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Devaneios…

Fonte: Literatura em Foco

Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa . . .

Manuel Bandeira

O texto de Bandeira pode ser caracterizado, taxativamente, como literário? Por quê? Afinal, o que define o que é ou não literário? Perguntas difíceis… Para tentar me aproximar não de uma resposta peremptória, o que talvez seja impossível, mas de uma maior clareza de ideias, recorri à produção de alguns pensadores. Por meio de um quebra-cabeça de abonações de intelectuais do gabarito de Umberto Eco, Jacques Leenhardt, Terry Eagleton e José Luís Jobim, acabei me perdendo no labirinto da literatura. Felizmente, de lá não quero sair…

Embarque comigo:

As obras literárias nos convidam à liberdade de interpretação, pois propõem um discurso com muitos planos de leitura e nos colocam diante das ambiguidades e da linguagem da vida”. Só com essas ideias Humberto Eco já enquadraria os versos de Bandeira na seara da literatura.

Segundo Terry Eagleton, na visão dos formalistas o texto seria rotulado como literário por focar na forma, utilizando a linguagem de forma peculiar e explorando o desvio da norma.

Para os formalistas, a literatura é feita de palavra, e a arquitetura da qual Bandeira se vale para construir seu poema levaria a um ruído na comunicação e, consequentemente, ao estranhamento (não um fim para determinarmos o que é ou deixa de ser literário, mas um sintoma da subversão linguística, do afastamento da palavra do lugar-comum).

A literatura transforma e intensifica a linguagem comum, afastando-se sistematicamente da fala cotidiana. Ainda nas palavras de Eagleton, a literatura teria um caráter não-pragmático, conceito que encontra eco na definição de gratuidade (a fruição estética pela fruição estética) de Jacques Leenhardt. Este descarta a ideia da autorreferência da literatura ao sublinhar que não é por si mesma que ela significa, mas sim pelos processos de interpretação variados que colocam em ação múltiplas dimensões do jogo com o real, isto é, com o fictivo – no poema, a interlocução entre a andorinha e um outro personagem caracterizaria essa reflexão.

Avalizados por uma leitura crítica, não podemos perder de foco que o que é ou não literário escorre pelos poros de filtros de valor, que são alicerçados culturalmente – as normas culturais orientam o gosto estético.

José Luís Jobim, em uma de suas reflexões, envereda numa discussão acerca da arte como objeto de consumo. Em nossa sociedade, na qual a arte é também mercadoria e está relacionada a certas finalidades e práticas institucionais, existe um complexo sistema superestrutural – vinculado à infraestrutura econômica – de divulgação, legitimação e negação de gostos. Desse sistema participam, de maneira diversa e em graus diferentes, os críticos, os editores, o sistema educacional, as galerias de arte, as academias, os muses, os censores, entre outros. Bandeira, bem como outros autores, foi canonizado por esse sistema.

Segundo Jobim, a delimitação das fronteiras entre arte e não-arte, ou literário e não-literário, dá-se no interior de sistemas culturais, cujos elementos constituintes estão inter-relacionados, e somente dentro dos sistemas e nos limites de suas articulações podemos entender o papel desses elementos.

Não são apenas as qualidades endógenas de um texto, contrariando o pensamento dos formalistas, que o farão pertencer ou não à literatura, mas é o próprio sistema cultural como um todo que determinará a classificação do texto.

A poesia de Bandeira relaciona desperdício com tristeza na troca entre o pássaro e seu interlocutor. Numa competição de vazio, ou de miséria, a subversão do cronômetro, acostumado a laurear a velocidade nas competitivas sociedades modernas, inverte as posições de vencedor e perdedor. Na ourivesaria das palavras, algo mexe conosco. Algo que não conseguimos expressar. Essa subjetividade fugidia nos dá uma dica. Não existe uma essência da literatura. A literatura é a essência.

Tudo bem, tudo bem… É melhor voltar para o cinema…

 Carlos Eduardo Bacellar

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Exumando a dissensão

O Caderno Prosa & Verso, do jornal O Globo, publicou, neste sábado, artigo indispensável da polivalente (a mulher é tudo: professora, escritora, crítica literária…) pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa Flora Süssekind, que coloca em xeque o exercício da crítica literária.

Flora parte da análise dos necrológicos necrológios do crítico Wilson Martins para desenvolver, com retórica rebuscada e feroz, raciocínio acerca do que entende como “o apequenamento e a perda de conteúdo significativo da discussão crítica, assim como da dimensão social da literatura no país nas últimas décadas”.

Alertando para a pasteurização da crítica literária, que procura homogenizar a arte, livrando sua exegese de possíveis formas de dissensão, ela desvela o lado perverso da função que, atrelada ao poder mercadológico, é forçada a se enquadrar à linha ideológica do padrão econômico dominante – que força o contínuo crescimento do número de exemplares, em descompasso com o alcance da produção, o faturamento das editoras e a capacidade de absorção por parte de consumidores e bibliotecas. Em decorrência disso, temos o esvaziamento do espaço de discussão, deturpado pela eugenia macabra das letras.

Transcrevo algumas palavras de Flora:

“Qual o interesse de um comentário crítico quando se pode obter muito mais visibilidade para escritores e lançamentos por meio de entrevistas, notas em colunas sociais e participações em eventos de todo tipo? Fabricam-se nomes e títulos vendáveis, vende-se, sobretudo o nome das editoras, e sua capacidade de descobrir “novos talentos” semestralmente, ao sabor das feiras literárias. E, nesse sentido, formas dissentâneas de percepção, como a crítica, se mostram particularmente incômodas. Formas personalistas e estabilizadoras, ao contrário, se esvaziadas, parecem continuar benvindas. Se adotado o perfil do colunista que “sabe ficar no seu lugar”, que funciona, com voz opiniática, e sem maiores tensões, como moldura quase invisível, inconsequente, para o que o mercado editorial ou o próprio veículo quiser referendar. Se desse lugar sem qualquer ressonância não houver condições reais de intervenção, formulação de questões relevantes e expansão do mínimo espaço público talvez ainda disponível para um exercício crítico que não se confunda inteiramente com busca de prestígio ou com um guia de consumo”.

No fim das contas, para a engrenagem do sistema capitalista girar, a magia de Harry Potter deve ser mais forte que a do Bruxo do Cosme Velho – fato que transcende o mero ato de escrever sobre. E fazendo analogia com a política, no que diz respeito à demanda: ninguém mais se interessa por debates ideológicos. No exercício de comparação, ganha o “produto” com a melhor roupagem.

A professora destacou extratos de alguns necrológicos necrológios escritos por conta da morte do célebre crítico, em janeiro último. E sobram caracteres afiados para todo mundo. As brigas entre profissionais para ver quem possui o maior membro – “Pois não há lugar para cordialidade alguma num campo cuja retração e desimportância amesquinham e tornam ainda mais cruenta a disputa por posições, pelos mínimos sinais de prestígio e por quaisquer possibilidades de autorreferendo. Daí a truculência preventiva, propositadamente categórica, emocionalizada, nada especulativa”; a inércia de pessoas que poderiam elevar a voz e apontar na direção contrária, mas se omitem por falta de colhão; a política de mercado, mais preocupada com teorias econômicas que com teorias sociais; nem o Wilson Martins (que Deus o tenha) escapou, sendo tachado de bibliotecário-arquivista de luxo, e não visto como uma figura com experiência analítica invejável. Como não poderia deixar de ser diferente, a isenção de seus textos para veículos de comunicação também foi questionada.

E o motivo de toda verborragia? O cinema, (quase) sempre ele. Aproveito o gancho para salientar o dever da crítica cinematográfica. Sei que é assunto polêmico, repleto de zonas cinza, mas profissionais que se pretendem sérios devem flanar acima de ditames mercadológicos e idiossincrasias enviesadas (olha só quem fala…). O deslumbramento deve ser comedido e técnico. Sei que as tentações são muitas, e é fácil escorregar na casca de banana que achamos ser alguma barra de chocolate.

Flora, gosto de mulheres como a senhora. Impetuosas, corajosas e que não contemporizam. Acredito que este verbo precisa ser deixado um pouco de lado pela crítica. Transigir é preciso. Se não há dissensão, não há arte. Viva a divergência! Precisamos de mais especialistas que falem para somente 3 pessoas, mas que sejam ouvidos e, com seu conhecimento, possibilitem o desenvolvimento do espírito crítico. A senhora iluminou o meu sábado com suas palavras.

O Exocet completo vocês podem conferir no blog do Prosa: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2010/04/24/a-critica-como-papel-de-bala-286122.asp

Carlos Eduardo “a voz que não se cala” Bacellar

p.s. Eu sabia que meu encontro fortuito com o Miguel Conde, num sebo (local bem sugestivo) da Zona Sul, era o prenúncio de que algo estava por vir. Espero que ele tenha gostado do filme “Mother” tanto quanto eu. Ah, sim, Miguel… Nunca me esqueci do “Cachorro do Vampiro de Cabul”. Você precisa exercitar com mais freqüência esse seu lado galhofeiro, meu garoto. Essa sua cara séria não me convence 😉

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