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Embate crítico: Bacellar x Rocha

“A vida durante a guerra”, ansiolítico tarja preta estético do diretor americano Todd Solondz (“Bem-vindo à casa de bonecas”, 1995), dividiu a opinião dos críticos da blogosfera.

Carlos Eduardo Bacellar, fã de longa data da autoralidade sardônica de Solondz, (com lágrimas nos olhos) acredita que o novo filme do diretor passa longe do brilhantismo de obras anteriores, como “Histórias proibidas” (2001) e “Felicidade” (1998), matriz desta produção. E arremata dizendo que “A vida…” frustra a expectativa de quem esperava ver o cronista da esquizofrenia dissimulada da classe média americana em sua melhor forma.

Mattheus Rocha, parceiro e autor do site Cinema na Rede − é um prazer tê-lo aqui no Doidos, amigo − do qual o Bacellar é um dos colaboradores, exulta o filme dizendo que o longa apresenta um mosaico de densos conflitos íntimos, que mais parecem guerras durante as vidas de duas sofridas famílias. E destaca os diálogos brilhantes e atuações viscerais, amplificadas pela belíssima direção de arte.

Duas análises antípodas (adorei essa palavra que aprendi com o Ely Azeredo e uso para impressionar as mulheres). Contrapontos interpretativos que enriquecem a discussão sobre cinema.

Vamos aos textos:

Quem acompanha o blog sabe do carinho que tenho pelo cineasta americano Todd Solondz. Ironia, sarcasmo, violência psicológica, senso de humor doentio e ousadia em abordar temas considerados tabu são alguns dos traços da assinatura estética do diretor.

No Festival do Rio, o realizador foi representado por “A vida durante a guerra” (2009), que estreia no circuito comercial dia 19 de novembro, pela Imagem Filmes.

Infelizmente a produção passa longe do brilhantismo autoral de “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995) e “Histórias proibidas” (2001), e frustra a expectativa de quem esperava ver o cronista da esquizofrenia dissimulada da classe média americana em sua melhor forma.

Tentativa malsucedida de emplacar uma continuação de “Felicidade” (1998) – que muitos apontam como a obra-prima da cinematografia de Solondz −, “A vida…” não consegue transcender sua matriz e desliza na sina das franquias: as sequências (na maioria esmagadora das vezes) deixam a desejar. Estaciona no plano da mediocridade.

A narrativa retoma o cotidiano das irmãs Jordan, que servem de amostra para que Solondz exerça sua alquimia reversa e transforme ouro em algum tipo de material radioativo. Aos poucos, o veneno do diretor deteriora a hipocrisia moral e revela uma sociedade profundamente transtornada.

Os subúrbios americanos, retratados como verdadeiros depósitos de traumas e perversões escamoteadas, são terreno fértil para os exercícios estéticos ácidos de Solondz, o Pasolini do american way of life.

Desta vez a história traça um paralelo entre o que aconteceu com as irmãs-protagonistas Joy, Trish e Helen, interpretadas neste novo filme por Shirley Henderson, Allison Janney e Ally Sheedy respectivamente, e o legado de perturbações psíquicas que seus círculos de relações sociais e familiares (principalmente os filhos de Trish) herdaram.

O H2SO4 (ácido sulfúrico) estético derramado por Solondz no verniz que disfarça o poço de neuroses e falsa moralidade no qual se afoga a classe média ianque não teve o mesmo efeito corrosivo de “Felicidade”. Talvez por ser uma fórmula gasta, explorada sem maior criatividade. O filme mais parece uma obrigação contratual (caça-níqueis) da qual o diretor quis se livrar logo.

Alguns diálogos depressivo-inteligentes (que nos forçam a ler nas entrelinhas), marcas da excelência de trabalhos anteriores, salvam determinadas cenas e impedem “A vida…” de ser um fracasso total, mas é só. Doeu no coração ter de escrever tudo isso…

Carlos Eduardo Bacellar

“A Vida Durante a Guerra” é um filme muito bem resolvido (técnica e conceitualmente) sobre pessoas mal resolvidas, vítimas de fracassados relacionamentos amorosos e/ou familiares, que resultaram em algum pesado trauma, carregado penosamente como um fardo aparentemente inseparável de suas ordinárias vidas. Apesar de referências a Israel (a maioria dos personagens é de origem judaica) e ao impasse da Terra Santa, a guerra não é exterior, e sim interior. O diretor e roteirista Todd Solondz − de “Felicidade” (1998) e “Histórias Proibidas” (2001) − apresenta um mosaico de densos conflitos íntimos, que mais parecem guerras durante as vidas de duas sofridas famílias.

As relações surrealistas têm início com diálogos brilhantes e atuações viscerais, amplificadas pela belíssima direção de arte de Roshelle Berliner, de “Preciosa − Uma História de Esperança” (2009). Cada intervenção é dotada de uma latente busca pela sanidade perdida (inconscientemente) pelas vicissitudes da vida, que elevam a história a uma espécie de busca por uma catarse coletiva. Os valores morais aspirados são expostos em uma constante terapia em grupo ou autoanálise (não propositais), mas a dualidade dos personagens leva a contradições que chegam a ser risíveis (delicioso humor negro nonsense), como a mãe que protege seu filho de um pai pedófilo, mas dá Rivotril para a filha mais nova, ainda uma criança.

A montanha russa de sentimentos é alimentada pela culpa, ressentimento, depressão, amores e desamores. “A Vida Durante a Guerra” vai ganhando força à medida em que a projeção avança, como o garoto que se torna adulto, e a ligação entre os personagens é mostrada de uma forma um tanto quanto bizarra. O palco desta história − que é continuação de “Felicidade” − é um subúrbio na Flórida, paranoico pelo pós 11 de setembro. A busca pela redenção passa pela reflexão e tem o perdão como ápice de um ser simplesmente humano, que, com suas fraquezas e ambiguidades, prefere estar com um ente querido do que refletir sobre questões essenciais à vida em sociedade. “Eu não me importo com a liberdade e a democracia. Só quero meu pai”.

Mattheus Rocha

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Todd Solondz fracassa

Quem acompanha o blog sabe do carinho que tenho pelo cineasta americano Todd Solondz. Ironia, sarcasmo, violência psicológica, senso de humor doentio e ousadia em abordar temas considerados tabu são alguns dos traços da assinatura estética do diretor.

No Festival do Rio, o realizador foi representado por “A vida durante a guerra” (2009), que estreia no circuito comercial dia 19 de novembro, pela Imagem Filmes.

Infelizmente a produção passa longe do brilhantismo autoral de “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995) e “Histórias proibidas” (2001), e frustra a expectativa de quem esperava ver o cronista da esquizofrenia dissimulada da classe média americana em sua melhor forma.

Tentativa malsucedida de emplacar uma continuação de “Felicidade” (1998) – que muitos apontam como a obra-prima da cinematografia de Solondz −, “A vida…” não consegue transcender sua matriz e desliza na sina das franquias: as sequências (na maioria esmagadora das vezes) deixam a desejar. Estaciona no plano da mediocridade.

A narrativa retoma o cotidiano das irmãs Jordan, que servem de amostra para que Solondz exerça sua alquimia reversa e transforme ouro em algum tipo de material radioativo. Aos poucos, o veneno do diretor deteriora a hipocrisia moral e revela uma sociedade profundamente transtornada.

Os subúrbios americanos, retratados como verdadeiros depósitos de traumas e perversões escamoteadas, são terreno fértil para os exercícios estéticos ácidos de Solondz, o Pasolini do american way of life.

Desta vez a história traça um paralelo entre o que aconteceu com as irmãs-protagonistas Joy, Trish e Helen, interpretadas neste novo filme por Shirley Henderson, Allison Janney e Ally Sheedy respectivamente, e o legado de perturbações psíquicas que seus círculos de relações sociais e familiares (principalmente os filhos de Trish) herdaram.

O H2SO4 (ácido sulfúrico) estético derramado por Solondz no verniz que disfarça o poço de neuroses e falsa moralidade no qual se afoga a classe média ianque não teve o mesmo efeito corrosivo de “Felicidade”. Talvez por ser uma fórmula gasta, explorada sem maior criatividade. O filme mais parece uma obrigação contratual (caça-níqueis) da qual o diretor quis se livrar logo.

Alguns diálogos depressivo-inteligentes (que nos forçam a ler nas entrelinhas), marcas da excelência de trabalhos anteriores, salvam determinadas cenas e impedem “A vida…” de ser um fracasso total, mas é só. Doeu no coração ter de escrever tudo isso…

Carlos Eduardo Bacellar

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Fuja dessa roubada!!!

Os cinco mosqueteiros da década de 1980

“… e as crianças que você despreza

enquanto tentam mudar seus mundos

são imunes aos seus comentários.

Elas sabem bem o que está acontecendo com elas…”

David Bowie

Poucos realizadores souberam retratar tão bem as aspirações e contradições da juventude como o americano John Hughes (1950-2009), pai de Ferris Bueller e dos disruptivos adolescentes de “Clube dos Cinco” (“The Breakfast Club”, 1985), filme agridoce que embalou muitas Sessões da Tarde.

Esta última produção divide com “Curtindo a vida adoidado” (1986) o título de obra mais emblemática do diretor, produtor e roteirista que, como ninguém, ousou tratar dos problemas, crises, dilemas, ansiedades e dúvidas da adolescência utilizando não a elucubração filosófica adulta, mas o discurso romântico, despolitizado e hedonista de uma geração alienada, desnutrida pela falta de espírito crítico e perspectivas − e que ocupou o limbo deixado pelo esmaecimento das ideologias da década de 1960.

Na trama, cinco adolescentes indisciplinados (?) e aparentemente antagônicos são forçados a cumprir detenção durante um sábado. Praticamente toda ação dramática se desenrola nos corredores e salas da Escola de Ensino Médio Shermer (Shermer High School) − instituição de ensino situada no Estado de Illinois (EUA) −, ao longo do dia 24 de março de 1984.

Concentrado em poucos personagens e limitado pelo espaço físico – o que não se traduz em pobreza narrativa −, Hughes constrói sua ópera minimalista e amarga utilizando como argamaça o choque entre realidades distintas, mas imantadas de peculiaridades comuns que irão forçar uma aproximação entre nossos jovens protagonistas.

O liame narrativo é uma redação de mil palavras, imposta pelo diretor Richard Vernon (Paul Gleason), na qual os cinco terão de falar sobre si mesmos.

A narração em off com o texto de um dos trabalhos abre e encerra o filme, mas com cargas semânticas completamente diferentes, alteradas pelas circunstâncias. E dão o tom da transformação que se opera com o desenrolar dos conflitos − catalizadores de descobertas − entre os adolescentes.

Ainda sob os efeitos do som de Don’t you (Simple Minds), trilha musical que não deixa de reverberar em nossos ouvidos durante toda exibição, somos apresentados aos personagens em um momento de castração das potencialidades do indivíduo. Com sua visão deturpada por preconceitos e frustrações, Vernon enxerga nos alunos o que quer – e não vê esperança para o futuro dos adolescentes; adolescência que ele já enfrentou um dia, na pele de “vítima”.

De uma maneira simplista, como destacado por um dos estudantes repreendidos, o espírito consternado do docente imprime em suas retinas “o que melhor lhe convém”. Tacitamente os detidos são rotulados como: o nerd, o atleta, a louca, a princesa e o marginal. As palavras que forem colocadas no papel não farão a menor diferença no que tange a percepção do diretor da Shermer.

O veneno de Vernon é parcialmente neutralizado pela malícia e experiência do zelador Carl (John Kapelos) que, numa participação pequena, encarna uma espécie de observador onisciente. Carl, tranquilo e seguro, somente interfere no momento certo, tomando partido do lado mais fraco da corda e garantindo que a chama da picardia fique acesa por mais algum tempo.

Sob os rótulos de Vernon encontramos nossa trupe de anti-heróis: Brian “nerd” Johnson (Anthony Michael Hall), Andrew “atleta” Clark (Emilio Estevez), Allison “louca” Reynolds (Ally Sheedy), Claire “princesa” Standish (Molly Ringwald) e John “marginal” Bender (Judd Nelson).

Artífice da palavra que expõe as vísceras do humano, Hughes, ao trabalhar o roteiro, buscou o ponto limite no qual a galhofa, o inconformismo e a rebeldia adolescentes esbarram em reflexões existenciais mais sérias.

Na imposição do convívio, cada um começa a expiar seus fantasmas e dividir um pouco de suas aflições com o outro – atitudes que fermentam o amadurecimento. Brian considera o suicídio ao se sentir sufocado pela cobrança excessiva dos pais; Andrew está em ponto de ebulição por ser o depósito de todas as expectativas de seu pai − que não vê o fracasso como opção (bem típico da sociedade americana) –, e sofre com sua falta de autoafirmação, resultado de uma personalidade ainda em formação; Allison cria, com sua pseudoloucura, um escudo antiaproximação para justificar sua triste solidão; Claire, a popular rainha do baile de rosa-shocking − que vive de aparências sólidas como castelos de areia à beira mar −, por ter nascido em berço de ouro se acha superior aos outros, e acredita que as regras do jogo são diferentes para ela; John utiliza sua fachada marginal para extravasar os desesperos de um lar destruído pela ignorância, violência e falta de carinho.

Com essa fauna rica em estereótipos tão ímpares, amparada por diálogos ácidos, divertidos e inteligentes – carregados de cinismo, hipocrisia, medo, desconfiança e angústia –, está montado o palco para a garotada brilhar. Destaque para os personagens de Judd Nelson (o marginal) e Ally Sheedy (a louca), irretocáveis! Judd brilha, laçando o elenco com sua recalcitrância e levando todos para outro patamar, que não conseguiriam alcançar sozinhos. É a pedra fundamental do filme; a batida de asas da borboleta que tem como consequência o caos em um ambiente inerte.

Na cena antológica em que os cinco abrem sua alma, numa espécie de terapia de grupo não planejada, algumas linhas em particular dão o contorno da insatisfação inefável que pesa no ar. A troca entre eles vai mais ou menos assim:

Brian: “Será que vamos ser como nossos pais?”

Claire: “Nunca!”

Allison: “É inevitável. Quando você cresce, o coração morre.”

John: “Quem se importa?”

Allison: “Eu me importo.”


A bizarrice de cada um – catalizadora de atritos no começo − é pasteurizada e relativizada pelas seguintes palavras de Brian (o atleta que tem suas sinapses anabolizadas pela situação e vive alguns segundos de intelectual): “Todos somos estranhos, mas alguns escondem melhor que os outros.”

No início, quando pisaram na biblioteca da escola, estavam estigmatizados pela visão pré-concebida de Vernon. Mas, o nerd, ou melhor, Brian, em seu texto final, metamorfoseado pelas contingências, externa com palavras o fato de que todos sofreram uma lavagem cerebral. Agora, cada um deles possui um pouco de gênio, atleta, louca, princesa e marginal – a vitamina que nutrirá a personalidade de todos, para o bem ou para o mal.

O título original do filme, The Breakfast Club, evidencia o despertar dessa juventude para certos sentimentos, frutos do crescimento − exponenciado pelo compartilhamento de experiências −, que suavizam o que incomoda dentro do peito, alimentando a esperança de dias melhores – ou, pelo menos, algo diferente da rotina com a qual estão saturados. Amadurecer dói, mas é a perda da “virgindade” necessária para enfrentar desafios que a vida impõe.

A mensagem que John Hughes transmite de forma sub-reptícia é: Nunca deixe ninguém etiquetar você, nem convencê-lo do que é ou não capaz; ou aonde pode ou não chegar. Essas figuras medíocres são derrotados que derramam suas frustrações no tacho alheio, pois não podem mais suportá-las.


Nos estertores da encenação, os desejos se atropelam e o que parecia impossível acontece. Os sentimentos descarrilam rapidamente, e atingem as fronteiras vizinhas − e, nos acordes intensos, fugazes e enigmáticos da juventude, se dissipam como um sopro no ar, deixando um aroma de quero mais no nosso imaginário. Um trago virado num só gole, que desce morno e reconfortante, causando deslumbramento.

Hughes é um ícone da década de 1980, e seus filmes falavam a língua de quem se sentia incompreendido pelas instituições e órfão de alguém que aliviasse suas inquietações existenciais. Ele teve uma merecida homenagem póstuma (antes tarde do que nunca) na última cerimônia do Oscar – em sua 82ª edição. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood conseguiu reunir, entre outros atores que trabalharam direta ou indiretamente com Hughes, Matthew Broderick (o eterno ídolo Ferris!!!), Macaulay Culkin, Ally Sheedy, Molly Ringwald, Judd Nelson e Anthony Michael Hall.

E então? Dispostos a aproveitar um dia de folga curtindo o filme?

Carlos Eduardo Bacellar

Fiquem também com Simple Minds no vídeoclip de Don’t you (forget about me):

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