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Cultura da vulgaridade: do luxo ao lixo

The Bling Ring

Um cínico é o homem que sabe o preço de tudo, mas o valor de nada.” (Oscar Wilde)

Os suspeitos usavam Louboutins (The suspects wore Louboutins). O título da reportagem assinada pela jornalista americana Nancy Jo Sales e publicada na revista Vanity Fair, cujos direitos de filmagem foram comprados pela cineasta Sofia Coppola, copia das entrelinhas e cola nos perfis do Facebook de aspirantes a celebridade um significado de valor repaginado, que não deixa ninguém bem na fita.

Parte de uma edição especial dedicada a Hollywood, que chegou às bancas em 2010, a matéria de Nancy ironiza logo de cara a conceituação moral de valor, deturpada pelo culto ao materialismo – que se mescla com a fama instantânea e, quase sempre, efêmera – a qualquer preço. A escolha das palavras do título deixa claro que valor se refere à precificação e não mais à educação: a perversão transforma autuação em exposição de marcas. Uma reafirmação de que não existe publicidade negativa. Crime é não estar sob os holofotes. Abrir mão de atitudes condenáveis para chegar lá (o Olimpo midiático) um agravante. O Código Penal é desconsiderado. Em seu lugar, as diretrizes editoriais do TMZ, leis do sucesso.

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Desdobrada primeiro no livro Bling Ring: a gangue de Hollywood (editado em português pela Intrínseca), de autoria da própria Nancy Jo Sales, e depois no filme homônimo de Sofia Coppola, a reportagem, ao investigar a história de jovens de classe média alta de Los Angeles que invadiram e roubaram, entre 2008 e 2009, casas da nova geração de astros de Hollywood – entre eles Paris Hilton, Lindsay Lohan, Audrina Patridge, Rachel Bilson e Orlando Bloom –, questiona a obsessão de nossa cultura em relação à fama. Os integrantes da Bling Ring que iam “às compras” nas casa de famosos tiveram os nomes trocados no filme. Diana Tamayo, Jonathan Ajar, Alexis Neiers, Rachel Lee, Nick Prugo, Courtney Ames e Roy Lopez foram enquadrados na investigação policial. No filme de Sofia, destacando as principais peças, Rachel é Rebbeca (Katie Chang), Prugo é Marc (Israel Broussard), Neiers é Nicki (Emma Watson) e Lopez é Ricky (Gavin Rossdale). Taissa Farmiga interpreta Sam, que é a versão para os cinemas de Tess Taylor, “irmã adotiva” de Neiers, única não indiciada pelas invasões seguidas de roubos.

A bolha da fama, antes distante, feérica e impenetrável, se transformou numa vitrine midiática com o advento dos reality shows, da internet – com seus sites e blogs de fofocas –, das redes sociais e das revistas especializadas na cobertura de celebridades. Vitrines não com manequins, mas com gente de carne e osso, como qualquer um. Na consciência coletiva da geração tabloide, louca por um dano cerebral que a sequelasse numa celebutard (uma celebridade burra e extravagante), era cada vez menos impossível atravessar a tela da televisão ou do computador e fazer parte daquele mundo aparentemente perfeito, sustentado por estratégias de marketing que utilizavam a linguagem da ficção como atrativos para ambientes e experiências de consumo, ostentação, diversão e sexo – sempre relacionados ao dinheiro (muito dinheiro!) e o que ele pode comprar. Como corolário dessa lavagem cerebral na formação de indivíduos, egoísmo, individualismo, narcisismo, cinismo, frivolidade, hipersexualização e alienação disfuncionalizando caracteres.

Bling Ring (2013) Katie Chang and Israel Broussard

Em seu livro-reportagem, lá pelas tantas Nancy questiona “por que Kim Kardashian era famosa”. A periguete de luxo, com seus modelitos sob medida para exames ginecológicos, foi alçada ao estrelado por um vídeo em que aparece seminua com o cantor Ray J. Aprendeu direitinho com Paris Hilton a encontrar o melhor ângulo de suas partes íntimas. A jornalista desfia a linha de raciocínio com sua explicação: “porque era muito boa em marketing pessoal, só por isso – e hoje em dia, é o que basta. As corporações agora são pessoas, e as pessoas são novos produtos, conhecidos como ‘marcas’. Numa época em que 1% da população está ficando mais rica, os 99% restantes de repente estavam tentando imitar o comportamento das Kardashian.

Em entrevista concedida à revista VEJA, Nancy disse que jovens “são bombardeados com mensagens que dizem que eles devem ser sexy o tempo todo e acabam acreditando nelas”. As gerações Y e Z, segundo a jornalista, nascida na Flórida e radicada em Nova Iorque, sofrem de depressão e ansiedade por causa da obsessão pelo universo dos famosos. “Crianças de países em desenvolvimento, que deveriam estar preocupadas em ser médicas, professoras, estão querendo ser estrelas do pop, rappers. Eu falo com crianças há dez ou quinze anos para fazer reportagens e, quando pergunto a elas o que querem ser, elas respondem: ‘Quero ser modelo’. Ou algo do tipo. Por que essas crianças querem isso? Estamos promovendo a ideia de que isso é uma profissão viável para qualquer um, e não é. O número de modelos bem-sucedidas no mundo é minúsculo”, declara Nancy. Idiossincrasias prontas para serem roteirizadas.

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Sofia Coppola, na interpretação de Nancy, explora em seus filmes aspectos mais filosóficos do material que alimenta a imprensa sensacionalista: a obsessão com a celebridade, a arrogância dos jovens ricos, o vazio que cerca a fama enquanto aspiração ou modo de vida. Sofia deixa da lado a pirotecnia cinematográfica para focar nos dramas humanos. Em especial quando a superexposição, atrelada à fama, torna o privado público: impresso, televisionado, postado, tuitado ou simplesmente devassado pela câmera invasiva do cinema. A análise da jornalista da filmografia da diretora é precisa: “’As virgens suicidas’ (1999), baseado no romance de Jeffrey Eugenides, era sobre uma família de meninas ricas em Gross Point, Michigan, que se suicidam inexplicavelmente, tornando-se por isso ‘famosas’ em sua vizinhança. A Maria Antonieta de Sofia, interpretada por Kirsten Dunst, era uma adolescente mimada e uma espécie de estrela do rock da época (até, é claro, perder a cabeça). ‘Encontros e desencontros’ (2003) – filme com o qual Sofia ganho o Oscar de Melhor Roteiro Original em 2004 – retratava um ator de filmes de ação (Bill Murray) que é vítima da superexposição provocada pela fama; e em ‘Um lugar qualquer’, Stephen Dorff interpreta um ator famoso que mora no lendário hotel Chateau Marmont e se dá conta de que sua existência no centro de Hollywood é vazia e sem sentido”.

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Em “Bling Ring: a gangue de Hollywood”, Sofia, com sua assinatura estética usual, aproxima-se do registro documental e deixa de lado experimentalismos estéticos e metáforas. Ela não julga ou manipula situações com a câmera para que se conformem ao seu juízo de valor. Deixa que as próprias situações encenadas pelos atores naquele mundinho de subcelebridades ardam numa fogueira de vaidades e exalem as ironias peculiares daquele “estilo de vida”. Um noticiário do absurdo consumido pelos espectadores como um Big Brother, indicando que a prisão perpétua da opinião pública é ao mesmo tempo bênção e maldição. O registro cru de Sofia talvez seja seu equívoco nesta produção. A pesquisa jornalística se apega a contradições e inconsistências. Quando essas fraturas são confrontadas com os discursos e atitudes dos membros da Bling Ring, mentirosos patológicos, o tom irônico, o humor doentio, o deboche e o escárnio escorrem das páginas. Não é tão fácil com uma câmera naturalista capturar essa linguagem incongruente e, portanto, incomodamente engraçada. Sofia Coppola se aproximaria muito de Franz Kafka se o escritor fosse despido das alegorias.

Além disso, Sofia apenas tangencia temas que seriam causas daquele comportamento, como a negligência e permissividade dos pais. Passa ao largo de questões políticas, sociais, culturais e econômicas que foram determinantes na mudança de valores da sociedade americana da década de 1970 para cá. Questões contempladas na pesquisa para o livro e nem ao menos sugeridas no filme. Um contexto que faz falta para uma reflexão que transcenda consequências. Bling Ring…” pende mais para a trama policial do que para o drama psicológico.

Dois membros da gangue de delinquentes abonados, numa sequência emblemática, destacada por Isabela Boscov em texto sobre o filme publicado na revista VEJA desta semana, invadem a casa de Audrina Petridge. Quem assiste ao filme acompanha tudo a distância. Os dois adolescentes lembram ratos de laboratório num labirinto, nas palavras de Boscov. O simbolismo instiga outras leituras. Eles não controlam seus atos, suas vidas, são controlados pelas circunstâncias; e estão submetidos ao voyeurismo alheio, com sua intimidade devassada – assim como as celebridades que sonham ser.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Sonhando em cair na balada com a Paris ou a Lindsay? Vai se iludindo no embalo da trilha sonora do filme: aqui

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Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

Clube dos três

Fonte: deviantart

Simplificação exagerada da narrativa, enxugamento do texto literário e o redimensionamento de situações da história dos personagens em detrimento do apequenamento (ou exclusão) de outras são estratégias utilizadas na transposição de livros para as telas. Tais artifícios vão de encontro às idiossincrasias hiperbólicas que nublam a adolescência com dúvidas, exageros, inseguranças, impulsividade, conflitos, medos e geram um custo emocional alto, mas necessário para a formação da personalidade.

As vantagens de ser invisível” consegue compatibilizar uma amostragem das infinitas contradições emocionais da adolescência – exploradas no romance homônimo – com as imposições comerciais da indústria ao empreender um expediente simples, mas eficaz: o escritor americano Stephen Chbosky foi incumbido de roteirizar e dirigir a versão de seu próprio livro para as telas. Controlando todo processo, o realizador, devoto de John Hughes, foi capaz de garantir a integridade de sua obra e se certificar de que a tradução, mesmo sendo um produto diferente do livro, carregasse a alma autoral impressa nas páginas.

Hughes foi o porta-voz dos questionamentos da juventude da década de 1980, com obras como “Clube dos cinco” (1985) e “Curtindo a vida adoidado” (1986). “The perks of being a wallflower”, no original, é a proposta de Chbosky para rediscutir de forma séria uma época conturbada, fugindo de comédias escrachadas como “Superbad” (2007) e do surrealismo da linguagem dos quadrinhos e videogames de “Scott Pilgrim contra o mundo” (2010) – aproximando sua filosofia estética de produções como “A lula e a baleia” (2005), de Noah Baumbach, e “Rocket Science” (2007), de Jeffrey Blitz.

Charlie (o talentoso Logan Lerman, o Michael Cera de Chbosky) está passando pelo desconforto do primeiro ano do ensino médio, um trote que se estende por todo calendário letivo, talvez além. O garoto é discriminado por não se enquadrar no modelo de comportamento considerado cool pelas tribos de it teenagers que dominam a área da escola. Se desvia como pode das farpas do bullying, rito de passagem pelos corredores para os diferentes. Não há nada pior para alguém que, influenciado pelas altas taxas hormonais, deveria pensar somente numa coisa: garotas, de preferência nuas.

Deveria, numa outra dimensão em que não existissem ambiguidades. Típico nerd, tímido, introspectivo, dedicado aos estudos e à literatura, sem traquejo com rituais sociais considerados ortodoxos, que lhe renderiam algumas amizades, Charlie é resgatado de sua misantropia pelos “irmãos” Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson). Os dois apresentam outra realidade para Charlie, repleta de possibilidades. Não é difícil adivinhar que o Holden Caulfield do escritor/diretor se perde por Sam – moleza interpretar alguém apaixonado por Emma Watson; não é preciso ter talento ou frequentar o Actors Studio para convencer. O problema é que algo freia seu ímpeto de expressar o que sente.

Fonte: deviantart

Com o desenrolar da trama, o filme/texto de Chbosky mascara os esqueletos que os três guardam no armário com as inconstâncias e rompantes da idade. Questões como homossexualismo, o primeiro namoro, a primeira transa, as descobertas por meio de tentativa e erro, as escolhas precoces que podem determinar o futuro, a aflição das aplicações para as universidades, as atitudes irresponsáveis, as contradições sentimentais provocam reações que são confundidas com comportamentos que escondem traumas psicológicos mais sérios.

Flashbacks vão desvelando razões por trás das relutância de Charlie em se enturmar, arriscar, amar, ser adolescente. Seu único diálogo é com os livros, que estreitam sua relação com o professor de literatura inglesa, seu John Keating, interpretado por Paul Rudd. Estimulado, ele se entrega à escrita, único exercício de que gosta, solitário, na tentativa de desatar um nó em seu peito.

O sol é para todos, de Nelle Harper Lee, e On the road, de Jack Kerouac, não à toa integram a seleta de leituras obrigatórias. Mas a literatura só atinge toda sua grandiosidade quando diz algo sobre nós mesmos, e não quando é somente um mero instrumento de fuga ou passatempo vazio. Charlie se liberta por meio da coragem de Patrick e Sam para se desvencilhar de preconceitos e recalques que os impediam de crescer e assumir as rédeas de suas vidas.

Fonte: deviantart

A sensibilidade para tratar de temas considerados tabus se mescla e se confunde com a instabilidade psicológica e emocional de um período complicado. Aí está o excepcional… “The perks of being a wallflower” questiona valores rotulando metaforicamente problemas com os “defeitos morais” da adolescência. O “desvio” para falar do “desvio”, estabelecendo causas e consequências distintas. Chbosky pede que sua juventude seja ouvida para além de estereótipos e das condutas imputadas à idade. E ela grita alto. É só filtrar os ruídos.

Senhoras e senhores, sou o Carlos Eduardo Bacellar e posso dizer que sobrevivi à adolescência quase incólume… Acho… Mas continuo por aqui, tentando me entender; saber quem sou e para onde vou. Qualquer lugar com Emma Watson estaria perfeito.

p.s. Há imagens muito bacanas no tumblr do filme.

Fonte: “The perks of being a wallflower”, por Joel Amat Güell

 

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