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Arquitetos do Poder

À luz da corrida presidencial de 2010, recomendo que assistam ao documentário “Arquitetos do Poder”, de Vicente Ferraz (“Soy Cuba, o Mamute Siberiano”, de 2005, e “O Estado do Mundo”, de 2007) e Alessandra Aldé, parido prematuramente para o “É Tudo Verdade”. O filme é centrado nas ligações (perigosas) existentes entre marketeiros políticos e a imprensa. E tenta estabelecer uma retrospectiva destas relações desde a era getulista até a reeleição de Lula, em 2006.

A base do filme, entretanto, é mesmo a partir de 1989 (e deveria se centrar e se aprofundar nisto!), uma vez que é mais fácil acessar a história recente, seja na forma de arquivos ou  personagens. A (criativa) edição conta com depoimentos de Duda Mendonça, Paulo de Tarso, Ronald de Carvalho, Wlaney Pinheiro e Carlos Henrique Shroder e revela os bastidores dos processos eleitorais que elegeram Collor, FHC (por duas vezes) e Lula, a partir de 2002.

Mérito da obra é a simplificação da linguagem. Foi feita para dialogar com uma geração avessa ao engajamento político-partidário, mas que se entretém nos departamentos de marketing espalhados pelo país.  Pesquisas e posicionamento do produto-candidato são a bola da vez. E jogo o desafio:  depois de assistir ao filme, quem se habilita a formular uma estratégia para tornar Dilma e Serra menos antipáticos (ah… que eles são antipáticos, vocês têm que concordar!) ou fazer de Marina Silva grande beneficiária dos (recentes) desastres climáticos?

Link para trailer do filme abaixo:

http://migre.me/wzgu

Helena Sroulevich

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“Capitalismo”: gás hilariante

Michael Moore me deu a certeza: “Capitalismo” produz efeitos de gás hilariante. Combinando duas moléculas de nitrogênio a uma de oxigênio, o resultado do consumo provoca contrações involuntárias nos maxilares (região da boca, sabe?) e dá a impressão que o sujeito está rindo à toa. Só impressão. Na verdade, ele está cavando a própria cova;  e o aparente sorriso é uma forma bem humorada (cada um se defende como pode…) de anunciar a própria morte. É que o gás do riso é letal… Sacou?

Em geral, é esta a linha adotada em “Capitalismo: uma história de amor”, programado no “É Tudo Verdade”. No novo documentário, indicado ao Leão de Ouro do Festival de Veneza no ano passado, o “super-herói” Michael Moore conclama padres, troianos, despejados, endividados até o último fio de cabelo, pilotos mal pagos, artistas, grevistas, gregos, congressistas, operadores do mercado de Wall Street e quem mais tiver pela frente a salvar “Gotham City” (Nova Iorque) dos interesses inescrupulosos do mercado financeiro.

O filme é particularmente feliz na montagem (bacana) e ao reler o sonho liberal de Roosevelt na era Reagan, que transformou o American Way of Life em crise cambial, desemprego e hipotecas durante os anos Bush. Para quem gosta de Economia (ou estudou a dita, que é o meu caso), a narrativa bebe na fonte dos teóricos Adam Smith, David Ricardo, Karl Marx e Milton Friedman. Porém Yes, nós temos bananas e o filme escorrega no excesso de narração, na exacerbação à vitória de Barack Obama (algo compreensível, pois os americanos – e o mundo – ainda estavam eufóricos com o novo presidente no momento de montagem do documentário) e no lado excêntrico e eloquente do personagem  – de quadrinhos – Michael Moore. Confesso: por um lado, me enche de risadas e estímulos; por outro, me cansa.

Concluindo: passível de crítica é a sugestão que o diretor faz de substituirmos Capitalismo por Democracia. Alô Mr. Moore, o primeiro é um sistema econômico e o segundo, político. Mas como tudo que almejo é viver em Democracia plena, e isto passa – necessariamente – por um entendimento  político deste conceito pelas instituições econômicas e financeiras, passo essa. E digo: não perca o filme. Você vai chorar de rir e ninguém morrerá depois de assistí-lo!

Helena Sroulevich

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Budrus é Just Vision

Sequencia 1 – Externa/Dia:

Do alto, um palestino observa a organização de forças armadas israelenses em seu vilarejo. Com um “machado” encostado nos ombros, está a postos.

Corta.

E assim começa o “roteiro” da vida de um cidadão comum num território ocupado. Na cabeça, o alerta do confronto iminente. A certeza é de incompreensão; até que alguém, imbuído de visão pacífica e obstinação, resolve mudar o curso da história.

É na trajetória de Ayer Morrar que se centra o documentário “Budrus”, aldeia na fronteira entre Israel e a Cisjordânia, dirigido pela brasileira Julia Bacha. No filme, parte da programação do Festival “É Tudo Verdade”, o chefe de família e líder comunitário, praticando a não-violência, une, do mesmo lado, israelenses progressistas, membros de organizações internacionais e líderes locais do Hamas e da Fatah. E consegue, na pluralidade de opiniões e experiências, liderar uma resistência pacífica na região, que acaba obrigando o governo israelense a afastar o “Muro de Segurança” e preservar os limites geográficos originais do vilarejo.

O filme tem grandes qualidades técnicas. O roteiro e a montagem são bacaníssimos e mesclam imagens de arquivo (*), câmeras reais do confronto e pontos de vista antagônicos. Mas o que mais me comoveu na obra, produzida pela Just Vision, foi o chamado à Humanidade. No documentário, é reforçada a via pacífica para a resolução dos conflitos no Oriente Médio. E alimentada a esperança de que a paz mundial sempre será uma opção viável — e  possível — toda vez que seres humanos se reconhecerem como iguais.

(*) Carlinhos (Mattos), o leitor mais atento do blog, me chamou a atenção para o emprego equivocado do termo “imagens de arquivo”. O certo seria imagens captadas por ativistas locais, que acompanharam a resistência ao levante do muro desde 2003.  Outro exemplo bacana são as imagens que mostram a visita de representantes sul-africanos à região, falando sobre o Apartheid e a necessidade de fomentar o diálogo, mesmo em momentos inimagináveis.

Helena Sroulevich

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Padilha erra na mão e torna enfadonho documentário que poderia ser brilhante

No último fim de semana, como não podia deixar de ser diferente, os Doidos caíram dentro do 15º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, que movimenta o público cinéfilo no eixo Rio-São Paulo.

Abrindo os trabalhos, eu e minha parceira Helena corremos para o Unibanco Arteplex para conferir a exibição do novo documentário de José Padilha, “Segredos da Tribo”, coprodução da brasileira Zazen, de Padilha e Marcos Prado, com a BBC.

Em sua nova empreitada, Padilha coloca em xeque o exercício da antropologia ao questionar a ética do trabalho de campo e desestruturar a aura romântica que muitas vezes delineia nosso (equivocado?) entendimento acerca da rotina dos etnógrafos. São desveladas histórias de pedofilia, indução ao homossexualismo, exploração de prostituição e experiências danosas à saúde dos índios, consideradas genocidas por alguns.

O documentário se pauta nas experiências de figuras míticas da área, como os antropólogos Napoleon Chagnon, Jacques “Safadinho” Lizot (não resisti…) e Kenneth Good, e suas experiências nas tribos Ianomâmi – a polêmica foi dinamitada pelo livro de Patrick Tierney (2000), publicado no Brasil pela Ediouro com o título Trevas no Eldorado – como cientistas e jornalistas devastaram a Amazônia e violentaram a cultura Ianomâmi.

Após a interferência de Lizot, os Ianomâmi passaram a brincar com Comandos em Ação baseados no etnógrafo francês: modelo de conduta questionável

O assunto ganha dimensão quando paramos para refletir que a antropologia, não raro, é confundida com religião, e não tida como ciência, o que termina por “canonizar” os cientistas dessa disciplina em nossos subconscientes. Não é incomum nos esquecermos que o lado negro sempre está lá.

Tanto eu como a Helena esperávamos nada mais nada menos que um filmaço. E fomos obrigados a entrar no clima etnográfico (por causa de um atraso involuntário… culpa minha…) − sentamos nas escadas do cinema lotado, e tivemos que imaginar que estávamos estirados numa rede indígena, olhando para o céu ao entardecer.

Infelizmente, nossas expectativas foram frustradas. O cineasta escorrega na casca da banana do formato, compromete a construção da linguagem e torna o doc pouco palatável para o público brasileiro.

Antes da explicação, dois pontos que devem ser considerados, abonando parcialmente as opções de José Padilha, realizador que, sem sombra de dúvida, possui domínio sobre a linguagem cinematográfica:

1)   A complexidade do tema, extremamente espinhoso e difícil de ser abordado;

2)   O doc é financiado pela BBC inglesa, o que indica que (provavelmente) existia uma linha editorial bem definida, que pode ter cerceado a liberdade autoral de Padilha.

Dito isso, vamos que vamos. Abusando dos testemunhos secos, sem nenhum tipo de purpurina estética, o doc cansa até os mais aficionados pelo formato (que é o meu caso). O filme, calcado nessa base crua, poderia ter sido resolvido em, no máximo, 1h10min. Padilha estende a projeção para 94min (e acreditem, parece que tem mais de 2h), e um tema interessantíssimo se torna enfadonho e cansativo. Pessoas dormiram durante a exibição, outras poucas não resistiram e abandonaram o cinema. É um produto para inglês ver, literalmente.

Abrindo o Segundo Caderno de domingo (11/4), do jornal O Globo, o repórter André Miranda assina matéria na qual faz uma análise dos números dos documentários brasileiros, da Retomada para cá.  Baseado num estudo realizado pela Helena (essa é a minha garota!!!), lá pelas tantas o repórter destaca as seguintes aspas de Paulo Sérgio Almeida, diretor do portal de análise de mercado Filme B: […] Para atingir o público de cinema, o documentário precisa trazer uma informação inédita ou polêmica […]. Quando isso não acontece, ele cai numa mesmice e entra numa disputa difícil por espaços no cinema.

Sem discordar da opinião de Paulo Sérgio, não podemos esquecer que não é somente o ineditismo e a polêmica que alimentam a fome de um público ávido pelo gênero. Subgêneros como esporte e música, trabalhados em diversos docs, como O homem que engarrafava nuvens, de Lírio Ferreira, têm a possibilidade de utilizar recursos estéticos que apelam para a emoção do espectador, o que torna o resultado final mais sedutor – sem ter de necessariamente se utilizar de material inédito ou polêmico.

Padilha, sem dispor de tais firulas narrativas, talvez pela própria aridez do tema, faz um filme burocrático e excessivamente verborrágico. Caberia mais ousadia, apesar de o registro ser importante.

O crítico Carlos Alberto Mattos postou em seu blog um texto bem completo sobre a produção de Padilha, do qual pesquei diversas informações. Merece ser lido:

http://carmattos.wordpress.com/2010/04/06/antropologos-nao-sao-santos/

Sem dúvida alguma, o texto dele é muito melhor que o filme. Acabei comprando o livro de Tierney por causa das palavras do xará. Se a obra for desestimulante como a nova produção do diretor de “Tropa de Elite”, ele me deve R$ 34,45.

Carlos Eduardo Bacellar

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