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Melhores e piores de 2015

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Fonte: deviantART (by JoniGodoy)

Melhores de 2015

Minha lista com os 10 melhores filmes exibidos (em sentido amplo, já que as fronteiras do “circuito comercial” foram expandidas pelas possibilidades da internet) no Brasil em 2015. Sei que posso ser considerado parcial, mascarado ou simplesmente lunático, mas acredito que minha lista é a melhor de todas. Já considero o evento anual uma curadoria para o enriquecimento cultural da humanidade:

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010).

Um vez que as auditorias independentes de IMDb, Variety e Indiewire não permitiram que um único filme figurasse na lista dos 10 melhores no blog, tive de ser condescendente e montar uma segunda – motivo do atraso da postagem. Aí vai:

“Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância)” (Alejandro González Iñárritu, 2014)

“Casa Grande” (Fellipe Barbosa, 2014);

“O cidadão do ano” (Hans Petter Moland, 2014);

“Dois dias, uma noite” (Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2014);

“Mad Max: Estrada da Fúria” (George Miller, 2015);

Considerações: Tarantino não pode estar errado.

“Mapas para as estrelas” (David Cronenberg, 2014);

“Que horas ela volta?” (Anna Muylaert, 2015);

“Star Wars: o despertar da força” (J. J. Abrams, 2015);

“Whiplash” (Damien Chazelle, 2014);

“Winter Sleep” (Nuri Bilge Ceylan, 2014).

Se a edição permitisse uma lista estendida… Peraí! Ela permite! Não há restrições aqui. Segue a projeção:

“O ano mais violento” (J.C. Chandor, 2014);

“Beast of No Nation” (Cary Joji Fukunaga, 2015);

“Cássia Eller” (Paulo Henrique Fontenelle, 2015);

“Chatô, o rei do Brasil” (Guilherme Fontes, 2015);

“Enquanto somos jovens” (Noah Baumbach, 2015);

“Ex Machina” (Alex Garland, 2015);

“Homem-Formiga” (Peyton Reed, 2015);

“Mistress America” (Noah Baumbach, 2015);

“Sicário” (Denis Villeneuve, 2015);

“Velozes e furiosos 7” (James Wan, 2015).

Piores de 2015

O Grito_C3PO

“50 tons de cinza” (Sam Taylor-Johnson, 2015);

“Adeus à linguagem” (Jean-Luc Godard, 2014);

Considerações: não vou eleger um filme do Godard pelo simples fato de ser um filme do Godard. Não embarquei na viagem filosófica lisérgica acerca do mundo cão num caleidoscópio imagético proposta pelo diretor. O filme estabelece um oxímoro: deveria haver limites para o experimentalismo.

“A entrevista” (Evan Goldberg e Seth Rogen, 2015);

“Insurgente” (Robert Schwentke, 2015);

“Jogos Vorazes: a esperança – parte 2” (Francis Lawrence, 2015);

“Love” (Gaspar Noé, 2015);

Considerações: fico com as produções da Brasileirinhas.

“Maze Runner – Prova de Fogo” (Wes Ball, 2015);

“Uma noite no museu 3: o segredo da tumba” (Shawn Levy, 2014);

“Quarteto Fantástico” (Josh Trank, 2015);

“Tomorrowland” (Brad Bird, 2015).

Que a força esteja com todos em 2016!

Carlos Eduardo Bacellar

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Esconjurado

Twixt”, thriller sobrenatural do diretor Francis Ford Coppola, é um despacho estético que em vez de afastar a má sorte, espanta os espectadores. Aquele frio na espinha característico dos filmes de suspense é substituído por um formigamento na perna, indicando que é hora de fazer o sangue circular se levantando da poltrona e correndo para fora da sala escura.

Coppola, com saudade de seu flerte com as forças ocultas em “Drácula” (1992), resolveu, neste trabalho, misturar numa tigela de barro elementos de “O sexto sentido” (M. Night Shyamalan, 1999), “Deixa ela entrar” (peço que o perdoem, Tomas Alfredson e John Ajvide Lindqvist), “O chamado” (Gore Verbinski, 2002), “O massacre da serra elétrica” (Marcus Nispel, 2003), “O grito” (Takashi Shimizu, 2004), “Silent Hill” (Christophe Gans, 2006), “O orfanato” (Juan Antonio Bayona, 2007) e obras de Edgar Allan Poe (1809-1849) – como os contos Berenice e Gato Preto e o poema O Corvo – num roteiro assustadoramente mal elaborado que ele deve ter escrito sob o efeito da cachaça, numa sessão espírita – possivelmente motivada pela falta de inspiração do realizador, tinha como objetivo colocá-lo em contato com autores que já passaram desta para melhor.

Ele teria ideias melhores à disposição se tivesse feito laboratório nas mostras de dois mestres do terror homenageados pelo Festival do Rio: Dario Argento e John Carpenter, contemplados com retrospectivas em 2011 e 2012 respectivamente.

Coppola resolveu ornamentar seu infortúnio com o apelo do fantástico para criar “Twixt” – palavra que denomina um jogo de tabuleiro cuja estratégia é criar caminhos e conexões, ligando as bordas por meio de peças coloridas. Com pedaços de referências em decomposição, arriscou-se a brincar de Deus e criar seu Frankestein.

Val Kilmer, numa atuação constrangedora, interpreta Hall Baltimore, um escritor de livros de suspense do segundo escalão movido a álcool e devastado pela perda. Seu projeto de se tornar o novo Stephen King passa primeiro pela necessidade de pagar as contas e colocar comida na mesa. A turnê de divulgação de seu novo livro – Witch Hunter, título sugestivo para uma trama que deixa implícita a transição do fenômeno literário J. K. Rowling para o de Stephenie Meyer, sem deixar de, sutilmente, ironizar a produção das duas autoras – o leva a uma pequena cidade chamada Swan Valley, no interior dos Estados Unidos, cercada de segredos, com moradores estranhos (“que desejam ser deixados em paz”) e um passado sinistro. Quem gritou clichê não vai ter o pé puxado à noite por assombração. Curiosidade da arquitetura local: acima do campanário da igreja há sete relógios, cada um marcando uma hora diferente. Seria uma referência ao Poema de sete faces de Carlos Drummond de Andrade?

Lá, por meio do xerife local, o aspirante a romancista Bobby LaGrange (Bruce Dern), ele fica sabendo de um massacre que manchou a história da comunidade com sangue. Instigado a escrever sobre o crime (ora, ele não tem nehuma ideia melhor), Baltimore é afetado pelo clima de Swan Valley e se perde em alucinações que o esgarçam entre sonho e realidade, delírio e lucidez. Eu não devia te dizer/mas/essa lua/mas esse conhaque/botam a gente comovido como o diabo. Ecos do poeta mineiro novamente.

Em seu estado alterado de consciência, Baltimore encontra a misteriosa V (Elle Fanning), menina da pele de vela, dos olhos de sangue e do sorriso de aço, freio para os caninos rebeldes. Caracterizada com uma maquiagem exagerada, mais lembra uma artista do Cirque du Soleil. Além dela (ou no além dela), imagine você, o próprio Edgar Allan Poe (Ben Chaplin) se apresenta para se tornar o mentor de Baltimore em teoria literária e construção do romance. O nome do protagonista, aliás, é uma referência ao prédio histórico Westminster Hall, situado em Baltimore, Maryland (EUA). Lá foram enterradas diversas personalidades, entre elas, trick or treat?, Edgar Allan Poe.

A única menção horroro…, digo, honrosa, fica para a fotografia de Mihai Malaimare Jr., parceiro de Coppola em “Tetro” (2009) – convence nos contrastes de luz entre dimensões alternativas.

O descalabro maior deste terreiro de despautérios é a tentativa de equilibrar uma projeção híbrida, que mescla 2D com 3D. Como saber quando começa um formato e termina o outro? O próprio filme avisa, “colocando” e “retirando” os óculos na tela entre um e outro tipo de exibição. Será que o ingresso vai ter valor diferenciado? Cobrar uma entrada inteira em 3D não vale. Melhor dar o passe para outro…

NevermoreChuta que é macumba!

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Coppola, em 2013, o mestre do terror homenageado pelo Festival do Rio será George Andrew Romero. Fica a dica.

p.s.2 É melhor encarar “Pietà”.

Fonte: deviantart

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“Jogos Mortais” sul-coreano

O escritor pernambucano Raimundo Carrero acredita que a vida sem literatura seria insuportável. Para o cineasta sul-coreano Kim Ki-duk, o entendimento é parecido. As letras – mais especificamente a linguagem poética – funcionam como um cilindro de imersão de modo que ele possa submergir na podridão humana sem que a pressão se torne intolerável e provoque fissuras na frágil constituição moral do indivíduo, deixando a barbárie invadir.

Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera” (2003) é um ensaio sobre a disciplina, barragem de vícios. “O arco” (2005) tratava do amor obsessivo e da tentativa fracassada de domar sentimentos. “Fôlego” (2007), uma produção acerca das possibilidades onde não há nenhuma.

Pietà”, laureado com o Leão de Ouro no último Festival de Veneza, não deixou ninguém indiferente em suas exibições no Festival do Rio 2012.

No longa, um acerta-contas de agiota, o “açougueiro” Kang-do (Lee Jung-jin), utiliza métodos brutais para não deixar seu patrão no prejuízo, ao mesmo tempo que anestesia suas perturbações psicológicas. Ele aleija quem não pode pagar a dívida (sempre acrescida de juros extorsivos), a maioria dos “clientes” de uma zona industrial pobre, com o objetivo de receber o seguro por invalidez. Kang-do segue como principal garoto propaganda dos ortopedistas – ameaçando o posto de Steven Seagal –, numa franquia sul-coreana de “Jogos Mortais”, até que surge uma estranha mulher que diz ser a mãe que o abandonou quando ainda era pequeno.

A narrativa, filmada no distrito Cheonggyecheon de Seoul, esquiva-se dos artifícios poéticos com que Kim Ki-duk habitualmente adorna seus filmes e se aproxima de estéticas mais cruas como as do diretor franco-argentino Gaspar Noé. Com cenas que testam a resistência do espectador ao grotesco, “Pietà” envereda pelo manifesto anticapitalista que traz na entrelinhas um questionamento sobre as responsabilidades da maternidade, código para uma vingança engendrada na perda.

Se há algo de interessante no roteiro, da lavra do próprio diretor, é a câmara de tortura psicológica em que o protagonista se encarcera. As dúvidas, carências, frustrações e privações de Kang-do são peias mentais que o travam num jogo de dissimulações, no qual não existem vencedores. O absurdo é que esse processo de lobotomia por meio do amor de mãe catalisa mudanças de personalidade inverossímeis.

Na análise do crítico Carlos Alberto Mattos, o diretor, “festejado por apreciadores de orientalismo naïf (“Primavera, Verão…”, “O Arco”) e melodramas disfarçados de filme de arte (“Fôlego”, “Time”), chega ao ápice com este conto moral sobre os horrores do capitalismo e da orfandade […] está sempre a um passo do dramalhão, a um centímetro do kitsch e a um milímetro do ridículo.”

O sul-coreano sempre se equilibrou entre realidade e imaginação, mas desta vez resolveu fazer diferente. Afastando-se de um terreno ambíguo em que transita tão bem, o do realismo mágico, Kim Ki-duk se aproxima de forma canhestra do trabalho de um conterrâneo, Bong Joon-ho, autor de “Mother” (2009) – uma narrativa inteligente e sem apelação sobre a enormidade do afeto materno, que se mantém funcional mesmo limitado pelo poço escuro da loucura.

Kim Ki-duk almeja se tornar uma versão sul-coreana para as telas de Haruki Murakami. Só que Murakami é candidato ao Nobel, enquanto Kim Ki-duk concorre ao Ig Nobel.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. O diretor Walter Salles não resistiu à proposta estética de “Pietà”. Depois de, abismado, medir a reação da pessoas olhando de um lado para o outro, abandonou no meio a sessão das 22h do dia 5/10, no Espaço Sesc Ipanema. A gota d’água – para ele e muitos outros que assistiam à exibição – foi a sequência em que o filho humilha sua suposta mãe na tentativa de desvelar uma fraude. Doentio. Gostaria de saber o que se passava na cabeça do diretor de “Central do Brasil”. Infelizmente, a única foto do Waltinho que consegui foi a dele pondo o pé na estrada.

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A felicidade de Sergei Loznitsa é a minha infelicidade

Quem me conhece sabe que nunca fujo de uma provocação saudável. Nunca! Em uma discussão acerca do filme “Minha felicidade”, embate retórico cuja arena virtual foi o Facebook, o amigo Marcelo Janot (DJ e crítico de cinema) ironizou, com razão, minha preguiça intelectual. Laconicamente, tachei o filme de chato – para não perder muito tempo com uma produção que torrou meu saco e meu dinheiro. Argumento pouco defensável, segundo ele. Janot, que fez a crítica do filme publicada no jornal O Globo, utilizou seu marionete para aplaudir de pé o trabalho do diretor Sergei Loznitsa. Pois bem… Vamos, então, desdobrar chato:

 

A projeção de “Minha felicidade”, que se arrasta ao longo de 2h37, poderia ter sido resolvida em 1h30 (no máximo). O cimento que sepulta corpos na cena inicial poderia ser a areia movediça que absorve as potencialidade da produção em… nada. A história: caminhoneiro se perde no ermo russo e precisa voltar à “civilização”. Uma espécie de “The Grey”, de Joe Carnahan. Só que em vez de lobos temos… gente.

O diretor Sergei Loznitsa acerta quando entrelaça a degradação do indivíduo com a falência moral da ex-URSS – o chorume que escorreu da fragmentação que originou a Rússia e suas “nações satélites” (em constantes conflitos étnico-religiosos) impregnou a história dos povos da região. Mas acredito que há equívocos na montagem. Os fragmentos do passado são como projéteis que se espatifaram num relato duro demais; os cacos tomam rumos aleatórios e se cravam na primeira superfície que encontram. O encadeamento é prejudicado por rupturas que diluem a força de determinadas cenas. Ao exumar cadáveres para compor seu monstro, Loznitsa não consegue articular as partes putrefadas e concentrar a força de sua ficção em um todo coeso. Há longas sequências que não dizem nada, estão ali simplesmente para atingir uma determinada minutagem. Um grande vazio que se perde (e se esgota) em paisagens desoladas, congeladas, sem nenhum sentido estético.

Há algumas sequências que, retiradas do todo, elevam a produção. A câmera passeando pelos rostos no mercado (sisudos, talhados pelo tempo e pelas circunstâncias, que fazem escorrer das marcas na pele a seiva da desilusão e da resignação). A atitude extrema de um soldado contra seu superior corrupto. Acostumado com o horror (que se torna seu mundo) e destituído de tudo, opta pelo suicídio social e se torna um fantasma, abandonando até o amor. O professor que abriga dois soldados em sua casa e, inconscientemente, faz apologia dos valores alemães, pagando o preço da inocência de seu esclarecimento (razão dialogando com a barbárie). A matrona russa que extravasa as necessidades do corpo com um “zumbi” – apesar das circunstâncias, são necessários dois tipos de carne para continuar vivendo.

O resto é… o resto. Entulhos cobertos de neve que atrapalham nosso olhar. Um branco intercalando o que interessa do que interessa.

A cena de prostituição infantil chega a ser um clichê. A própria personagem desmonta aquele absurdo desancando o protagonista e sua moralidade fora de contexto, ridícula – ali não existe espaço para aquela atitude; ali crime é não pecar. Não há necessidade de explicitar a podridão humana com arquétipos. Só faltou escalar a Juliette Lewis como uma traficante de drogas. A metalinguagem tentando reparar os erros de uma mácula no roteiro, assinado pelo próprio diretor.

O trabalho de Loznitsa remete à cinematografia do diretor argentino Gaspar Noé, especialmente ao filme “Sozinho contra todos” (2002). Infelizmente sem a violência cênica de Noé – crua, chocante e primorosamente trabalhada, sem gorduras –, autor da obra-prima “Irreversível” (2002).

Reforçam minha insatisfação as palavras de dois críticos. Luiz Fernando Gallego, apesar de, como eu, elencar pontos positivos, achou “Minha…” longo e pleonástico na defesa de sua “tese” sobre a maldade humana à flor da pele, o que afinal não chega a ser nenhuma novidade.

Já Carlos Alberto Mattos disse que críticos no mundo inteiro têm feito um bocado de contorcionismo para sustentar os elogios a “Minha felicidade” e contornar as evidentes armadilhas narrativas e temporais do filme. Para mim, aquilo soou como um sucedâneo do “Não Matarás” (1988) do Kieslowski, temperado por um grande ressentimento de Sergei Loznitsa com sua Bielorrússia natal. Um beco sem saída metafórico povoado por bons e maus, sendo ambos capazes de matar.

Quem quiser ver neve em abundância, recomendo “Whiteout”(2009). Em ambos os filmes, o branco embaça a ação dramática e enfraquece e reflexões mais profundas acerca de nossa condição. “Minha felicidade” peca pelo excesso: seria mais se fizesse menos. O gelo, manchado de sangue e pólvora, demora a derreter e a revelar o que há por baixo. Acredito, Janot, que esses argumentos são um pouco mais defensáveis.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. A cabeça do Janot estava a prêmio após a sessão em que assisti ao filme. Várias pessoas (entre aquelas que resistiram até o fim da projeção), com o homicídio doloso no espírito, queriam balear o Bonequinho que fez a crítica. Ouvi em silêncio, engatilhando no meu íntimo uma Magnum .45 e mirando na testa do sósia de Roberto Benigni ao som de Ai, se eu te pego, do Michel Teló. Respirei fundo… Lembrei que ainda não fui convidado para a Panelinha do Janot. Ironicamente, para o bem da saúde do DJ, dessa vez evitei que tudo acabasse em música: a marcha fúnebre…

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L’apollonide (Souvenirs de la maison close)

Odeio quando filmes sobre “garotas de programa” as tratam como coitadinhas. Odeio. O filme visita um prostíbulo do século XIX e faz pouco além de mostrá-las como órfãs da escolha de vida que fizeram. Confesso que há partes bacanas como alguns ângulos de câmera bem inusitados e um plano-sequência que me deixou perturbada. Cadê o Felipe Reinheimer, meu diretor de fotografia do momento, para eu perguntar como é que o cara fez aquilo? Cheguei à conclusão de que viajar a Cannes em carreira solo só numa excursão… Tem tanta gente com quem eu queria conversar… Saudades de todos. E vocês sabem quem são.
Agora, a minha ida ao Lumière esta manhã para assistir à projeção não ficou no marasmo. Mesmo. Com aquela espiritualidade que me é peculiar (se estou aqui, deve ter alguma razão não óbvia…), ajudei a salvar a vida de alguém. Espero, ao menos. Um senhor calvo, 60+ anos, a três cadeiras de mim, começou a se sentir mal e escorregar escada abaixo (estávamos na última fila do balcão). Pedi à vizinha para ficar atenta caso uma respiração boca-a-boca fosse necessária. Perguntei ainda se ela sabia fazer massagem cardíaca. Ela disse sim. Desci calmamente e fui buscar ajuda.
O resgate demorou 8min até o pronto-socorro aparecer. E tudo no escurinho do cinema.
Helena Sroulevich
Comentário do editor CEB: a seguir o trailer de “L’ apollonide”. Repito, o trailer do filme, não do boca-a-boca (apesar de as duas dimensões, em algumas circunstâncias, mesclarem-se, não podemos confundir, neste caso, luta pela sobrevivência com o apelo erótico da produção — no caso, visando ao comércio do corpo).

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Todd Solondz fracassa

Quem acompanha o blog sabe do carinho que tenho pelo cineasta americano Todd Solondz. Ironia, sarcasmo, violência psicológica, senso de humor doentio e ousadia em abordar temas considerados tabu são alguns dos traços da assinatura estética do diretor.

No Festival do Rio, o realizador foi representado por “A vida durante a guerra” (2009), que estreia no circuito comercial dia 19 de novembro, pela Imagem Filmes.

Infelizmente a produção passa longe do brilhantismo autoral de “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995) e “Histórias proibidas” (2001), e frustra a expectativa de quem esperava ver o cronista da esquizofrenia dissimulada da classe média americana em sua melhor forma.

Tentativa malsucedida de emplacar uma continuação de “Felicidade” (1998) – que muitos apontam como a obra-prima da cinematografia de Solondz −, “A vida…” não consegue transcender sua matriz e desliza na sina das franquias: as sequências (na maioria esmagadora das vezes) deixam a desejar. Estaciona no plano da mediocridade.

A narrativa retoma o cotidiano das irmãs Jordan, que servem de amostra para que Solondz exerça sua alquimia reversa e transforme ouro em algum tipo de material radioativo. Aos poucos, o veneno do diretor deteriora a hipocrisia moral e revela uma sociedade profundamente transtornada.

Os subúrbios americanos, retratados como verdadeiros depósitos de traumas e perversões escamoteadas, são terreno fértil para os exercícios estéticos ácidos de Solondz, o Pasolini do american way of life.

Desta vez a história traça um paralelo entre o que aconteceu com as irmãs-protagonistas Joy, Trish e Helen, interpretadas neste novo filme por Shirley Henderson, Allison Janney e Ally Sheedy respectivamente, e o legado de perturbações psíquicas que seus círculos de relações sociais e familiares (principalmente os filhos de Trish) herdaram.

O H2SO4 (ácido sulfúrico) estético derramado por Solondz no verniz que disfarça o poço de neuroses e falsa moralidade no qual se afoga a classe média ianque não teve o mesmo efeito corrosivo de “Felicidade”. Talvez por ser uma fórmula gasta, explorada sem maior criatividade. O filme mais parece uma obrigação contratual (caça-níqueis) da qual o diretor quis se livrar logo.

Alguns diálogos depressivo-inteligentes (que nos forçam a ler nas entrelinhas), marcas da excelência de trabalhos anteriores, salvam determinadas cenas e impedem “A vida…” de ser um fracasso total, mas é só. Doeu no coração ter de escrever tudo isso…

Carlos Eduardo Bacellar

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Biohazard: crítica de “Resident Evil: Afterlife”

“Sempre sonhei com meu momento Trinity.”

Novamente publicarei aqui, mais do que uma crítica, um serviço de utilidade pública para tentar livrá-los de uma roubada.

A franquia “Resident Evil” deveria ter circunscrito a sanha da protagonista Alice (a estonteante Milla Jovovich) pela destruição de mortos-vivos, que teimam em suplantar os humanos como espécie dominante, aos consoles de videogame − e evitado propagar o vírus da mediocridade para as telas de cinema com o lançamento do quarto filme da série: “Resident Evil: Afterlife”, que estreia nesta sexta no Brasil.

Nesta nova versão caça-níqueis da história − a série original foi criada por Shinji Mikami e desenvolvida pela Capcom; hoje está disponível para diversas plataformas de jogos eletrônicos −, dirigida pelo diretor inglês Paul W.S. Anderson (que de bobo não tem nada: já levou Milla para o altar e continua as experiências genéticas do projeto Alice em âmbito doméstico, longe das câmeras), Alice continua sua luta inglória para tentar encontrar um porto seguro livre do vírus T (que torna seres humanos figurantes do vídeoclip Thriller, de Michael Jackson), exterminando todo zumbi papa-cérebro que aparece em seu caminho. E olha que são muitos… O parasita é produto das traquinagens da Umbrella Corporation, espécie de Iniciativa Dharma de tons mais sombrios, na seara da engenharia genética.

“Quem disser alguma gracinha, ou rosnar algo ininteligível, leva bala!”

Desta vez a cidade locação é uma Los Angeles distópica, infestada de antagonistas com lepra e câncer de pele em estágio avançado. E como todos nós sabemos, os zumbis são como cabelos brancos: você mal acaba com um, já crescem mais três.

Sinceramente, a trama é tão rala e descartável, que nem me lembro dos últimos filmes. E não faz muita diferença… Alice continua, com suas roupas de couro apertadas e armada até os dentes, numa mescla de “Blade” com Roland Deschain de Gilead, protagonista de um dos universos fantásticos de Stephen King, exterminando tudo que não pertence mais a este mundo.  E perdendo amigos pelo caminho…

“É hoje que rola aquele ménage à trois pelo qual espero há tanto tempo. Vamos começar com as preliminares: dança do maxixe!”

Lutam ao lado dela, entre outros itens do cardápio dos não humanos, Claire Redfield (Ali Larter, que disputa com Milla o posto de quem-usa-roupas-mais-apertadas-que-realçam-a-silhueta-de-forma-mais-sexy), que não se contentou com a última porcaria, e Chris Redfield (Wentworth Miller), que deve ter alguma cláusula de uso obrigatório da mão de obra em seu contrato − que o impede de ficar na inatividade por muito tempo − e se torna mais uma depravação num roteiro que minha mãe escreveria assistindo ao Domingão do Faustão (momento no qual bate aquela vontade forte de sair por aí estourando miolos).

“Paul, se você olhar para a comissão de trás da Eli novamente, eu realizarei uma operação de fimose em você com a minha arma.”

Com acrobacias que desafiariam especialistas do Cirque du Soleil – algumas cenas ultrapassam a fronteira do absurdo, que cada vez mais é rechaçado pelo realismo de sequências de ação como as que revitalizaram o espião 007 −, escrutinadas pelas filmagens à moda Sam Peckinpah, que usam e abusam do bullet time, efeito celebrizado na trilogia “Matrix”, a produção é uma sucessão de violência gratuita que tenta sustentar uma trama apocalíptica. Uma inversão de valores que desrespeita o público. Os desmembramentos faraônicos de zumbis são despautérios completos: diretores americanos de filmes exploitation das décadas de 1950, 1960, 1970 ficariam com vergonha ao provarem dos frutos podres adubados por seus legados.

O roteiro chega ao cúmulo de plagiar o gigantesco carrasco demoníaco de “Silent Hill” (2006) − excelente filme de suspense que saiu de uma dimensão paralela para a nossa pelas lentes do realizador francês Christophe Gans −, com o objetivo de heterogeneizar a espécie zumbi e incrementar a encenação. Verdadeiro pastiche cara de pau…

[Sim, já fui avisado de que o carrasco demoníaco ao qual me refiro no parágrafo supracitado não é uma cópia do seu sósia, que aparece no filme ‘Silent Hill’ (também baseado no jogo eletrônico homônimo), e sim um personagem do game ‘Resident Evil 5’: leia minhas explicações clicando aqui]

“Não consigo enxergar direito quem eu tenho que decapitar com este saco na minha cabeça…”

A produção, que chega a esta quarta edição glamurizada pelo suporte em 3D, é um videogame, com montagem hiperativa, que não funciona nas telas, nem como entretenimento. E podem se preparar… Vem uma continuação por aí… Se Deus quiser o último despropósito que irá raspar o tacho de nossas economias e saciar a gana por grana de Hollywood, pelo menos em relação a esta franquia específica.

Felizmente assisti ao filme de graça, e economizei umas 24 pratas. Aviso às distribuidoras e às produtoras: podem me convidar sempre para as cabines de imprensa que eu gosto. E olha que de vez em quando eu até falo bem dos filmes.

Cinema de graça, pela manhã, com a sala vazia, é a maior diversão!

Carlos Eduardo Bacellar

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