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Doidos ganha a televisão

No último sábado (19/6), foi ao ar, no programa Revista do Cinema Brasileiro (http://www.revistadocinemabrasileiro.com.br), da TV Brasil, reportagem com a participação deste que vos escreve. Tive a honra de representar o blog numa matéria que colocava novas mídias sob os holofotes, e dei minha primeira entrevista! Ah, moleque!

Em pauta, as sessões de cinema exclusivas realizadas para blogueiros. Atenta ao universo da Internet, a indústria da sétima arte começa a perceber a importância das plataformas alternativas na divulgação dos filmes.

Confiram o vídeo com a reportagem:

Investir no relacionamento com blogs especializados, por exemplo, pode ser uma ótima estratégia para exponenciar os esforços de comunicação. Muitos desses veículos possuem público fiel, e críticas e comentários, dependendo do teor, podem encher ou esvaziar salas de exibição. Como o número de pessoas que consome notícias pela rede aumenta a cada dia, os veículos virtuais têm importância capital no incremento do boca a boca.

Sem peias editoriais inflexíveis, os blogs utilizam, muitas vezes, a linguagem coloquial desregrada (abusada no tom certo), que é capaz de criar identificação imediata com os leitores. Trocando em miúdos: podemos imaginar algo como aquela famosa conversa com os amigos, após a sessão de um filme − que gera debates acalorados −, se estendendo para a Internet. Espaço não refratário a experimentalismos, os blogs acolhem bem algumas ousadias impensadas para os meios de comunicação tradicionais, além de abordarem temas que passam ao largo das pautas ortodoxas.

O Doidos, criado com o objetivo de se tornar local credenciado para discussões inteligentes sobre Cinema, vai completar somente 6 meses de vida, mas possui vasto material e leitores ilustres, figuras que enriquecem qualquer bate-papo. Eu, o Edu e a Helena queremos agradecer a todos que sempre acreditaram na nossa capacidade. Não deixem de passar por aqui sempre que possível.

Abraços!

Carlos Eduardo Bacellar

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Duas gerações barbarizando nas utopias

“Se o indivíduo é finito, o sentido está no outro.”

Ferreira Gullar

Utopia (u.to.pi.a) sf. Ideal que é impossível realizar; QUIMERA.

Instigado pelos comentários carregados de paixão da senhora Risomar Fasanaro, nossa leitora, resolvi escrever algumas linhas sobre o filme do Silvio Tendler, que tem provocado tantas discussões acaloradas. Como minha colega de blog, Heleninha “Guevara” Sroulevich, já contemplou, com muita categoria, o filme em um de seus posts, resolvi fazer algo diferente.

Levei meu pai ao cinema com o objetivo de, após o filme, trocar figurinhas com ele acerca da realização do Tendler. Contrapor duas experiências completamente diversas, e extrair o sumo desse bate-papo entre pai e filho de gerações distintas.

Seu Tebireçá Bacellar, vulgo Bira, nasceu em 1935, portanto, antes da Segunda Guerra Mundial. Economista por formação e observador atento, acompanhou todas as mudanças econômicas, políticas e sociais que movimentaram o mundo da segunda metade do século XX para cá.

O filho vocês já conhecem. Publicitário, jornalista e crítico de cinema diletante. Trinta e um anos de Ipanema nas costas – nascido nos estertores dos anos de chumbo. Órfão da década perdida de 1980. A década do enterro de muitas ideologias, que estigmatizou uma leva de alienados. Alienação que desembocou na geração retratada por Laís Bodanzky em “As melhores coisas do mundo”, mais preocupada com a festinha do fim de semana do que com os rumos políticos do país – repleta de sensações e vazia de decisões.

A troca de ideias acabou sendo transformada em dois textos que, espero, irão servir como elementos de reflexão. Na pior das hipóteses, se perderão no limbo dinâmico da rede e, quem sabe?, daqui a alguns anos serão desenterrados por um Indiana Jones do mundo digital.

Como sou mais afoito, soltei a verve primeiro. Embarquem comigo. O registro é longo, mas, se é para expiar a alma, vale a pena! No popular: deixem de preguiça, pô!

No livro Era dos Extremos – O breve século XX (1914-1991), o historiador Eric Hobsbawm, logo nas primeiras linhas de seu texto, na parte reservada para o prefácio e agradecimentos, diz o seguinte:

“Não é possível escrever a história do século XX como a de qualquer outra época, quando mais não fosse porque ninguém pode escrever sobre seu próprio tempo de vida como pode (e deve) fazer em relação a uma época conhecida apenas de fora, em segunda ou terceira mão, por intermédio de fontes da época ou obras de historiadores posteriores.”

Taí a resposta ao enigma do narrador de “Utopia…”. Silvio utiliza as vozes de Amir Haddad, Chico Diaz e Letícia Spiller como forma de se distanciar (propositadamente) dos ecos de sua memória. Deseja o afastamento porque hoje é outra pessoa. Assim como todos nós – e o seu filme – ele é um projeto inacabado. O que era verdade e falava forte ao coração ontem, já não tem o mesmo efeito hoje. Acredito que seria muito estranho para ele ouvir uma das “vozes” que já teve − impregnada pela ideologia de um jovem Silvio que queria mudar o mundo com uma câmera na mão.

O crítico Ely Azeredo, no livro “Olhar crítico – 50 anos de cinema brasileiro” (sim, vou falar muito sobre este livro), em sua análise de “Jango” (1984), do próprio Tendler, diz que, “apesar do peso da ideologia presente no relato histórico, a produção não é exemplar do que o crítico André Bazin estudou como documentário ideológico de montagem – caracteriza-se este tipo de documentário pelo livre-arbítrio na junção das imagens filmadas com outros fins, e pelos novos significados assim obtidos e induzidos pelo texto da locução”.

Em “Utopia…”, ao contrário, existe o arbítrio embebido das experiências do próprio cineasta, que, catalizado pela emoção, costura a história do pós-Segunda Guerra até a era Barack Obama – tecido cinematográfico estampado com as verdades do diretor.

Aproveitando uma miscelânea de depoimentos de indivíduos que viveram tudo aquilo e deram sua contribuição/desserviço à História de alguma forma (jornalistas, militares, poetas, filósofos, escritores, cineastas…) – criando o tal do doc mosaico –, o documentarista dá voz a inquietações, esperanças, ideias, desejos, ideologias e desilusões que preencheram o cerne de sujeitos engajados em modificar realidades, dentro de um determinado período do tempo.

Com seu “Utopia e Barbárie”, Silvio Tendler não quer nos impor o seu sonho, o que seria um absurdo. O que ele deseja é alimentar nossa vontade de sonhar. Quando miramos no impossível, mesmo que a gente não acerte o alvo, provocaremos questionamentos de paradigmas e ideologias. E transformações.

Assim como a História Natural, a nossa História funciona em ciclos.  É preciso que haja, em muitas ocasiões, destruição para que ocorra renovação. O segredo é ficar atento para aprender com esses momentos de cisão.

Novamente parafraseando Ely Azeredo, o filme de Tendler não deseja “furar o bloqueio da história oficial e da desinformação política”. Até porque seria uma tarefa temerária cobrir tantos acontecimentos marcantes em 2h. O que ele procura fazer é expor a todos nós feixes de nervos ligados à lembrança, muitas vezes turvada pela bagagem zeitgeistiana do próprio, e proporcionar um vislumbre do sangue que corre por baixo. Expondo o que existe de mais visceral em seu ser, e olhando fixo para nós, ele diz: acredite que nós podemos ser melhores.

Uma dica. Os interessados podem baixar (de graça!!!), no site do filme (http://www.utopiaebarbarie.com.br), a Revista “Utopia e Barbárie”, publicação acerca da empreitada de Tendler que traz textos interessantes de gente da estirpe de Moacyr Scliar, Salim Miguel, Arnaldo Bloch dentre outros. Ela é editada pelo jornalista Rodrigo Fonseca.

Carlos Eduardo Bacellar (o filho)

Agora é contigo, pai. Fique à vontade… E ele divagou sem lenço e sem documento.

Quando comecei a observar na fase de minha adolescência o comportamento das pessoas, o sofrimento de uma parte da população na cidade onde morava, e as regalias de alguns grupos sociais bafejados pela sorte, não consegui compreender o por que dessa desigualdade. O sofrimento de muitos não sensibilizava aquelas minorias abastadas.

Aos poucos, a compreensão desses fatos começou a ocupar meus pensamentos. O mundo onde estava vivendo era, em sua essência, muito contraditório. Todos tinham o direito de ter esperanças num futuro melhor, com menos desigualdade e com mais sentido de justiça social.

Com o passar dos anos, foi para mim tornando-se mais evidente que todos os homens em todas as cidades do mundo são parte de um contexto genético e histórico. A parte genética é uma herança inexorável. A parte histórica foi construída por gerações que nos precederam e nos legaram o acervo cultural de que desfrutamos.

As escolas filosóficas passaram a exercer influência preponderante em nossas vidas. Estas escolas, ou correntes de pensamento, são fruto da época em que viveram os grandes gênios. Suas ideias sempre tiveram ampla ressonância no âmbito das classes sociais, pois eram criadas para amparar e solucionar conflitos que se ampliavam na medida em que aumentavam as populações – cujos postulados partiam das lideranças nas diversas épocas da história da humanidade.

Estas escolas filosóficas tendiam a equilibrar as desigualdades sociais, acompanhando a evolução cultural e ajustando-se às formas de vida da sociedade. Dessa maneira, evitavam que situações mais catastróficas pudessem acontecer.

Todavia, a incapacidade de conduzir as massas de população, e de solucionar seus problemas, provocava a revolta popular. Os governantes se viam obrigados a impor suas ideias, adotando métodos drásticos como, por exemplo, o uso da força militar. Depois, partiram para formas mais drásticas de repressão, tais como métodos de tortura, assassinatos e mesmo o desaparecimento de pessoas.

Ocorreram genocídios em larga escala, verdadeiros holocaustos. A barbárie passou a predominar. Foi assim bem caracterizada desde o Império Romano, a Revolução Francesa (1789), a Revolução Comunista (1917), a Revolução Cultural da China (1966), chegando aos nossos dias com os atentados terroristas no qual se destacou a destruição das torres gêmeas em Nova Iorque, no dia 11 de setembro de 2001.

A partir do término da Segunda Guerra Mundial (1945), os EUA, aproveitando-se da vitória no conflito, e amparado em sua hegemonia militar, estabeleceram regras que os demais países foram obrigados a aceitar e a se submeter. O fortalecimento do dólar foi uma consequência.

Sutilmente, apregoaram ser a democracia a única forma de governos aceita, a mais recomendada. A mídia encarregava-se de incentivar nas lideranças de todo mundo as ideias de John Maynard Keynes. Por meio dos dirigentes políticos atuantes nos países de índole capitalista, apoiavam as classes econômicas formadas fundamentalmente pela aristocracia rural e pela burguesia industrial, as quais elegiam para o poder seus representantes – que por sua vez ditavam leis em benefício das classes abastadas.

Esse processo político resultou em reações populares. Ocorreu então a revolta das classes operárias, cada vez mais espoliadas. Para controlar a situação, as classes dominantes aliaram-se aos militares. Assim, nesse contexto, foi possível aos EUA apoiar o sistema capitalista, alimentando ditaduras em vários países. Na América do Sul, no final da década de 1960, durante a década de 1970 e início da década de 1980, os militares ocuparam o poder no Brasil. Uruguai, Argentina e Chile também sofreram com a ditadura militar.

Os golpes, com o pretexto de “proteger” as nações Sul-Americanas da ocupação pelo comunismo, tiveram como principal objetivo o endividamento desses países, mediante o empréstimo de dinheiro em larga escala – acompanhado do aumento progressivo da taxa de juros. O segundo objetivo era açambarcar as matérias primas desses países visando abastecer e alimentar o parque industrial dos EUA.

Certamente surgiram reações no âmbito das classes operárias e dos estudantes, e daí o confronto ideológico e político. As lideranças desses grupos, as verdadeiras lideranças populares, tomaram posição e, em consequência, houve enfrentamentos. Inúmeros líderes e seus seguidores foram presos, torturados, desaparecidos e mortos. Todos desejavam libertar-se da opressão e conquistar seus direitos políticos, dos quais foram cerceados durante 25 anos.

Tebireçá Bacellar, vulgo Bira (o pai)

A História da Humanidade tem um pouco da “História sem fim”, de Michael Ende. Realidade e fantasia se entrelaçam, movendo todos nós em direção a algo − não necessariamente algo melhor, mas algo diferente. Assim como no livro de Ende, procurei utilizar a cor para diferenciar duas realidades complementares: desilusão x esperança; experiência x ímpeto da juventude; tristeza x alegria; informação x alienação. Crie você o sua dualidade, o seu Ying e Yang. Ninguém está certo; também ninguém está errado.

Encabeça o meu texto uma frase do iluminado poeta Ferreira Gullar que deveria definir o sentido de nossa existência – a verdadeira utopia. Como ilustrar essa afirmação? Fala aí, Joel 🙂

(*)

(*) Como ele ainda é muito novinho, dei uma forcinha na escolha de uma imagem da Internet.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Risomar, só um puxãozinho de orelha na senhora. Pega leve com o Carlos Alberto Mattos. A grandiosidade dele no âmbito do Cinema Nacional (não vou restringi-lo à crítica) é inversamente proporcional à compleição franzina e à desvantagem vertical que ele ostenta. Mas, graças a Deus, ele tem amigos como eu para defendê-lo. Nós formamos uma dupla no estilo que Arnold Schwarzenegger e Danny DeVito interpretam no filme “Twins” (1988), do diretor Ivan Reitman.

O xará é um cara generoso e paciente. Enquanto nós ainda estamos no jardim da infância da análise estética cinematográfica, tentando montar naves à moda Star Wars com Lego, ele já é PhD. E sempre teve a grandeza de ouvir e responder, com todo carinho (bom… nem sempre com tanto carinho e polidez…), este curioso que escreve do lado de cá – até nos questionamentos mais elementares. E não se esqueça nunca de que arte é dissensão. No dia em que todo mundo assistir a um filme e achar a mesma coisa, o cinema, o verdadeiro cinema, deixará de ser expressão artística e se transformará em commodity. Espero que possamos continuar trocando. Um abraço afetuoso para a senhora.

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Conta do Oscar

A galera aqui do blog fez suas apostas no dia 14 de fevereiro.

Confira o post: https://doidosporcinema.wordpress.com/2010/02/14/bolao-do-oscar/

Com dor tarantiniana e percebendo que em briga de marido e ex-mulher, só a Academia para meter a colher, anuncio as 16 categorias avaliadas, e o saldo da disputa interna:

Melhor filme:  “Guerra ao Terror” (ponto para CB – e há quem duvide do poder da boca de urna… Lamentável!)

Melhor direção: Kathryn Bigelow (ponto para CB)

Melhor ator: Jeff Bridges (ponto para CB e EV)

Melhor atriz:  Sandra Bullock (ponto para CB e EV)

Melhor ator coadjuvante: Christoph Waltz (ponto para CB, EV e HS)

Melhor atriz coadjuvante: Mo’nique (ponto para CB, EV e HS)

Melhor animação: Up (ponto para CB, EV e HS)

Melhor filme estrangeiro: O Segredo dos Seus Olhos (ninguém acertou, mas eu fiquei MEGAFELIZ. É bem mais filme que “A Fita Branca”!)

Melhor direção de arte: Avatar (ponto para CB, EVe HS)

Melhor cinematografia: Avatar (ponto para CB e HS)

Melhor montagem: Guerra ao Terror (ponto para EV e HS)

Melhor som: Guerra ao Terror (ponto para HS)

Melhor edição de som: Guerra ao Terror (ponto para HS)

Melhores efeitos visuais: Avatar (ponto para CB, EV e HS)

Melhor roteiro original: Guerra ao Terror (niguém levou e eu, sinceramente, quero saber onde os acadêmicos viram roteiro neste filme… sem falar nos escândalos que antecederam a cerimônia!)

Melhor roteiro adaptado: Preciosa (ninguém levou e, como diria meu amigo Carlinhos Mattos, depois de ver Truffault quem é que engole “Preciosa”?)

Carlos Eduardo Bacellar (CB): 10 acertos

Edu Valverde (EV): 8 acertos

Helena Sroulevich (HS) : 9 acertos

Bom, a responsabilidade de assistir a “O Mistério de Feiurinha” e criticá-lo, é do Edu. Como a gente tem que ser solidário com os amigos até no pior dos mundos, Edu, eu vou contigo. É só marcar. Mas faça isso antes que eu pegue o primeiro avião com destino a Los Angeles e dê na cara do Tom Hanks. Pela primeira vez, quis amassar aquele narigão.  Correndo em direção ao palco, mais parecia reencarnar o “Forrest Gump”. E protagonizou a apresentação de melhor filme mais desglamourosa da História da Academia. Pega pelo braço, Kathryn Bigelow não terminara de se refazer do primeiro susto, e já era lançada ao palco novamente. Ela tentou, mas o tico e o teco travaram e suas  sinapses não encontraram ressonância nas distintas árvores das almas espalhadas pela plateia. A bem da verdade é que nem ela, nem eu, nem ninguém, entendeu o grande prêmio. Wilker até que se virou bem na transmissão da Globo, afunilando as opções “acadêmicas” em dois grupos: os mega e os nano-orçamentos… mas, mesmo assim, chamar o bagelow (pão da Bigelow) de tendência da cinematografia independente é demais! B.O. hollywoodiano por B.O hollywoodiano, “Bastardos Inglórios” é muito mais filme. Muito caído “Guerra ao Terror” levar a estatueta-mor. No Rio, só está em cartaz no Laura Alvim (e é o que chamamos de fim de circuito!). Vamos aguardar a mexida/reprogramação (será?) nas salas exibidoras na sexta-feira!

P.S. A sequencia Tom Hanks & Kathryn Bigelow merece ser “apreciada”.

Helena Sroulevich

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O nome dela é Claireece “Preciosa” Jones (a surpreendente Gabourey Sidibe, merecedora de figurar entre as cinco indicadas ao Oscar de melhor atriz), e sua história, angulada de forma crua e invasiva, precisa ser vista. Caso alguém acredite estar no fundo do poço, é melhor não deixar de conferir “Preciosa”, produção que amplifica na telona o drama ficcional desta garota de 16 anos.

A narrativa, que ganha vida pelas mãos do incipiente, mas promissor diretor americano Lee Daniels – que tinha como filho único na direção de longas a produção “Matadores de aluguel” (2005) -, possui tintas de um conto de fadas às avessas – é baseada no livro “Push”, da poetisa e artista performática Sapphire, nome artístico de Ramona Lofton.

Entre 1983 e 1993, a agora também escritora dava aulas no Bronx, ensinando adolescentes e adultos a ler e escrever. Construiu “Preciosa” mesclando experiências de diversos ex-alunos e de pessoas que conheceu quando trabalhou como atendente em um abrigo para mulheres do Harlem. A personagem  é o “Frankenstein” de Sapphire, e reflete todos os nossos preconceitos.

Por meio das lentes de Daniels, percebemos que a grama do vizinho não é tão verde como imaginamos, e é regada com lágrimas de rejeição e incompreensão (poderia ser um filme de Spike Jonze).

“Preciosa” é uma adolescente negra, pobre, obesa e analfabeta. Vive no Harlem nova-iorquino com a mãe Mary – interpretada de forma visceral pela atriz americana Mo’Nique, mais conhecida por seus trabalhos como comediante e favorita ao Oscar de melhor atriz coadjuvante -, de quem sofre constantes abusos físicos e psicológicos. A coitada tem sua infância dilacerada e seus valores deturpados. Claireece enxerga dor, rejeição e ódio de fontes que deveriam jorrar amor e compreensão.

Espera seu segundo filho, que, tanto como o primeiro – uma menininha com síndrome de Down, apelidada de Monguinha -, é fruto da violência do pai (Rodney Jackson), que a estupra e de quem contrai o vírus HIV. Não é de se admirar que ela tenha dificuldades na escola.

Mas é justamente na educação que Claireece encontra sua tábua de salvação, sua esperança, uma forma de continuar seguindo em frente e vislumbrar um futuro melhor para ela e seus filhos.

Em uma instituição alternativa, ela terá a ajuda da educadora Rain (Paula Patton) – a professora (linda!) que eu desejava ter no segundo grau… Deus não me deu essa benção… – e de um grupo de amigas problemáticas, cada uma com uma mochila nas costas entulhada de dramas pessoais. Completam a falange Lenny Kravitz, na pele do enfermeiro boa praça John, e a assistente social vivida por uma irreconhecível Mariah Carey (que falta faz uma maquiagem…). Aqui entre nós, alguém deve ter dito para a cantora que ou ela “Monster” (2003), ou nada de reconhecimento.

Aliás, no primeiro momento em que “Preciosa” e a personagem de Mariah (senhora Weiss) se encontram, a menina deixa aflorar resquícios da vampiromania pop que não larga de nossos cangotes – é uma forma de demonstrar, com seu limitado repertório, que sua vida está condenada a uma escuridão sem fim, e sem um Edward para ampará-la.

“Preciosa” encontra um meio de fugir de sua existência traumática se refugiando em sua imaginação. A professora Rain (Deus escreve certo por linhas tortas: eu não teria concluído o ensino médio se ela tivesse me dado aulas, e não por causa da falta de competência da docente, mas sim do excesso de conteúdo de seus dotes físicos) é um vetor para que ela perceba que a vida real pode ser especial – que ela é especial – e pode ter seus momentos de felicidade e satisfação. Claireece só precisa apostar nela mesma, e ousar ser tudo que ela pode ser (não resisti ao clichê), independentemente de qualquer outra coisa.

No início, eu disse que a história dela precisa ser vista. Para “Preciosa” Jones, ela precisa ser escrita – a tinta e a pena como formas de expurgo e como símbolos da vitória que ela pode conquistar por meio da educação, ferramenta de transformação e integração.

p.s. Mo’Nique só não ganha o Oscar se a Academia encrencar com o fato de ela não ter raspado os suvacos na hora de filmar. Não precisava ser tão visceral, né? Deu mole!

Carlos Eduardo Bacellar

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Lostmaníacos

Os fãs estão roendo as unhas na expectativa da sexta e última temporada de Lost, que estréia por aqui na próxima terça-feira, dia 9/2, às 21h, no canal AXN.

Muitos aficionados – como eu – fuçam a Internet atrás de respostas para os enigmas da série. Acabei esbarrando em diversas paródias hilárias sobre as aventuras da trupe do Oceanic Flight 815. Selecionei para vocês um vídeo engraçadinho, que faz uma brincadeira musical alicerçada no grande ponto de interrogação que é o programa. Rob Marshall poderia ter pensado em algo do tipo, em vez de desperdiçar milhões de dólares com “Nine”.

Graças a Jaga, Senhor dos Thundercats, há muita gente criativa que não tem nada melhor para fazer e fica montando esses vídeos que preenchem nossos momentos de ócio.

p.s. Na terça-feira, dia 9/2, das 21h às 23h, estarei incomunicável. Se algum recado for urgente e não puder esperar, azar o dele.

p.s.2 Sei que o post nada tem de cinema, mas eu não resisti… Quem sabe não vem o filme da série por aí?

Carlos Eduardo Bacellar

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Nine mais para zero

Sob pesada artilharia da crítica especializada, “Nine”, o novo musical de Rob Marshall, diretor do divertido e contagiante “Chicago” (2002), não emplaca no circuito e desce amargo na goela de quem teve a coragem de gastar dinheiro para conferir “a obra”.

Filme que utiliza como matéria-prima a produção 8 ½, de Federico Fellini – que deve estar saindo de enquadramento na cova –, traz Daniel Day-Lewis no papel de um diretor italiano – Guido – em crise criativa. O realizador acaba se isolando e, por meio de delírios da imaginação, recorre às mulheres que marcaram sua vida em busca de inspiração, misturando ficção com realidade.

Marshall não conseguiu realizar com Day-Lewis a mesma mágica que transfigurou Richard Gere em um advogado canastrão e talentoso que dança e canta de formas quase convincentes. O ator inglês canta muito mal – por incrível que pareça, canta pior do que eu quando resolvo incorporar James Blunt debaixo do chuveiro, com meus tenebrosos falsetes e tudo.

Os números musicais até têm sua graça no quesito coreografia. As letras, por sua vez, são sofríveis e não empolgam – reforçam de forma insistente a óbvia conotação italiana do filme. Para não dizer que nada se salva, destaque para os números de Kate Hudson (a inesquecível roadie Penny Lane, de “Quase famosos”) e da sensação francesa Marrion Cotillard – até agora não descobri nada que ela faça mal. Será que Cotillard tem bafo?

O que mais inquietou meu espírito cinéfilo foi o fato de não ter entendido nada acerca do filme de Fellini – mesmo batendo várias punhetas mentais em casa. Já no caso da produção de Marshall, entendi tudo! – sem o menor esforço. Traduzindo: na lógica do mundo da sétima arte, isso quer dizer que o segundo filme não presta.

Outro detalhe sofrível é ver o furacão espanhol Penélope Cruz – a indefectível musa de Pedro Almodóvar -, que já virou Tom Cruise do avesso e faz até chover no deserto, apresentar um número provocante utilizando uma meia calça do tempo da minha avó, opaca e sem sal. Que falta de sensibilidade de Marshall… O que é bonito é para ser mostrado, e não eclipsado por um figurino supostamente de época.

Daniel Day-Lewis está no fundo do poço. E aquela maçaroca escura que ele avista aos seus pés não é petróleo, cheira diferente.

“Nine”, dando um chega para lá no politicamente correto, ainda vai disputar com “É proibido fumar”, da diretora brasuca Anna Muylaert, o título de realização cinematográfica recente na qual o protagonista mais fuma em cena. Chega a ser sufocante ver Day-Lewis tragando um cigarro atrás do outro. Não sei qual dos dois vai para o Guinness Book. A favor de “É proibido”, conta o fato de que a personagem vivida por Glória Pires tenta largar o tabagismo. Rob Marshall, que já enfiou o pé na jaca mesmo, podia abusar da licença poética e inventar outro meio de alívio para o estresse do personagem Guido, como um Twinkie – versão do Tio Sam do nosso bolinho Ana Maria -, por exemplo. Ponto para “Zumbilândia”!

Não sei por que não dei ouvidos à crítica e resolvi comprar ingresso para essa roubada… Pois é, ela de vez em quando acerta. Nos últimos tempos parece até previsão do tempo, tem dado muitas bolas dentro.

Os únicos apelos para assistir “Nine”, obviamente, são as musas, mas não todas. Coloquem na conta Penélope Cruz, Kate Hudson, Fergie (a profissional que eu pedi a Deus!!! I got a feeling!!!), Marrion Cotillard e, forçando a barra, Nicole Kidman. A plastificada Sophia Loren e a anciã Judie Dench não se salvam. Coitada da pobre senhora Dench, que foi obrigada a usar uma indumentária que eu não aprovaria para uma filha minha de 18 anos. Vamos com calma… Nem tudo pela arte, por favor.

É melhor economizar a grana para comer no McDonald’s. Tanto o filme como a rede de fast-food são uma porcaria. Mas o Mc tem a vantagem de oferecer ao cliente, na compra de um McLanche Feliz, brinquedinhos inúteis para distraí-lo nos momentos de tédio no trabalho e em casa. Da última vez que estive lá, adivinhem vocês?, a cadeia de “enlatados” americana estava oferecendo lembranças do filme sensação do momento, “Avatar”. Eu tenho o Jake Sully que acende no escu… Bom, deixa isso para lá…

Acho que já espinafrei “Nine” o bastante. Agora que desabafei, sinto-me bem melhor. Quem foi que disse que eu preciso de terapia?

Carlos Eduardo Bacellar


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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Fuja dessa roubada!!!

Façam suas apostas, a lista saiu!

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood apresentou, na manhã de hoje, a lista com os indicados ao Oscar 2010. A novidade é a presença de dez filmes na disputa principal pela mais cobiçada honraria do cinema mundial.

E, como não poderia deixar de ser diferente, os apaixonados por cinema devem ter começado a elaborar suas listas de apostas. Já adianto que teremos um bolão aqui no blog. Edu e Helena, estejam comunicados.

Não me considero esquizofrênico (posso estar enganado), mas, ultimamente, os deuses do cinema têm cochichado palpites nos meus ouvidos. Por isso, estou extremamente confiante com relação às minhas premonições. Como todos já estão cientes dos indicados, vamos às apostas nas principais categorias, acompanhados dos devidos comentários:

“Avatar” e “Guerra ao terror” disputam nove estatuetas. James Cameron vai enfrentar diretamente sua ex-Neytiri, a detonadora de emoções Kathryn Bigelow, em sete categorias: filme, direção, mixagem de som, edição de som, trilha sonora, montagem e fotografia. Farpas vão voar para todos os lados!

No quesito direção, Kathryn é barbada. A cineasta de 58 anos acaba de ser laureada como melhor diretora de 2009 pelo Directors Guild of America (DGA), o sindicato de cineastas dos EUA. Como se isso não bastasse, impulsionada pela explosão estética e psicológica de seu filme, a diretora de “Caçadores de emoção” (1991) vem arrematando prêmio atrás de prêmio. Entre eles estão os das associações de críticos de Los Angeles, Nova York e Washington. “Guerra”, negligenciado pelo circuito exibidor brasileiro e lançado diretamente em DVD no meio do ano passado, por força dos elogios da crítica especializada, garantiu um lugar ao sol: debuta tardiamente nos cinemas na próxima sexta.

Já comentei em um post anterior que “Guerra” também deverá levar para casa o prêmio de melhor filme. Avatar é uma produção impactante e inebriante, uma orgia sinestésica para os sentidos, mas não tem a profundidade do roteiro do principal concorrente.

Como melhor ator deve levar Jeff Bridges, no papel do cantor country Bad Blake – apesar da força de Morgan Freeman no papel de Mandela, pouco comentado até o momento por causa da estréia tardia de “Invictus” aqui no país. O resto corre por fora.

A estatueta de melhor atriz já é de Sandra Bullock em seu papel na trama “Um sonho possível”, podem escrever. A ex-queridinha de Hollywood deu a volta por cima e arrebatou a crítica com sua atuação nesta produção, que deverá alçá-la ao rol das principais atrizes do momento. O longa estréia por aqui em março.

Alguém acredita que deve haver zebra na premiação de melhor ator coadjuvante? A unanimidade Christoph Waltz (“Bastardos Inglórios”) provavelmente está, neste momento, em algum castelo na suíça estourando champagne cercado de modelos (bom, eu estaria fazendo isso se fosse ele).

Melhor atriz coadjuvante: o Oscar vai para Mo’Nique (“Preciosa”), fácil.

Infelizmente o Brasil ficou de fora da premiação de melhor filme estrangeiro. Minha aposta é na produção germânica “A fita branca”, do diretor Michael Haneke, que flanou por aqui no último Festival do Rio.

Na categoria roteiro adaptado, faço fé em Neill Blomkamp e Terri Tatchell (”Distrito 9”). Quentin Tarantino deverá colocar as mãos na estatueta de melhor roteiro original com seu violento – mas não menos maravilhoso – ”Bastardos inglórios”.

Vou resumir a limpa dos prêmios técnicos com uma só palavra: “Avatar” (com as exceções óbvias).

Fechando a conta, ”Up – altas aventuras” leva na categoria animação. Ninguém está imune ao simpático e ranzinza velhinho, dublado em português pelo humorista Chico Anysio.

A cerimônia ganhou um charme especial sob a batuta da atriz Anne Hathaway (absurdamente linda e charmosa… meu reino por cinco minutos com ela!!!), uma das queridinhas hollywoodianas do momento, que comandou a apresentação dos indicados.

Agora, me digam… Se Anne “entorta pescoços” Hathaway chegasse para vocês e pedisse alguma coisa, com uma carinha de cachorro abandonado e aqueles olhos expressivos e amendoados (parecem até riscados pela mãe natureza com traços de mangá), alguém diria não? Pois é… Alguém ainda duvida que as mulheres irão dominar o mundo?

Carlos Eduardo Bacellar

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