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Olhar são

O menino e o mundo_poster
O diretor Alê Abreu já tinha me ganhado com o seu “Garoto Cósmico”. Mas “O Menino e o Mundo”, animação brasileira atualmente em cartaz no Espaço Itaú de Cinema, no Rio de Janeiro, ultrapassa as fronteiras do cinema e é uma experiência sensorial completa.
A partir do sumiço do pai, um menino sai mundo afora. Percorre plantações de algodão, tribos indígenas, indústrias pesadas e infernos das grandes metrópoles. E enxerga das mais simples às mais complexas formas de exploração do trabalho e da degradação ambiental. Tudo isto é percebido pelo espectador através de um festival de imagens concretas, com a simplicidade do olhar infantil dos Dardenne; e abstratas, que mais parecem grafismos extraídos de pintores como Miró e Kandisky.
O menino e o mundo_01
O resultado é um espectador boquiaberto do início ao fim. Sim, os desenhos encantam a visão. Mas não é só isso. Os ouvidos entendem o vazio da ausência do pai e do mundo contemporâneo através do trabalho de som e música. O filme é de arrepiar e toma de assalto qualquer cego insistente usando trechos de “ABC da Greve” e “Ecologia” do (saudoso) Leon Hirszman. Mexe com os sentidos — leva à poesia de Fernando Pessoa.
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Helena Sroulevich

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Nuevo día

AVISO DE ANTEMÃO QUE ESTE POST CONTÉM SPOILERS

E QUE O FILME PODE VIR A SER LANÇADO NO BRASIL.

“Strangers in the Night” (versión porteña) é a música que apresenta o casal  protagonista Sol (Julieta Zylberberg) e Martin (Diego Torres). O filme, ora comédia romântica, ora obra policial, “Extraños en la Noche”, dirigido por Alejandro Montiel e distribuído pela Buena Vista, foi lançado ontem em circuito comercial aqui em Buenos Aires.  O filme conta a história do casal de músicos que tenta se equilibrar em suas finanças, fazendo shows em eventos fechados, enquanto atacam de investigadores amadores de um suposto assassinato no apartamento de cima de onde moram.

A relação com o apartamento de cima onde reside Emilio, assessor político que mais tarde se revelará travesti, começa quando Sol pede emprestado ao vizinho um par de sapatos de sua “esposa” para a apresentação que fará logo mais em  Puerto Madero, na grande sequencia inicial do filme.  Só que ao tentar devolver o par de sapatos no dia seguinte, Sol começa a pressentir que algo misterioso aconteceu naquele apartamento a partir da visita de um sujeito esquisito a Emilio, que supostamente teria viajado e deixado suas chaves com o zelador do prédio para que regasse suas plantas. Deconfiada, Sol rouba a chave do apartamento e leva o namorado Martin para conhecer o local do crime. Todas as provas estão lá. No dia seguinte, levam o zelador Aurelio para que ateste que houve um homicídio no apartamento, mas já deu tempo suficiente para o criminoso limpar todas as provas e deixar o apartamento um brinco. Enquanto atacam de investigadores, a história de amor de Sol e Martin passa por altos e baixos e é colocada em cheque quando Sol recebe uma proposta para ser vocalista de uma banda que sairá em turnê internacional em poucos dias. Mas um “nuevo día” há de vir e Sol decide ficar em Buenos Aires, ajudar a esclarecer o crime e viver feliz para sempre com seu amado Martin.

Sem desenvolver nem a comédia romântica, nem o romance policial, tudo acaba sendo meio bobo. Mas eu me diverti. Isso é que vale. Sem falar que o  filme é um hino de amor a Buenos Aires.  Dá pra ver desde Puerto Madero a bairros como Belgrano e Palermo Viejo. Amo essa Madrid do hemisfério sul. E como eu sou bem legal, deixo para vocês a canção-tema do Diego Torres para o filme. Ah, o Diego Torres! 🙂 Chama-se “Nuevo Día”.

Helena Sroulevich

P.S. Post dedicado a los tíos porteños Leo y Diana Gutman. Los amo y sus 50 años de amor! “Siman Tov, Mazel Tov!”

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Missão dada é missão cumprida


Mikael Blomkvist (Daniel Craig) é repórter da Revista Millennium; que vê seu prestígio ruir após ser condenado por difamação. Buscando restabelecer sua idoneidade, o jornalista aceita o convite do empresário Henrik Vanger (o rouba-cenas, Christopher Plummer) e muda-se temporariamente para uma cidadezinha ao norte da Suécia. A missão é investigar o caso de desaparecimento da sobrinha Harriet.

Dias e noites são necessários para que Mikael reúna provas. A disputa de poder na família Vanger, sua aparente simpatia ao Nazismo e alusões ao Antigo Testamento presentes em uma caderneta deixada por Harriet parecem ser a chave para desvendar o mistério em torno de seu sumiço. Mas Mikael empaca. Lisbeth Salander (a merecidamente indicada ao Oscar Rooney Mara), competente hacker, outrora recrutada por Henrik para reunir informações sobre a vida de Mikael,  é então convocada a unir-se ao detetive. E junto a ele, esclarece o caso Harriet e desmascara um serial killer de mulheres judias. Missão cumprida.

Acostumado com pistas e armadilhas a la 007, Daniel Craig faz Mikael Blomkvist com um “pé nas costas”. E não surpreende. David Fincher tem brilho: melhora a versão sueca cheia de hiatos de roteiro com montagem rítmica e trilha sonora “suor frio nas mãos”. Já Rooney Mara é mais que eficaz na “punk por fora, menina frágil por dentro” Lisbeth. De armadura robusta, sóbria, cheia de tatoos & piercings, beirando a mulher desinteressante, ela enfrenta todos para, na verdade, enfrentar a si própria.

Helena Sroulevich

p.s. Lisbeth descobre seu sex appeal na relação com Mikael. E a improbabilidade deste “casal”, elemento narrativo da Trilogia Larsson, é algo que Fincher não deu conta de explicar: a relação dos dois em tela beira o grotesco. Mas absolvo o Fincher. A “derrapada” foi por  fidelidade à obra.


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Um homem-bomba

Cinema não é Literatura e adaptação literária ao cinema é coisa séria. Aí os acertos de “Corações Sujos”, novo longa-metragem do Vicente (sou fã!) Amorim, que estreia comercialmente em 2012 e teve pré-estreia no Festival do Rio.

Enquanto o livro homônimo de Fernando Morais conta a história desconhecida da organização fundamentalista Shindo Renmei, uma espécie de maçonaria nipônica, extrema em preservar valores e tradições, fronteira tênue com os contemporâneos Hamas e Hezbollah, o filme é um thriller de amor.

Em meio às plantações de algodão do interior brasileiro, vive Takahashi (Tsuyoshi Ihara, de “Cartas para Iwo Jima”, Clint Eastwood, 2006), imigrante fotógrafo e casado com Miyuki (Takako Tokiwa), professora numa escola clandestina de ensino japonês, uma bandeira de resistência. Com os direitos de liberdade confiscados, ninguém sabe ao certo se o Japão venceu ou não a Segunda Grande Guerra. Contexto propício para o surgimento da Shindo Renmei, que em nome do Sol Nascente,  finca a espada do Samurai no peito de todo e qualquer coração sujo (nome do grupo dos “derrotistas”, que não acreditavam no triunfo do Japão na guerra mundial).

O protagonista sangrento é Takahashi, que vai de um homem bom (*) e comum a fundamentalista extremado. Desequilibrado em forças opostas, mas que se retroalimentam — ultranacionalismo, realidade marginalizada e amor complacente da mulher –, Takahashi revela que no mais puro dos corações pode residir um coração sujo em potencial. Afinal, o pior inimigo está dentro de cada um de nós. Um homem-bomba.

A produção dá olé em Hollywood. Ambientado na década de 40, o filme tem direção de arte (Flaksman!) e de fotografia (Rodrigo!) de crescer os olhos. O roteiro (David França Mendes!) é mais do que competente. A direção, um primor. Só alguém com a sensibilidade e o internacionalismo (de berço e de experiência) do Vicente para fazer esse filme. Sem falar que ele usa planos abertos e sucessão de cortes, que nos remetem ao bang bang, e nos deixam nos nervos durante todo o filme. Ou seja, é para americano ver. E aprender. E o Vicente é made in Brazil.

(*) Um Homem Bom, Vicente Amorim, 2008.

Visitem o site: http://www.coracoessujos.com.br

Ao amigos internacionalistas e da família desde sempre Fernando Morais e Vicente Amorim, espero que a parceria de vocês seja tão exitosa quanto a de Marçal Aquino e Beto Brant. Mas chamem o David – o cara sabe extrair a essência para cinema da literatura do Fernando. Uma beleza! Que venham os soldados da Guerra Fria (se o Rodrigo Teixeira deixar… hehe!), Operação Peter Pan e tudo mais. Para o Peter Pan, estou à disposição. Conexão umbilical. 😉

Helena Sroulevich

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Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Todos os dias.

“Minha intenção era protelar as coisas ao máximo, e começamos de um jeito manso. Um reencontro de corpos, o reconhecimento de um terreno nunca decifrado por completo. Mas não demorou para esquentar, e quando vi estávamos à beira do precipício. Meu orgasmo chegou como uma dor. Percebi que Lavínia queria mais e fiz o que pude, mas não adiantou. Eu me sentia exaurido e tive de pedir uma trégua. Ela riu e disse:

Eu espero.

(…)

Até que encontrou o que procurava na bolsa e me entregou.

Eu trouxe pra você.

Uma caixinha de madeira, uma arca em miniatura, fechada com um cadeado minúsculo. Sacudi a caixinha, mas não ouvi nenhum som.

Tem uma mensagem pra você aí dentro, ela disse. Mas você só deve ler num dia em que estiver desesperado.

Bem desesperado?

É.

Lembrei dos dias que passei sem ela. Dias em que encontrar, por acaso, um fio de seu cabelo preso na fronha do travesseiro bastava para me encher de angústia e dor. Estive a ponto de rastejar. Atire a primeira pedra aquele que não estremeceu ao recuperar nos lençóis encardidos da cama em que dorme solitário, o cheiro da mulher ausente.

Eu sentia uma felicidade vulnerável naquele momento, contaminada pelo temor de que Lavínia sumisse de novo. Pensei no pastor Ernani. E dei um golpe baixo:

Que tipo de mensagem? Religiosa?

É uma coisa que escrevi pensando em você.

E a chave do cadeado?

Não tem, ela explicou. Aí é que está a graça: você vai ter que quebrar a caixinha pra ler a mensagem.

É mérito de Marçal Aquino em “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” fugir do lugar-comum dos romances contemporâneos. Perito no retrato criminoso do submundo, o escritor e jornalista  abusa do vigor policial, direto e fotográfico – o mesmo que tanto me encanta em Rubem Fonseca – ao narrar o triângulo amoroso vivido pelo fotógrafo Cauby, pela ex-prostituta Lavínia e pelo pastor evangélico Ernani, num terreno de conflitos: o Pará da exploração mineral.

É a partir do interesse comum pela fotografia que nasce a história de amor do desempedido Cauby com a casada  Lavínia. Se a narrativa utilizada por Marçal para descrever a paixão avassaladora de Cauby e Lavínia já vale o livro, o escritor é ainda mais surpreendente ao construir personagens interessantíssimos, como o pervertido sexual e o pastor, que misturam-se a Lavínia e Cauby, e ajudam a contar a história de um vilarejo “terra de ninguém”, onde ambição, riqueza e prazeres da carne parecem conviver em perfeita desarmonia – são vastas as referências à cinematografia western de Sergio Leone.

E nada melhor que uma região cheia de distorções, fanatismos religiosos, disputas por terras indígenas, derramamentos de sangue, onde mitos de herói são descontruídos o tempo todo, para fazer florescer naturalmente um sentimento intenso e verdadeiro, o amor de Lavínia e Cauby: duas pessoas de histórias e origens distintas mas parecidas em suas lutas pela sobrevivência e contra a solidão.

A adaptação cinematográfica

Se melhorar, estraga. Assim definiria a parceria de Marçal Aquino com Beto Brant. É de extrema competência a adaptação literária às telas. A montagem descontínua prende o espectador. Mais do que assertivas são as escolhas do elenco: Camila Pitanga parece que nasceu com a exuberância e o encanto contido de Lavínia; Gustavo Machado constrói Cauby com grande sensibilidade desde “O Amor Segundo B. Schianberg” (Beto Brant, 2009);  Zécarlos Machado é o Pastor Ernani reconhecível das esquinas de todo o país — um tiro na culatra em forma de gente — e Gero Camilo é o pervertido sexual que rouba todas as cenas.  E tudo isso mostrado a partir de lentes objetivas e realistas, que evocam o que há de mais lírico na “terra de ninguém” de uma relação a dois.

Helena Sroulevich

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Shrek albino do século XXI

De costela em costela, o “açogueiro” Serge (Gérard Depardieu) vai ganhando a sua vida  até o momento do abate: a aposentadoria. Isto se dela tiver dignidade, uma vez que viveu boa parte do tempo na informalidade.

E é pensando no futuro, no melhor estilo “Easy Rider”, que Serge monta a “Mammuth” à busca de comprovantes de antigos vínculos empregatícios.  Nesta viagem, o ogro desajeitado esquisito cheio de charme (!), revisita a sua história — nem muito grande, nem muita vasta –, confronta-se com a velhice e a sexualidade na terceira idade e termina querendo mesmo é vencer a batalha do amor. Típico ogro.

Helena Sroulevich

P.S. O filme vale ser visto nem que seja pelo Gérard Depardieu. Visceral, terno e grotesco, ele é o Shrek do século XXI, capaz de deixar uma fila de corações abandonados no espeto. (olha o meu indo pra brasa aí…)

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Quando o filme é uma obra-prima,…

… uma verdadeira aula de cinema, o resultado é estado de graça do início ao fim. Assim é “Chico & Rita”, de Fernando Trueba, parte da programação do Anima Mundi.

Ambientado majoritariamente em Cuba e nos EUA da década de 50, a animação, com ilustrações de Javier Mariscal, conta a história de amor do pianista Chico com a cantora Rita.

Embalados a bolero, Chico e Rita se conhecem numa noite. Surge o interesse. Do interesse, a paquera. Da paquera, a aproximação. Da aproximação, a parceria. Da parceria, o romance. Do romance, o clímax. Do clímax, o impossível. Do impossível, o improvável. Do improvável, o sonho. Do sonho, a realidade. E assim é a história de  amor de “Chico & Rita”: um roteiro perfeito.

E já seria um grande filme só nisto. Mas não. As ilustrações de Mariscal, que revisitam e reconstituem Havana e Nova Iorque da década de 50, o transformam num filme genial; que nas mãos de Fernando Trueba, assertivo na definição de cada plano, faz de “Chico & Rita” uma obra-prima.

Helena Sroulevich

P.S. Em São Paulo, o filme está programado em algumas salas, entre 27 e 31/7, ou seja, ESTA SEMANA! CORRAM!

Aos demais, resta a mandinga cinéfila para encontrá-lo, ao menos, na locadora mais próxima. 

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Arquivado em Filmaço!!!, Helena Sroulevich