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Os Simpsons taciturnos de Todd Solondz

Em “Dark Horse”, o diretor americano Todd Solondz continua sua incansável faxina estética – cujos marcos são “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995), sua obra-prima, “Felicidade” (1998), e “A vida durante a guerra” (2009) –, espanando com fúria inteligente a purpurina que escamoteia os traumas e distúrbios da classe média ianque.

Os subúrbios americanos, locais em que se aglutinam as famílias Simpson taciturnas de um país em crise, são zonas de quarentena sob o olhar aguçado de Solondz. Armado de realismo cruel, cinismo, humor ácido, ironia, sarcasmo e do politicamente incorreto, o realizador desvela, disfarçados sob a maquiagem das aparências, os agentes patogênicos – diagnosticados como medo, ansiedade, depressão, perversão, hipocrisia, insegurança, falência da comunicação entre gerações – que atacam o equilíbrio psicológico de seus personagens.

Abe (Jordan Gelber, o Seth Rogen de Todd, que torna constrangedoramente cômica a existência patética de seu personagem) é o azarão da vez. Anomalia típica de uma família de classe média alta americana, cujos progenitores são Jackie (Christopher Walken, excepcional como um zumbi ambulante, contaminado pelas desilusões que a vida lhe impôs) e Phyllis (Mia Farrow, decadente como a matriarca atolada num casamento que segue na comodidade do piloto automático), ele é a ovelha negra do clã.

Alienado, disfuncional, sem ambições, egoísta, parasita dos rendimentos da família e inebriado por ilusões de gandreza, Abe passa seus dias fingindo que trabalha na empresa do pai – o que lhe dá um salvo-conduto de consciência para torrar dólares no moto-perpétuo da incineradora engendrada pela indústria do consumo.

Desprovido de objetivos (acadêmicos e profissionais), sentindo-se diminuído pelas conquistas do irmão Richard (participação especial de Justin Bartha, que ganhou o cachê mais fácil de sua vida) e incomodado pela preocupação lenientemente frouxa dos pais, ele se torna um adulto sem traquejos sociais, irresponsável, inconveniente e incapaz da autossuficiência. Desestruturado emocionalmente, Abe utiliza como reboco para preencher os buracos de seu coração – que grita mais pela necessidade (biológica) da procriação e (cultural) do prazer efêmero do que pela vontade de forjar qualquer laço afetivo mais substancial – um relacionamento fictício com a problemática Miranda (Selma Blair, atriz-assinatura de Solondz, num estado de torpor manicomial, cujo personagem é movido a substâncias químicas. Miranda, ex-Vi, surgiu pela primeira vez em “Histórias proibidas”, filmaço lançado por Solondz em 2001. Na trama, composta de segmentos independentes, ela participa da episódio Ficção).

Sem conseguir se ajustar em algum lugar entre o hedonismo e a despreocupação da adolescência e os compromissos e a inflexibilidade de regras do mundo adulto, Abe cria mecanismos de defesa para gerenciar sua fragmentação psicológica, permanecendo em constante estado de surto. Ele passa a transitar entre realidade e sonho, orientado tanto no lado de lá com no lado de cá por Marie (Donna Murphy), fiel funcionária da empresa do pai e uma segunda “mãe”. Marie, produto da competência e dos recursos dramáticos de Donna, é a responsável pela melhor atuação no longa. A cougar de Solondz, devoradora de homens em pele de senhora recatada, migra com desenvoltura da subserviência à autonomia, da ingenuidade à malícia, colocando panos quentes na negligência de Abe ao mesmo tempo que tenta transformá-lo em um homem de verdade. Horas extras espontâneas, fora da folha de pagamento, que lhe renderão algumas rugas a mais.

A fotografia de Andrij Parekh é caudatária das lentes de Maryse Alberti (“Felicidade”) e Edward Lachman (“A vida durante a guerra”). Quebra expectativas ao tingir de colorido algo sombrio, que se putrefaz em mentiras. Repetidas diversas vezes, como um mantra, depois de algum tempo elas reluzem como verdades.

Dark Horse”, roteirizado por Todd, torna-se mais significativo em meio aos desdobramentos da crise econômica dos EUA, como o movimento Ocupem Wall Street. Para quem os americanos vão legar essa militância ideológica? Pensando melhor, talvez a pergunta mais pertinente seja: que ideologia (ou ausência dela) é esta que dissolve valores e desconsidera o outro?

Carlos Eduardo Bacellar

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Um homem-bomba

Cinema não é Literatura e adaptação literária ao cinema é coisa séria. Aí os acertos de “Corações Sujos”, novo longa-metragem do Vicente (sou fã!) Amorim, que estreia comercialmente em 2012 e teve pré-estreia no Festival do Rio.

Enquanto o livro homônimo de Fernando Morais conta a história desconhecida da organização fundamentalista Shindo Renmei, uma espécie de maçonaria nipônica, extrema em preservar valores e tradições, fronteira tênue com os contemporâneos Hamas e Hezbollah, o filme é um thriller de amor.

Em meio às plantações de algodão do interior brasileiro, vive Takahashi (Tsuyoshi Ihara, de “Cartas para Iwo Jima”, Clint Eastwood, 2006), imigrante fotógrafo e casado com Miyuki (Takako Tokiwa), professora numa escola clandestina de ensino japonês, uma bandeira de resistência. Com os direitos de liberdade confiscados, ninguém sabe ao certo se o Japão venceu ou não a Segunda Grande Guerra. Contexto propício para o surgimento da Shindo Renmei, que em nome do Sol Nascente,  finca a espada do Samurai no peito de todo e qualquer coração sujo (nome do grupo dos “derrotistas”, que não acreditavam no triunfo do Japão na guerra mundial).

O protagonista sangrento é Takahashi, que vai de um homem bom (*) e comum a fundamentalista extremado. Desequilibrado em forças opostas, mas que se retroalimentam — ultranacionalismo, realidade marginalizada e amor complacente da mulher –, Takahashi revela que no mais puro dos corações pode residir um coração sujo em potencial. Afinal, o pior inimigo está dentro de cada um de nós. Um homem-bomba.

A produção dá olé em Hollywood. Ambientado na década de 40, o filme tem direção de arte (Flaksman!) e de fotografia (Rodrigo!) de crescer os olhos. O roteiro (David França Mendes!) é mais do que competente. A direção, um primor. Só alguém com a sensibilidade e o internacionalismo (de berço e de experiência) do Vicente para fazer esse filme. Sem falar que ele usa planos abertos e sucessão de cortes, que nos remetem ao bang bang, e nos deixam nos nervos durante todo o filme. Ou seja, é para americano ver. E aprender. E o Vicente é made in Brazil.

(*) Um Homem Bom, Vicente Amorim, 2008.

Visitem o site: http://www.coracoessujos.com.br

Ao amigos internacionalistas e da família desde sempre Fernando Morais e Vicente Amorim, espero que a parceria de vocês seja tão exitosa quanto a de Marçal Aquino e Beto Brant. Mas chamem o David – o cara sabe extrair a essência para cinema da literatura do Fernando. Uma beleza! Que venham os soldados da Guerra Fria (se o Rodrigo Teixeira deixar… hehe!), Operação Peter Pan e tudo mais. Para o Peter Pan, estou à disposição. Conexão umbilical. 😉

Helena Sroulevich

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Rejeitados pelo diabo


Rob Zombie deve estar preocupado… Em competições de empilhamento de corpos, o título ostentado pelos açougueiros do clã Firefly, cujos integrantes são conhecidos como “Rejeitados pelo Diabo” (2005), está ameaçado pelo pastor Abin Cooper (Michael Parks, espetacularmente insano) e seu séquito de fanáticos homicidas.

Em “Red State”, o diretor Kevin Smith que também atua (“Dogma”, 1999), escreve roteiros (“Procura-se Amy”, 1997, produção que também dirigiu), produz (assinou a produção executiva de “Gênio indomável”, de Gus Van Sant, 1997) e se destaca como quadrinista (escreveu, entre outras, histórias do Demolidor, Besouro Verde e Batman, além de ser dono de uma comic-shop, a Secret Stash) — degenera o extremismo religioso, elevando a interpretação das escrituras sagradas à insanidade.

No meio-oeste americano, a seita assassina liderada por Cooper — temida até pelos neonazistas — resolve decalcar o livro do Apocalipse das páginas da Bíblia e pregar, com veemência macabra, uma doentia intolerância, deteriorada por preconceitos, no raio de atividade da paróquia da Igreja das Cinco Pontas. Barricados numa fazenda isolada, armados até os dentes, os integrantes da Cinco Pontas, em vez de promover quermesses para ajudar os necessitados ou se engajar em causas sociais, sequestram homossexuais e todos os demais que consideram hereges. As vítimas pagam por sua suposta apostasia com a vida, sacrificadas no altar da igreja pelos pecados cometidos.

Investigada por atividades suspeitas, danosas à segurança doméstica, a família Manson de Cooper está sob vigilância das autoridades americanas. Uma força policial liderada por Joseph Keenan (John Goodman) é despachada numa missão de busca e apreensão que prenuncia o pior. A batida interrompe um ritual de expurgo de três jovens infiéis Travis (Michael Angarano), Billy-Ray (Nicholas Braun) e Jarod (Kyle Gallner), capturados numa emboscada pelos falos intumescidos, que desviaram a irrigação sanguínea de seus cérebros para regiões periféricas, o que comprometeu o raciocínio do trio —, e os agentes acabam entrando em confronto com os fanáticos.

Numa tecnicalidade política com o intuito de preservar a imagem das autoridades ianques, Cooper e seus devotos são rotulados como terroristas por alguém em um escritório, e Keenan recebe ordens de executar tudo o que se mexer dentro do perímetro. A missão é realizar uma sequência de “A casa dos mil corpos” (Zombie, 2003), transformando a fazenda num mausoléu.

O filme possui uma premissa que inspira possibilidades e atiça expectativas. Só que Kevin Smith peca na construção do roteiro, que abandona a discussão acerca da perversão da fé utilizada como arma de dominação e instrumento de lobotomia moral —, centrada no indivíduo, e descamba, após profusão de capítulos e versículos da Bíblia despejados pelo pastor sobre seu rebanho de lobos em pele de cordeiros, para um filme de tiroteio.

Smith perde uma excelente oportunidade de focar nos desdobramentos da violência psicológica infligida por aquela doutrinação perniciosa, trabalhada somente de forma epidérmica. Essa é a diferença dele para um Frank Miller, autor de Batman: ano um, quadrinho que revela os conflitos, incertezas e pudores de Bruce Wayne nos primeiros anos como o homem morcego.

Melissa Leo se sobressai. Na pele de Sara, a atriz veterana esbanja recursos dramáticos — que a consagraram em produções como “Rio congelado”(2008) e “O lutador” (2010) — para explorar a lavagem cerebral que programou sua personagem para obedecer cegamente, como um autômato desprovido de humanidade. Michael Parks, perfeito, é o resultado de uma ideologia retrógrada e radiotiva, que remonta ao século XIX e a Ku Klux Klan e teima em vicejar em tempos de inseguranças. A fotografia de David Klein, parceiro de Smith em trabalhos anteriores, exponencia a tensão em enquadramentos claustrofóbicos e sujos, dignos de “O massacre da serra elétrica” (2003). Uma pena que a sensibilidade de Kevin Smith para o humano deixou a desejar.

Carlos Eduardo Bacellar

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Necrológio do amor

No livro Tóquio proibida Uma perigosa viagem pelo submundo do crime, do jornalista americano Jake Adelstein, aprendemos que os japoneses têm nomes tão sutis e complexos para tristeza que as traduções não lhe fazem justiça. Segundo Jake, setsunai se traduz normalmente como “triste”, mas se refere a um sentimento tão forte de tristeza e solidão que provoca uma opressão no peito, como se impedisse a pessoa de respirar. É uma tristeza física e palpável.

É esse o tipo de sentimento que assola Enoch Brae (Henry Hopper, disfarçando sua insegurança com a de seu personagem) em “Restless” (no original), experimentação poética de Gus Van Sant (“Gênio indomável”, 1997) acerca da morte e das escarificações talhadas por ela em seu duplo, a vida.

Na história de tons sombrios escrita para as telas por Jason Lew, debutando como roteirista, a morbidez é o formol estético que preserva o sentido de importância do tempo e das pessoas que amamos.

Brae é um jovem abalado pela perda, que não conseguiu resolver dentro de si a morte dos pais, vítimas de um acidente de carro que quase o matou também. Como paliativo anestésico para o fato de não ter comparecido ao enterro, ele frequenta funerais alheios para compartilhar um adeus engasgado na garganta, soluços asfixiantes e lágrimas que teimam em não secar. Como herança de uma experiência de quase morte, ele se relaciona com o fantasma de um piloto japonês kamikase, Hiroshi Takahashi (Ryo Kase), que espatifou o avião sob seu comando contra as forças inimigas do exército nipônico durante a Segunda Guerra Mundial.

A tristeza de Enoch Brae não seria agridoce o suficiente se não tivesse conhecido Annabel Cotton (a inspiradora Mia Wasikowska, que nos faz sonhar acordados), a menina dos sonhos com uma bomba-relógio na cabeça: um tumor cerebral.

A paixão com data de validade opera transformações. Sem saber quanto tempo lhes resta, Enoch e Annabel são arrebatados por um sentimento que ofusca as sombras e é intensificado pela urgência e alimentado pelas descobertas. Trabalhando o amor fadado ao luto, Gus Van Sant ilustra, por meio de uma inocência que jamais amadurecerá (e por isso mesmo de delicadeza singular, digna de ser sorvida com atenção, por causa da suavidade dos detalhes), a necessidade de aproveitar momentos significativos, cacos de felicidade espalhados por nossa existência que oferecem algum sentido ao ato de respirar e continuar. Mais assustador que o flagelo da ausência é o vazio de não sentir: duas faces do óbito.

O Romeu de Van Sant, que em breve perderá sua Julieta, desiste do suicídio social e utiliza o veneno da morte como antídoto para o torpor e o suplício do espírito. O desenlace da história de Enoch e Annabel não pode ser confundido com uma elegia da solidão, mas, sim, da salvação. “Inquietos” é o melhor filme do Festival do Rio conferido por este Doido até o momento.

Quer impressionar uma garota? Este é o seu filme.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. A trilha sonora de “Restless” é um show à parte.

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Manchetes em vermelho

O meio não é a mensagem. As mensagens são o meio.”

David Carr, jornalista do Times, subvertendo McLuhan

A queda da receita com publicidade e o aumento da competição, resultados das possibilidades da Internet, seriam os principais fatores que obrigaram a mídia impressa a repensar o formato tradicional da comunicação como negócio.

Novos cases de marketing, os veículo impressos se voltam para os livros de Philip Kotler em busca de estratégias de gestão que resultem numa matriz SWOT (avaliação de potenciais e fraquezas; oportunidades e ameaças) com saldo positivo, assegurando o futuro do negócio de instituições consideradas pilares da democracia (e geradoras de muitos empregos).

As respostas para a crise não parecem se formatar com tanta simplicidade na cabeça do documentarista Andrew Rossi, que tomou como ponto de partida as premissas do primeiro parágrafo para averiguar as extensões da crise dos jornais dentro do diário mais poderoso do mundo: o The New York Times. Andrew se pergunta: onde estamos e para onde vamos?

Com acesso à redação do Times, ele acompanha a batalha de repórteres e editores para colocar o jornal nas ruas todos os dias, em meio ao turbilhão econômico. A discussão do doc orbita em torno da viabilidade da mídia como conhecemos hoje, em antagonismo com os novos formatos de comunicação. Todos os pontos nevrálgicos estão lá: enxugamento de redações; cobrança de conteúdos; novas plataformas (incluindo os blogs); credibilidade e capacidade de cobertura dos veículos online; receitas de publicidade; o futuro da profissão de jornalismo; as oportunidades e ameaças da rede.

O jornalista David Carr, um dos mais conceituados profissionais do Times, é filmado na função pouco confortável de porta voz da Dama de Cinza, promovendo defesas apaixonadas e muitas vezes bem criativas, com seu jeitão descolado e carismático dos jornais e da profissão. A importância da credibilidade editorial do Times é ataca e defendida o jornal foi o promotor da separação entre redação e área comercial, reforçando seus compromissos com a informação isenta. A quebra de um grande grupo de comunicação, registrada no doc, é a contextualização do que aconteceria com veículos de comunicação subordinados a interesses puramente comerciais, sem respeito a políticas editoriais, dirigidos por aventureiros do marketing. Mas Rossi não se furta a colocar sob os holofotes os problemas do jornal, sublinhando as falsas notícias sobre as armas de destruição em massa no Iraque e demais erros editoriais gravíssimos, que abalaram a credibilidade do Times.

Conformando-se ao imperativo das transfomações sociais e tecnológicas, o Times, como os demais meios impressos, vem procurando se adaptar conjugando o bom e velho jornalismo com a hiperatividade e a onipresença de novas mídias. O jornal americano, inclusive, numa inversão de conceitos e procedimentos arraigados nos departamentos de RH, cooptou o blogueiro Brian Stelter para suas fileiras na redação. Não pode vencê-los, compre-os.

O balanço final é de mais questionamentos do que respostas, mas as interrogações delineiam uma trilha, instável, cheia de percalços, mas uma trilha. O jornal de papel sofre, sim, transformações em seu modelo de negócio, mas procura se reciclar mantendo seu papel de promotor da transparência de informações na agenda de discussões governamentais, políticas, econômicas, sociais e culturais. E no final das contas, o processamento de informações sempre vai depender de pessoas, os elos mais fortes e ao mesmo tempo mais fracos dessa cadeia. Seja em que meio for.

Uma curiosidade… Andrew Rossi é produtor associado de “Control room” (2004), doc que faz o contraponto midiático da guerra do Iraque, privilegiando o enfoque editorial de cobertura da rede Al Jazeera. Por que digo isso? Musa do blog, a brasileira Julia “ai… ai…” Bacha (diretora do essencial “Budrus”, 2009) é uma das responsáveis pelo doc, dirigido pela egípcia Jehane Noujaim.

Carlos Eduardo Bacellar

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Arqueologia emocional

Paddy Considine (“O ultimato Bourne”, 2007) é mais um ator que se arrisca na direção de longas. Seu “Tiranossauro”, uma das apostas do Festival do Rio 2011, é o marco de um início auspicioso. Não é à toa que ele levou um prêmio pela direção no Festival de Sundance deste ano.

Neste ensaio sobre a falência do indíviduo, Paddy explora as competências dramáticas de Petter Mullan no papel do viúvo aposentado Joseph. Amargurado com a vida, Joseph permanece em constante modo “Um dia de fúria” (1993). Ele desconta nos outros as frustrações pelo seu fracasso como ser humano. Joseph afoga as desilusões na bebida e extravasa seus recalques iniciando discussões, que quase sempre descambam para as vias de fato, com o primeiro que o olhar torto.

Homem sem fé (provavelmente perdida em algum ponto entre a idealização e a realidade), o William ‘D-Fens’ Foster escocês de Considine encontra na comerciante Hannah (Olivia Colman) o analgésico para as dores da alma. Julgada como burguesa pela amargura obliterante de Joseph, Hannah se asfixia emocionalmente, imersa num casamento falido. Postulante ao amparo legal da lei Maria da Penha, sofre resignada abusos físicos do marido James (Eddie Marsan).

Uma situação-limite engessa a mulher ao calvário do viúvo. Joseph e Hannah, torturados por existências que não lhes deram colher de chá, encontram no ombro um do outro, ao descobrirem o meio termo entre a liturgia religiosa e os ensinamentos da vida prática, o elixir da sobrevivência.

Enquanto Joseph desencava na fé palavras para amenizar o espírito, Hannah descobre da pior maneira seu lado brutal, que dispõe de mecanismos de autopreservação para mantê-la inteira.

Intercambiando personalidades, “Tyrannosaur” (no original), roteirizado pelo próprio Paddy Considine, contextualiza a natureza multifacetada de todos nós: somos anjo e demônio. A fotografia de Erik Wilson ilustra contradições, contrapondo decadência física com luxo (dos locais). A arquitetura cênica nos ilude com conceitos arraigados de estereótipos psicológicos, derivados do preconceito e das ideias estreitas. As agruras são potencializadas com as rupturas de paradigmas. As aparências enganam. Na comunhão de anseios, na difícil acomodação entre egoísmo e altruísmo, uma forma de felicidade encontra sua forma de acontecer, e ela geralmente pede alguém para experimentá-la conosco.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Não vou contar o motivo da escolha do título, pois perderia toda a graça. Mas só isso já vale o ingresso. Dou uma dica: algo a ver com o filme “Parque dos Dinossauros” (1993), do Spielberg.

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Reflexões epistolares sobre a perda

Não, não é um fã da banda Slipknot

Caro leitor,

O livro ‘Precisamos falar sobre o Kevin’ é uma obra incrível, trabalho de uma autora de sensibilidade refinada, que não tem medo de expor os esconsos mais íntimos e sombrios de sua alma. Portanto, vou caprichar e, quem sabe?, procurar não decepcioná-lo. Não garanto nada, mas vou me esforçar. Vamos nessa…

*****

Ousadia é o nome da angulação responsável por aproximar as incipientes trajetórias das diretoras Lynne Ramsay e Emily Atef e cruzá-las num ponto de ferida não cicatrizada chamado incômodo. Contabilizando sete produções no currículo (sendo quatro curtas-metragens), a escocesa Ramsay aceitou o desafio de transpor para o cinema o perturbador romance epistolar Precisamos falar sobre o Kevin publicado no Brasil pela @intrinseca, da romancista americana Margaret Ann Shriver, imortalizada no meio literário como Lionel Shriver.

A coragem com que Lynne traduz para as telas as missivas catárticas de Eva Khatchadourian é análoga à que a alemã Emily Atef empreendeu na realização de “O estranho em mim” (2008), filme que fomenta a discussão acerca da depressão pós-parto. A ojeriza à gravidez e a negação da maternidade é o argumento inicial de “We need to talk about Kevin” (no original), apesar de essa premissa ter sido negligenciada no longa homônimo.

Na história de dor que mantém os questionamentos de Eva K. (Tilda Swinton, soberba) em carne viva, a outrora bem-sucedida empresária do ramo de turismo passa em revista, numa série de cartas ao marido Franklin (John C. Reilly, o Shrek da vida real), seu papel como mãe de um núcleo familiar esfacelado pelos atos hediondos de um sociopata, ninguém menos que Kevin Khatchadourian (a cargo de Ezra Miller na fase adolescente, com sei jeito emo e o olhar escuro e frio de Hannibal Lecter, que lembra o de um tubarão-branco), primogênito de Eva e Frank. Responsável pelo chacina que vitimou sete colegas, uma professora e um funcionário de sua escola, situada nos subúrbios de Nova Iorque, Kevin é o ponto de partida para as interrogações de Eva sobre seu papel como mãe, suas escolhas pessoais e profissionais e seu relacionamento com a família.

A exegese apressada da obra de Shriver poderia ludibriar o leitor mais afoito. A depressão pós-parto nem sequer tangencia a convergência de fatores que levou à tragédia pessoal de Eva K. O principal foco do “Elefante” (Gus Van Sant, 2003) de Shriver, cujo roteiro é assinado pela própria Ramsay e Rory Kinnear, é a recuperação pós-assassinatos. Como explicar para ela mesma ex-empreendedora de sucesso, até pouco tempo mãe de um lar de classe média alta americano, pilar da suposta família perfeita o degeneramento homicida de sua prole? De que modo assumir sua parcela de culpa no massacre e ao mesmo tempo se desculpar com a sociedade, o marido e a filha Celia (Ashley Gerasimovich)? É possível continuar vivendo sob o estigma da repulsa? É possível continuar amando? É possível sentir alguma coisa, qualquer coisa?

Lionel Shriver, ao compor seu romance, criou um artifício narrativo para contrabalançar o sentimento antimaterno nutrido por Eva. Talvez para aliviar sua personagem das críticas, talvez um mecanismo de defesa criado pela própria Khatchadourian (já que é ela quem dá voz a suas angústias por meio das palavras) para justificar seu comportamento, Kevin é, desde o berço, delineado como o anticristo. Shriver estabelece o mais desumano antagonismo que pode existir, o de uma mãe por um filho: o prenúncio do pior. Paradoxalmente, essa mesma rixa aproxima os personagens, e os torna tão fascinantes.

Quando aquele bebê se conterceu em meu seio, do qual se afastou com tamanho desagrado, eu retribuí a rejeição talvez fosse quinze vezes menor do que eu, mas, naquele momento, isso me pareceu justo. Desde então, lutamos um contra o outro, com uma ferocidade tão implacável que chego quase a admirá-la. Mas deve ser possível granjear devoção quando se testa um antagonismo até o último limite, fazer as pessoas se aproximarem mais pelo próprio ato de empurrá-las para longe.”

Durante toda a encenação, Tilda Swinton (impecável ao transparecer o drama de Eva), sentindo-se culpada, tenta expurgar sua personagem do sangue alheio derramado, impregnado como tatuagem nas camadas mais profundas de sua epiderme. Os enquadramentos opressores da fotografia de Seamus McGarvey devassam as camadas superficiais de estoicismo, revelando perturbações profundas que são disfarçadas pela conveniência e desmantelam a máscara de aparências.

Sem entrar em polêmicas interpretações religiosas, arrisco dizer que todo sofrimento tem um fim: seja pela morte, por sua assimilação ou por sua resignificação. A compreensão dessa possibilidade talvez tenha resgatado Eva do torpor sentimental. Da perda, ela consegue extrair aquilo que estava escamoteado por camadas de conflitos e negações. E um motivo para continuar amando.

Buscar paralelos entre o comportamento de Kevin e o do assassino de Realengo é um equívoco. Nas duas chacinas, o único denominador comum são as mortes. Se falarmos em motivações, o fanatismo religioso que supostamente catalisou o desenlace no subúrbio do Rio passa longe dos componentes sociais, políticos, econômicos e culturais que deturparam os valores morais de boa parte da juventude americana, relegando-a à alienação.

Lynne Ramsay sabe que o objetivo de Shriver não era escrever mais um “Tiros em Columbine” (2002). Expondo seus fantasmas para a pessoa que ama, com a qual se sente mais confortável, ela procura formas de se desculpar, se explicar, se arrepender, entender (e se entender), perdoar (inclusive a si mesma), enlutar. Eva, colocando no papel o que é pensado, mas nunca verbalizado, se liberta do claustro de expiação erigido por ela mesma. A recuperação de um longo luto que dura 463 páginas no livro e 112 minutos na telas. E abre o capítulo de uma nova história para o futuro.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Lionel Shriver é uma das mais inteligentes romancistas contemporâneas. Seus textos de fundo psicológico traduzem sentimentos em palavras com uma riqueza sintático-metafórica sem par. O que existe de mais humano está lá. Não deixe de lê-la.

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