Arquivo da tag: Francois Truffaut

Robert De Niro fora de controle

Atenção, produtores! Vocês ganharam mais um concorrente. Calma, gente… Somente na ficção. Robert De Niro acaba de chegar à locadora mais próxima de sua casa na pele do produtor de cinema Ben.

“Fora de controle” (2008)“A noite americana” (Truffaut, 1973) que, desta vez, coloca os holofotes sobre os produtores –, dirigido pelo americano Barry Levinson, acompanha duas semanas da atribulada rotina de Ben (para não dizer enlouquecida).

Tendo que chupar cana e assoviar ao mesmo tempo para dar conta dos abacaxis que precisa descascar no trabalho e, ao mesmo tempo (por isso eles sempre possuem mais de um celular), gerenciar seus relacionamentos pessoais, ele é o estereótipo do pau para toda obra, ligado 24h no ritmo 220V, que atua nos bastidores para que as coisas aconteçam.

Além de negociar com chefes de grandes estúdios, lidar com agentes problemáticos, diretores perturbados e gerenciar o ego de astros temperamentais, Ben precisa enfrentar encrencas mais prosaicas, como resolver sua relação com as ex-mulheres e se envolver na criação dos filhos.

A produção aposta num elenco estrelar para alavancar as locações: além de De Niro, atuam no filme Sean Penn, Catherine Keener, John Turturro, Robin Wright Penn, Stanley Tucci, Kristen Stewart (ela mesmo, a Bella Swan), Michael Wincott e Bruce Willis (encarnando ele mesmo).

É uma comédia inteligente, com toques de drama e humor negro, que aposta no carisma de seus astros, principalmente De Niro (impecável!), para desmistificar o glamour que há na imagem tapete vermelho que temos dos produtores.

Como no filme de Truffaut, nós compreendemos (em parte) como uma realização consegue ser erigida, mesmo que tudo saia errado. Os produtores escrevem errado por linhas tortas, mas a indústria precisa entender aquela caligrafia canhestra para manter as engrenagens rodando. Eles mordem o osso e realizam o tipo de trabalho que ninguém mais está disposto a encarar.

Agora eu entendo por que a Helena sempre chega atrasada nos almoços que nós marcamos. E aprendi a decifrar o código dos produtores.

Estou chegando quer dizer, na linguagem desta fauna hiperacelerada, que eles ainda nem saíram do escritório e você ainda vai ficar plantado pelo menos 1h. Caso você insista, e o celular esteja desligado, isso é uma maneira elegante de eles dizerem para você parar de encher o saco. A desculpinha para o atraso? O trânsito caótico, mesmo que seja num domingo, dentro de um feriado prolongado.

Carlos Eduardo Bacellar

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

És José Martí!

“Roza una abeja mi boca / Y crece en mi cuerpo el mundo”.

(José Martí)

Após frustrada tentativa de assalto aos quartéis de Moncada e Céspedes, em 26 de julho de 1953 (*), Fidel Castro é capturado. Quando perguntado sobre quem teria sido o mentor intelectual da operação, o jovem advogado responde: “És José Martí”!

Na fase adulta, José Martí foi o grande mártir da independência cubana. Nascido em 1853 numa família de imigrantes espanhóis – sem muitos recursos –, conheceu, desde cedo, a dominação colonial e a escravidão. Primogênito e único filho entre sete irmãs, José Julián Martí Perez (José Martí), era sutil no trato com os semelhantes. No olhar, fundia melancolia e convicção. Era silencioso. E com tino especial para Matemática e Latim, além das Artes. Podia permanecer, por horas, apreciando óperas. Na pré-adolescência, descobriu a sexualidade. Desconstruído o mito do herói, este é José Martí, dos 9 aos 17 anos, no recorte cinebiográfico “José Martí: El ojo del canário”, em cartaz, em Cuba.

Favorecido pela carência de informações sobre a infância de José Martí, Fernando Perez (**), diretor, roteirista e maior cineasta cubano em atividade, em sua obra (prima), parece fazer brotar um Martí de dentro de si. É vasto o mundo interior do personagem, inspirado, quiça intencionalmente, nos universos infantis de François Truffaut. Tudo o que é sentido pelo menino Martí ganha dimensões continentais, na forma de criança melancólica, que existe no silêncio e no olhar, e, desta forma, capta o seu entorno – que será revelado, anos depois, em suas atividades como poeta e político libertário da América Latina.

O filme – trajetória espiritual – de Martí foi realizado em co-produção com a Televisión Española, e a montagem final sugere una mini-série de quatro capítulos. “Abejas” (roza una abeja mi boca / y crece en mi cuerpo el mundo), com foco no menino de 9-10 anos que vive sua infância habanera na cidade e descobre o campo e a escravidão, a partir de uma viagem com o pai. A segunda parte mostra a construção sensível de Martí em relação às artes (literatura, poesia, teatro e música) e ao cubanismo (sentimento patriota de gostar do que é hecho en Cuba). A terceira fase é marcada pela intensa atividade política e poética que perseguirão Martí por toda vida. E o quarto final revela um Martí aparentemente acoado, órfão, aprisionado. [Spoiler] E é na prisão que o filme termina. A imagem do protagonista é congelada no olhar – em direção ao futuro -, e o convite é feito ao espectador  para mergulhar naquele silêncio, adentrar naquela alma, enquanto sobem os créditos finais. Verdadeiro show de cinema. Em todos os aspectos (direção, fotografia, roteiro, arte,…). E é assim do princípio ao fim.

Helena Sroulevich

(*) O episódio histórico é conhecido como “Assalto ao Quartel Moncada”, em Santiago de Cuba. O objetivo da ação, liderada por Fidel Castro e outros 165 companheiros, é tomar os quartéis – de assalto -, armar a população e derrubar o Governo de Fulgêncio Batista. Não há êxito na tentativa e vários companheiros são mortos. Fidel é capturado, julgado e condenado a 15 (quinze) anos de prisão, que não chega a cumprí-los, uma vez que é anistiado. E assim parte ao exílio no México, de onde a Revolução Cubana, que chega ao poder em 01 de Janeiro de 1959, é estrategicamente pensada e coordenada com Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Raul Castro.

(**) Fernando Perez é dono de uma cinebiografia que tem que ser (re)conhecida por qualquer amante do bom cinema. São dele alguns títulos memoráveis como “Clandestinos”, “Hello Hemigway”, “Suíte Habana” e “Madagascar”. Vale muito a pena.

1 comentário

Arquivado em Filmaço!!!, Helena Sroulevich

Troco de Scola com Truffaut

Edu foi a Buenos Aires e Carlinhos soltou a verve cinéfila regada a 20 filmes durante o Carnaval, incluindo “It’s complicated”, que ele assistiu antes de mim. Beleza, Carlinhos. Edu virá em alfajores e meu troco – com obras-primas – é de Scola (“Um Dia Muito Especial”) com Truffaut (“Os Incompreendidos”), ambos títulos alugados no depenado Cineclube Estação – graças a um certo locador inveterado.

Com “Os Incompreendidos” (1959), François Truffaut lançou a Nouvelle Vague e esteve à frente do rompimento com o tradicional cinema francês. Combinando relato documental em primeira pessoa com poesia existencialista, retratou a incompreensão vivida por um pré-adolescente em formação, que busca atenção dos pais e professores cometendo pequenos delitos e infrações disciplinares. No centro de reabilitação em que fixa residência, os olhos de Antoine, alter ego do diretor, fazem dor e alegria ganharem dimensões continentais, e comovem pela profundidade com que permeia de detalhes o universo infantil.

Se Truffaut opta pela problemática intimista, quiça pequeno-burguesa, Ettore Scola, em “Um Dia Muito Especial” (1977), aposta na profunda troca entre proletários. Enquanto Roma se prepara de ilusões para a visita de Hitler a Mussolini, a relação de uma dona de casa (mãe de seis filhos e casada com um militante fascista) com seu vizinho (artista) desempregado parece ser o único resquício de verdade nas redondezas. Scola contesta as incongruências do Fascismo, evidenciando as minorias: no despreparo da mãe de família patriota e no homossexualismo masculino. Materializadas na metáfora do pássaro que foge, dúvidas e esperanças – afetivas, sexuais e políticas – são compartilhadas em um dia (muito especial) na vida de Antonietta e Gabrielle. No fim, a rebeldia possível: ela volta à gaiola do lar desiludida, enquanto ele voa à detenção sexual repleto de certezas.

O meu Carnaval pode não ter sido em castellano, nem ganhou na quantidade de filmes, mas não há celebração maior do que o troco de Scola com Truffaut.

Helena Sroulevich

Deixe um comentário

Arquivado em Filmaço!!!, Helena Sroulevich