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Juan Ernesto, Perón e Che

Infancia-Clandestina

A mentalidade indica: guerrilheiro é terrorista e este é fanático e/ou assassino. Recriados como gente íntegra, amantes e missionários de uma causa, é, certamente, doutrina ou retórica. Mas que nada, outro olhar é possível. “Infância Clandestina” dissolve o estereótipo em plenos “anos de chumbo” – o que é, no mínimo, uma prova de coragem.

Aos primeiros instantes, cenas nervosas, picotadas. Paramilitares tiroteiam o casal, enquanto se conclui na tela, em breves legendas, a precisa contextualização, fundamental à estrutura da obra. O espectador é informado que a direita militar (antiperonista) dá o golpe culminante em 1976 (em conjuntura diversa à brasileira, embora no marco da nova projeção dos Estados Unidos para o continente), após um período de intensa perseguição a militantes. Não é à toa que o produtor do filme é Luis Puenzo, diretor de “A história oficial” (1985, Oscar de melhor filme estrangeiro)…

Ela, a História, se destrincha através das pessoas, num microcosmo vivo e profundo. Ao final – e que final! –, a comoção prende ao escuro da sala, à reviravolta na mente. E viva o cinema argentino.

infancia-clandestina_oreiro

O filme é um menino. É sobre ele, Juan/Ernesto (Teo Gutiérrez Romero), sua pele, beleza, poros e respiração. O som, editado com primor, frisa o compasso do ar que lhe entra e sai. A câmera perscruta obsessiva a sua cútis, vai às entranhas, persiste em closes. Ao se posicionar no esconderijo, na casa, é a imersão na alma. O ator é uma dádiva, sim, que se escora na apurada interpretação de César Troncoso e Natalia Oreiro (o casal militante, pais do menino), com o plus extraordinário de Ernesto Alterio (Beto, o tio). Eles se tornam críveis, loucos e sãos, com uma “ideologia prá viver”… Já Cristina Banegas, intérprete da avó do menino (Amália), pontua o antagonismo ao sentimento e razões dos guerrilheiros, situado com inteligência pelo diretor Benjamín Ávila.

Este põe a cara a tapas, libera e compartilha o seu segredo. Também autor do roteiro (com o brasileiro Marcelo Müller), escancara o paradoxo da luta armada na vida do menino, ele mesmo um paradoxo (nascido Juan, clandestino Ernesto), ele mesmo Benjamín. No entanto, Ernesto tem consciência de Juan e este de Ernesto, com seus limites e possibilidades, sugerindo domínio sobre o conflito, efeito da vivência no mundo adulto. É alguém que sonha e se aceita, rebela-se e revela amor por Maria, uma colega de escola. “Eu sou o que eu sou, mas sou diferente, entende?”, é o que lhe diz em momento de entrega. Tal lucidez se manifesta, em ápice, na cena final.

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Lacunas da narrativa são preenchidas por animações, a coincidir com as emoções infantis. Assim se conta duas mortes, do tio e do pai. Há visões em câmera lenta, correspondentes às sensações ou à memória afetiva, como a frase “Aconteça o que acontecer, nunca se traia” e a iniciação para degustar amendoim com chocolate com o tio Beto.

Em “Infância Clandestina”, vida é sinônimo de entrega em que transitam opostos complementares. Horacio é disciplina, Beto a sensualidade, a natureza do menino Juan/Ernesto é a referência poética a Juan Peron e Ernesto (Che) Guevara.

Claudia Furiati

Infancia-Clandestina_poster II

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Um olhar enviesado

By Kiarostami não se recomenda paixão no Japão. Seu “Um alguém apaixonado” é um rumo ao nada numa urbis claustrofóbica. Contexto totalitário: o célebre iraniano trapaceia com o espectador, que resta à deriva sobre a narrativa, pinçando sentidos para personagens e ações.

Muna-se de nervos de aço para acompanhar o filme. É um noite/dia/tarde de respiração presa na glote, entre lapsos entre pensamento e ação, lentas lacunas de desejo ou ato, à medida oriental. A obra persegue a verossimilhança do “tempo real” (intencional?) que resulta em ritmo aflito que resiste ao CORTA! Menos mal que se desfruta, em trilha, o balanço de Slowtrane, de John Coltrane…

A desorientação nos é imposta de início. A conversa que se escuta não é bem a que se vê ou será que é? Bar apertado, ruídos opressivos, ofuscam, atordoam. Adiante, uma narrativa entre cubículos, sem espaço sequer para abrir portas. Nos carros, entretanto, tudo parece caber confortável. Fortuitas conversas compõem o xadrez da dúvida e, em nossa alma, o incômodo. Perdoai-vos: eles, personagens, não sabem o que querem (exceto “um alguém apaixonado”). Ou será que podem saber?

Kiarostami nos lança a Tóquio de olhos enviesados. Akiko (Rin Takanashi) é a jovem no bar, supostamente garota de programa, a quem um homem insiste que vá ver um conhecido. Reluta Akiko, mas sem certeza, pois precisaria encontrar sua avó. Talvez. Ela namora, também sem convicção, um jovem mecânico – o “alguém apaixonado” – que desconhece seu ofício. Fechada em um táxi, segue, sem saber, rumo ao tal “conhecido”, atravessada por rastros de infinitos néons. O homem é um velho senhor, que vive em diminuto apartamento. Akiko se deita em sua cama, mas ele tampouco parece interessado no serviço. Dia seguinte, entre portas e vidros de carros, o destino planta a peça – que falta – e revela ao apaixonado o engano.

A vida empurra a todos, a rodo. O velho é levado a uma encenação sem volta, move-se como alucinado a proteger a moça, com um ritmo cardíaco de dar nó e dó, até que… (!) Quase o harakiri, onde o que resta é o dom Kiarostami de iludir.

Claudia Furiati

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Cool Clooney

 

Nossa veia não resiste ao declínio do Império Americano e vamos com “Tudo pelo Poder” na despedida de 2011. Quanto a George Clooney, confesso, é aquela chuva no molhado feminino com direito a Globo de Ouro.

Keep cool…

É verdade que nossos irmãos do Norte adoram a catarse sobre o poder deles. Mesmo assim, meu alento perdura ao sair da sala de cinema, ainda que a esquina do Leblon já tenha cervejeiro demais. Huum… Deve ser esse estilo Clooney (vide Nespresso): cool, original e temporão, um quê balzaquiano de boa safra. Quase noir, embora a cores, o filme é uma certeira síntese entre drama político e thriller, ficção, documento e POLÍTICA.

George, para os íntimos, vem de gostosa contenção. Com (aquele) olhar rasgado, narrador em terceira pessoa e personagem (Governador Mike Morris, candidato à presidência), traz lembranças de “Todos os Homens do Presidente”,”JFK”, “Nixon”, “Nos bastidores da notícia”, “O Presidente”, The West Wing e ainda o caso Monica Lewinsky, a estagiária de Bill Clinton. Porém, qualquer referência desta no personagem de Evan Rachel Wood, é uma mera coincidência, dado que para todo político charmoso há sempre uma boa estagiária…

Nada vulgar no filme, entretanto. Caricaturas passam ao largo. A lente se insinua pela fenda, digladia-se com a linhagem das obras sobre os escaninhos do poder, as campanhas presidenciais e o controle da informação. Violento é o cinismo e ferino é o vazio que se instala na medula da democracia made in USA.

Sim, a história política norteamericana está repleta de The Ides of March (título original de “Tudo pelo Poder”). Adaptação de uma peça de Beau Willimon, também co roteirista, a expressão se refere a 15 de março no calendário romano, ao ponto do meio, à lua cheia e a Julio César, quando um adivinho previne o imperador romano sobre os que tramam contra ele, no drama de William Shakespeare.

O protagonista do filme, o comunicador Stephen Myers (personagem do excelente Ryan Gosling), apesar de descrito como idealista nas sinopses em circulação, é por demais inteligente para ser naive. A interpretação, sob a batuta de Clooney, contém um tom necessário de farsa, desde o início. Ao se tornar o alvo da corrupção, o golpe de Stephen é de mestre, uma vendetta na democracia (como num regime autoritário). No clímax, o bloco do poder se assume intérprete da vontade cidadã. Rearranja-se, após ceder ao dono da área, o Senador Thompson (Jeffrey Wright), um negro, a propósito… Quanto à mídia, faz de tudo pelo poder, mas não é poder algum: apenas se ajoelha ao interesse dominante.

Mais que ilustres coadjuvantes — Philip Seymour Hoffman (Paul Zara), Paul Giamatti (Tom Duffy), Marisa Tomei (Ida Horowicz) — alicerçam a moldura. Como nas obras em círculo (vicioso), “Tudo pelo Poder” termina como começa. Stephen Myers (Ryan Gosling) será apenas — e sempre — o fantoche que antecede a cena do candidato. Não voltará a ser como antes, embora seja o mesmo.

Claudia Furiati

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Circo Esperança

Sabe o que me parece mais gozado em “O Palhaço”? Incrível mesmo? É que teria tudo para dar errado. Título e tema fora do script metropolitano, um ruído informático mercadológico, um tropeção desses de picadeiro. Mas conquistou o público.

Podia. “O Palhaço” podia ter dado em trapalhada, mas obra de arte com sucesso continua aquela combinação sem receita, às vezes até subversiva (!).

Suponho que na sessão do último sábado (16hs, Unibanco Arteplex), boa parte do público era de quem nunca foi ao circo ou sempre desdenhou palhaço, nem nunca viu o Carequinha na TV (Gente, eu vi…). Porém, o pessoal se encantou e se intrigou com Selton Mello, um palhaço deprimido na vida, cuja graça persiste além da arena circense (como constata em fala sutil, a atriz Fabiana Karla), embora ele a julgue perdida.

A narrativa, cujo fio é o itinerante Circo Esperança, nos assalta de surpresas. “Pontas” divinas não faltam (Moacyr Franco, Jorge Loredo, Tonico Pereira e a própria Fabiana Karla). Ao contrário, os atores dão o tom da competente produção de Vânia Cattani. Partem de um inteligente desenho de “casting”, escolhidos a dedo, conhecidos ou não. São quase a alma do filme — a começar por Paulo José –, se não fosse a maestria da “posta em cena” do diretor Selton Mello, escoltado por uma direção de arte (Cláudio Amaral Peixoto) e figurinos (Kika Lopes) de grande beleza, em sintonia com uma bucólica Minas Gerais.

O filme nos provoca uma gostosa saudade: das crianças que somos e do ingênuo humor brasileiro. Se o palhaço Selton Mello já não tem esperança, perdeu a graça de viver, a sua expectativa é, no mínimo, pueril. Quer alguém que o faça rir, além de um ventilador, que vira a sua hilária obsessão, muito bem pontuada pelo roteiro. No fim de contas, o palhaço quer uma ventania que tudo desarrume. Ele precisa romper.

Prendendo o espectador do início ao fim, com alguma ameaça de perder o alinhavo nas sequências anteriores à despedida do Palhaço da Trupe Esperança, a obra indica que a ruptura é o campo da descoberta. Com ela, ele reencontra o riso, abre-se ao amor e compra, enfim, um ventilador, quase em pacote, um depois outro. E regressa ao Circo Esperança, a si mesmo.

Após “Feliz Natal”, seu primeiro longa, em “O Palhaço”, Selton faz um reveillon de gala e se revela, precocemente, um diretor sensível e maduro.

Claudia Furiati

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Pulsão de vida que se esquiva do rebate falso

Gustavo Taretto é um cineasta cronista e talvez lembre um pouco Woody Allen, talvez ele o tenha em mente (o Allen de Paris ou Nova York). Em seu primeiro longa em cartaz tardio, o cineasta inicia o filme como quem descortina afrescos e arestas de Buenos Aires, para logo estar ali nas medianeras, paredes laterais dos edifícios. Marca assim o tema, fronteiras da distância, em movimentos de linhas e blocos buenarenses, à procura do belo no caos.

Ao falar da bela Buenos Aires, Taretto esbanja de interseções arquitetônicas para aterrissar em duas kittinets, de dois seres. Lança um sinal: feitos um para o outro… A grafia deles é frágil, uma singela arquitetura de solidões. Mariana (a excelente Pilar López de Ayala) e Martin (Javier Drolas, ótimo) vivem quase no mesmo edifício, andam quase na mesma rua, quase se notam, por muito pouco não se esbarram — uma vez no cruzamento do sinal  — e, ora, uma animação de coraçãozinho se desenha na tela… Pistas não faltam na trama, mas nenhuma cansa: o filme é saboroso, quase um folhetim. Lá pelo clímax — depois de, enfim, um bate bola por acaso entre os dois, num chat virtual — eles convergem à procura de uma vela, na loja do quarteirão, em busca de luz no apagão, mas não, ainda não, o encontro é surpresa. O argentino trapaceia, novelesco.

“Medianeras” é um trivial completo, se não fosse a sua qualidade, no sabor das falas e dos offs, na dosagem dos silêncios e da trilha, se não fosse a câmera genial nos cubículos, um domínio técnico, modesto e quase imperceptível. “Medianeras” seria pueril, se não fosse o roteiro engenhoso, com todos os elementos e neuroses da urbis metropolis: altos e baixos, entulhos e cachorros, pânico, escadas, esquinas, elevadores, espirais, tosses, vitrines para os manequins, farmácias para um Rivotril e o afã de respirar! Além das pistas, claro: a caneca (com nome de Mariana) espatifada, a piscina coberta e superlotada (deixa para um sexo fortuito e frustrado), a figura de camisa listrada que falta no livro de pinturas… “Medianeras” seria rebate falso, se não fosse a sua pulsão de vida.

Taretto não se inibe de traçar a rota do encontro, como num óbvio folhetim, até que — surpresa –, os dois decidem abrir duas janelas onde não há (medianeras), no melhor estilo happening subversivo de Martha Minujin (uma genial artista argentina). Enfim, podem se ver… Quiçá seja a homenagem de Taretto à liberdade formal, rompendo a distância entre criador, obra e cotidiano. Do cubículo que ganhou visão, Mariana encontra na calçada a sua figura perdida no quadro: é ele, Martín. É. Como no recente “O Homem do Lado”, “Medianeras” é uma janela aberta ao espaço.

Claudia Furiati

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Produto de um deprê nórdico de risinho melancólico

Fui atrasada ver Melancolia e, lamento, prefiro chamá-la Depressão. A propósito (sabe-se lá?), influenciada pela personagem Claire (Charlotte Gainsbourg), busquei pela Rede a referência astronômica ao planeta e nada, tristemente. Além de planeta destruidor numa ficção “científica”, Melancolia não é mais que um arremedo terminal da obra de von Trier: um pouco (muito) de “Medeia” ali, um tantinho de “O grande chefe” (Hitler?), “Dogville” e “Idiotas” num castelo em festa de casamento, além de, claro, um “Anticristo” como “leitmotiv” numa fornada fascista.

Talvez, diriam, o cineasta deva ser reconhecido como um precursor estético, mas o que se sabe mesmo é que lançou um tal de Dogma 95, receita de fazer filme na Dinamarca, uma doutrina prá fazer jus às suas preferências… Mas como faiscou uma porção de copiadores e discípulos seus em questão de década, azar, perdeu a graça.

No dinamarquês, tudo vem a calhar, até a sua bombástica declaração em Cannes: “Sou nazista” (Foi assim mesmo?). Autoproclamando-se ou não, o seu filme é isso aí. Valeu a dica. Vendo Melancolia, Hitler é compreensível, o Apocalipse vem embalado em bela trilha de Wagner, a Besta é um planeta e ele, o cineasta, candidato a um Nietzche na raia direita.

Tomando a trilha do filósofo alemão, o cineasta arrasa conceitos e ilusões da civilização, mas mergulha no extremismo. E o que repudio em Melancolia é precisamente este substrato. Ante a iminência do fim dos tempos — para o qual não se coloca pergunta ou resposta e nem filme –, Justine (Kirsten Dunst) é a louca precoce, John (Kiefer Sutherland) escolhe o suicídio, uma saída nórdica, e Claire, uma mulher de compaixão, propõe tomar uma taça de vinho, mas afinal se entrega ao terror. Antes, nas sequências da festa do casamento, a mãe (Charlotte Rampling) é a cicuta em pessoa e o pai (John Hurt), o bobo da corte. O casamento caminha como uma tarântula, rumo ao extermínio. No fim da obra, ao abrigo da “caverna mágica”, uns gravetos em triângulo, Justine , Claire e o menino, de mãos dadas, recebem o Apocalipse, deixando-nos na ausência de magia… E caberia aqui lembrar que o provável guru do cineasta — Nietzsche — sobreviveu muito além da apropriação nazista, pois para ele, era possível resistir!

Assim, não resisto aqui a um cotejo com a “Árvore da Vida”. Ao nos falar igualmente de morte, traz a ânsia do infinito, vibração dos confrontos, transcendência dos limites. Não teme o ser humano, ainda que ele possa ser apenas uma sedutora ilusão… Já Melancolia é só o produto de um deprê nórdico de risinho melancólico.

Claudia Furiati

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Hoje começa o REcine!

De hoje (25) a 29 de outubro, as imediações da Praça da República, no Rio de Janeiro, mais precisamente o Arquivo Nacional, ganharão acordes e movimentos de música brasileira – é o REcine que dá largada!

Em mais de cinco salas, sempre com entrada franca, cem filmes serão exibidos mostrando O casamento perfeito entre imagem e música. A abertura, hoje às 18h,  contará com balé afro-contemporâneo, dança do maxixe, coral do Arquivo Nacional e, claro, cinema. Será exibido o filme inédito Apanhei-te cavaquinho – parte 1, de Ivan Dias. Já o encerramento, na sexta-feira, terá “Noite do Espantalho”, de Sergio Ricardo. Ah, momento “isto é muito para um pobre coração de filha”: minha mãe, Claudia Furiati, foi atriz deste filme.

Os detalhes da programação estão no site do evento (e logo abaixo):  www.recine.com.br

P.S. Merda: Paulo Henrique e Carlinhos Mattos! Aos amigos, tudo! Até o tempo escasso para escrever no blog…

Helena Sroulevich

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