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Melhores e piores de 2015

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Fonte: deviantART (by JoniGodoy)

Melhores de 2015

Minha lista com os 10 melhores filmes exibidos (em sentido amplo, já que as fronteiras do “circuito comercial” foram expandidas pelas possibilidades da internet) no Brasil em 2015. Sei que posso ser considerado parcial, mascarado ou simplesmente lunático, mas acredito que minha lista é a melhor de todas. Já considero o evento anual uma curadoria para o enriquecimento cultural da humanidade:

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010);

“Nostalgia da Luz” (Patricio Guzmán, 2010).

Um vez que as auditorias independentes de IMDb, Variety e Indiewire não permitiram que um único filme figurasse na lista dos 10 melhores no blog, tive de ser condescendente e montar uma segunda – motivo do atraso da postagem. Aí vai:

“Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância)” (Alejandro González Iñárritu, 2014)

“Casa Grande” (Fellipe Barbosa, 2014);

“O cidadão do ano” (Hans Petter Moland, 2014);

“Dois dias, uma noite” (Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2014);

“Mad Max: Estrada da Fúria” (George Miller, 2015);

Considerações: Tarantino não pode estar errado.

“Mapas para as estrelas” (David Cronenberg, 2014);

“Que horas ela volta?” (Anna Muylaert, 2015);

“Star Wars: o despertar da força” (J. J. Abrams, 2015);

“Whiplash” (Damien Chazelle, 2014);

“Winter Sleep” (Nuri Bilge Ceylan, 2014).

Se a edição permitisse uma lista estendida… Peraí! Ela permite! Não há restrições aqui. Segue a projeção:

“O ano mais violento” (J.C. Chandor, 2014);

“Beast of No Nation” (Cary Joji Fukunaga, 2015);

“Cássia Eller” (Paulo Henrique Fontenelle, 2015);

“Chatô, o rei do Brasil” (Guilherme Fontes, 2015);

“Enquanto somos jovens” (Noah Baumbach, 2015);

“Ex Machina” (Alex Garland, 2015);

“Homem-Formiga” (Peyton Reed, 2015);

“Mistress America” (Noah Baumbach, 2015);

“Sicário” (Denis Villeneuve, 2015);

“Velozes e furiosos 7” (James Wan, 2015).

Piores de 2015

O Grito_C3PO

“50 tons de cinza” (Sam Taylor-Johnson, 2015);

“Adeus à linguagem” (Jean-Luc Godard, 2014);

Considerações: não vou eleger um filme do Godard pelo simples fato de ser um filme do Godard. Não embarquei na viagem filosófica lisérgica acerca do mundo cão num caleidoscópio imagético proposta pelo diretor. O filme estabelece um oxímoro: deveria haver limites para o experimentalismo.

“A entrevista” (Evan Goldberg e Seth Rogen, 2015);

“Insurgente” (Robert Schwentke, 2015);

“Jogos Vorazes: a esperança – parte 2” (Francis Lawrence, 2015);

“Love” (Gaspar Noé, 2015);

Considerações: fico com as produções da Brasileirinhas.

“Maze Runner – Prova de Fogo” (Wes Ball, 2015);

“Uma noite no museu 3: o segredo da tumba” (Shawn Levy, 2014);

“Quarteto Fantástico” (Josh Trank, 2015);

“Tomorrowland” (Brad Bird, 2015).

Que a força esteja com todos em 2016!

Carlos Eduardo Bacellar

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Teoria do Caos

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Marcus Messner, 1932-52, o único de seus colegas suficientemente desafortunado para ser morto na Guerra da Coreia, que terminou com a assinatura de um armistício em 27 de julho de 1953, onze meses antes que Marcus, caso tivesse sido capaz de tolerar a igreja e manter a boca fechada, se formasse na Universidade Winesburg – muito provavelmente como orador da turma –, podendo assim postergar o aprendizado daquilo que seu pai, embora pouco educado, vinha fazendo tanta força para lhe ensinar havia muito tempo: a forma terrível e incompreensível pela qual nossas escolhas mais banais, fortuitas e até cômicas conduzem a resultados tão desproporcionais.” (Indignação, de Philip Roth)

Ivan Locke (magistralmente interpretado por Tom Hardy) é um engenheiro civil acostumado à certeza e à frieza dos números. Para seu azar, a teoria do caos que direciona os desígnios da humanidade não permite que cálculos responsáveis pela solidez de edificações antevejam a ruína de uma vida como resultado de atitudes impensadas.

Ao final de mais um dia de expediente, o diretor de construção é surpreendido por uma notícia que adiciona uma incógnita ao seu futuro. Locke vai ser pai. Uma noite de solidão, desejos latentes e oportunidade, regada a álcool, após uma empreitada exaustiva, mas de sucesso, teve como resultado um filho fora do casamento. A bússola moral do empreiteiro altamente magnetizada pela sua experiência pessoal só aponta um caminho.

A partir desse momento, seu carro, onde transcorre praticamente toda a encenção nos pouco mais de 80 minutos do filme, se torna uma célula de sobrevivência – remetendo a “No tempo das diligências” (John Ford, 1939), “Líbano” (Samuel Maoz, 2009) e “Cosmópolis” (David Cronenberg, 2012) – por meio da qual ele deve gerenciar uma série de conflitos a caminho do hospital, entre eles o mais complexo de todos: seu conflito pessoal com a figura paterna numa sessão de terapia pouco convencional.

Com esses elementos, o diretor Steven Knight, mais conhecido por sua atuação como roteirista de séries de TV, cria um thriller psicológico pungente. Partindo dos esqueletos de metal e concreto de um canteiro de obras, Locke, por telefone, precisa se certificar de que sua vida pessoal e profissional não desmorone enquanto tenta chegar a tempo para o nascimento de seu filho – duas contruções pelas quais o engenheiro, cartesiano e pragmático, é responsável.

A fotografia de Haris Zambarloukos transforma jogos de luzes da cidade e das ruas que banham o carro num caleidoscópio que a cada curva, a cada caminho escolhido, propõe um reagrupamento de formas e possibilidades. Locke não acredita no resultado de seu comportamento, um desvio do padrão do pai de família cioso. O trabalho do diretor de fotografia confere uma atmosfera onírica à situação em que Locke se encontra – ou, num outro entendimento, transforma avenidas em cabos de fibra ótica em que a comunicação, impessoalizada pela distância, mas carregada de significados emocionais, não pode ser interrompida, segue num fluxo contínuo em sua própria velocidade. Desplugar não é uma opção.

O exercício primoroso de Zambarloukos com a luz se transforma numa jukebox com trilha sonora das perturbações de Locke, que só toca em seus próprios pensamentos.

O empreiteiro é uma esfera de metal de uma máquina de fliperama. Uma vez lançada (seus atos), desencadeia consequências que não podem ser controladas de todo. O material que a compõe não se deforma (valores), mas ela se desloca caprichosa, quase ao sabor do acaso, impulsionada por mecanismos imprecisos. O filme, que deveria figurar nas listas de melhores do ano, coloca Tom Hardy entre os grandes.

Do caos, dos fractais de um ser humano estilhaçado pelo passado, pelo presente e pelo futuro, Locke vai precisar extrair a ordem.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. “Locke”, que, se não estou enganado, foi lançado direto em DVD, é a melhor propaganda que a BMW já teve em toda sua existência.

 

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Olhar são

O menino e o mundo_poster
O diretor Alê Abreu já tinha me ganhado com o seu “Garoto Cósmico”. Mas “O Menino e o Mundo”, animação brasileira atualmente em cartaz no Espaço Itaú de Cinema, no Rio de Janeiro, ultrapassa as fronteiras do cinema e é uma experiência sensorial completa.
A partir do sumiço do pai, um menino sai mundo afora. Percorre plantações de algodão, tribos indígenas, indústrias pesadas e infernos das grandes metrópoles. E enxerga das mais simples às mais complexas formas de exploração do trabalho e da degradação ambiental. Tudo isto é percebido pelo espectador através de um festival de imagens concretas, com a simplicidade do olhar infantil dos Dardenne; e abstratas, que mais parecem grafismos extraídos de pintores como Miró e Kandisky.
O menino e o mundo_01
O resultado é um espectador boquiaberto do início ao fim. Sim, os desenhos encantam a visão. Mas não é só isso. Os ouvidos entendem o vazio da ausência do pai e do mundo contemporâneo através do trabalho de som e música. O filme é de arrepiar e toma de assalto qualquer cego insistente usando trechos de “ABC da Greve” e “Ecologia” do (saudoso) Leon Hirszman. Mexe com os sentidos — leva à poesia de Fernando Pessoa.
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Helena Sroulevich

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Reavaliação da paternidade por meio do erro

Pais-e-Filhos-Poster

Que tipo e forma de consciência estaria escondida lá dentro? – no interior daquele crânio rígido como uma bigorna velha? Será que lá dentro não existia mais nada? Será que, tal qual uma casa abandonada, a mobília e os objetos foram transportados e não existia mais nenhum indício das pessoas que moravam lá? Mas, mesmo assim, as paredes e o teto deveriam conter algumas das lembranças e das cenas vividas. O vazio não consegue se apoderar tão facilmente das coisas cultivadas durante tanto tempo.” (1Q84 – Livro 3, de Haruki Murakami)

Pais e filhos

Os laços de sangue falam mais alto que os afetivos? Mesmo se decantarmos o componente humano do mero determinismo biológico, um embate entre darwinismo e lamarckismo, a interrogação de simples não tem nada. Partindo dessa questão, que além da dúvida guarda angústia, o cineasta japonês Hirokazu Kore-eda, com extrema sensibilidade, trabalha, em “Pais e filhos”, a paternidade como instrumento de transformação de valores empedernidos na conservadora e ritualizada sociedade nipônica.

Duas crianças são trocadas na maternidade e criadas em lares que não podiam ser mais diferentes: um permissivo e desregrado, o outro intransigente e exigente. A troca é identificada pelo hospital e os pais enfrentam o dilema da escolha – fio narrativo análogo ao do essencial “O filho do outro” (2012), descontada a conotação política, de Lorraine Lévy. Ryota (Masaharu Fukuyama), arquiteto bem-sucedido com uma relação distanciada do filho de criação, encontra nos genes a resposta para a frustração de suas expectativas. Só uma desculpa que conta para si mesmo para justificar suas falhas como pai.

Kore-eda, num exercício de brilhantismo, desfia a questão-problema para questionar o instinto materno; estimular Ryota a rever suas atitudes como pai e como filho, forçando-o a encarar seus erros e se desvincular da herança paterna; incutir no arquiteto a filosofia de vida carpe diem de um comerciante, considerado um fracassado, e salvá-lo de si mesmo; e registrar o comportamento de duas crianças cuja ingenuidade é perturbada pela força de circunstâncias incompreensíveis – bênção da idade.

O único porém são as ações mecânicas e desprovidas de phatos de Ryota ao descobrir que o garoto que criou não é seu filho biológico, mesmo levando em conta a habitual frieza de suas relações com o rebento, a esposa e os pais – bem como alguma inexorabilidade no código de conduta e tradição japoneses. Seu suposto arrependimento numa virada não inusitada, mas desajeitada e pouco crível, torna mais precária a construção do arco dramático de seu personagem. Nada que comprometa este belíssimo filme acerca da sobreposição de razão e emoção numa situação que desafia resoluções cartesianas.

Nas sombras do coração há mais segredos do que a genética pode alcançar. Nelas, negativos da memória foram tatuados pela convivência/experiência, marcas que nem o amor de mãe pode apagar ou colocar sob suspeição, mas o afeto de pai pode reforçar.

Carlos Eduardo Bacellar

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A sacanagem de Lars von Trier

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Ninfomaniaca_interrogacao_exclamacao

nymphomaniac_Charlotte Gainsbourg gozando

Carlos Eduardo Bacellar

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Top 10: filmes

Aí vai minha lista com os 10 melhores filmes de 2013:

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Azul é a cor mais quente” (Abdellatif Kechiche) > crítica

A caça” (Thomas Vinterberg) > crítica

Dentro da casa” (François Ozon)

Depois de maio” (Olivier Assayas)

Django livre” (Quentin Tarantino) > crítica

O filho do outro” (Lorraine Lévy)

Gravidade” (Alfonso Cuarón)

O lugar onde tudo termina” (Derek Cianfrance)

Reality – a grande ilusão” (Matteo Garrone)

O som ao redor” (Kleber Mendonça Filho) > crítica

Lista auditada pelo Bacellar Cinema Research Institute.

Carlos Eduardo Bacellar

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Top 30: livros

arvore de natal livros

10 é pouco, 20 é bom, mas 30 nunca é de mais quando se trata de livros. Aí vai minha lista com os 30 melhores publicados no Brasil em 2013:

1Q84 – livros 2 e 3, de Haruki Murakami (Alfaguara);

1889, de Laurentino Gomes (Globo Livros);

Bling Ring: a gangue de Hollywood, de Nancy Jo Sales (Intrínseca);

Carlos Lacerda: a república das abelhas, de Rodrigo Lacerda (Companhia das Letras);

Deixa comigo, de Mario Levrero (Rocco);

A eclosão do Twitter: uma aventura de dinheiro, poder, amizade e traição, de Nick Bilton (Portfolio-Penguin);

O evangelho segundo Hitler, de Marcos Peres (Record);

Exploradores do abismo, de Enrique Vila-Matas (Cosac Naify);

Getúlio 1930-1945: do governo provisório à ditadura do Estado Novo, de Lira Neto (Companhia das Letras);

Grande irmão, de Lionel Shriver (Intrínseca);

O herói discreto, de Mario Vargas Llosa (Alfaguara);

Inferno, de Dan Brown (Arqueiro);

A informação, de James Gleick (Companhia das Letras);

Isso é arte? – 150 anos de arte moderna do Impressionismo até hoje, de Will Gompertz (Zahar);

O jantar, de Herman Koch (Intrínseca);

Jim Morrison: ninguém sai vivo daqui, de Jerry Hopkins e Danny Sugerman (Novo Século);

Jony Ive: o gênio por trás dos grandes produtos da Apple, de Leander Kahney (Portfolio-Penguin);

Lívia e o cemitério africano, de Alberto Martins (Editora 34);

A maçã envenenada, de Michel Laub (Companhia das Letras);

Malcolm X: uma vida de reinvenções, de Manning Marable (Companhia das Letras);

Marvel Comics: a história secreta, de Sean Howe (Leya);

Mavericks: a onda sinistra, de Mark Kreidler (Zahar);

Novembro de 63, de Stephen King (Suma de Letras);

O oceano no fim do caminho, Neil Gaiman (Intrínseca);

A prisão da fé, de Lawrence Wright (Companhia das Letras);

Pulphead: o outro lado da América, de John Jeremiah Sullivan (Companhia das Letras);

Reprodução, de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras);

Vozes anoitecidas, Mia Couto (Companhia das Letras);

Toda poesia, de Paulo Leminski (Companhia das Letras).

book_better tha a movie

Aproveita para namorar essa lista enquanto termino o Top 10 dos filmes.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s Ainda dá tempo de passar numa livraria antes do Natal.

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A liberdade (não) é azul

azul e a cor mais quente

O amor é abstrato demais, e indiscernível. Ele depende de nós, de como nós o percebemos e vivemos. Se nós não existíssemos, ele não existiria. E nós somos tão inconstantes… Então o amor não pode não o ser também.” (Clémentine)

Se Adèle atribuísse uma cor à liberdade, ela seria azul. Mas seu daltonismo emocional revela que essa percepção é tão falsa quanto uma propaganda de absorvente. O amor que ela nutre por Emma, a mulher dos cabelos cor de oceano, que a draga pelo tesão, não corresponde às expectativas da moral conservadora. O resultado é uma negação do que sente; uma supressão de si. O martírio de Adèle é confundir desejo com vergonha num enclausuramento de silêncio velado pelo tabu.

Com as ambiguidades que cercam de inconstância essa paixão, o diretor tunisiano Abdellatif Kechiche moldou livremente para as telas as páginas da graphic novel Azul é a cor mais quente (editada aqui pela Martins Fontes), da francesa Julie Maroh, e transformou a HQ num pop-up audiovisual homônimo, permeado pela licença poética. As atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux foram escaladas para os papéis de Adèle e Emma, respectivamente – nos quadrinhos Adèle atende por Clémentine.

Uma história de amor homossexual condenada pelas convenções ortodoxas não tem nada de simples, principalmente quando envolve uma adolescente em processo de formação. Mas há algo além de um romance perturbado pelo preconceito e pela incompreensão.

azul e a cor mais quente_quadrinhos

Para Emma, sua sexualidade era um bem como outros. Um bem social e político. Para mim, é a coisa mais íntima que há”, declara Clémentine/Adèle numa passagem do texto de Maroh. A fronteira entre o público e o privado, para Adèle, se torna tão delimitada e imóvel – mas borrada pelas lágrimas de angústia – como a divisa entre o que deseja e o que pensa que deveria desejar. Emma, a Ramona Flowers que Adèle disputa com suas dúvidas, considera que a afirmação de sua opção sexual é algo a ser compartilhado e um veículo para a felicidade; uma identidade. Negação e aceitação. Polos opostos se atraem.

Adèle, num primeiro momento, em conflito, sem entender o que se passa dentro de si, tenta se enquadrar na moldura social estipulada para ela pelos outros – família, parcela careta da sociedade, amigos intransigentes. Procura se envolver com um dos gatos do colégio, pois acha que gostar de meninos é o certo – nada no amor é certo, só não amar é errado. Só que ninguém escolhe de quem vai gostar. A concepção de felicidade acaba se impondo, para o bem ou para o mal, pelas frestas que dilaceram um coração que se tolhe.

Num primeiro momento, Adèle desafia, inconscientemente, convenções castradoras: leva o carinha em que tentava se amarrar para a cama, finge um orgasmo, mete o pé na bunda do coitado, cai na balada em bares frequentados por gays – se descobre, se esconde. Envolvida com Emma, ela é assombrada pelas mesmas convenções conservadoras, entranhadas em sua constituição durante anos de lavagem cerebral – e confundida pela companheira com covardia. Adèle gosta de crianças, anseia em seu íntimo por um filho. Como, com Emma? E sua família, os amigos, os outros, o que vão pensar? Esconder por quanto tempo? Seu amor é realmente Emma? Sim, não… Esgarçada, Adèle se move com o corpo para um lado e o sentimento para outro. As cenas de entrega entre as duas deixam claro que a dissociação termina entre quatro paredes. Nada é mais certo do que aqueles momentos.

blue is the warmest color

A menstruação azul é uma forma de a publicidade conceituar um tabu e vender produtos preservando sensibilidades. Uma maneira de mascarar o real e não atingir suscetibilidades. Mas Emma não quer a mentira, ela quer a verdade: um “amor [que] se inflama, morre, se quebra, nos destroça, se reanima… nos reanima.” Um amor que a tinja de vermelho. A liberdade é vermelha. Sua maior conquista não foi se aceitar – “eu lutava tão obstinadamente contra mim mesma, contra os meus desejos, que não conseguia mais controlar o meu medo e a minha raiva, e por isso eu era tão agressiva”–, mas salvar Adèle de um mundo estabelecido sobre preconceitos e diretrizes morais absurdos.

azul e a cor mais quente III

A sensibilidade de Julie Maroh diz que a fórmula para o amor eterno é a mistura de paz e fogo. Diga isso para quem se ama, se consome, se inflama… E tem urgência do outro não para viver, mas para estar vivo.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Fernanda Lima, com seu ousado modelito plastificada em folhas douradas no sorteio da Copa, me deixou pensando um monte de sacanagem… Aproveito a masturbação mental para destacar uma passagem do texto de Luiz Carlos Merten sobre o filme “Azul é a cor mais quente”, cujo título original é “La Vie d’Adèle Chapitres 1 et 2″… Lá pelas tantas, provocado por Merten numa coletiva qualquer – “o diretor é um voyeur e tem prazer filmando as mulheres. Não filmaria cenas dessa intensidade com dois homens” –, Abdellatif Kechiche diz que tem vontade de realizar uma continuação, cujo título seria “A Vida de Adèle 3 e 4”. O objetivo é mostrar sua predileção por orgias sem discriminação de gênero: “terá uma cena de sexo entre Adèle e dois homens, e será bem gráfica”. Alguém diga para o Kechiche tentar algo mais criativo… Esse filme já foi feito pelo Lars von Trier. No original, deve ter sido intitulado “A Vida de Gainsbourg 69 e 69”, ou algo do tipo. O que pegou foi “Ninfomaníaca”. Estreia por aqui em 2014. Fuck, yeah!

p.s. 2 A fixação oral do diretor, potencializada no cinema e muito comentada pela crítica, foi extraída da graphic novel de Julie. O desejo começa pela boca.

p.s.3 Ouça a trilha sonora de “Azul é a cor mais quente”.

azul e a cor mais quente II

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Mate-me por favor

only lovers left alive

O enlace matrimonial entre dois seres centenários é a proposição do diretor americano Jim Jarmusch para continuar tratando das jornadas espirituais de personagens na interseção entre o religioso, o místico e o filosófico. Segundo a Bíblia, Adão e Eva formaram o casal primevo. Em “Only lovers left alive”, Jarmusch encampa os nomes bíblicos para estabelecer a relação de mútua dependência entre vampiros e o restante da humanidade.

Adão (Tom Hiddleston) e Eva (Tilda Swinton) são, ao mesmo tempo, repositórios e produtores de conhecimento. Sem eles e outros homo quirópteros – como Christopher Marlowe (John Hurt), dramaturgo e poeta supostamente morto no final do século XVI, mas que, segundo o roteiro, é o autor por trás das obras de Shakespeare –, os humanos seriam relegados à ignorância e à barbárie.

Vivendo na sombra e traficando sangue para sobreviver, Adão e Eva são a metáfora (paradoxalmente) antropocêntrica do ensaio A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin. A humanidade seria uma cópia (ou versão) tosca dos seres primordiais que, à medida que se distancia do DNA original, degenera-se e é acometida por pecados e vícios: zumbis, nem vivos, nem mortos, algo ali no meio. Verter sangue seria uma forma de expurgo, por um lado, e um modo de conseguir a substância vital para sustentar uma raça superior (ou mais esclarecida, versada nas artes), por outro.

only-lovers-left-aliveII

O vampiro é a personificação ideal do sujeito marginal explorado por Jarmusch em suas produções – arquétipo da cultura punk. Mate-me por favor é o título do livro sagrado de Legs MacNeil e Gillian McCain acerca da gênese do movimento punk. Traduz bem a ambiguidade dos atos de Adão e Eva: blasfêmia e glorificação; assassinato e sacrifício; repúdio e atração. A tentação de transformar é grande, mas perigosa (sangue de qualidade é cada vez mais escasso, contaminado pelas atitudes da própria natureza torta de quem o fornece). Ao mesmo tempo bênção e maldição, a imortalidade sustentada por glóbulos vermelhos pode se tornar insuportável, a ponto de Adão cogitar dar um fim à sua existência disparando uma bala de madeira em seu coração. A mente artística desperta é sempre seduzida pela depressão.

O elemento de desequalização que se torna mais um problema a ser gerenciado é a cunhada de Adão, Ava (Mia Wasikowska), uma versão degenerada da espécie que suplantou o homem no topo da cadeia alimentar. Impulsiva, desmedida, encrenqueira, incontrolável, o caos com caninos avantajados. Talvez ser seja difícil, independentemente do humano – ou apesar do humano. A perfeição sempre será uma utopia quando existe o outro, na medida em que somos xerox de carne e osso. Algo se cria, algo se perde e tudo se transforma. Permanent vacation.

Debruçando-se sobre uma história de amor não convencional, repleta de significados sobre as idiossincrasias e contradições da condição humana, Jarmusch subverte o cânone de Bram Stoker e enriquece com sangue autoral uma mitologia que já foi explorada com criatividade em produções como “Fome de viver”, do diretor inglês Tony Scott (que se suicidou em 2012), “Deixa ela entrar”, do sueco Tomas Alfredson, e “Sede de sangue”, do sul-coreano Park Chan-wook.

 Carlos Eduardo Bacellar

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Tensão entre real e realidade

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É preciso ver a vida inteira como no tempo em que se era criança, pois a perda desta condição nos priva de uma maneira de expressão original, isto é, pessoal” (Henri Matisse)

O cineasta francês Michel Gondry tensiona real e realidade em “A espuma dos dias”, longa baseado no romance L’Ecume des Jours, de seu conterrâneo Boris Vian, publicado originalmente em 1947. Uma interpretação possível para a estética artesanal de Gondry seria a apreensão inocente do mundo que nos cerca, uma metáfora da percepção infantil: o olhar original. Com essa poética crua do olhar primeiro, Gondry daria formas com papel machê, cola, tesoura e massa de modelar a seu mundo interior.

Francisco Bosco colocou essa leitura em suspeição ao conferir novos significados a uma frase atribuída a Friedrich Nietzsche: “Sem a música, a vida seria um erro”. As ideias foram exploradas num ensaio de Bosco sobre encadeamentos onomatopeicos que sublinham explosões de felicidade na música, publicado no livro Alta Ajuda (Editora Foz, 2012) e (re)discutido em um dos encontros da Flip 2013 – o filósofo e ensaísta dividiu com a deusa franco-iraniana da literatura Lila Azam Zanganeh a mesa O prazer do texto, sob mediação do jornalista Cassiano Elek Machado.

Primeiro é necessário diferenciar a linguagem verbal da música. Nas palavras de Bosco, a linguagem verbal é o campo da errância. Diferentemente dos animais, nós estamos separados da experiência com o real, que seriam as coisas em sua brutalidade, em sua crueza. Nós não temos acesso direto às coisas. Elas só nos são acessíveis pela linguagem verbal. A linguagem ao mesmo tempo conhece e produz o que conhece. Portanto, a linguagem verbal, paradoxalmente, nos condena a uma aproximação e a um distanciamento do real. Distância e proximidade, conhecimento e produção são os binômios que fundamentam o conceito do que chamamos de realidade.

Bosco salienta que nós não podemos conhecer com certeza o real, pois nós vivemos no campo da linguagem verbal, que é o campo da errância. Não é o campo do erro, nem da certeza – não se dá por categorias de certo e errado. Já a música é certa, não representa nada, não lida com símbolos, signos.

A palavra cantada se dá no meio da tensão entre música e verbo, palavra e som – híbrido do real da música, do certo da música, com a realidade da linguagem verbal. Há determinados momentos em que a canção não suporta sua tensão e quer virar plenamente música. Para isso, ela se afasta da linguagem e passa ao real puro dos fonemas – a música desiste de ser palavra e vira som, deixa de significar e passa a ser. Como define Bosco em seu ensaio, é a passagem da palavra ao som, da transitividade do semântico à intransitividade do melódico – a música é o que é (algo que ele chama de intransitividade). O tê tê tê, têtêretê “levanta defunto” da canção Taj Mahal, de Jorge Ben, ilustra a explicação. Não à toa, esses momentos são a expressão maior da felicidade de quem entoa a melodia.

É filmando suas inquietações em estado bruto, elaboradas como projetos da educação infantil, que Gondry almeja que elas simplesmente sejam, sem as exegeses inerentes ao existir. Daí sua paródica abordagem do pensador francês Jean-Paul Sartre. Na história de amor entre Colin (Romain Duris) e Chloé (Audrey Tautou), fadada ao fracasso por causa de uma flor de lótus que cresce no pulmão da moça, as ideias existencialista são ininteligíveis não porque são enigmáticas, mas na medida em que requerem construção de sentido.

a-espuma-dos-dias_jean paul sartre

A expressão artística de “A espuma dos dias” é totalmente refratária à ideia do olhar original ou da falta de ferramentas conceituais para elaboração da realidade. Gondry não se dá ao trabalho de refletir; está mais preocupado em sentir. Ele já havia flertado com esse tipo de experimentação mambembe em projetos anteriores. O curta em que parodia “Taxi Driver” (Martin Scorsese, 1976) e o longa “Rebobine por favor” (2008), sua ode de amor ao cinema, são exemplos de trabalhos que podem ser atribuídos, erroneamente, à síndrome de Peter Pan do diretor.

O realizador francês, em seu filme mais político (irônico…), deixa o pensar para críticas à Igreja, ao consumismo – ecos do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que postula em sua liquidez teórica que “vínculos humanos tendem a ser conduzidos e mediados pelos mercados de bens de consumo” – e à exploração trabalhista do indivíduo. A transição de tópicos entre real e realidade dá o meio-tom entre fantasia e drama, entre as cores e o espetáculo de Baz Luhrmann e um filme de Tim Burton.

No campo das perturbações do sujeito, nas expressões mais íntimas e amorfas de suas abstrações, o diretor se esquiva de erros e acertos, certezas e dúvidas. Talvez por isso os personagens fiquem em segundo plano, à sombra das coisas. Como na música, só há o que há, ou melhor, é o que é: o certo para Gondry. A errância fica para as instituições humanas, invenções que escravizam seus criadores – seres que deixaram de ser e sentir para pensar, pensar em excesso, esquecendo o outro.

Subvertendo Nietzsche, melhor seria dizer que sem o cinema de Gondry, a vida seria um erro.

Carlos Eduardo Bacellar

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