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Pesadelo burtoniano

Mais do que transformar sonhos em realidade, Tim Burton arte-finaliza com sua imaginação os rascunhos de pesadelos que o acompanham desde a infância. Solitário, alienado e desajustado, o pequeno Timothy fazia do horror e do grotesco um ambiente (des)esterelizado que o protegia de um mundo exterior que não conseguia delinear o que havia na escuridão que se alongava no interior do garoto. Sua “excentricidade” precoce o afastou do convívio social, fazendo de sua criatividade mórbida a amiga de todas as horas.

Segundo Paul A. Woods, organizador de O estranho mundo de Tim Burton, almanaque editado pela Leya que reúne textos e entrevistas sobre (e com) o diretor de “Edward mãos de tesoura” (1990), filmes clássicos de monstros em preto e branco, ficção científica dos anos 1950, sessões de desenhos animados exibidas nos finais de semana, contos de fadas em animação e todo tipo de produções amaldiçoadas como trash moldaram a estética gótico-infantil de Burton.

Sombras da noite”, novo longa do mestre do cinema obscuro que acaba de estrear por aqui (cuja matéria-prima é uma produção americana para a televisão de mesmo nome que o título em inglês do filme, idealizada por Dan Curtis), mantém-se fiel às propostas estéticas de Burton – elas, filme após filme, exumam o que está enterrado no inconsciente do diretor, traumas mumificados numa tumba de sombras que se moldam à imaginação fervilhante. Cassius Medauar destaca “o clima sombrio […], atores que sempre trabalharam com ele e visuais fantásticos, como em todos os seus filmes anteriores, um tom de fantasia e desafio, com um pé no obscuro, sempre fugindo do lugar-comum.” Somam-se a esses elementos o grotesco, o surreal, um sentimentalismo mórbido, o humor negro o caricaturismo macabro, o ilógico e uma inocência distorcida que sublinha o desenvolvimento emocional tardio de seus protagonistas. Há também fortes influências da literatura infantojuvenil de Neil Gaiman, como Coraline e O livro do cemitério. Gaiman e Burton operam na mesma frequência fora de sintonia com o comum (ou o que é considerado comum para a maioria). 

Em “Dark Shadows” (no original), Burton comanda uma equipe que reúne o roteirista Seth Grahame-Smith (autor do romance Abraham Lincoln: caçador de vampiros e também roteirista do longa homônimo, dirigido por Timur Bekmambetov e ainda inédito no Brasil); o diretor de fotografia Bruno Delbonnel, que trabalhou em “Harry Potter e o príncipe mestiço” (2009), de David Yates, e “Fausto” (2011), de Aleksandr Sokurov, que entrará em cartaz em breve; seu montador habitual, Chris Lebenzon, responsável pela edição em “A lenda do cavaleiro sem cabeça” (1999), “Peixe grande” (2003), “Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da rua Fleet” (2007) e a versão Senhor dos Anéis de Burton para “Alice no país da maravilhas” (2010), baseada na obra literária de fantasia de Lewis Carroll; a metade musical do diretor, Danny Elfman, com quem ele joga Song Pop; e claro, o combo de dramaturgia com Johnny Depp e Helena Bonham Carter, mulher de Burton, que ocupou o vácuo emocional no coração do diretor deixado por Lisa Marie, com quem teve um relacionamento de oito anos e de quem chegou a ficar noivo. Ou seja, todos com o pé na escuridão e no sobrenatural.

Neste conto de fadas ao avesso, acolhedor como um cemitério, Barnabas Collins (Depp) é fruto de uma família aristocrata inglesa que prospera do outro lado do Atlântico no século XVIII. Para seu azar, ele se torna a obsessão da bruxa Angelique Bouchard (a heartbreaker Eva Green, absurdamente estonteante como sempre; mais para uma pin up afroditiana e menos para feiticeira do mal), com quem teve um caso efêmero. Desprezada por Barnabas, Angelique mata os pais e a amada de sua fixação passional, transforma-o num vampiro, enterrado por quase dois séculos por causa da dor de cotovelo, e se dedica a desgraçar a vida dos Collins.

Quando é despertado por acidente, na década de 1970, o ser efeminado da ordem Chiroptera, que faria Bram Stoker se revirar no caixão, reencontra seus descendentes, arruinados como a mansão em estado de putrefação onde vivem. A chefe anos 70 do clã Collins é Elizabeth (Michelle Pfeiffer, anestesiada pela decadência de sua personagem), responsável por sua filha adolescente (= rebelde) Carolyn (Chloë Grace “Hit-Girl” Moretz), o sobrinho Davi (Gulliver McGrath), projeto de Cole Sear e filho de seu irmão canastrão Roger (Jonny Lee Miller). Os apêndices são o caseiro Willie Loomis (Jackie Earle Haley sujo, fedendo a álcool), a psiquiatra Julia Hoffman (Bonham Carter em uma versão antropomórfica da Rainha Vermelha) e Josette DuPres (Bella Heathcote), a misteriosa tutora nova-iorquina contratada pelos Collins para lidar com os “problemas” de David, sósia da amada setecentista de Barnabas. Outra surpresa desagradável. A bruxa continua na ativa como uma oxigenada empresária do ramo de pesca. E, sim, ela não perdeu o tesão pelo antigo affair, com quem quer negociar e procriar (?). Josette será a nova antagonista de Angelique na disputa pelo cadáver do vampiro.

Os críticos de Burton condenam justamente os ambientes oníricos degenerados que ele estrutura em detrimento da ação dramática. Apesar de serem o grande apelo das obras burtonianas, e continuem encantando plateias do mundo todo, o olhar mais atento, sensibilizado por aquela estética necroteriana, percebe que as atmosferas sistematicamente se repetem, com pequenas variações. O que poderia enriquecer (mais) os filmes são os personagens. Mas é possível que as sessões de Burton com seu analista não estejam fazendo efeito. Ele não consegue deixar de se projetar em suas criações, tornando-as alter egos das mesmas inquietações, envoltas na névoa da solidão e da tristeza, que o perturbam – sempre sublimadas da mesma maneira, valendo-se do bizarro – dê a Burton um cadáver e ele irá transmutá-lo num Woody Allen zumbi pronto para divertir crianças despedaçando gentilmente corpos no picadeiro do Cirque du Soleil. Barnabas é só mais um garoto monstruoso e desajustado com coração de criança e alma antiquada. Outra versão do rapaz com mãos de tesoura e de Ichabod Crane. Depp ainda comete o erro, talvez inconscientemente, por causa da força do personagem, de aproximar Barnabas de Jack Sparrow, o pirata de sexualidade ambígua da franquia “Piratas do Caribe”.

O potencial criativo do bullying psicológico que Tim Burton inflige em si mesmo e o torna uma fábrica de doces absurdidades assustadoras, válvulas de escape de uma alma atormentada pelo horror (que, curiosamente, o conforta), precisa ser desinfectado para evitar os fungos da mesmice – uma linha de produção burtoniana, semelhante à de Ford, no sentido pejorativo. A capacidade do diretor é inegável. Resta ousar.

Reciclando algumas palavras de Woods, talvez seja necessário que o realizador de “Noiva cadáver” (2005) encontre novas formas de reconciliar a poesia do terror barato – levada a outro patamar pela macabra e inortodoxa direção de arte de suas ideias tortas – e seu negrume pessoal com a tragédia silenciosa das aspirações humanas.

Burton precisa deixar os pesadelos um pouco de lado e sonhar mais.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Depois de assistir ao filme, impressionado por não ter ficado impressionado, não consegui pegar no sono, tamanha a frustração. Tive que contar sardas para dormir. Uma, duas, três… Perdi a conta… Novamente… Uma, duas, três…

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A sonhadora

Um filme que traz Eva Green como protagonista não precisa de muito esforço para se vender. Os profissionais de marketing, que de bobos não têm nada (e não querem arriscar perder um centavo sequer), jogam baixo e estampam a francesa na capa do DVD de “Sedução” (2009), último trabalho da musa − que arrebatou corações como a Isabelle de “Os sonhadores” (2003), obra de Bernardo Bertolucci – a desembarcar por aqui, sem passagem pelo circuito exibidor.

Em “Cracks” (no original), sob a batuta da diretora Jordan Scott – nada mais nada menos que filha de Ridley Scott, um dos produtores executivos do longa −, Eva interpreta Miss G., professora nada ortodoxa de uma austera escola para meninas situada numa ilha inglesa na década de 1930. Encarregada de um grupo de estudantes, ou melhor, pupilas, Miss G. encanta o corpo discente ao demonstrar ser uma mulher extremamente liberal e desencanada, que fervilha de ideias anacrônicas.

Com a chegada da aristocrata espanhola Fiamma (Maria Valverde) à escola, invejas afloram no clube da Luluzinha de Miss G., que acaba engolfada por incertezas ao sentir seu pseudoespírito cosmopolita desafiado pela independência e repertório de Fiamma.

Ela mesma ex-aluna da instituição, utiliza como afrodisíaco para inebriar a si mesma e suas meninas a mistura de fantasia e realidade em histórias à moda das mil e uma noites. O subproduto de sua mitomania é uma espécie de psicose que transborda para atitudes reprováveis. Conforme a trama se desenrola, percebemos que a ligação entre professora e alunas é algo orgânica, e o excesso de intimidade acaba dando vazão a pulsões que não poderiam se materializar em atos inconcebíveis.

Eva Green mostra seu talento na pele de uma mulher perturbada que foi tolhida de seus sonhos. Desequilibrada emocionalmente, ela sublima em suas discípulas a frustração causada pela castração de sua alma − ao mesmo tempo que as liberta e aprisiona com jogos retóricos.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Deixando de lado toda verborragia acima, apresento-lhes somente um motivo para assistir ao filme: Eva Green protagoniza um skinny dipping sob a luz do luar. Não disse antes porque não queria apelar, como fizeram os responsáveis pela capa do DVD.

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O justiceiro mascarado

Atrás de alguma novidade na locadora, esbarrei no nome de Eva Green na capa de “Franklyn” (2008) — “O justiceiro mascarado”, na tosca tradução para o Português –, produção do desconhecido diretor inglês Gerald MacMorrow.

Lançado por aqui diretamente em DVD (eu me lembraria se Eva Green tivesse entrado no circuito), é mais uma realização da indústria que escorreu pelo ralo do mercado exibidor e esgueirou-se para as estantes das locadoras, fazendo companhia a filmes como “Acima de qualquer suspeita” (2009) – que tem nada mais nada menos que Michael Douglas nos créditos – e “Tá rindo do quê?” (2009), assinado pelo renovador do gênero comédia Judd Apatow. Estou tentando vencer meu preconceito de filme-que-vai-direto-para-a-locadora-é-um-lixo.

A narrativa de “Franklyn” transita entre dois mundos paralelos: a lúgubre, mas não menos charmosa Londres contemporânea, e uma distópica cidade futurista – Meanwhile City – controlada pela opressão religiosa. O início prometia: “A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira; pelos sábios como falsa; e pelos governantes como útil”. Depois disso, a coisa desandou.

A história envolve quatro indivíduos, dilacerados entre as duas realidades, que caminham para uma interseção definidora. Ryan Phillippe é o justiceiro mascarado (e que máscara sensacional!) Jonathan Preest, que corre atrás de um dos líderes religiosos de Meanwhile City – o Indivíduo –, apontado como o assassino de uma menina. Peter Esser, interpretado por Bernard Hill, é um pai inconformado com o sumiço de seu filho, e que não mede esforços para encontrá-lo. Sam Riley, que vive Milo, é um jovem que tem o coração partido ao ser abandonado por sua noiva. Por fim, a inigualável Eva Green, uma aspirante a atriz suicida, que exala inconformismo com a separação de seus pais e a falta de atenção de sua mãe – suas performances artísticas são um grito macabro de socorro.

O filme – com ares de “V de Vingança” (2005) – até possui um argumento interessante, mas o desenvolvimento da trama é mal conduzido. O roteiro é confuso e, na tentativa de criar algo surpreendente, acaba por ser mirabolante em excesso, deixando furos imperdoáveis que prejudicam o andamento e o entendimento do drama.

Apesar de poderosa, Eva Green não é suficiente para prender a respiração do espectador por 97 minutos, ainda mais dividindo a atenção com as fracas atuações dos outros personagens – só quem se salva é Hill.

Quem quiser curtir o charme de Eva em todo seu esplendor, eu sugiro o aluguel de “Os sonhadores”, obra de Bernardo Bertolucci. Só cuidado para o seu coração não ficar irremediavelmente perdido pela magia daquela pele alva e sardenta, e pelo poder daqueles olhos claros que ameaçam a hegemonia de Vera Farmiga.

Fecho com estas palavras de Preest: “Se Deus deseja impedir o mal, mas não é capaz, ele não é onipotente. Se é capaz, mas não deseja, é malévolo. Agora, se não é capaz nem deseja, então por que chamá-lo de Deus?”. Deus não seria uma metáfora para mercado exibidor?

Carlos Eduardo Bacellar


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