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Vigiar e punir

TheHunt

Estivemos a ponto de execrar Thomas Vinterberg, compelidos a um debate sobre “A Caça” que acabávamos de ver. Sentíamo-nos vítimas de um embuste: ele, o diretor, nos falhara. Ao final, tão ansiosamente aguardado, não nos deu a resposta, embaralhou as cartas cuidadosamente perfiladas! A nós, espectadores desarmados, captados à tela com competência, isso era praticamente um abuso sexual — o que supostamente sofre a menina Klara (Annika Wedderkopp, incrível) no filme — e nossa revolta era parelha ao olhar da vitima/herói Lucas (Mads Mikkelsen, magnânimo). Rendidos à obra, trazíamos ele e ela pela escada rolante. O filme se tornara uma questão pessoal.

Merda… Por que nos deixou sem conhecer o culpado entre os possíveis, mesmo um fulano improvável, o pedófilo da vez? Por que nos abandonou sem saber se Klara foi ou não “tocada”? Chegamos a pontificar que indicar um culpado era um dever do roteiro ou uma questão de justiça com a vítima. Ou melhor, vítimas, ele, ela e nós. Desejávamos urgente esclarecimento ou a salvação. O insolente Thomas nos subtraíra a solução, com um corte abrupto no script, uma inflexão em tela preta, bem no clímax.

Era um sinal. Após o tal corte, o filme nos introduz numa festa de aldeia (Nota: Vinterberg ingressou na galeria de Cannes com “Festa de Família” – “The Celebration”, no original, filme indicado à Palma de Ouro em 1998 e que saiu do balneário francês com o Prêmio do Júri, empatado com “Class Trip”, de Claude Miller; ironicamente Vinterberg não teve seu nome creditado como diretor em “Festa…” — devido a uma da regras do voto de castidade do Dogma 95), onde os algozes e as vítimas confraternizam-se conciliados. Como se não houvesse o passado ou como se a solução fosse dada, celebra-se a passagem de rapazes aprendizes ao time de maduros caçadores, em que a entrega do rifle é símbolo do sacramento. Não bastando, o laureado da noite vem a ser o filho de Lucas, o suposto pedófilo. Olho de trás para frente e mudo a perspectiva: “A Caça” é, sobretudo, o drama de uma comunidade refém de si mesma, do cotidiano, de sua incapacidade de mudar, de transcender, fadada à repetição, cujo horizonte é apenas um bosque para caça.

No entanto, Vinterberg não se mostra um fatalista do azar civilizatório Diferentemente de Lars von Trier, seu parceiro de fundação do movimento Dogma 95, é a sua inquietação que nos mobiliza e persiste. O filme estimula percepções à revelia da própria narrativa, sem pista nem digitais, intencionalmente obstruídas. Por outro lado, o roteiro sustenta o suspense como um exemplar hitchcockiano. Planta outros suspeitos, um aqui, outro lá, na malícia, no detalhe. Provoca até a participação da plateia, que não contém palpites nem reações, como se fosse um teatro. Lucas, o suspeito número 1 da aberração, desde sempre é, para nós, o terno substituto dos pais para a imaginativa Klara, carente de afeto. Se para a comunidade a relação entre os dois é a base da acusação, para nós, ela vem da força da fantasia, hipótese esta incogitável no código da aldeia. Trava-se então uma curiosa batalha entre personagens e audiência, entre filme e “realidade”, onde se inverte o lugar da culpa e o padrão do script policial. Arrebatadora como cinema.

Agora, voltando à intriga da saída, por que precisamos vigiar e punir (!) um culpado?

Claudia Furiati

Trailer_”A caça”

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Cola para Lincoln

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Neste mundo atribulado, em que o trabalho nunca nos deixa e onde o Twitter, termômetro midiático, dá a reação aos últimos acontecimentos (não raro enquanto eles ainda se desenrolam) antes mesmo de a notícia “institucionalizada” chegar, queremos tudo bem resumido, bem mastigado. Queremos a cola da prova que vai nos dizer como vai ser o dia de amanhã. E nessa correria toda, pouco tempo sobra para pensar no passado.

Que relevância tem então um filme sobre um presidente americano, morto faz 147 anos? Um filme que, ao contrário de um “Apocalypse Now” (Francis Ford Coppola, 1979) ou “Platoon” (Oliver Stone, 1986), foca nos mínimos detalhes de uma batalha legislativa e não nos campos de batalha de verdade, da Guerra Civil Americana (1861-1865)? Um filme que ao contrário de “E O Vento Levou” (dirigido por Victor Fleming juntamente com mais dois realizadores não creditados, George Cukor e Sam Wood, 1939), não nos dá um romance arrebatador no centro da trama, mas apenas alguns relances de um amor muito mais complicado?

Em um análise de crítico de cinema, o “Lincoln” de Steven Spielberg parece se encaixar em uma leva de filmes de uma Hollywood que parece estar amadurecendo e trazendo uma visão de mundo menos ingênua também. Desde o “The Hurt Locker” (2008) e o “Zero Dark Thirty” – a hora mais escura para Osama bin Laden, ainda por estrear no Brasil –, da Kathryn Bigelow, passando pelo “Argo” (2012), do Ben Affleck, e talvez até incluindo o “Avatar” (2009), de James Cameron, um sociólogo poderia dizer que são expressões do povo americano digerindo e tentando entender as guerras desta virada de século. Tentando achar um tempinho pra refletir sobre o passado e tirar lições para o futuro, descontadas as distorções e os exageros ufanistas.

Que lições traz o “Lincoln” de Spielberg e o Lincoln de verdade pra nós brasileiros? Desculpe, mas aqui você não vai achar a cola. Seria simples dizer que esse talvez seja o melhor filme do Spielberg desde “Minority Report” (2002), “O resgate do soldado Ryan” (1998) ou a “A Lista de Schindler” (1993) – aquele que for seu preferido. E há argumentos para afirmar isso. E seria simples dizer que o Lincoln de verdade é ídolo de personalidades tão distintas quanto Marx e Trotsky, Walt Whitman e Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Jawaharlal Nehru, George W. Bush e Barack Obama. Tudo verdade.

Mas o que mais importa é dizer: Vai lá, do teu jeito, vale a pena conhecer o Lincoln. Não vai ser fácil, não vai ser tudo mastigadinho não. Mas eu aposto que você vai achar um amigo que, do passado, no presente e para o futuro tem muito a nos dizer.

Para saber mais sobre Abraham Lincoln

Livros:

Team of Rivals, biografia de Lincoln de Doris Kearns Goodwin, livro que inspirou o filme – traz muito mais detalhes da vida pessoal, da política e da equipe política de brilhantes, mas contenciosos rivais, que Lincoln criou e gerenciou durante seu governo.

A versão em português da biografia de Lincoln é uma versão resumida do livro original. Acaba de chegar às livrarias pela Record. Segundo a Folha, as 944 páginas da edição em inglês, no trabalho de edição, passaram para 320. A editora diz que a versão foi feita pela autora.

Battle Cry of Freedom, do historiador James McPherson é um clássico e até hoje serve como padrão, o melhor livro que em um volume resume a Guerra Civil Americana e a influência do Lincoln.

Lincoln’s Sword, de Douglas Wilson, foca no poder das palavras do ex-presidente, mais eficientes que a “espada” do título do livro.

Lincoln, de Herbert Donald Howard, é a outra biografia clássica de Lincoln.

The Lincolns: Portrait of a Marriage, de Daniel Mark Epstein, foca na vida pessoal de Lincoln e, particularmente, na sua conturbada relação com a esposa Mary, que alguns hoje diriam ser bipolar; e corrupta, desviando dinheiro dos jardineiros da Casa Branca para pagar por suas extravagantes compras em Nova Iorque e Filadélfia (Philadelphia para os conservadores). Por outro lado, o amor de Mary e do presidente Lincoln por seus filhos também fica muito claro.

Finalmente, se você gostou de alguns dos coadjuvantes do filme, vale a pena investigar a vida de verdade deles. Aqui algumas sugestões: Seward, Lincoln’s Indispensable Man, de Walter Stahr; Giants, the Parallel Lives of Frederick Douglass and Abraham Lincoln, de John Stauffer; The Man Who Saved the Union, Ulysses Grant in War and Peace, de H. W. Brands.

Filmes:

O filme “Young Mr. Lincoln” (1939) é outro clássico do cinema, de um jovem diretor John Ford e com Henry Fonda no papel principal. Infelizmente, ele geralmente é esquecido por ter sido lançado em 1939, “Ano de Ouro” de Hollywood. Foi obrigado a disputar atenção com clássicos de ainda maior impacto, como “Gone with the wind”, “Mr. Smith Goes to Washington” (Frank Capra), “The Wizard of Oz” (de Victor Fleming em codireção com os apócrifos George Cukor, Mervyn LeRoy, Norman Taurog e King Vidor), “Stagecoach” (do próprio John Ford), “Wuthering Heights” (William Wyler), “Goodbye Mr. Chips” (Sam Wood e o negligenciado Sidney Franklin), “Ninotchka” (Ernst Lubitsch) e “Of Mice and Men” (Lewis Milestone).

Abe Lincoln in Illinois” (John Cromwell, 1940) consolidou a imagem do Lincoln para a geração que lutou a Segunda Guerra Mundial. Depois disso, o presidente demorou a voltar às telonas. Gore Vidal escreveu uma peça sobre Lincoln que acabou virando uma minissérie de TV em 1988, com Sam Waterston e Mary Tyler Moore nos papéis principais. Finalmente, Robert Redford, em 2010, dirigiu “The Conspirator”, sobre um dos possíveis envolvidos no assassinato do ex-presidente.

Viagens:

Em Washington, D. C., não deixe de visitar o Lincoln Memorial, monumento em homenagem ao ex-presidente, com sua famosa estátua sentada em uma poltrona e seus dizeres em volta; e o recentemente reformado Ford Theatre, hoje museu, onde o presidente foi assassinado.

E a três horas de carro de Chicago ou duas horas de St. Louis, vale a pena conhecer a até hoje ainda pacata Springfield, Illinois, capital do estado onde Lincoln viveu grande parte de sua vida, fez carreira de advogado, se casou, teve filhos e ingressou na política. A casa onde o Lincoln morava faz parte de um bairro histórico bem preservado e a Abraham Lincoln Presidential Library não só é uma biblioteca, mas, sim, um museu muito bem bolado, com algumas exibições no patamar de Disney.

Spencer Finch — Correspondente do @doidoscine na Filadélfia, pai do Lucas, leitor voraz, amante de cinema e primo de @cebacellar

Trailer_”Lincoln”

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2 pernas, 3 gols

de pernas para o ar 2

 

O bonequinho arria na poltrona. Desmaia ou dorme, quem arrisca? Similares seus nacionais olham de binóculo ou censuram. E qual é o problema? Nenhum. O público goza (!) com frações bem pensantes incluídas. Este, o plot de uma série sadomazô, intitulada (provisoriamente) “Cinema Brasileiro”, em versão secular.

Mas vai que é um tesão mal resolvido entre Crítica e Comédia ou o prazer do paradoxo, tudo bem. O fato é que o capítulo atual da série acima – “De pernas pro ar 2” – é de tirar qualquer chato esteta do cochilo, uma aguinha de coco bem gelada nesse verão infernal. É tudo de bom.

O argumento é o primeiro gol. O que poderia acontecer com aquela mulher (Ingrid Guimarães), após descobrir o prazer e o seu caminho nos brinquedos de prazer? Vicia-se no trabalho e desmaia! Do “estresse” ao “desestresse”, a narrativa do 2, a mulher se reinventa em seus brinquedos, do Brasil para o mundo.

O filme, como obra, é primoroso (segundo gol). Destaco o som e a trilha (impecáveis) e a mudança na direção de arte (o tratamento fake da primeira versão sumiu, sem deixar saudades). Sobre o elenco, os atores do 1 encontraram o melhor tempero aos seus papéis (Bruno Garcia e Maria Paula) e os novos coadjuvantes vão no tom certo.

Sendo “repeteco” ou missão, é quase sempre desafio fazer um 2 melhor que o 1 – ao menos, na indústria de cinema. Ocorre-me, a exemplo, não ser o caso de “O poderoso chefão”, nem de “Se eu fosse você”. Mas, em Pernas, é no 2 que a química pinta plena. Cogito de um tête-a-tête assertivo entre a produtora (Mariza Leão, uma amiga de verdade) e o distribuidor (Bruno Wainer), a apurar o produto. Terceiro gol.

No mais, abra as pernas e morra de rir.

Claudia Furiati

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Juan Ernesto, Perón e Che

Infancia-Clandestina

A mentalidade indica: guerrilheiro é terrorista e este é fanático e/ou assassino. Recriados como gente íntegra, amantes e missionários de uma causa, é, certamente, doutrina ou retórica. Mas que nada, outro olhar é possível. “Infância Clandestina” dissolve o estereótipo em plenos “anos de chumbo” – o que é, no mínimo, uma prova de coragem.

Aos primeiros instantes, cenas nervosas, picotadas. Paramilitares tiroteiam o casal, enquanto se conclui na tela, em breves legendas, a precisa contextualização, fundamental à estrutura da obra. O espectador é informado que a direita militar (antiperonista) dá o golpe culminante em 1976 (em conjuntura diversa à brasileira, embora no marco da nova projeção dos Estados Unidos para o continente), após um período de intensa perseguição a militantes. Não é à toa que o produtor do filme é Luis Puenzo, diretor de “A história oficial” (1985, Oscar de melhor filme estrangeiro)…

Ela, a História, se destrincha através das pessoas, num microcosmo vivo e profundo. Ao final – e que final! –, a comoção prende ao escuro da sala, à reviravolta na mente. E viva o cinema argentino.

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O filme é um menino. É sobre ele, Juan/Ernesto (Teo Gutiérrez Romero), sua pele, beleza, poros e respiração. O som, editado com primor, frisa o compasso do ar que lhe entra e sai. A câmera perscruta obsessiva a sua cútis, vai às entranhas, persiste em closes. Ao se posicionar no esconderijo, na casa, é a imersão na alma. O ator é uma dádiva, sim, que se escora na apurada interpretação de César Troncoso e Natalia Oreiro (o casal militante, pais do menino), com o plus extraordinário de Ernesto Alterio (Beto, o tio). Eles se tornam críveis, loucos e sãos, com uma “ideologia prá viver”… Já Cristina Banegas, intérprete da avó do menino (Amália), pontua o antagonismo ao sentimento e razões dos guerrilheiros, situado com inteligência pelo diretor Benjamín Ávila.

Este põe a cara a tapas, libera e compartilha o seu segredo. Também autor do roteiro (com o brasileiro Marcelo Müller), escancara o paradoxo da luta armada na vida do menino, ele mesmo um paradoxo (nascido Juan, clandestino Ernesto), ele mesmo Benjamín. No entanto, Ernesto tem consciência de Juan e este de Ernesto, com seus limites e possibilidades, sugerindo domínio sobre o conflito, efeito da vivência no mundo adulto. É alguém que sonha e se aceita, rebela-se e revela amor por Maria, uma colega de escola. “Eu sou o que eu sou, mas sou diferente, entende?”, é o que lhe diz em momento de entrega. Tal lucidez se manifesta, em ápice, na cena final.

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Lacunas da narrativa são preenchidas por animações, a coincidir com as emoções infantis. Assim se conta duas mortes, do tio e do pai. Há visões em câmera lenta, correspondentes às sensações ou à memória afetiva, como a frase “Aconteça o que acontecer, nunca se traia” e a iniciação para degustar amendoim com chocolate com o tio Beto.

Em “Infância Clandestina”, vida é sinônimo de entrega em que transitam opostos complementares. Horacio é disciplina, Beto a sensualidade, a natureza do menino Juan/Ernesto é a referência poética a Juan Peron e Ernesto (Che) Guevara.

Claudia Furiati

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Um olhar enviesado

By Kiarostami não se recomenda paixão no Japão. Seu “Um alguém apaixonado” é um rumo ao nada numa urbis claustrofóbica. Contexto totalitário: o célebre iraniano trapaceia com o espectador, que resta à deriva sobre a narrativa, pinçando sentidos para personagens e ações.

Muna-se de nervos de aço para acompanhar o filme. É um noite/dia/tarde de respiração presa na glote, entre lapsos entre pensamento e ação, lentas lacunas de desejo ou ato, à medida oriental. A obra persegue a verossimilhança do “tempo real” (intencional?) que resulta em ritmo aflito que resiste ao CORTA! Menos mal que se desfruta, em trilha, o balanço de Slowtrane, de John Coltrane…

A desorientação nos é imposta de início. A conversa que se escuta não é bem a que se vê ou será que é? Bar apertado, ruídos opressivos, ofuscam, atordoam. Adiante, uma narrativa entre cubículos, sem espaço sequer para abrir portas. Nos carros, entretanto, tudo parece caber confortável. Fortuitas conversas compõem o xadrez da dúvida e, em nossa alma, o incômodo. Perdoai-vos: eles, personagens, não sabem o que querem (exceto “um alguém apaixonado”). Ou será que podem saber?

Kiarostami nos lança a Tóquio de olhos enviesados. Akiko (Rin Takanashi) é a jovem no bar, supostamente garota de programa, a quem um homem insiste que vá ver um conhecido. Reluta Akiko, mas sem certeza, pois precisaria encontrar sua avó. Talvez. Ela namora, também sem convicção, um jovem mecânico – o “alguém apaixonado” – que desconhece seu ofício. Fechada em um táxi, segue, sem saber, rumo ao tal “conhecido”, atravessada por rastros de infinitos néons. O homem é um velho senhor, que vive em diminuto apartamento. Akiko se deita em sua cama, mas ele tampouco parece interessado no serviço. Dia seguinte, entre portas e vidros de carros, o destino planta a peça – que falta – e revela ao apaixonado o engano.

A vida empurra a todos, a rodo. O velho é levado a uma encenação sem volta, move-se como alucinado a proteger a moça, com um ritmo cardíaco de dar nó e dó, até que… (!) Quase o harakiri, onde o que resta é o dom Kiarostami de iludir.

Claudia Furiati

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Em qual grupo você está?

À noite, um casal ocupa uma mesa em um restaurante. À meia luz e com som ambiente, cada um saboreia seu prato e taça de vinho. Observam mais o alimento do que o companheiro à sua frente. Enquanto uma mão segura o talher ou a taça, a outra segue displicentemente sobre a mesa. Eles nunca se tocam; eventualmente trocam um sorriso ou um aceno com a cabeça, indicando aprovação à comida.

Se você não vive essa situação diariamente, certamente já observou um casal assim algum dia. Uns tratam isso como intimidade; outros entendem que falta paixão.

Ao primeiro grupo pertence o autor de livros de culinária Lou, personagem de Seth Rogen em “Entre o Amor e a Paixão” (2011), em cartaz na 36a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para ele, o silêncio é uma consequência natural do relacionamento diário. Na segunda e incomodada turma está a aspirante a escritora Margot, a heroína vivida por Michelle “Marilyn Monroe” Williams no romance da atriz e diretora canadense Sarah Polley, autora de “Longe dela” (2006), em que Julie Christie interpreta uma mulher cuja memória é deletada pelo Alzheimer, testando a resiliência do amor do marido Grant, encarnado por Gordon Pinsent. A produção, adaptação para as telas do conto The Bear Came Over the Mountain, de Alice Munro, conterrânea literária de Polley, publicado originalmente no livro Hateship, Friendship, Courtship, Loveship, Marriage (editado pela primeira vez nos Estados Unidos em 2001 por Alfred A. Knopf, divisão da Random House), foi indicada a dois Oscar: melhor atriz e melhor roteiro adaptado.

Mundo pequeno

O filme acompanha a agonia vivida por Magot ao conhecer, durante uma viagem a trabalho, o artista Daniel, que ganha seus trocados como puxador de riquixá  interpretado por Luke Kirby. Por ironia do destino (e de Polley, que também assina o roteiro), o desconhecido é também o novo vizinho do casal.

Assim, o tormento de Margot se desenrola: de um lado, o marido, a quem define como a pessoa mais doce do mundo e com quem vive uma relação, por vezes, infantil e irritante; de outro, o interessante desconhecido. Embora dê a ela o espaço necessário, Daniel está sempre presente – em uma das cenas tem o seu momento Cinquenta tons de cinza ao detalhar o que faria com Margot caso tivesse a oportunidade.

Apimentada é também a cena que remete ao título original do filme, “Take This Waltz”. Polley não só pegou emprestado o nome da música do canadense Leonard Cohen, como também reservou alguns minutos para a canção, que, por sua vez, foi inspirada no poema Pequeño vals vienés, de Federico García Lorca.

Drama ou comédia?

Embora o pôster nacional defina o filme como uma “comédia romântica ácida e engraçada”, o longa apresenta sua parcela de drama. E, acredite se quiser, quinhão que cabe à comediante Sarah Silverman, que surpreende como Geraldine, irmã alcoólatra de Lou. As tiradas afiadas da esposa de Jimmy Kimmel não entram em conflito com a sensibilidade da personagem para perceber o que acontece ao redor e viver o próprio drama. Como a própria Geraldine diz: “Life has a gap in it, it just does. You don’t go crazy trying to fill it” (“A vida tem um vazio, simplesmente tem. Você não sai feito louca tentando preenchê-lo). E é nessa mistura de drama, romance e erotismo que se encontra o mérito de Sarah Polley.

A fotografia, assinada por Luc Montpellier (com quem a diretora trabalhou em “Longe dela”), que abusa (e acerta!) nas cores e luzes, e a trilha dão um delicioso tom de verão a “Entre o Amor e A Paixão” – convergência estética entre “Sob o sol da Toscana” (Audrey Wells, 2003) e “Para Roma, com amor” (Woody Allen, 2012) filmada em solo canadense. Polley só peca na narrativa, que se estende além do necessário. No final, seu filme não é uma obra-prima, mas pode ser uma boa diversão e, quem sabe, servir como terapia para alguns casais.

Tatiane Lima é autora do blog @osindicados, espaço dedicado ao cinema, e correspondente do Doidos na 36a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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ULTIMATEMAN

Nosso colaborador bissexto de Curitiba resolveu dar sinal de vida e propôs uma reflexão tardia acerca de “The Dark Knight Rises”, longa que encerra a trilogia do homem-morcego de Christopher Nolan. Como o editor é um cara legal e aqui pode tudo, menos mulher feia – o padrão de qualidade do Doidos flutua entre Anne Hathaway e Eva Green –, o blog publica. Que venham outros textos do Cris!

Fonte: deviantart

Quem, no Brasil de hoje, não quer ver policiais encontrando amarrado um Cachoeira, a seus pés provas documentais de mil e um crimes? Mas quem teria capacidade e vontade pra realizar isso? Espionar, interrogar, espancar capangas em uma invasão clandestina atrás de pistas, abdicando da própria segurança, agindo à margem da lei em nome do interesse de uma entidade abstrata como o Povo ou a Justiça? Eu? Você? Qualquer um de nós? Nós, quem?

A figura do vigilante é um fantasma, por vezes esperado, nas sociedades onde existe um Estado teoricamente responsável por administrar a prática da Justiça. Seria um indivíduo que age clandestinamente, ignorando as amarras da Lei, perpetrando a justiça do deus-povo, quando a dos homens tropeçou na própria toga. Envolto em escuridão, amedrontador – mas carregando uma luz – assim é o Batman da trilogia de Christopher Nolan, encerrada com “The Dark Knight Rises”.

O FILME

Fonte:deviantart

Será que alguém não conhece a história do homem-morcego clássico? Ele foi criado em 1938 (OU 39) por um tal Bob Kane e era uma colagem de várias ideias já presentes nos pulps em quadrinhos noir da época. Ou você deve ter pensado que eu ia dizer: Batman é o menino que testemunha o assassinato dos pais em um assalto. Ao crescer, viaja pelo mundo por vários anos e prepara-se, mental e fisicamente, para ter os meios de realizar seu objetivo: uma vingança sublimada, que Bruce Wayne leva a cabo disfarçando-se de uma figura meio morcego, combatendo o crime em sua cidade, como tantas outras, mergulhada em corrupção e violência.

E é uma cruzada que Batman (ou melhor, Nolan) traz de forma tecnicamente impecável, em cenas poderosas sustentadas por um elenco de grosso calibre em todos os filmes. As sequências de ação carregadas de adrenalina juvenil evocam o espírito quadrinesco original do personagem. Mesmo assim, a proposta do diretor para o homem-morcego era mais realista, e ele conseguiu construir sua narrativa mantendo a maioria dos elementos clássicos da HQ.

A história das histórias em quadrinhos é coalhada de releituras e recomeços, destinados a apresentar um mesmo conjunto de ideias a sucessivas gerações de leitores. Os irmãos Nolan – Jonathan Nolan também assina o roteiro – foram muito felizes ao preservar certos aspectos que apareceram em décadas de publicação, entre personagens e eventos, e rearranjar outros, tanto representando as contradições do combate ao crime, como garantindo unidade ao longo da trilogia, com trama substancial e clímax em cada filme. E aqui é obrigatório mencionar o Coringa de Heath Ledger.

Não vou entrar na polêmica se a estrutura de “The Dark Knight Rises” ficou muito parecida com “A Origem” (2010), filme anterior dos Nolan. Todo diretor tem seu estilo, ao passo que qualquer filme de aventura urbana precisa ter mistério e revelações surpreendentes. Mais interessante é compararmos às outras versões cinematográficas. As duas primeiras, do início dos anos 90, foram dirigidas por Tim Burton, e seu estilo gótico circense deu o tom de toda a franquia, nas sequências dos anos seguintes. Mesmo quem gosta dos dois do Burton detesta o resto – apesar de o pai do cinema obscuro ter produzido “Batman eternamente” (1995), considerado por muitos um terceiro Burton da franquia, dirigido por Joel Schumacher. O último, com Arnold Schwarzenegger, ex-governador da Califórnia, fazendo o Homem de Gelo, estava tão perdido que virou um Batgay.

Nolan imprime o tom realista que tomou conta dos filmes de heróis de quadrinhos nos últimos anos (vide o recente “Os Vingadores”, dirigido por Joss Whedon). Não só os apetrechos tecnológicos, a roupa, o batmóvel, etc., ganham “explicações” críveis, mas principalmente a motivação de Bruce Wayne – e dos outros personagens. Afinal, ele é um de nós, quer dizer, não tem poderes como o Hulk, Thor e cia., sua luta é uma parte de sua personalidade, em vez de algo que se apresenta em sua vida, e essa é a parte mais sedutora da história. Ao contrário de Burton, que nos apresenta um Batman já feito e na ativa, Nolan nos convida a mergulhar na cabeça de Bruce Wayne e descobrir donde Batman saiu.

O MITO

Fonte: deviantart

Em qualquer lugar onde a impunidade é uma possibilidade talvez exista o desejo de fazer justiça com as próprias mãos. Assim, parece-me que a figura do vigilante é indissociável do nosso modelo de sociedade e de direito. Diria até que nós, no Brasil, nos contentaríamos com o Justiceiro, herói da Marvel que mata os criminosos. Seu nome tupiniquim, aliás, não é uma tradução fiel do original, “Punisher”, que é punidor; ou seja, mais pra um instrumento de pura vingança do que a altivez que a palavra “justiça” sugere. Mas o que move Bruce Wayne é desejo de vingança?

O vigilante, no fundo, é só mais um forte. A vida em sociedade, regida pela lei, é construída pelo diálogo, não pela força. Viver num mundo em que a justiça é imposta pelos fortes é tão ruim como viver num mundo dominado pelos fortes, tão-somente. O bairro que queremos, a cidade, estado, país depende do ideal da justiça alicerçada na lei, e quando essa chama está enfraquecida, é preciso uma luz na escuridão. Foi isso que o órfão Bruce Wayne buscou ser como Batman.

A trilogia nos contou a história de um exemplo reestruturante, que, mesmo por caminhos tortuosos, efetivamente levou os gothenses a recuperar a fé e combater o crime, eles mesmos, restaurando o ideal de lei e justiça. Bruce Wayne atinge seu objetivo, que era o de alçar o Batman a símbolo desse ideal; como lenda, superar as limitações de carne-e-osso. E aí vem uma tirada genial dos Nolan, inédita nos quadrinhos.

As HQs, todo editor sonha, são publicadas Ad infinitum, então nunca se pensou em aposentar um herói. Os Nolan, porém, dentro de sua proposta realista, o fazem: e precisamente o difícil de alguns personagens é acreditar que o cara gosta de ficar batendo em bandido até a velhice. Assim, aposentam Bruce Wayne, que, como qualquer ser humano, deseja viver em paz, mas fazem Batman perdurar, justificando o ideal que representa. Nolan devolve o orgulho perdido desde Clooney e Schwarzenegger, deixando os fãs à vontade para, uma vez mais, repetir: Batman é foda.

Cristiano Kusbick Poll

Fonte: deviantart

 

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