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A felicidade de Sergei Loznitsa é a minha infelicidade

Quem me conhece sabe que nunca fujo de uma provocação saudável. Nunca! Em uma discussão acerca do filme “Minha felicidade”, embate retórico cuja arena virtual foi o Facebook, o amigo Marcelo Janot (DJ e crítico de cinema) ironizou, com razão, minha preguiça intelectual. Laconicamente, tachei o filme de chato – para não perder muito tempo com uma produção que torrou meu saco e meu dinheiro. Argumento pouco defensável, segundo ele. Janot, que fez a crítica do filme publicada no jornal O Globo, utilizou seu marionete para aplaudir de pé o trabalho do diretor Sergei Loznitsa. Pois bem… Vamos, então, desdobrar chato:

 

A projeção de “Minha felicidade”, que se arrasta ao longo de 2h37, poderia ter sido resolvida em 1h30 (no máximo). O cimento que sepulta corpos na cena inicial poderia ser a areia movediça que absorve as potencialidade da produção em… nada. A história: caminhoneiro se perde no ermo russo e precisa voltar à “civilização”. Uma espécie de “The Grey”, de Joe Carnahan. Só que em vez de lobos temos… gente.

O diretor Sergei Loznitsa acerta quando entrelaça a degradação do indivíduo com a falência moral da ex-URSS – o chorume que escorreu da fragmentação que originou a Rússia e suas “nações satélites” (em constantes conflitos étnico-religiosos) impregnou a história dos povos da região. Mas acredito que há equívocos na montagem. Os fragmentos do passado são como projéteis que se espatifaram num relato duro demais; os cacos tomam rumos aleatórios e se cravam na primeira superfície que encontram. O encadeamento é prejudicado por rupturas que diluem a força de determinadas cenas. Ao exumar cadáveres para compor seu monstro, Loznitsa não consegue articular as partes putrefadas e concentrar a força de sua ficção em um todo coeso. Há longas sequências que não dizem nada, estão ali simplesmente para atingir uma determinada minutagem. Um grande vazio que se perde (e se esgota) em paisagens desoladas, congeladas, sem nenhum sentido estético.

Há algumas sequências que, retiradas do todo, elevam a produção. A câmera passeando pelos rostos no mercado (sisudos, talhados pelo tempo e pelas circunstâncias, que fazem escorrer das marcas na pele a seiva da desilusão e da resignação). A atitude extrema de um soldado contra seu superior corrupto. Acostumado com o horror (que se torna seu mundo) e destituído de tudo, opta pelo suicídio social e se torna um fantasma, abandonando até o amor. O professor que abriga dois soldados em sua casa e, inconscientemente, faz apologia dos valores alemães, pagando o preço da inocência de seu esclarecimento (razão dialogando com a barbárie). A matrona russa que extravasa as necessidades do corpo com um “zumbi” – apesar das circunstâncias, são necessários dois tipos de carne para continuar vivendo.

O resto é… o resto. Entulhos cobertos de neve que atrapalham nosso olhar. Um branco intercalando o que interessa do que interessa.

A cena de prostituição infantil chega a ser um clichê. A própria personagem desmonta aquele absurdo desancando o protagonista e sua moralidade fora de contexto, ridícula – ali não existe espaço para aquela atitude; ali crime é não pecar. Não há necessidade de explicitar a podridão humana com arquétipos. Só faltou escalar a Juliette Lewis como uma traficante de drogas. A metalinguagem tentando reparar os erros de uma mácula no roteiro, assinado pelo próprio diretor.

O trabalho de Loznitsa remete à cinematografia do diretor argentino Gaspar Noé, especialmente ao filme “Sozinho contra todos” (2002). Infelizmente sem a violência cênica de Noé – crua, chocante e primorosamente trabalhada, sem gorduras –, autor da obra-prima “Irreversível” (2002).

Reforçam minha insatisfação as palavras de dois críticos. Luiz Fernando Gallego, apesar de, como eu, elencar pontos positivos, achou “Minha…” longo e pleonástico na defesa de sua “tese” sobre a maldade humana à flor da pele, o que afinal não chega a ser nenhuma novidade.

Já Carlos Alberto Mattos disse que críticos no mundo inteiro têm feito um bocado de contorcionismo para sustentar os elogios a “Minha felicidade” e contornar as evidentes armadilhas narrativas e temporais do filme. Para mim, aquilo soou como um sucedâneo do “Não Matarás” (1988) do Kieslowski, temperado por um grande ressentimento de Sergei Loznitsa com sua Bielorrússia natal. Um beco sem saída metafórico povoado por bons e maus, sendo ambos capazes de matar.

Quem quiser ver neve em abundância, recomendo “Whiteout”(2009). Em ambos os filmes, o branco embaça a ação dramática e enfraquece e reflexões mais profundas acerca de nossa condição. “Minha felicidade” peca pelo excesso: seria mais se fizesse menos. O gelo, manchado de sangue e pólvora, demora a derreter e a revelar o que há por baixo. Acredito, Janot, que esses argumentos são um pouco mais defensáveis.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. A cabeça do Janot estava a prêmio após a sessão em que assisti ao filme. Várias pessoas (entre aquelas que resistiram até o fim da projeção), com o homicídio doloso no espírito, queriam balear o Bonequinho que fez a crítica. Ouvi em silêncio, engatilhando no meu íntimo uma Magnum .45 e mirando na testa do sósia de Roberto Benigni ao som de Ai, se eu te pego, do Michel Teló. Respirei fundo… Lembrei que ainda não fui convidado para a Panelinha do Janot. Ironicamente, para o bem da saúde do DJ, dessa vez evitei que tudo acabasse em música: a marcha fúnebre…

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Fuja dessa roubada!!!

BIG BANG


Rendo-me,  estranha.  Resisto ao juízo final, Helena/ Carlinhos Mattos/ Janot.  Não sei se gostei, sabe? Nada sei.

Percebo sim – percebo? -, mais ou menos, espectadores que se vão em compasso Malick. Talvez esbarrem em mim…  e me previno ao lado do baleiro. Entrego-me à espera da visão de meus filhos na porta do Leblon.

A visão de meus filhos, é o que basta.  E digo: Não sei se vi um filme ou uma prece, se foi poesia ou maravilha. Não é roteiro, é um argumento; não é história, é um tema; não é narrativa, é fenômeno. Aquilo não é a província,  é uma passagem.  Um fenômeno sem data, sem hora e sem cortes. Os narradores não estão e a câmera valsa, infinita. A representação não é:  Não há personagens, pois eles  são criaturas (divinas). “A Árvore da Vida” me lança nos códigos além dos sentidos.

Outra dimensão, a da experiência artística. Remeto-me aos estudos de teoria da história e recordo-me de um pensamento meu ao conhecer a fenomenologia de Husserl:  Isto é cinema, isso aí. E agora não sei como foi possível ali traduzir filosofia, teologia, natureza e graça;  como foi atravessar o olhar pelos cantos e  pelas bordas, jogar–nos ao fundo da tela e chegar à criação. Rendo-me sim – agora sem restrição – à ousadia desse artista em plena indústria cultural, que desconhece receitas e parâmetros, e também todos os gostos. Entendo o senhor que, atrás de mim, ao findar o filme, desabafou revoltado: esse crítico é louco… É.

A familia de Malick é a minha, a sua, a nossa.  É – de fato ? – o ser família. A propósito: as fronteiras entre casas e jardins não existem, a despeito da tentativa do pai Pitt. Tampouco há fronteira entre o dentro e o fora – de casa e dos seres -, é quase o mesmo plano, sem cortes. Poder e Perda, Abismo e Luz, Ódio e Amor, as energias fundadoras ali estão em família, como arquétipo da criação do mundo. Totems e tabus, as grandes contradições como matéria de refundação:  a repressão pode ser amor, generosidade pode ser complacência, Ciência é Fé.  Forças contrárias caminham embaladas ao mistério.  Ao começo de tudo.  Malick nos convoca à essência, enfim descrédulo da “realidade”. Inicia-nos na regressão e na  transcendência, ensina-me a recomeçar.  Rendo-me, enfim, à visão de meus fillhos. BIG BANG. Chama.

Claudia Furiati

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33 vezes cinema

Prometi a um dos titulares deste blog um presente de aniversário em forma de texto. Pensei em escrever sobre um filme ou um assunto qualquer desses que nos endoidecem de cinema. Mas o meu xará Carlos Bacellar merece mais que um textinho de rotina. Considerando que blogs doidos costumam gostar de listas, e levando em conta também que o xará faz 33 anos neste sábado, resolvi juntar o útero ao agravidável.

Aí vai uma lista de filmes “numerados” de zero a 33. Quando havia diversas opções disponíveis, escolhi os mais bacanas. Um para cada ano do meu amigo. E mais 99 abraços.

Latitude Zero (Toni Venturi/Brasil)

Inimigo Públiconº 1 (Jean-François Richet/França)

Entre Dois Amores (Sydney Pollack/EUA)

Três Macacos (Nuri Bilge Ceylan/Turquia)

Diabo a Quatro (Leo McCarey/Irmãos Marx/EUA)

Matadouro 5 (George Roy Hill/EUA)

SeisGraus de Separação (Fred Schepisi/EUA)

Os Sete Samurais (Akira Kurosawa/Japão)

Oito Mulheres (François Ozon/França)

Oito e Meio (Federico Fellini/Itália)

Nove Rainhas (Fabián Bielinsky/Argentina)

Nove Semanas e Meia de Amor (Adrian Lyne/EUA)

Mulher Nota 10 (Blake Edwards/EUA)

O Demônio das Onze Horas (Jean-Luc Godard/França)

Os Doze Condenados (Robert Aldrich/EUA)

Sexta-feira 13 (Sean S. Cunningham/EUA)

Quatorze Juillet (René Clair/França)

O Quinze (Jurandir de Oliveira/Brasil)

15 Anos e Meio (François Desagnat e Thomas Sorriaux/França)

16 Quadras (Richard Donner/EUA)

Les Naufragés de la D17 (Luc Moullet/França)

Apollo 18 – A Missão Proibida (Gonzalo López-Gallego/EUA)

Modelo 19 – O Amanhã Será Melhor (Armando Couto/Brasil)

O Amor aos 20 Anos (Truffaut, Wajda etc/Europa e Japão)

S-21 – A Máquina de Morte do Khmer Vermelho (Rithy Pahn/Camboja)

Ardil 22 (Mike Nichols/EUA)

Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles (Chantal Akerman/

Bélgica)

24 City (Jia Zhang-Ke/China)

25 (Celso Lucas e José Celso Martinez Correia/Moçambique)

Inside Rooms: 26 Bathrooms, London & Oxfordshire, 1985 (Peter Greenaway/

Inglaterra)

27 Cenas sobre Jorgen Leth (Amir Labaki/Brasil)

28 Hours Later (Danny Boyle/Inglaterra)

29 Palms (Bruno Dumont/França)

Trinta Anos Esta Noite (Louis Malle/França)

Adalen 31 (Bo Widerberg/Suécia)

32 Variações sobre Glenn Gould (François Girard/Canadá)

33 (Kiko Goifman/Brasil)

Quem quiser que continue a relação até La Frontera Infinita (Juan Manuel Sepulveda/México).

Carlos Alberto Mattos

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Hoje começa o REcine!

De hoje (25) a 29 de outubro, as imediações da Praça da República, no Rio de Janeiro, mais precisamente o Arquivo Nacional, ganharão acordes e movimentos de música brasileira – é o REcine que dá largada!

Em mais de cinco salas, sempre com entrada franca, cem filmes serão exibidos mostrando O casamento perfeito entre imagem e música. A abertura, hoje às 18h,  contará com balé afro-contemporâneo, dança do maxixe, coral do Arquivo Nacional e, claro, cinema. Será exibido o filme inédito Apanhei-te cavaquinho – parte 1, de Ivan Dias. Já o encerramento, na sexta-feira, terá “Noite do Espantalho”, de Sergio Ricardo. Ah, momento “isto é muito para um pobre coração de filha”: minha mãe, Claudia Furiati, foi atriz deste filme.

Os detalhes da programação estão no site do evento (e logo abaixo):  www.recine.com.br

P.S. Merda: Paulo Henrique e Carlinhos Mattos! Aos amigos, tudo! Até o tempo escasso para escrever no blog…

Helena Sroulevich

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Série Faróis ganha mostra na Caixa Cultural e no Oi Futuro Ipanema, de 6 a 19 de setembro, com curadoria de Carlos Alberto Mattos

Alvo de cobiça da comunidade cinéfila, as cartas de navegação estética de documentaristas consagrados do Cinema Brasileiro – mapas que os auxiliaram a traçar rotas consistentes na traiçoeira, mas não menos instigante, linguagem cinematográfica que erige suas obras −, muitas vezes resvalavam na imprecisão do desconhecido e no comedimento da insegurança.

Esses documentos metafóricos, verdadeiros guias do discernimento autoral, precisavam ser iluminados com referências para que as produções dos diretores não se chocassem nos rochedos da mediocridade e soçobrassem no esquecimento.

São algumas dessas referências que o público poderá catalogar na Mostra Faróis do Cinema – Documentário Brasileiro, que será realizada de 6 a 19 de setembro, na Caixa Cultural (RJ) e no Oi Futuro Ipanema*.

Com curadoria do jornalista, pesquisador e crítico de cinema Carlos Alberto Mattos, a mostra retomará a série Faróis, dando nova luz ao trabalho que, entre abril de 2007 e abril de 2008, foi publicado no DocBlog, espaço de discussão sobre documentários que o crítico mantinha no Globo Online.

− O que acho mais interessante nesse projeto é ampliar a discussão para fora das autorreferências com que os cineastas brasileiros costumam discutir seus trabalhos – fala Carlos Alberto.

Na série precursora − que inspirou uma subseção da nova revista Filme Cultura (dentro da seção “E agora?”) −, 39 dos mais importantes documentaristas brasileiros tiveram traçado um rápido perfil e apontaram os cinco filmes que consideravam mais importantes na formação do seu olhar de cineasta.

Para tanto, valia listar todo tipo de filme: documentários ou ficções, filmes brasileiros ou estrangeiros, de qualquer duração ou formato. Ou seja, cinco faróis de navegação pelas águas revoltas do cinema.

Para cada filme escolhido como um de seus “Faróis”, eles escreveram pequenos comentários, alguns especialmente inspirados.

Dos 39 documentaristas do projeto original, 7 participarão da mostra (com seus perfis devidamente atualizados), aos quais de juntaram mais 3 cineastas que debutam com seus Faróis. São eles: Silvio Da-Rin, Sylvio Back, Sandra Werneck, Bebeto Abrantes, Eduardo Coutinho, Vladimir Carvalho, Jorge Bodanzky, Eryk Rocha, Maurice Capovilla e Octavio Bezerra.

Segundo o curador, a relação entre o criador e o consumidor de filmes que existe dentro de cada um deles é o foco dos Faróis.

− Creio que isso pode jogar novas luzes sobre os documentários brasileiros, situando-os numa linha de diálogo com filmes estrangeiros, filmes de ficção etc. – comenta Mattos.

Ele ainda destaca o principal atrativo da mostra, que a difere do projeto seminal.

− O principal é que os pequenos comentários publicados no blog podem ser estendidos e aprofundados numa conversa pessoal. O que na palavra escrita se resumia a um comentário breve poderá agora ser ampliado pela fala.

Os 10 documentaristas participantes se reunirão em duplas para conversar com o público sobre seus filmes e também sobre suas principais admirações e influências, ou seja, os seus Faróis. Os encontros serão sempre após a sessão das 18h30min, na Caixa Cultural.

O curador comenta que a mostra Faróis, assim como a série homônima, pretende ser uma contribuição para melhor compreendermos o documentário brasileiro contemporâneo, suas linguagens, escolhas e motivações.

− Minha expectativa é que essa rede de referências ajude a criar um novo entendimento do documentário brasileiro, pelo menos em relação aos realizadores que participam da mostra. Eles representam diversas tendências marcantes da produção documental no país – diz o crítico.

Projeto incubado na blogosfera

Afeito às novas tecnologias da informação, Carlos Alberto Mattos, autor do blog Rastros de Carmattos, espaço privilegiado para quem é apaixonado pela sétima arte, encerra nosso papo chamando a atenção para a origem virtual da mostra e seus desdobramentos para o mundo real.

− Interessante notar que este é um evento nascido de um blog. Isso demonstra a força da blogosfera, na medida em que ela pode gerar eventos e reflexões que saltam da internet para o offline da atividade cultural. Parece-me algo típico dos tempos atuais.

Mais informações e a programação completa da mostra podem ser conferidas em: www.faroisdocinema.com.br

Carlos Eduardo Bacellar

* Haverá sessões nos dois espaços. A abertura (homenagem a Mário Carneiro) e o encontro com os novos diretores dos curtas da Sessão Novas Luzes serão no Oi Futuro Ipanema. Já os encontros com os documentaristas da série serão todos na Caixa Cultural.

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(All!!!)less

O ator-diretor Dennis Hopper, ídolo da contracultura americana — detonada nos estertores da década de 1960 com “Easy Rider” (1969) –, acaba de carimbar, aos 73 anos,  seu nome em uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.

Quem acompanha o blog sabe que meu priminho ianque Joel Guimarães, apesar de bem novinho, já está sendo preparado para ser um esteta da sétima arte.

E não é que o pequenino resolveu homenagear o encrenqueiro, polêmico e conturbado Hopper de uma maneira bem original? Não sei que tipo de “vitaminas” hopperianas o papai Alex colocou na mamadeira do filhote, mas, assim que bateu a onda, Joel resolveu refilmar uma cena do documentário “American Dreamer”, de Kit Carson e Larry Schiller, que tem como foco o artista enlouquecido que, movido a drogas alucinógenas, mexeu com a cabeça de uma geração.

Nas filmagens, segundo informações do jornalista Peter Biskind em seu livro Easy Raiders, Raging Bulls: Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood, Hopper foi persuadido pelos diretores a passear pelado pelas ruas do centro de Los Alamos, para o deleite das câmeras. Em troca, Carson e Larry concordaram em realizar uma fantaisa do desvairado Dennis: arranjar cinquenta lindas garotas e levá-las para a casa dele para um “sessão de elevação da consciência”.

Como meu primo ainda é muito inocente para esse tipo de diversão (ou melhor, suborno), ele topou a parada em troca de alguns biscoitos.

Na primeira oportunidade, ele vai fazer um estágio com a Helena e passar uma temporada nas casas do Carlos Alberto Mattos e do Rodrigo Fonseca. Não quero que ele se torne um filisteu 🙂

Tenho certeza de que o garoto vai longe!

Vida longa, Dennis Hopper! Os doidos estão torcendo pela sua melhora.

Inté!

Carlos Eduardo Bacellar



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Patogenia do incômodo

Eu não ia escrever sobre este filme, mas o pedido da Helena é uma ordem (quando estou nos meus bons dias). Vá lá…

A nova navalhada do diretor paranaense Sérgio Bianchi, “Os inquilinos”, é uma escarrada na cara da classe média que contamina com o germe do incômodo. Tal patógeno não pode ser combatido pelos anticorpos da hipocrisia e dos valores deturpados, o que obriga muita gente a virar a cara para a brutalidade seca exposta na tela.

Marat Descartes é Valter, um chefe de família de baixa renda que trabalha num entreposto de frutas. Ele, sua mulher e os dois filhos têm sua rotina perturbada com a chegada de novos vizinhos.

Bianchi subverte o ditado que diz: “o que os olhos não vêem o coração não sente”. Inspirado (talvez inconscientemente) pelo experimentalismo dos diretores Daniel Myrick e Eduardo Sánchez em seu inovador “The Blair Witch Project” (1999), ele alimenta nossa angústia com uma violência sugerida, e raras vezes mostrada de fato (mesmo assim de forma reticente).

O paradoxo do filme reside no fato de que Bianchi nos brutaliza com suas lentes ao deixar somente uma fresta da porta aberta, de forma que não conseguimos distinguir com clareza o que se encontra do outro lado – somente imaginar. O diretor trabalha a ambiguidade polanskiana – lapidada com genialidade em obras do franco-polonês como “O bebê de Rosemary” (1968) e “O inquilino” (1976) – e pinta com tinta vermelha um ponto de interrogação em nosso discernimento.

Não sabemos se o protagonista, bombardeado dia a dia com cenas de violência (midiáticas e reais), está surtando por causa da paranóia ou se seu comportamento é fruto do instinto de preservação justificado.

Carlos Alberto Mattos, com seu olhar apurado, percebeu algumas rupturas na realização. Segundo o crítico, Bianchi nos entrega certas cenas de forma crua, sem nenhum tipo de preparo, e o espectador precisa engolir aquilo a seco. Em determinado momento, Valter é abordado de forma abrupta por seu chefe, que o questiona, do nada, sobre uma possível doença que o esteja afetando no trabalho. Outra cena nos mostra a conscientização repentina do humilde e despreparado Valter acerca de seus direitos trabalhista, assim, sem mais nem menos.

De qualquer maneira, o filme é um retrato perturbador da sociedade absurda em que vivemos. O próprio protagonista, sofrendo de uma miopia social causada pelas circunstâncias, não consegue enxergar que ele está preso numa maré de exploração e pobreza intransponível – um dos sintomas: ele e sua família acreditam, realmente, que não moram numa favela. Valter denigre os menos favorecidos do que ele, da mesma forma que é astuciosamente enrolado (e humilhado) por seu chefe. São todos animais na cadeia alimentar. O mais forte engole o mais fraco em prol de seus interesses.

Trabalhando de dia e estudando à noite, ele tenta remar, em meio a uma tempestade, com uma colher de chá, em direção a um futuro melhor. Esse futuro nunca vai chegar. A “escravidão do século XXI” é ainda mais perigosa porque ela é aceita sem revolta, assim como o cigarro: duas drogas legais (?) que envenenam a sociedade. Acontece que o tabagismo mata gregos e troianos; o egoísmo e falta de sensibilidade das elites só esfola os menos favorecidos.

Uma pena que o filme tenha sido tão maltratado pelo circuito exibidor…

Carlos Eduardo Bacellar

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