, interrogar, espancar capangas em uma invasão clandestina atrás de pistas, abdicando da própria segurança, agindo à margem da lei em nome do interesse de uma entidade abstrata como o Povo ou a Justiça? Eu? Você? Qualquer um de nós? Nós, quem?

A figura do vigilante é um fantasma, por vezes esperado, nas sociedades onde existe um Estado teoricamente responsável por administrar a prática da Justiça. Seria um indivíduo que age clandestinamente, ignorando as amarras da Lei, perpetrando a justiça do deus-povo, quando a dos homens tropeçou na própria toga. Envolto em escuridão, amedrontador – mas carregando uma luz – assim é o Batman da trilogia de Christopher Nolan, encerrada com “The Dark Knight Rises”.

O FILME

Fonte:deviantart

Será que alguém não conhece a história do homem-morcego clássico? Ele foi criado em 1938 (OU 39) por um tal Bob Kane e era uma colagem de várias ideias já presentes nos pulps em quadrinhos noir da época. Ou você deve ter pensado que eu ia dizer: Batman é o menino que testemunha o assassinato dos pais em um assalto. Ao crescer, viaja pelo mundo por vários anos e prepara-se, mental e fisicamente, para ter os meios de realizar seu objetivo: uma vingança sublimada, que Bruce Wayne leva a cabo disfarçando-se de uma figura meio morcego, combatendo o crime em sua cidade, como tantas outras, mergulhada em corrupção e violência.

E é uma cruzada que Batman (ou melhor, Nolan) traz de forma tecnicamente impecável, em cenas poderosas sustentadas por um elenco de grosso calibre em todos os filmes. As sequências de ação carregadas de adrenalina juvenil evocam o espírito quadrinesco original do personagem. Mesmo assim, a proposta do diretor para o homem-morcego era mais realista, e ele conseguiu construir sua narrativa mantendo a maioria dos elementos clássicos da HQ.

A história das histórias em quadrinhos é coalhada de releituras e recomeços, destinados a apresentar um mesmo conjunto de ideias a sucessivas gerações de leitores. Os irmãos Nolan – Jonathan Nolan também assina o roteiro – foram muito felizes ao preservar certos aspectos que apareceram em décadas de publicação, entre personagens e eventos, e rearranjar outros, tanto representando as contradições do combate ao crime, como garantindo unidade ao longo da trilogia, com trama substancial e clímax em cada filme. E aqui é obrigatório mencionar o Coringa de Heath Ledger.

Não vou entrar na polêmica se a estrutura de “The Dark Knight Rises” ficou muito parecida com “A Origem” (2010), filme anterior dos Nolan. Todo diretor tem seu estilo, ao passo que qualquer filme de aventura urbana precisa ter mistério e revelações surpreendentes. Mais interessante é compararmos às outras versões cinematográficas. As duas primeiras, do início dos anos 90, foram dirigidas por Tim Burton, e seu estilo gótico circense deu o tom de toda a franquia, nas sequências dos anos seguintes. Mesmo quem gosta dos dois do Burton detesta o resto – apesar de o pai do cinema obscuro ter produzido “Batman eternamente” (1995), considerado por muitos um terceiro Burton da franquia, dirigido por Joel Schumacher. O último, com Arnold Schwarzenegger, ex-governador da Califórnia, fazendo o Homem de Gelo, estava tão perdido que virou um Batgay.

Nolan imprime o tom realista que tomou conta dos filmes de heróis de quadrinhos nos últimos anos (vide o recente “Os Vingadores”, dirigido por Joss Whedon). Não só os apetrechos tecnológicos, a roupa, o batmóvel, etc., ganham “explicações” críveis, mas principalmente a motivação de Bruce Wayne – e dos outros personagens. Afinal, ele é um de nós, quer dizer, não tem poderes como o Hulk, Thor e cia., sua luta é uma parte de sua personalidade, em vez de algo que se apresenta em sua vida, e essa é a parte mais sedutora da história. Ao contrário de Burton, que nos apresenta um Batman já feito e na ativa, Nolan nos convida a mergulhar na cabeça de Bruce Wayne e descobrir donde Batman saiu.

O MITO

Fonte: deviantart

Em qualquer lugar onde a impunidade é uma possibilidade talvez exista o desejo de fazer justiça com as próprias mãos. Assim, parece-me que a figura do vigilante é indissociável do nosso modelo de sociedade e de direito. Diria até que nós, no Brasil, nos contentaríamos com o Justiceiro, herói da Marvel que mata os criminosos. Seu nome tupiniquim, aliás, não é uma tradução fiel do original, “Punisher”, que é punidor; ou seja, mais pra um instrumento de pura vingança do que a altivez que a palavra “justiça” sugere. Mas o que move Bruce Wayne é desejo de vingança?

O vigilante, no fundo, é só mais um forte. A vida em sociedade, regida pela lei, é construída pelo diálogo, não pela força. Viver num mundo em que a justiça é imposta pelos fortes é tão ruim como viver num mundo dominado pelos fortes, tão-somente. O bairro que queremos, a cidade, estado, país depende do ideal da justiça alicerçada na lei, e quando essa chama está enfraquecida, é preciso uma luz na escuridão. Foi isso que o órfão Bruce Wayne buscou ser como Batman.

A trilogia nos contou a história de um exemplo reestruturante, que, mesmo por caminhos tortuosos, efetivamente levou os gothenses a recuperar a fé e combater o crime, eles mesmos, restaurando o ideal de lei e justiça. Bruce Wayne atinge seu objetivo, que era o de alçar o Batman a símbolo desse ideal; como lenda, superar as limitações de carne-e-osso. E aí vem uma tirada genial dos Nolan, inédita nos quadrinhos.

As HQs, todo editor sonha, são publicadas Ad infinitum, então nunca se pensou em aposentar um herói. Os Nolan, porém, dentro de sua proposta realista, o fazem: e precisamente o difícil de alguns personagens é acreditar que o cara gosta de ficar batendo em bandido até a velhice. Assim, aposentam Bruce Wayne, que, como qualquer ser humano, deseja viver em paz, mas fazem Batman perdurar, justificando o ideal que representa. Nolan devolve o orgulho perdido desde Clooney e Schwarzenegger, deixando os fãs à vontade para, uma vez mais, repetir: Batman é foda.

Cristiano Kusbick Poll

Fonte: deviantart

 

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Canibal Cult

Cercado por uma multidão, o odor nauseabundo de carniça toma conta. Muitas mãos imobilizam seus membros até sua carne ser rasgada por dentes podres e você ver que alguém de olhos vazios e expressão serena mastiga suas tripas. E se por milagre escapar desse destino terrível e das hordas lá fora, nas quais você reconhece seus pais e irmãos, verá a cidade em chamas e sua única certeza será a desesperança do fim do mundo. Eu disse milagre? Deus não existe.

No mundo pós-bomba atômica, nenhuma alegoria foi tão expressiva e completa quanto a do zumbi. Quem é que vai ter medo de um espírito errante numa casa velha ou de um psicopata fugido quando multidões canibais apodrecidas infestam das casas às igrejas? Dois elementos básicos aparecem no filme clássico de mortos ambulantes: o homem lobo do homem e o fim da sociedade.

Um ser morto que volta à atividade é uma coisa macabra por si, mas, quando isso acontece, a criatura não fica a mesma. Um tipo de apatia sanguinolenta toma conta dela, seja numa ressuscitação científica como em “Re-animator” (filme de 1985 baseado em obra do mestre H.P. Lovecraft), ou mística como em “Cemitério Maldito” (1989, do, por que não?, também mestre Stephen King).

Mas esses dois, apesar de falarem sobre mortos reanimados assassinos, não podem ser classificados como filmes de morto-vivo. Está faltando o contágio, que é a base para a propagação da epidemia e a consequente queda da civilização. Por isso, temos a síntese do tema consagrada na trilogia clássica de George Andrew Romero: “Noite”, “Amanhecer” e “Dia dos Mortos” (filmes de 1968, 78 e 85, respectivamente)1.

A trilogia explora a incapacidade da ciência para explicar o que está acontecendo, já que ninguém sabe o que traz os mortos de volta. Essa ignorância da avançada cultura ocidental talvez rivalize em terror com os próprios mortos e suas ofensivas. Também vemos nas obras o antes, durante e após a derrocada do mundo dos homens. E Romero fixa as “regras básicas”: o zumbi é eliminado com golpes na cabeça, e se ele te morder, já era, você se tornará um.

Ao longo das últimas décadas houve pouca variação dos elementos, incluindo a exploração comercial das tripas e esqueletos em diversas peças cinematográficas, na sua maioria B. Mas esse aparente preconceito contra os zumbis era uma energia contida, prestes a aflorar. Em “Extermínio” (2002, de Danny Boyle2), o diretor dá uma revigorada, tratando o tema com nova seriedade, apresentando os infectados. Os zumbis não são mortos, mas pessoas infectadas por um vírus de facílima contaminação, a partir daí tomadas por uma irascibilidade furiosa e insana, atacando violentamente quem quer que cruze seu caminho. Acho que no início do século XXI morto-vivo era uma coisa meio ridícula, e a infecção biológica torna-se um elemento de verossimilhança, atualíssimo, resgatando o terror.

Mas o mais interessante é notar que dois dos filmes mais recentes sobre zumbis são comédias. Longe de serem sátiras, o inglês “Shaun of the Dead”3 (2004, de Edgar Wright, com os impagáveis Simon Pegg e Nick Frost) e o estadunidense “Zombieland” (2009, de Ruben Fleischer com Woody Harrelson) soam mais como tributos. Ambos exploram os elementos dos clássicos com humor e estética gore, tirando sarro, mas não do gênero. Usam a temática pra fazer comédia, em tiradas muitas vezes metatextuais4.

Se você der uma pesquisada, vai ver uma porção de filmes B recentes (alguns BB: bem Bês) de morto-vivo. Será que essas não são provas do valor da metáfora para o mundo contemporâneo? O zumbi é o mito de terror pós-moderno por excelência. Afinal, nosso mundo de ciência, dominador da natureza, só nos deixa uma alternativa de destruição: a autodestruição. E, tal qual as milhares de ogivas termonucleares nas cabeças fálicas dos mísseis intercontinentais, essa destruição não simboliza nada particular, mas sim a possibilidade material real da completa e irreversível aniquilação. Nós seremos os arautos de nosso apocalipse.

Além disso, o morto ambulante enquanto drama lança um olhar sobre algo que eu chamo de tratamento estatístico da pessoa. A estatística é a ferramenta dos capitalistas e políticos para lidar com as pessoas de forma despersonalizada, aplicando supostas “leis” científicas a sentimentos e vontades. A multidão zumbi e seu comportamento terrivelmente uniforme e desalmado refletem a massa humana e o anonimato que ela traz. Nós, os mocinhos, tentamos fugir dessa onda, preservando nossas humanidade e individualidade.

Uma pessoa num arrastão pode matar outra durante o frenesi coletivo de uma briga de torcidas. Anônimo e desalmado… Quase impessoal, como as “regras” vomitadas todos os dias para a massa. Será que a Copa do Mundo é mesmo tão legal? Será que nunca mesmo devemos nos automedicar? E, em tempo, dar umas palmadas no seu filho birrento? Cuidado com os zumbis!

Cristiano Kusbick Poll


1Na verdade, o primeiro chama-se “Noite dos Mortos-vivos” e é PB. “Amanhecer” ou “Madrugada dos Mortos” tem um ótimo remake de 2004, dirigido por Zack Snyder.

2 No começo do filme há  um tributo a Romero, quando o protagonista vaga por Londres deserta gritando “Hello”, situação de Dia dos Mortos.

 

3 Eu me nego a usar o título brasileiro: “Todo mundo quase morto!”. O original é um trocadilho, usando o nome do protagonista, Shaun, e o título de “Amanhecer dos Mortos” (Dawn).

 

4 Ambos os filmes também traduzem perfeitamente as particularidades da comédia britânica vs americana.

DICA: Pra quem curte gibi, “The Walking Dead”, “Os Mortos-vivos”, série publicada no Brasil pela Editora HQM, é ótimo, vale muito a pena.

 

NOTA: O representante tupiniquim do gênero é “Capital dos Mortos” (2008), de Tiago Belotti, bêzão criativo que se passa em Brasília, e vale a pena prestigiar.

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MARXTRIX

Pega ônibus, carro, metrô, cavalo, trabalha, trabalha, trabalha, volta pra casa, enche a pança, vê novela, deita, transa, sexta bebe, cai, domingo vê Sílvio Santos, acorda, pedala, caminha, corre, corre, trabalha, trabalha, morre. Se você alguma vez sentiu todo o peso do vazio da vidinha consumista contemporânea e só não se desesperou por um apego fisiológico à vida, você não está louco, THE MATRIX HAS YOU!

Sempre digo que as grandes obras são maiores que elas mesmas, que encerram significados que, de tão poderosos, nem seus autores os conhecem por completo. Honestamente duvido que os Wachowski* tinham em mente qualquer coisa próxima das estruturas de dominação de classe propostas por Karl Marx, mas como defensor incorrigível do ser humano espiritual contra o material, não consigo deixar de ver em “Matrix”** (1999) a perfeita alegoria contemporânea sobre a opressão capitalista.

Outrora baseada na religião, a dominação de uma(s) classe(s) sobre outra(s) tornou-se digital, exata, maquínica. E foi a máquina que os humanos criaram, liberta do controle, então com o único propósito de crescer e prevalecer. Sem escrúpulos. Os mecanismos do capital, que em teoria geram riqueza, na real escravizam as pessoas. Terminator.

Além disso, os robôs da trilogia do virtual desenvolveram métodos de controle subjetivo, gerando a ilusão de que os seres humanos podem ser livres. É a dominação de cima a baixo, infra e superestruturas. “O mundo que foi posto diante de seus olhos”, diz Morfeu. A agenda midiática corporativa quer te fazer crer que o mundo está em progresso, que tudo que deve está sendo cuidado, que o trabalho deles é para o bem de todos, passo que na verdade a parada é all the way down, e pior, em grande parte por culpa deles! Coma seu hambúrguer e cale a boca. Tanto na Matrix como aqui, na real carne e metal, não só corpos aprisionados, mas espíritos também. Crescente complexidade em níveis, fractais como elos dos grilhões.

E lembre-se, nós somos o combustível deles, eles comem nossa carne, e nosso próximo pode virar o inimigo. Porque não há neutralidade. Se você não está com a resistência, estimula o sistema, mesmo inconsciente. É uma de suas peças, e pode tornar-se um agente num piscar de led. Nosso trabalho alienado faz o óleo da engrenagem deles, quando não a própria mortalha dos inocentes, e ainda temos a capacidade de voltar sorrindo pra casa. Dever cumprido.

Mas eis o herói! Ele é capaz, ele liberta! Mas costuma morrer e virar símbolo. E das pradarias do Elísio fica torcendo para que sua imagem inspire as massas, essas sim, únicas capazes da verdadeira revolução e liberdade.

Cristiano Kusbick Poll

*Andy e LANA (???) Wachowski. Isso mesmo! Se ficou curioso, escute o ArtsiderCast #1 e mais será revelado.

** Primeiro filme da trilogia idealizada pelos irmãos Wachowski. As outras duas produções que completam a obra-prima da dupla são Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, ambas de 2003.


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