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Wes Anderson e Todd Solondz: duas faces da mesma moeda

Fonte:deviantart

Não sou jovem o suficiente para saber tudo” (Oscar Wilde)

Numa disputa de cara ou coroa entre Wes Anderson e Todd Solondz, jogando para o alto a moeda de Harvey Dent/Duas Caras, instrumento/juiz que entrega à probabilidade questões relativas à família, Anderson sempre vai escolher o lado imaculado, enquanto Solondz, seu duplo degenerado, vai escolher a face arranhada.

O diretor de “Felicidade” (1998), cronista das perturbações dissimuladas da classe média americana, enxerga a família ianque, cujo hábitat natural são os subúrbios – retratados em suas produções como verdadeiros depósitos de traumas psicológicos, conflitos e perversões escamoteadas, maquiados pela fragilidade das aparências e da hipocrisia –, com pessimismo e desesperança.

Já Anderson, mesmo reconhecendo as disfuncionalidades inerentes a um núcleo familiar, aproveita essas mesmas anomalias para estreitar laços entre personalidades conflitantes e criar narrativas singelas e lúdicas acerca do amadurecimento emocional de pessoas ligadas pelo sangue. As ovelhas negras em suas obras, figuras de destruição/reconstrução, são sempre transformadas em velocinos de ouro pela condescendência do olhar delicado.

Em “Os excêntricos Tenenbaums” (2001), a doença terminal do patriarca, um advogado falido interpretado por Gene Hackman, é o remédio produzido pela necessidade para cicatrizar desavenças, rancores, incompreensões e corações partidos. “A vida marinha com Steve Zissou” (2004), com Bill Murray no traje de mergulho de uma paródia de Jacques Cousteau, é um ensaio de Anderson sobre a paternidade tardia e seus efeitos colaterias, desvirtuados pela dor da perda e a sede de vingança, como a tentativa de recuperar o tempo perdido e ao mesmo tempo lidar com um sentimento novo e incômodo: o afeto por um filho cujo parentesco não resistiria a um exame de DNA. “Viagem a Darjeeling” (2007) trata da jornada espiritual de três irmãos. Viajando pela índia a bordo de um trem, são obrigados a aproveitar o tempo juntos para se harmonizarem e discutirem o relacionamento que tiveram com o pai falecido e a mãe que os abandonou. Cheirando a incenso, é o “Nós e eu” (Michel Gondry, 2012) da era analógica para maiores de 18 anos de Anderson.

Solondz formula seus trabalhos com ironia, sarcasmo, violência psicológica, individualismo e senso de humor doentio. Anderson manuseia transparência de sentimentos, inocência, pureza, ingenuidade e solidariedade.

A trilha autoral construída com os negativos do realizador de “A vida durante a guerra” (2009) e “Dark Horse” (2011) nunca foi um caminho viável para Anderson. Ele optou pela via positiva que o levou até “Moonrise Kingdom”, seu último longa, produção que rivaliza com a animação “O Fantástico Senhor Raposo” (2009) – sobre, adivinhe?, uma família de canídeos que se encrenca porque o papai raposo não consegue negar sua verdadeira natureza – pelo posto de melhor projeto do portfólio de Anderson.

Ah, o primeiro amor… A história de dois pré-adolescentes que descobrem (e vivem) intensamente o amor é adaptada na matriz familiar do maior fã de Bill Murray de que se tem notícia – Ruben Fleischer deve estar se mordendo todo e se autoinfectando com o vírus da inveja, aproveitando o trocadilho canibal para fazer referência a “Zumbilândia” (2009). O escoteiro Sam (Jared Gilman) tem um missão ordenada por seus hormônios. Ele abandona sua tropa, acampada em algum local na nova Inglaterra, década de 1960, para fugir com sua amada Suzy (Kara Hayward). Os pais da moça, Walt (Bill murray) e Lara (Frances McDormand) Bishop, não aceitam muito bem o relacionamento. Junto com o líder escoteiro da tropa de Sam, Ward (Edward Norton), seus asseclas mirins e o capitão da polícia local, Sharp (Bruce Willis), empreendem uma operação de busca e salvamento da virgindade perdida. Sam é o Charlie, sobrenome “As vantagens de ser invisível”, da família adotiva que o rejeita. Esperto, pragmático, aplicado, introspectivo, retraído, solitário, tachado como esquisito por causa de seu comportamento singular. Suzy é a Dawn Wiener do clã Bishop. Introvertida, leitora voraz, tímida, sonhadora, voluntariosa, explosiva, incompreendida. Almas gêmeas.

Fonte:deviantart

Wes Anderson e seu conceito estético vintage, influência dos anos 1960 – como se tivesse dado caixas de lápis de cor para crianças pintarem os cenários de “Mad Men”, os quais serviriam como locações para seus filmes –, emolduram, com imposições sociais (as incongruências e distúrbios da família), uma história sobre o florescimento do amor em seu estado mais inocente, repleto de dúvidas, descobertas e expectativas – portanto, mais intenso e inabalável. A primeira paixão, o primeiro entrelaçamento de mãos, o primeiro beijo, a primeira apertada de peitinho, a primeira ereção… Anderson torna o constrangimento e o desconforto encantadores e poéticos.

Os personagens caricaturais, a ambientação que tangencia o irreal, as situações inverossímeis, o olhar infantilizado, os silêncios que maturam as ações, as tomadas em câmera lenta, os exageros habituais das histórias em quadrinhos são elementos da grife Anderson, que assina o roteiro com Roman Coppola. Tudo fotografado por Robert D. Yeoman, colega de trabalhos anteriores que, ou por uma falha no tratamento do filme (segundo o IMDb, o formato original do negativo era 16mm; posteriormente foi convertido para 35mm), ou por opção, confere à projeção um aspecto granulado, escurecido e de pouca definição, característico do formato Super-8 – proporcionando uma atmosfera cult. O diretor faz do cinema sua caixa de brinquedos, com a qual volta no tempo e realiza suas fantasias mais íntimas. Seu jogo LEGO de US$ 16 milhões.

Moonrise Kingdom” é a versão cor-de-rosa de Wes Anderson para “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995), em que, diferentemente da ficção desencatadora de Solondz, sobre o lado odioso da natureza humana, os melhores sentimentos prevalecem.

 Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Anderson é extremamente conservador na escolha do elenco. Apostar em Bill Murray e Anjelica Huston é sempre recompensador. Os irmãos Owen e Luke Wilson e Jason Schwartzman também são figurinhas fáceis em seus filmes. Felizmente, desta vez ele abriu espaço para Frances McDormand, Bruce Willis e Edward Norton. Os dois últimos brilham, especialmente Norton, um líder que ainda está aprendendo o significado de liderança. McDormand desempenha um papel inexpressivo – que ramifica a trama num envolvimento extraconjugal para afirmar mais uma vez os problemas que solapam as relações familiares nas obras de Anderson –, assim como Tilda Swinton, numa ponta como assistente social.

p.s.2 Muitos críticos se rasgam de elogios para a trilha sonora dos filmes de Anderson, no meu entendimento superestimada. Manohla Dargis, crítica do Times, destaca em sua resenha O Guia da Orquestra para Jovens, obra do compositor inglês Benjamim Britten, que disseca os naipes de uma orquestra durante os créditos de “Moonrise Kingdom”. Quem assina a trilha é Alexandre Desplat, mito da indústria. Para eles, só digo dois nomes para encerrar o assunto: Cameron Crowe e Nancy Wilson. Segurem essa!

Fonte:deviantart

 

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Amor nos tempos da cólera

Cadáveres enterrados em valas comuns adubam com o veneno do ódio um sentimento que já nasce contaminado. A guerra na Bósnia-Herzegovina, resultado de conflitos étnico-religiosos que fragmentaram a antiga Iugoslávia na década de 1990, é o campo minado para a história de amor entre o soldado sérvio Danijel (Goran Kostic, o Daniel Craig dos Balcãs) e a artista bósnia Ajla (a belíssima Zana Marjanovic, perfeita ao disfarçar as ambiguidades de uma mulher destruída pelas circunstâncias) em “In the land of blood and honey”, estreia de Angelina Jolie como diretora de um longa ficcional.

Miss Brad Pitt debutou como realizadora no documentário “A place in time”. Orçado em US$ 500 mil, “A place…” é um projeto experimental que dilui barreiras nacionais, culturais e religiosas ao alinhar, em 70 minutos, fragmentos de imagem capturados em diversos pontos do planeta, em dia e horário específicos. Segundo o site Filmstalker, Jolie reuniu amigos de profissão, os muniu com um câmera de mão mini-DV e despachou cada um para um ponto diferente do globo. Entre eles estavam o eterno goonie Sean Astin (Argentina), Colin Farrell (Itália), Ryan Gosling (Chade), Anne Hathaway (Camboja) , Djimon Hounsou (Los Angeles), Jude Law (Nova Orleans), e Hillary Swank (Nova Iorque). No dia 11 de janeiro de 2005, exatamente ao meio-dia (horário de Greenwich), os “diretores”, posicionados em 27 locações com longitudes e latitudes distintas, acionaram simultaneamente suas câmeras e filmaram durante 3 minutos o que achassem mais interessante. O doc, lançado em 2007 no Festival de Tribeca, em Nova Iorque – que tem como fundador Robert De Niro –, foi montado com esses pedaços digitais de nacionalidades diferentes.

Essa experiência documental foi um ensaio para as filmagens de “In the land…”, cujo diretor de fotografia é o australiano Dean Semler – que deixou estilizações, exageros e absurdos gerados pelos efeitos de computador – empregados em “2012” (Roland Emmerich, 2009) – de lado para se aproximar do registro das ruínas de geografias urbanas assoladas pela guerra civil.

Durante o conflito entre sérvios e bósnios, Ajla é capturada e levada para uma base inimiga sob o comando de Danijel. De lados opostos do campo de batalha, mas envoltos pelo arame farpado de um sentimento que não permite fuga sem danos, eles estabelecem um romance clandestino.

As atrocidades da guerra são escancaradas pela diretora – estupros, assassinatos a sangue frio, “limpezas” étnicas, morte de infantes, abusos e humilhações –, que não é condescendente com o público e choca. Ninguém deveria esperar nada menos de Jolie.

A degradação dos valores, diretamente proporcional à escalada da barbárie, não deixa incólume o envolvimento de Ajla e Danijel, que se deteriora em meio à suspeita e aos embates retóricos sobre razões e justificativas. Num cárcere de lençóis mornos e desejos inflamados, o soldado sérvio é sensibilizado pelo drama de Ajla ao mesmo tempo que se torna alheio à realidade ao seu redor.

Danijel se humaniza numa zona de desesperança, que não permite hesitações. Quando se humaniza, enfraquece. Quando enfraquece, não consegue pensar com clareza. Perdendo sua missão de foco, deixa de ser um combatente e se torna vítima de suas próprias ilusões, peão de um jogo que coloca sua vida em risco. O que move Ajla? Síndrome de Estocolmo, carinho verdadeiro, revolta, oportunidade e traição volatilizam qualquer interpretação, que se confunde com a fumaça que emerge dos escombros de Danijel.

Angelina Jolie, que também assina roteiro e produção, conta uma história do que não aconteceu em sua plenitude para falar do que poderia ter sido. Metáfora da contradição de situações extremas, nas quais a arma é apontada para sonhos. Amor e ódio se amalgamando e sendo dilacerados pela mesma baioneta. “In the land of blood and honey” é um grito catártico, apaixonado, de uma militante dos direitos humanos; estrela de cinema de carne e osso, que ama, sofre, sangra e chora como todos nós.

Carlos Eduardo Bacellar

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Esconjurado

Twixt”, thriller sobrenatural do diretor Francis Ford Coppola, é um despacho estético que em vez de afastar a má sorte, espanta os espectadores. Aquele frio na espinha característico dos filmes de suspense é substituído por um formigamento na perna, indicando que é hora de fazer o sangue circular se levantando da poltrona e correndo para fora da sala escura.

Coppola, com saudade de seu flerte com as forças ocultas em “Drácula” (1992), resolveu, neste trabalho, misturar numa tigela de barro elementos de “O sexto sentido” (M. Night Shyamalan, 1999), “Deixa ela entrar” (peço que o perdoem, Tomas Alfredson e John Ajvide Lindqvist), “O chamado” (Gore Verbinski, 2002), “O massacre da serra elétrica” (Marcus Nispel, 2003), “O grito” (Takashi Shimizu, 2004), “Silent Hill” (Christophe Gans, 2006), “O orfanato” (Juan Antonio Bayona, 2007) e obras de Edgar Allan Poe (1809-1849) – como os contos Berenice e Gato Preto e o poema O Corvo – num roteiro assustadoramente mal elaborado que ele deve ter escrito sob o efeito da cachaça, numa sessão espírita – possivelmente motivada pela falta de inspiração do realizador, tinha como objetivo colocá-lo em contato com autores que já passaram desta para melhor.

Ele teria ideias melhores à disposição se tivesse feito laboratório nas mostras de dois mestres do terror homenageados pelo Festival do Rio: Dario Argento e John Carpenter, contemplados com retrospectivas em 2011 e 2012 respectivamente.

Coppola resolveu ornamentar seu infortúnio com o apelo do fantástico para criar “Twixt” – palavra que denomina um jogo de tabuleiro cuja estratégia é criar caminhos e conexões, ligando as bordas por meio de peças coloridas. Com pedaços de referências em decomposição, arriscou-se a brincar de Deus e criar seu Frankestein.

Val Kilmer, numa atuação constrangedora, interpreta Hall Baltimore, um escritor de livros de suspense do segundo escalão movido a álcool e devastado pela perda. Seu projeto de se tornar o novo Stephen King passa primeiro pela necessidade de pagar as contas e colocar comida na mesa. A turnê de divulgação de seu novo livro – Witch Hunter, título sugestivo para uma trama que deixa implícita a transição do fenômeno literário J. K. Rowling para o de Stephenie Meyer, sem deixar de, sutilmente, ironizar a produção das duas autoras – o leva a uma pequena cidade chamada Swan Valley, no interior dos Estados Unidos, cercada de segredos, com moradores estranhos (“que desejam ser deixados em paz”) e um passado sinistro. Quem gritou clichê não vai ter o pé puxado à noite por assombração. Curiosidade da arquitetura local: acima do campanário da igreja há sete relógios, cada um marcando uma hora diferente. Seria uma referência ao Poema de sete faces de Carlos Drummond de Andrade?

Lá, por meio do xerife local, o aspirante a romancista Bobby LaGrange (Bruce Dern), ele fica sabendo de um massacre que manchou a história da comunidade com sangue. Instigado a escrever sobre o crime (ora, ele não tem nehuma ideia melhor), Baltimore é afetado pelo clima de Swan Valley e se perde em alucinações que o esgarçam entre sonho e realidade, delírio e lucidez. Eu não devia te dizer/mas/essa lua/mas esse conhaque/botam a gente comovido como o diabo. Ecos do poeta mineiro novamente.

Em seu estado alterado de consciência, Baltimore encontra a misteriosa V (Elle Fanning), menina da pele de vela, dos olhos de sangue e do sorriso de aço, freio para os caninos rebeldes. Caracterizada com uma maquiagem exagerada, mais lembra uma artista do Cirque du Soleil. Além dela (ou no além dela), imagine você, o próprio Edgar Allan Poe (Ben Chaplin) se apresenta para se tornar o mentor de Baltimore em teoria literária e construção do romance. O nome do protagonista, aliás, é uma referência ao prédio histórico Westminster Hall, situado em Baltimore, Maryland (EUA). Lá foram enterradas diversas personalidades, entre elas, trick or treat?, Edgar Allan Poe.

A única menção horroro…, digo, honrosa, fica para a fotografia de Mihai Malaimare Jr., parceiro de Coppola em “Tetro” (2009) – convence nos contrastes de luz entre dimensões alternativas.

O descalabro maior deste terreiro de despautérios é a tentativa de equilibrar uma projeção híbrida, que mescla 2D com 3D. Como saber quando começa um formato e termina o outro? O próprio filme avisa, “colocando” e “retirando” os óculos na tela entre um e outro tipo de exibição. Será que o ingresso vai ter valor diferenciado? Cobrar uma entrada inteira em 3D não vale. Melhor dar o passe para outro…

NevermoreChuta que é macumba!

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Coppola, em 2013, o mestre do terror homenageado pelo Festival do Rio será George Andrew Romero. Fica a dica.

p.s.2 É melhor encarar “Pietà”.

Fonte: deviantart

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Rosário da sobrevivência

A genuflexão da religião não pelas imposições da fé, mas por pressões econômicas, políticas, sociais e pelas urgências do corpo, que contestam a vocação para o sacerdócio com os argumentos do desejo, soprados ao pé do ouvido – bafo morno que embaça qualquer racionalidade.

É partindo desse entendimento que o cineasta argentino Pablo Trapero propõe reflexões acerca das rotinas de uma comunidade pobre em Buenos Aires, excluída, corroída pelo tráfico, carente de oportunidades e com poucas perspectivas para seus moradores, e suas relações frágeis com o Estado formal – máquina burocrática, cujas engrenagens precisam ser lubrificadas com impostos, que caracteriza aquela região como um câncer que precisa ser controlado e absorvido; não pode ser extirpado devido à metástase social, que ameaça se espalhar para além da fronteira separando barracos do asfalto.

Pablo Trapero poderia ser um cientista político, um assistente social ou um jornalista, mas preferiu canalizar seu espírito crítico para a profissão de cineasta. Em “Leonera” (2008), o diretor antecipa para as telas, antes mesmo do lançamento literário, uma versão para a obra Carcereiras, sobre o trabalho do médico Drauzio Varella na Penitenciária Feminina de São Paulo. O livro encerrará a trilogia do cárcere de Drauzio, que já escreveu Estação Carandiru (Cia. das Letras, 1999) e Carcereiros (Cia. das Letras, 2012). O filme retrata as dificuldades de uma mulher, interpretada pela charmosa Martina Gusman, atriz-assinatura do diretor, para criar seu filho atrás das grades. “Abutres”, filme em que Martina contracena com o mito da dramaturgia portenha Ricardo Darín, é um ficção sobre o mercado de seguros envolvendo acidentes automotivos e os questionamentos éticos que suscita.

Elefante Branco” – que faz referência a uma estrutura abandonada que se transformou num lar para sem-teto – apresenta Darín (sempre soberbo) como o padre Julián. Juntamente com o padre Nicolás (Jeremie Renier) e a assistente social Luciana (Martina), ele é o responsável por harmonizar os interesses da Igreja, da comunidade, dos governantes e do empresariado. Tarefa que executa tendo que se desviar de balas, fazer vista grossa para o tráfico local, gerir conflitos de toda sorte e ainda cuidar da orientação religiosa de seu rebanho. Só mesmo um milagre poderia aliviar o tormento de Julián. Ironicamente, esse milagre, como uma travessura do Senhor, ou uma bênção do Diabo, apresenta-se como uma enfermidade que tornará o sacrifício final mais fácil.

Trapero, uma mistura de Hector Babenco com José Padilha, não testa a força da fé só do padre Julián. Nicolás encontra em Luciana sua maça no “paraíso”.

O roteiro arte-finaliza aquela favela horizontal, apenas esboçando a história pessoal de cada personagem, como se aquele fosse o único local em que o sentido pode existir – ou como artifício para voltar todas as atenções para lá e sublinhar o que geralmente provoca o desvio do olhar. A fotografia de Guillermo Nieto registra com apuro documental o labirinto de privações que cimenta sonhos entre estruturas de alvenaria aparente.

A produção enfoca tanto as contradições humanas como as institucionais – esferas de poder que encaram o comunidade pobre como uma deformidade que precisa da constante maquiagem dos investimentos, das intenções políticas e da anestesia do discurso religioso para disfarçar as “imperfeições” – desvios necessitados de uma cirurgia plástica mais extensa –, tornando ilegíveis os rótulos de heróis e vítimas.

Apesar do esforço dos padres, militantes de uma crença que provoca mais dúvidas do que respostas, indivíduos de batina (portanto, com seus vícios, defeitos e fraquezas) que precisam ser mais políticos do que catequizadores até no altar, rezar perde fiéis para sobreviver.

Carlos Eduardo Bacellar

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“Jogos Mortais” sul-coreano

O escritor pernambucano Raimundo Carrero acredita que a vida sem literatura seria insuportável. Para o cineasta sul-coreano Kim Ki-duk, o entendimento é parecido. As letras – mais especificamente a linguagem poética – funcionam como um cilindro de imersão de modo que ele possa submergir na podridão humana sem que a pressão se torne intolerável e provoque fissuras na frágil constituição moral do indivíduo, deixando a barbárie invadir.

Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera” (2003) é um ensaio sobre a disciplina, barragem de vícios. “O arco” (2005) tratava do amor obsessivo e da tentativa fracassada de domar sentimentos. “Fôlego” (2007), uma produção acerca das possibilidades onde não há nenhuma.

Pietà”, laureado com o Leão de Ouro no último Festival de Veneza, não deixou ninguém indiferente em suas exibições no Festival do Rio 2012.

No longa, um acerta-contas de agiota, o “açougueiro” Kang-do (Lee Jung-jin), utiliza métodos brutais para não deixar seu patrão no prejuízo, ao mesmo tempo que anestesia suas perturbações psicológicas. Ele aleija quem não pode pagar a dívida (sempre acrescida de juros extorsivos), a maioria dos “clientes” de uma zona industrial pobre, com o objetivo de receber o seguro por invalidez. Kang-do segue como principal garoto propaganda dos ortopedistas – ameaçando o posto de Steven Seagal –, numa franquia sul-coreana de “Jogos Mortais”, até que surge uma estranha mulher que diz ser a mãe que o abandonou quando ainda era pequeno.

A narrativa, filmada no distrito Cheonggyecheon de Seoul, esquiva-se dos artifícios poéticos com que Kim Ki-duk habitualmente adorna seus filmes e se aproxima de estéticas mais cruas como as do diretor franco-argentino Gaspar Noé. Com cenas que testam a resistência do espectador ao grotesco, “Pietà” envereda pelo manifesto anticapitalista que traz na entrelinhas um questionamento sobre as responsabilidades da maternidade, código para uma vingança engendrada na perda.

Se há algo de interessante no roteiro, da lavra do próprio diretor, é a câmara de tortura psicológica em que o protagonista se encarcera. As dúvidas, carências, frustrações e privações de Kang-do são peias mentais que o travam num jogo de dissimulações, no qual não existem vencedores. O absurdo é que esse processo de lobotomia por meio do amor de mãe catalisa mudanças de personalidade inverossímeis.

Na análise do crítico Carlos Alberto Mattos, o diretor, “festejado por apreciadores de orientalismo naïf (“Primavera, Verão…”, “O Arco”) e melodramas disfarçados de filme de arte (“Fôlego”, “Time”), chega ao ápice com este conto moral sobre os horrores do capitalismo e da orfandade […] está sempre a um passo do dramalhão, a um centímetro do kitsch e a um milímetro do ridículo.”

O sul-coreano sempre se equilibrou entre realidade e imaginação, mas desta vez resolveu fazer diferente. Afastando-se de um terreno ambíguo em que transita tão bem, o do realismo mágico, Kim Ki-duk se aproxima de forma canhestra do trabalho de um conterrâneo, Bong Joon-ho, autor de “Mother” (2009) – uma narrativa inteligente e sem apelação sobre a enormidade do afeto materno, que se mantém funcional mesmo limitado pelo poço escuro da loucura.

Kim Ki-duk almeja se tornar uma versão sul-coreana para as telas de Haruki Murakami. Só que Murakami é candidato ao Nobel, enquanto Kim Ki-duk concorre ao Ig Nobel.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. O diretor Walter Salles não resistiu à proposta estética de “Pietà”. Depois de, abismado, medir a reação da pessoas olhando de um lado para o outro, abandonou no meio a sessão das 22h do dia 5/10, no Espaço Sesc Ipanema. A gota d’água – para ele e muitos outros que assistiam à exibição – foi a sequência em que o filho humilha sua suposta mãe na tentativa de desvelar uma fraude. Doentio. Gostaria de saber o que se passava na cabeça do diretor de “Central do Brasil”. Infelizmente, a única foto do Waltinho que consegui foi a dele pondo o pé na estrada.

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Memóri@ e @mor

Adolescentes gostam de andar em bando, como uma alcateia de hienas. Riem de tudo, fazem algazarra num instante sim e no outro também, são avessos à autoridade e são carniceiros impiedosos. Com sentidos aguçados, capazes de detectar padrões de comportamento “anômalos”, que divergem da escala cool em vigor no momento, atacam presas em desvantagem, inclusive da mesma espécie – solitárias, incompreendidas, deslocadas, humilhadas, rechaçadas. O canibalismo psicológico (rotulado de bullying) tem como objetivo preservar o status dos teens dominantes e manter o grupo coeso, refratário ao diferente, quase sempre ameaçador.

O diretor francês Michel Gondry, de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004) – filme com o qual se consagrou como um ensaísta da questão da memória e do esquecimento no cenário contemporâneo –, explora em seu nova longa, “The We and the I” (“Nós e eu”, numa tradução livre), três ploblemáticas que lhe são caras, segundo estudos da professora de Teoria da Comunicação da UFF Maria Cristina Franco Ferraz: “o esgotamento da matriz moderna da subjetividade em favor da tendência culturalmente disseminada de se reduzir tudo o que somos à materialidade do corpo, especialmente ao cérebro; o vínculo entre essa ênfase e a referência crescente a imagens do cérebro (neuroimagens) tecnologicamente produzidas; a alteração do fenômeno da memória e do esquecimento nesse novo contexto, em suas implicações políticas, filosóficas, existenciais.”

Envelopando um ônibus com sua estética pop, o diretor, egresso dos comerciais e videoclipes, que se recusa a abandonar sua Terra do Nunca – espírito lúdico expresso em seu carinho por ícones da cultura pop, como os quadrinhos e desenhos animados, e numa versão autoral para todos os públicos de “Taxi driver” (Scorsese, 1976) –, força a convivência de tribos antagônicas de adolescentes após o último dia de aula antes das férias.

A encenação transcorre quase totalmente dentro de um busão, Mercedes-Benz de quem é duro, durante o trajeto da linha por áreas menos afortunadas de Nova Iorque (a produção foi filmada em locações no Bronx). Num cercado sobre rodas, a bagunça, as brincadeiras e os conflitos são vetores para reflexões acerca do amor, da sexualidade, da amizade, da situação social, do preconceito, das relações familiares, da perda. Todas as relações são mediadas por telefones de última geração.

Transpondo as análises de Maria Cristina acerca de “Brilho eterno…” para a proposta de “Nós e eu”, é possível perceber que essas interações digitais exploram “[…] por meio de vários detalhes certos indícios do declínio de registros escritos ou gravados em antigos suportes, em favor de tecnologias digitalizantes […] O esgotamento cultural da referência letrada – cultura vinculada a uma temporalidade mais dilatada, menos contraída” – se torna mais evidente com a proliferação da mediação digital.

Segundo a professora, “todas essas tecnologias de registro, cada uma delas ligada a temporalidades próprias e potencialmente distintas, passam a servir a uma espécie de digitalização da memória, que as integra ao mesmo tempo que as subordina. O processo de digitalização alia-se à atual sedução exercida por imagens computadorizadas […] que revelariam, supostamente com precisão, de modo transparente, complexos processos cerebrais a partir dos quais se explicariam todos os fenômenos humanos […] A imagem digital parece atrair para si o forte efeito de crença, a ilusão de verossimilhaça que imagens analogicamente produzidas, por motivos mais evidentes, promoveram desde o século XIX.”

Gondry fala da religião/escravidão tecnológica que se tornou (talvez o único) espaço legitimado para discussões, a praça pública binária da contemporaneidade. O registro não é o da memória, falha, indomável, traiçoeira, mas o do chip de dados – que, ironicamente, pode ser corrompido, editado e descontextualizado.

A reconfiguração das relações amorosas (e suas frustrações), como em “Brilho eterno…”, também é incorporada em “Nós e eu”. Apesar das novas formas de conexão interpessoais, que traduzem eu te amo para a linguagem abreviada das mensagens de texto, no final do dia tudo ainda se resume a um garoto de mãos dadas com uma garota (ou não). Amor, um tema batido, que mesmo na tela de um telefone celular ainda molda desejos, anseios e seus efeitos colaterias, como euforia, depressão, alegria, tristeza.

Pena que esses pensamentos, chacoalhados – por traquinagens e idiotices típicas dos adolescentes com hormônios em ebulição – durante os solavancos do trajeto, sejam diluídos pela balbúrdia incontrolável de diferentes núcleos de personagens, cujas histórias se intercalam freneticamente num espaço exíguo, onde não há assento preferencial. Zona que dispersa a atenção no banal, no constrangedor, na farra incômoda. Fica a impressão de que alguém desceu com uma câmera na hora do recreio para filmar um episódio de Malhação, mas numa instituição para recuperação de menores. Ponto final para Michel Gondry? É óbvio que não. Desta vez ele pegou o ônibus errado. Apesar disso, quem ama ou já amou, e gosta de cinema, continua aguardando o próximo “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” do diretor.

Carlos Eduardo Bacellar

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Mais estranho que a ficção

Fonte:deviantart

A possibilidade de ser outros é, mais que uma vantagem de um romancista, um dos encantamentos do ofício. Por meio da ficção é possível não somente experimentar outra realidade como um observador neutro, num exercício de “Quero ser John Malkovich” (Spike Jonze, 1999), mas, como um arquiteto onipotente, com ambições grandiosas e uma necessidade de controle extremo sobre sua obra, predicados do diretor de teatro Caden Cotard, interpretado por Philip Seymour Hoffman em “Sinedóque, Nova Iorque” (Charlie Kaufman, 2008), influenciar destinos – da mesma forma que Karen Eiffel (Emma Thompson), com sua imaginação, determina os passos do auditor Harold Crick (Will Ferrell) em “Mais estranho que a ficção” (2006).

Caden estabelece uma relação paradoxal com o escritor Calvin Weir-Fields (Paul Dano), projeto de Jerome David Salinger em “Ruby Sparks”, novo longa do casal de diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris, responsáveis pelo magistral “Pequena Miss Sunshine” (2006). Cotard erige sua obra-prima como uma representação teatral de sua biografia, ainda em andamento e sobre a qual não exerce nenhum controle, frustração que ele tenta sublimar enquadrando sua vida nos limites estéticos de um cenário monumental – fronteiras do palco de uma existência que se transformam num imenso divã psicanalítico. O diretor faz e refaz os episódios prosaicos de sua história – num estilo narrativo que lembra o do escritor Jonathan Franzen, condutor de ações mortas, que aceleram nos movimentos interiores dos personagens dando a falsa impressão de não agitar a superfície das relações, embore perturbe profundamente a conformação de círculos sociais – até que os mínimos detalhes estejam de acordo com suas idiossincrasias.

Calvin sente um incômodo semelhante ao de Caden, gerado por uma forte inadequação que se traduz quase numa misantropia. Tímido, angustiado, recluso, esquisito, confuso, com pinta de Michael Cera, sem traquejo social para lidar com pessoas, principalmente as mulheres, ele sofre com a expectativa de seus leitores, ansiosos por um segundo romance tão genial quanto o primeiro, sucesso de público e crítica. O problema é que Calvin sofre de um bloqueio criativo; não consegue mais escrever.

Para driblar a falta de inspiração, Calvin cria um enredo cuja protagonista, Ruby Sparks (Zoe Kazan; sim, neta do cineasta Elia Kazan e roteirista da produção, além de namorada de Dano na vida real), é a mulher perfeita segundo seus critérios subjetivos. Ocorre que perfeição é uma palavra refratária a gêneros e, como Narciso acha feio o que não é espelho (e não existe raça mais narcisista do que escritores, exceto jornalistas), o autor cria uma versão feminina que espelha seus desejos – ou melhor, uma visão movida a estrogênio de si mesmo. Tudo correria bem se, primeiro, ele não se apaixonasse por ela, e, segundo, se ela, num movimento woody-alleniano à moda de “A rosa púrpura do Cairo” (1985), não transpusesse as barreiras entre a ficção e a realidade.

Fonte:trumpetwithme

Neste momento, as experiências de Caden e Calvin encontram seu ponto dicotômico. O jovem escritor pode controlar sua criação (ou criatura?). Mas, como Ruby é uma idealização do imaginário de Calvin, ele a coloca num pedestal e, satisfeito com seu projeto, decide não mais influenciar os rumos de Ruby por meio de sua escrita. Tudo muito bem na teoria, até a garota resolver se emancipar, fugindo da narrativa planejada pelas palavras de Calvin. Perturbação, descontrole, decepção, impotên… Esse último substantivo pode ser corrigido na máquina de escrever. Controlar a vida de outra pessoa para enquadrá-la numa necessidade específica se torna irresistível. Ruby se torna uma caricatura das aspirações de seu idealizador.

Na proposta estética de Jonathan Dayton e Valerie Faris, a frustração é o efeito colateral do descompasso social que atormenta os personagens. Em “Pequena Miss Sunshine”, uma garotinha era o depósito de sonhos frustrados, instrumento de alívio para a incompletude alheia numa sociedade – a americana – que persegue o sucesso a qualquer custo. Ruby Sparks era a suposta panaceia para um vazio, embora fosse um espelho fraturado do próprio Calvin, no qual ficam patentes as imperfeições que ele tenta encobrir com artifícios da teoria literária que não dão conta das possibilidades do real – não existe teorização para viver.

Paul Dano atua com extrema competência; seu trabalho em “Sangue negro” (2007), do diretor Paul Thomas Anderson, atesta seu talento. Em “Ruby Sparks”, com seu semblante de dor e angústia ao estilo Jim Caviezel, prenunciando um choro a qualquer instante, expressa, com sua competência dramática, o esforço de seu personagem para se tornar J. D. Salinger – que, ironicamente, só o aproxima ainda mais de Holden Caulfield. Quando Calvin percebe que autor e criação são um só, mais um reflexo de seu paralelo com Caden Cotard, compreende que a surpresa de experimentar uma história a ser escrita é mais sadio que tentar controlar o incontrolável: sua própria narrativa fora do papel.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Mais artes alternativas de “Ruby Sparks” aqui.

Fonte:deviantart

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