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Amor além da vida

Para Tati Lima, pelas palavras de carinho num momento de frustração e por me convencer a não perder a fé no invisível

Data e hora: dia 7 de maio de 2011, sábado, 15h56min, véspera do dia das mães. Local: uma das drogarias Pacheco na rua Voluntários da Pátria (Botafogo — RJ). Voltando de uma corrida, entrei fortuitamente naquela farmácia para comprar gaze (R$ 2,39). Pacheco em que eu raramente costumo entrar, diga-se de passagem (existe outra mais próxima da Bacellar Caverna). A compra também não foi menos inusitada um pedido da minha tia, que veio de Campinas para se submeter a uma cirurgia e estava convalescendo da intervenção médica aqui em casa — acho que foi a primeira vez que compro gaze em toda minha vida. E essa primeira vez eu certamente não vou esquecer.

E o extraordinário não parou por aí… Acidentalmente, encontrei uma pessoa (não nos conhecemos exatamente) com a qual eu preciso muito me desculpar a identificação foi fácil, na medida em que a única autenticação biométrica de que preciso são aqueles olhos. Pessoa com a qual nunca imaginei que iria um dia topar, apesar de no meu íntimo, mesmo inconscientemente, torcer para isso. Como eu disse, preciso me retratar. Não sabia como me aproximar, como me apresentar, nem se poderia fazer isso com segurança ou sem causar algum tipo de constrangimento ou desconforto.

Acabei tomando uma atitude que não combina muito comigo… Ou melhor, uma falta de atitude. A saída mais fácil, cômoda e covarde. Simplesmente não fiz nada, não trocamos uma palavra sequer, e o momento se foi. A agudez da minha introspecção é diretamente proporcional à importância do assunto em pauta — defeito que às vezes me trava em situações que exigem postura diferente, proatividade. E era muito importante: eu precisava desfazer um mal-entendido, dar explicações, pedir desculpas por liberdades e excessos — que possivelmente foram entendidos como desrespeito, grosseria ou coisa pior olhando nos olhos dessa pessoa. Faltas cometidas num passado recente que, no popular, queimaram feio meu filme. Já me desculpei por escrito, mas é bem possível que meu texto jamais tenha sido lido. Era uma oportunidade de tentar retificar meu comportamento, procurar diminuir o passivo de imagem… Quem sabe dar um Ctrl + Z na má impressão? Literalmente amarelei… A frustração pela inércia (vergonhosa) me carcome até agora. Como eu queria voltar no tempo e ter agido de outra maneira…

Estarmos naquele local, no mesmo dia e na mesma hora, foi possivelmente uma coincidência, ou não… Talvez alguma outra força ou energia que não compreendemos. Alguns chamam de destino, ou fado, outros de sorte. O mestre Stephen King chama de Ka. Instituição abstrata que supostamente direciona nossos caminhos, como uma escada rolante invisível em zigue-zague, na direção sabe-se lá de onde. Ou teria sido obra de algo menos metafísico, como um entidade governamental ultrassecreta responsável por nos colocar no curso idealizado por algum figurão (Deus ou um CEO?!) num escritório qualquer?

Esses pensamentos (latentes) foram inflamados aqui dentro com a chegada da produção “Os agentes do destino” (“The adjustment bureau”, no original) ao circuito exibidor.

Estreia na direção do roteirista George Nolfi, notabilizado por seu trabalho em “Ocean’s twelve” (2004) no Brasil mais conhecido pelo título de “Doze homens e outro segredo” , “O sentinela” (2006) e “O ultimato Bourne” (2007), a produção, distribuída pela Paramount, coloca em xeque o que entendemos como livre arbítrio. Até que ponto nós realmente temos controle sobre nossos atos e decisões? Somos realmente senhores das rédeas de nossa existência? Ou existe algo maior direcionando nossos passos e determinando como nós, meras peças confeccionadas com material biodegradável, devemos nos comportar no tabuleiro da vida?

Na produção, Matt Damon é David Norris, um jovem engajado com raízes profundas no proletariado que almeja uma carreira de sucesso na política. O que, teoricamente, coloca Norris em uma encruzilhada que separa uma cadeira no Senado (degrau intermediário de um escalonamento político que o levará à Casa Branca) do anonimato regado de felicidade a dois atende pelo nome de Elise Sellas (a desnorteante Emily Blunt). O que impede David de abraçar os anseios de seu coração pela estonteante coreógrafa são as diretrizes compulsórias de um grupo secreto que trabalha para o tal adjustment bureau.

De acordo com os misteriosos homens de terno e chapéu espécie de Observadores do seriado Fringe , responsáveis pelo curso “adequado” de nossas pegadas na trilha da vida, se Norris deseja continuar alimentando sua fornalha de ambições políticas ele deve esquecer Elise, definitivamente. Qualquer tipo de relacionamento com ela poderia pôr em risco o que está “escrito”, e alterar planos superiores (seja lá quais forem). Tarefa mais fácil de falar do que de fazer. Apaixonado por Elise, Norris amarra seu coração com o arame farpado do livre arbítrio e sangra ao mesmo tempo que desafia as correções empreendidas pelo escritório do destino. Para eles Elise seria o suficiente, o sopro morno do amor que arrefeceria as aspirações grandiosas de Norris, tornando-o ordinário, o que seria inaceitável. No início ele reluta em aceitar o que seria sua sina, mas o acaso é mais forte do que qualquer roteiro de conduta, e teima em reunir os dois. Uma troca de olhares é suficiente para estreitar os laços afrouxados por aqueles que se dizem agentes do destino.

O personagem de Damon é alfinetado em seu egoísmo ao saber que se ele e Elise ficarem juntos, a carreira da dançarina poderá chegar ao fim. A provação de Norris se torna insuportável quando ele percebe que precisa abafar seus sentimentos como forma de não podar as asas da mulher que ama.

Apesar do roteiro inverossímil (por causa de ranhuras na coerência de sua construção) — curiosamente da lavra do próprio Nolfi –, o filme foca nesse sentimento capaz de questionar programações existenciais e nos arrasta junto nessa história de amor que encanta pela força de um carinho capaz de transcender qualquer tipo de racionalização. A química rala entre os protagonistas não ofusca o talento de Matt Damon. E Emily Blunt, bem…, Emily tem privilégios na casa. Linda! Uma graça como sempre, que encanta pela ternura, o olhar carente e a inocência venenosa com a qual impregna sua personagem. E o final, bem água com açúcar, pode acarretar hiperglicemia estética em quem não produzir insulina romântica suficiente. Estava com saudade de uma boa história de amor que não envolvesse seres sobrenaturais.

A fotografia de John Toll evoca “Inimigo do Estado” (1998), de Tony Scott.

“Os agentes…” foi comparado pela revista Playboy (tomadas as devidas proporções) ao filme “A origem” (Christopher Nolan, 2010). O Scificool, chupando informações da Variety e da Wikipedia, lista narrativas correlatas, como “Dark city” (Alex Proyas, 1998) e “O show de Truman” (Peter Weir, 1998). Outras referências, pensando rápido, são “Matrix” (Andy e Lana Wachowski,1999) e “O procurado” (Timur Bekmambetov, 1998), este último, com Angelina Jolie no elenco, destaca um grupo de assassinos profissionais que decifram em tecidos uma linguagem mística binária que diz quem deve ser eliminado para que o equilíbrio seja mantido. Todas as realizações sugerem uma realidade construída artificialmente, à revelia do livre arbítrio humano. Já a força do sentimento que esgarça o tecido do que deveria ser remete à entrega de Robin Williams (um dos melhores papéis dramáticos de sua carreira) em “Amor além da vida” (Vincent Ward, 1998).

O filme foi baseado no conto Adjustment Team, do escritor americano Philip Kindred Dick (1928-1982), publicado pela primeira vez na revista Orbit Science Fiction antologia de contos de ficção científica editada entre 1953 e 1954, contando com apenas cinco edições —, em 1954.

Com relação ao que eu disse no início, vou ficar torcendo pelo invisível, seja ele coincidência, Ka ou qualquer outra força (entidade jurídica ou metafísica) que atue sobre nós. Quem sabe um dia eu consiga limpar a minha barra (saindo vivo da experiência)? Torço muito por isso.

Carlos Eduardo Bacellar 

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Criatividade amarrada: blog da Penguin-Companhia censura comentário irreverente de @cebacellar

A Penguin-Companhia − selo criado em 2009 que associou a Companhia das Letras à Penguin Books para publicar edições da Penguin Classics no Brasil −, com o objetivo de incrementar o esforço de marketing em torno do livro Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, obra que chegou às livrarias no final do ano passado, resolveu aproveitar a proximidade da data de estreia de “As viagens de Gulliver” nos cinemas para realizar promoção na Internet.

Por meio do blog da Companhia, na seção Penguin-Companhia, os interessados devem responder à pergunta: “O que você faria se fosse tão grande quanto Gulliver em Lilipute?”.

As respostas, que entram como comentários no próprio post da promoção, podem ser enviadas até o dia 16 de janeiro. As três melhores serão premiadas com um exemplar de Viagens de Gulliver − o resultado será divulgado no dia 18. Quem conhece minha tara por livros (de graça até Paulo Coelho!) sabe que eu não poderia ficar de fora. Aqui começa o motivo da minha frustração.

Eis minha resposta:

“Em tempos de ‘De pernas para o ar’… Aproveitaria minhas novas vantagens bio(quilométricas) — as quais nem o melhor extensor peniano do mundo seria capaz de promover — para conquistar a estonteante Emily Blunt versão Playmobil, me tornaria o astro pornô mais famoso de Lilipute e ficaria rico como empresário da indústria da saliência na cidade dos pequenos. Em terra de salsicha, quem tem salsichão é rei! Perdoem-me pela ousadia da masturbação intelectual. Não resisti…”

O órgão de classificação indicativa do blog da editora carimbou meu texto com NPL, ou seja, ninguém pode ler. As palavras foram colocadas em animação suspensa sob a criogenia do clique de aprovação que ficou parado no ar, e provavelmente nunca ocorrerá. Estampado no rótulo do éter que guarda o sêmen-léxico considerado inconveniente (para não dizer maldito): o seu comentário está aguardando moderação.

Infelizmente, comentários espirituosos, irreverentes e bem-humorados ainda são mal-interpretados e, frequentemente, marginalizados. Meu intuito não foi constranger ou ser ofensivo. Simplesmente resolvi dar vazão à minha criatividade pouco ortodoxa, vitaminada pelo meu espírito maroto. Procurei palavras que não fossem inapropriadas, de modo a fugir da vulgaridade, do insulto e do desrespeito. O que realmente me incomoda é o falso moralismo (inadmissível!), mas prefiro acreditar que não é o caso.

Digo isso com toda a consideração e respeito que tenho pela Companhia das Letras, uma das mais importantes editoras do país, e pelos profissionais que lá atuam. Nutro carinho imenso pelos livros do selo e jamais deixarei de comparecer ao @estantevirtual e à @LivTravessa para arrematar títulos da Cia. Fica aqui registrada a minha inquietação, mas com carinho. E o sinto muito por algum excesso, tanto neste texto como no outro.

Encerro com um pedido, porque não enxergo sentido na imoderação (e porque quem não chora não mama): poxa, Luiz Schwarcz, bota no ar!

Confira o trailer do filme “As viagens de Gulliver”, dirigido por Rob Letterman e que conta com nomes como Jack Black, Jason Segel, Emily Blunt (!!!) e Amanda Peet no elenco. Estreia prevista para amanhã, dia 14. Comprem o livro. Assistam ao filme.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Modéstia à parte, minha resposta é a melhor que há por lá. Minha mãe também concorda comigo. Viram? Comentário família, como o filme do Roberto Santucci. Para todas as idades!

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Segura, coração!

“E assim descansam os dois amantes um ao lado do outro.
A quietude paira sobre sua morada; anjos serenos, seus afins,
olham-nos do espaço. E que momento feliz aquele
em que, um dia, despertarão juntos!”
(“As Afinidades Eletivas”, Goethe)

Para quem achava que “As Afinidades Eletivas” eram química na Ciência ou na obra (emblemática) de Goethe, ledo engano. Os pares Vitória e Lorde Melbourne e Albert e Vitória chegaram ao cinema do século XXI (*)  e, inevitavelmente atraídos, formaram casais. Por pouco mais de 1h40, eles “buscam-se um ao outro, atraem-se, ligam-se um ao outro e a seguir ressurgem dessa união íntima numa forma renovada e imprevista.” Segura, coração!

A Jovem Rainha Vitória, filme em cartaz, trata dos primeiros anos de ascensão ao poder da pequena regente. Despreparada e superprotegida, pobre moça indefesa,Vitória (Emily Blunt) sobe ao trono britânico, logo da morte de seu tio Guilherme IV.

Dominada pela mãe possessiva (Miranda Richardson), a heroína romântica se aproxima do primo Albert de Saxe-Coburg (Rupert Friend), Príncipe da Bélgica, antes mesmo de ser coroada. É na troca de olhares, sorrisos, passos de dança e, principalmente, correspondências (confidentes) que a intimidade entre eles se estabelece. Com Lorde Melbourne (Paul Bettany), a história é diferente. É ele, Primeiro Ministro, que se aproxima da recém empossada alteza e oferece seu “ombro amigo”. Comovida e, sobretudo, desamparada, Vitória o nomeia seu tutor político e com ele compartilha seus desafios diários.

Dividida entre dois homens conselheiros  (e por que não, dois amores!), Vitória deflagra uma grave crise institucional, que somente finda quando um deles tira seu time de campo (afinal, estamos em época de Copa do Mundo) e o outro é declarado seu amor verdadeiro. Segura, coração!

P.S. Se você achou este post muito mela cueca, perdão. Eu sou a mulherzinha do blog e constantemente digo que nasci no século errado. 😉 Talvez esteja aí a explicação.

(*) No século XX, mas precisamente em 1996, os irmãos Paolo e Vittorio Taviani fizeram uma adaptação cinematográfica carregada de Passione do romance “As Afinidades Eletivas” de Goethe. Vale conferir! Segura, coração!

Helena Sroulevich


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