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Estética de inflexões

Na literatura da americana Kaui Hart Hemmings, o cineasta Alexander Payne, compatriota da escritora, encontrou a essência de sua cinematografia: a inflexão. “As confissões de Schmidt” (2002) e “Sideways” (2004), marcos na obra de Payne, refletem a preocupação com esse conceito, que o diretor vem depurando diligentemente ao longo de seus trabalhos.

No filme de 2002, Jack Nicholson interpreta Warren Schmidt, um sujeito que precisa se readaptar ao ser desnorteado pela aposentadoria, pela morte da esposa e pelo casamento da ex-filhinha do papai com um fracassado. A bordo de um motorhome, Schmidt parte numa viagem pelos Estados Unidos à procura de algo que lhe dê algum sentido.

Em “Sideways”, sua obra-prima, produção com a qual ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado, Paul Giamatti encarna o professor e escritor (ainda não publicado) Miles. Inepto emocionalmente, aspirante a enólogo e atraiçoado por uma timidez embaraçosa, Miles precisa lidar com um divórcio mal resolvido e a frustração profissional neste road movie etílico, no qual acompanha o amigo Jack (Thomas Haden Church) numa despedida de solteiro pelos vinhedos da Califórnia que descamba para uma orgia dionisiana.

Sim, viagens são uma constante, pois elas ejetam figuras (mais) perturbadas (ainda) pelas vicissitudes de sua zona de conforto. Alexander Payne aposta em tipos solitários, párias sociais, para trajar de drama comédias de costumes cujo estofo é o ocaso da classe média americana – que implode em seus conflitos, neuroses, inseguranças, arrivismos, hipocrisias e desequalizações.

Em “Os descendentes” (The descendants, no original), baseado no romance homônimo de Kaui Hart Hemmings, o mais novo estudo sociológico de Payne acerca dos efeitos de inflexões sobre um núcleo familiar, George Clooney (o homem que não tem a parte superior dos lábios e mesmo assim arrebenta) foi o escolhido para ser o catalisador das aflições que movimentam a trama.

O ator, na pele de Matt King, integrante de uma família de herdeiros de terras no Havaí, precisa reencontrar o caminho até suas filhas, Alexandra (Shailene “Nossa, nossa/Assim você me mata/Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego” Woodley) – a personagem de Evan Rachel Wood em “Thirteen” (2003) traduz bem a personalidade da moça – e Scottie (a nova Pequena Miss Sunshine Amara Miller), quando a mãe das meninas, Elizabeth (Patricia Hastie), sofre um acidente de barco e é condenada a um estado permanente de coma. A senhora King havia tomado providências legais para, no caso de qualquer acidente de desenlaces irreversíveis, não ser mantida viva artificialmente.

Além da necessidade de se reconciliar afetivamente com suas filhas, expurgando suas faltas como pai num novo reajustamento familiar, e confortá-las na dor da perda, Matt precisa gerenciar a venda de uma enorme região de terras virgens, de propriedade da família King, numa das ilhas havaianas. O clã King espera ansiosamente pelo desfecho do negócio, que enriquecerá a todos. Como dor de cabeça pouca é bobagem – e para reforçar novamente que Payne tem uma louca obsessão por rupturas –, Matt descobre que sua mulher estava tendo um caso. Nesse momento, o cronômetro regressivo do autocontrole e da integridade do marido corno acelera em direção ao ponto zero de tolerância. De quem ele esperava suporte, recebe desilusão.

Por meio dos personagens “ausentes” – a esposa que morre subitamente (“As confissões de Schmidt”), o fantasma da ex-mulher (“Sideways”) e a companheira em coma (“Os descendentes”) –, que transitam, à revelia, por todo espectro emocional que vai do amor ao ódio no inventário da consciência, Payne força seus protagonistas a reavaliar seus valores num estado de tensão emergencial. Cingidos pela decepção inesperada, sufocam na própria ignorância. Sem o chão, eles precisam aprender a caminhar no slackline que balança ao sabor das necessidades, ou sucumbir…

Depois dos papéis em “Syriana” (2005), “Amor sem escalas” (2009) e “Tudo pelo poder” (2011), George Clooney adiciona à sua carreira mais um personagem de profundidade psicológica, que desafia sua capacidade dramática com um tipo turvo, pendulando do heroísmo à vilania, da glória à perdição, da virtude ao vício. Quando as câmeras focam em Clooney, ele transparece um desencanto mais por se sentir anacrônico do que por alguma falha de caráter consciente. Chacoalhado pelas circunstâncias, Matt King se equilibra, sobre uma bússola de valores enviesados, entre qualidades e defeitos que lhe dão o tom de sua fragilidade. Pode render mais um Oscar a Clooney.

O filme, roteirizado por Payne, Nat Faxon e Jim Rash, passa longe do brilhantismo de “Sideways” – tavez por ser um pouco menos do mesmo –, mas merce ser visto. Produto do cinema atávico de Alexander Payne, “Os descendentes” brinca de malabarismo com sonhos construídos e desfeitos ao longo da existência. E deixa uma mensagem de esperança, assinatura de próprio punho do realizador. Não por condescendência ou pieguice, mas na medida em que a vida precisa encontrar um jeito de continuar, mesmo torta.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Atenção para uma ponta do mito do surfe de ondas grandes Laird Hamilton, no papel de Troy. Nas palavras da lenda Greg Noll, Hamilton é o maior surfista de ondas grandes que o mundo já viu. Ele não está exagerando… Um dos destaques do documentário Riding Giants (2004), de Stacy Peralta, o americano Laird surfou, em 2000, no pico de Teahupoo (Tahiti), aquela que foi considerada a onda do século XX – uma bizarrice da hidrodinâmica que redefiniu as possibilidade do surfe de morras monstruosas. Acesse o vídeo dessa insanidade aqui.

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Cool Clooney

 

Nossa veia não resiste ao declínio do Império Americano e vamos com “Tudo pelo Poder” na despedida de 2011. Quanto a George Clooney, confesso, é aquela chuva no molhado feminino com direito a Globo de Ouro.

Keep cool…

É verdade que nossos irmãos do Norte adoram a catarse sobre o poder deles. Mesmo assim, meu alento perdura ao sair da sala de cinema, ainda que a esquina do Leblon já tenha cervejeiro demais. Huum… Deve ser esse estilo Clooney (vide Nespresso): cool, original e temporão, um quê balzaquiano de boa safra. Quase noir, embora a cores, o filme é uma certeira síntese entre drama político e thriller, ficção, documento e POLÍTICA.

George, para os íntimos, vem de gostosa contenção. Com (aquele) olhar rasgado, narrador em terceira pessoa e personagem (Governador Mike Morris, candidato à presidência), traz lembranças de “Todos os Homens do Presidente”,”JFK”, “Nixon”, “Nos bastidores da notícia”, “O Presidente”, The West Wing e ainda o caso Monica Lewinsky, a estagiária de Bill Clinton. Porém, qualquer referência desta no personagem de Evan Rachel Wood, é uma mera coincidência, dado que para todo político charmoso há sempre uma boa estagiária…

Nada vulgar no filme, entretanto. Caricaturas passam ao largo. A lente se insinua pela fenda, digladia-se com a linhagem das obras sobre os escaninhos do poder, as campanhas presidenciais e o controle da informação. Violento é o cinismo e ferino é o vazio que se instala na medula da democracia made in USA.

Sim, a história política norteamericana está repleta de The Ides of March (título original de “Tudo pelo Poder”). Adaptação de uma peça de Beau Willimon, também co roteirista, a expressão se refere a 15 de março no calendário romano, ao ponto do meio, à lua cheia e a Julio César, quando um adivinho previne o imperador romano sobre os que tramam contra ele, no drama de William Shakespeare.

O protagonista do filme, o comunicador Stephen Myers (personagem do excelente Ryan Gosling), apesar de descrito como idealista nas sinopses em circulação, é por demais inteligente para ser naive. A interpretação, sob a batuta de Clooney, contém um tom necessário de farsa, desde o início. Ao se tornar o alvo da corrupção, o golpe de Stephen é de mestre, uma vendetta na democracia (como num regime autoritário). No clímax, o bloco do poder se assume intérprete da vontade cidadã. Rearranja-se, após ceder ao dono da área, o Senador Thompson (Jeffrey Wright), um negro, a propósito… Quanto à mídia, faz de tudo pelo poder, mas não é poder algum: apenas se ajoelha ao interesse dominante.

Mais que ilustres coadjuvantes — Philip Seymour Hoffman (Paul Zara), Paul Giamatti (Tom Duffy), Marisa Tomei (Ida Horowicz) — alicerçam a moldura. Como nas obras em círculo (vicioso), “Tudo pelo Poder” termina como começa. Stephen Myers (Ryan Gosling) será apenas — e sempre — o fantoche que antecede a cena do candidato. Não voltará a ser como antes, embora seja o mesmo.

Claudia Furiati

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Vera Formidável!

Com extrema competência, meus dois colegas de blog – Helena e Edu – já dissecaram o novo filme de Jason Reitman. Realizador dos excepcionais “Juno” e “Obrigado por fumar”, o diretor não precisa de cartões exclusivos para atiçar a libido da comunidade cinéfila.

Dito isso, quero chamar a atenção para a atuação da estonteante Vera Farmiga. Ryan Bingham, personagem vivido pelo galã bem passado George Clooney, vale-se de seu estilo de vida para criar uma aura misantropa ao redor de si, evitando criar raízes e estabelecer relações duradouras.

Tudo vai de acordo com a agenda, até encontrar Alex Goran, incorporada por Farmiga, o que obriga Ryan a realizar um pouso forçado na ilha de Lost (em fevereiro começa a nova e última temporada, imperdível!!!). Lá ele não vai encontrar monstruosidades de fumaça negra (eu preciso saber o que é aquilo!!!), escotilhas misteriosas no meio da selva, ursos polares andando no meio da mata, templos enigmáticos, nem tribos inimigas prontas para atacar a qualquer momento. Algo mais assustador o espera: o relacionamento humano e todas as contradições inerentes.

Vera Farmiga é uma predadora dos céus. Com duas safiras hipnóticas estampadas na face, utiliza todo o seu charme para estontear viajantes indefesos e fugir da falta de emoção de sua vidinha “real”. Como um Leonopteryx faminto, Farmiga caça Banshees incautos que acreditam estar no domínio da situação, voando absolutos pelos céus da América e do mundo. Aqueles dois faróis azuis – que tragam a alma de qualquer macho de plantão – serão a última coisa que executivos incautos verão antes de se espatifarem em terra firme, descobrindo que a realidade pode machucar mais do que uma queda de mais de 5 mil pés. Às vezes, viver uma ilusão nas alturas pode ser mais incrível – ou inteligente – do que encarar o que nos aguarda em solo, nas nossas relações com amantes, parentes, amigos.

Ryan, como não poderia deixar de ser diferente, se apaixona e comete um erro fatal: sem saber mais detalhes sobre Alex e sua vida pessoal, ele resolve deixar os céus de brigadeiro e começa a imaginá-la como sua co-piloto. A conexão não foi estabelecida. Sinto dizer, meninas, mas Clooney não será Toruk Macto – Rider of the last shadow. Resta a nós, pobres mortais, extravasarmos nosso recalque no texto, deitarmos a cabeça no travesseiro à noite, e imaginarmos que estaremos cavalgando Vera Farmiga no motel mais próximo, qualquer dia desses (sonhar não custa nada).

Apesar da ótima atuação de Anna Kendrick (dá um show!), sua personagem, Natalie Keeener, a mais nova aquisição da firma para a qual Clooney trabalha – que tem como negócio demitir pessoas ao redor do globo, na esteira da crise econômica mundial, já que muitos chefes cagões não têm culhões para tanto -, ela é totalmente eclipsada pelo tornado azul Farmiga. Pois é, Anna, você não está mais no Kansas, e aqui o papo é de gente grande. Experiência + corpo escultural + voz sexy + par de bilhas azuis que despertaram meus instintos mais selvagens são duros de bater. Sem esquecer que a grama do vizinho sempre é mais verde, como já diz o ditado, não é verdade? O que eu posso dizer? Não sou isento…

Breve comentário final: eu consegui me conter na sessão até o momento em que Alex admite que já teve experiências sexuais com mulheres. Ali ela acabou comigo. Foi um Deus nos acuda dentro do cinema. Tenho uma queda por meninas que gostam de meninas. Ainda bem que eu estava de jeans.

Pensamento do dia:

Meu Avatar envenenado: em qualquer cultura deste universo e de outros que possam existir, quem tem o melhor carro (ops…) – no caso do filme do James Cameron, quem tem o melhor pterodáctilo monstro assassino – sempre ganha a garota. É de lei! Até em Pandora amar a pé (ou de “carro” velho) é lenha hehehehehehehehehehe!

Carlos Eduardo Bacellar

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Amor sem Escalas

George Clooney é um cara pintoso. Até eu, que sou tradicional, tenho que assumir isso. Sempre defendi que ele daria um perfeito James Bond, diz aí.

Em “Amor sem Escalas”, George encara Ryan, um cara que, com muito orgulho, diga-se de passagem, coleciona milhas aéreas ao cruzar os Estados Unidos pela American Airlines;* prestando serviços de desligamento de profissionais em um país economicamente caótico.

Veja bem:  eu mesmo sou um cara que volta e meia pego meus vôos (de executiva néam) e simplesmente odeio este clima de ar reciclado, filas, malas, check-ins e tais – juro que me cansa. Ryan, entretanto, não só adora, como se vangloria com o fato de ter aeroportos e aeronaves como seu verdadeiro lar. Para isso, desliga-se de tudo que evoca estabilidade such as família, casa e relacionamentos em geral.

É claro que a esta altura você já sacou o turning point do filme; realizado, de forma muito bem escrita. O foco está no valor das relações humanas em nossas vidas. Como santo de casa não faz milagre (é o povo que diz, gente!), George Clooney é um cara que beira os 50 anos de idade solteiro e sem ter uma relação monogâmica duradoura, how ironic.

O filme é ótimo e recomendado. Depois de tantas comédias românticas estilo Judd Apatow, a gente fica cansado de roteiros desconexos e improvisações de boas idéias. Desta vez, muito pelo contrário, temos uma sinopse duvidosa e um filme excelente.

Creio que tem chances de ganhar alguns prêmios, como roteiro original e melhor atriz coadjuvante para Vera Farmiga, o resto seria, ahm… exagero.

*Nota: O sentimento de que se trata de um filme institucional da AA ocorre algumas dezenas de vezes durante o filme.

Edu Valverde

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Nas escalas, o amor.

“Amor sem Escalas” cruza longe o cruzeiro de comédia romântica. A tradução comercial de “Up in the Air” é catchy às mulheres (se bem que o George Clooney por si só já vale o ingresso) e aos novos casais. Se não dimensionada, subestima o potencial do interessante enredo. É repleto de metáforas, onde viver nas nuvens ou estar no ar azeita de desconexão os mais conectados.

Em contexto atual, o profissional focado Ryan Bingham (George Clooney) lucra milhas exorbitantes, enquanto demite os desafortunados pela crise americana. Fazendo o trabalho sujo, é o representante perfeito de certas empresas que lucraram (e muito) com o downturn. Em economia de crise, quem tem lábia é rei: provavelmente esteja aí a parcela creditada à comédia.

O filme sugere um Ryan bem resolvido. Típico solteiro profissional, tem proposta minimalista e desapegada. Ama seu estilo de vida e o defende com unhas e dentes em palestras motivacionais (para exportação). Tudo que tem, parece descartável ou substituível em uma próxima escala em terra firme – à exceção de seus cartões de fidelidade, verdadeiros passaportes ao luxo, dos quais se orgulha tremendamente.

O que ele ainda não sabe é que suas verdades, por mais enraizadas que estejam, terão destino questionado por mulheres: a amante, a amiga e a irmã. Na charmosa personagem Alex, de Vera Farmiga, reconhece sua alma gêmea, alguém capaz de compartilhar seu jeito de ser e que, como ele, parece só querer da vida curtição-sem-compromisso. A segunda é a recém-formada Natalie Keener (Anna Kendrick) que acredita ter aprendido na Faculdade tudo que precisava saber sobre políticas de Recursos Humanos e cortes orçamentários e, antenada, sugere demissões via webcam como parte de seu job. Nada mais apropriado quando se lida com a desgraça alheia, não é mesmo? É neste imbroglio que a relação de Natalie e Ryan se estabelece, revelando a humanidade por trás do sangue frio. E é da intimidade dividida pelos dois que Ryan percebe seu coração em pouso de emergência ao encontro da família (no casamento da irmã), lugar renegado no passado, mas que provocará verdadeiras revoluções internas em sua personalidade.

O amor está nas escalas de amadurecimento afetivo do homem Ryan. Certo do que quer, parte em busca do rumo “certo”. O que ele desconhece e nem desconfia, é que as mulheres só decolam – sem cintos – quando devidamente livres, seja por condição ou por um mínimo de retaguarda. “Amor sem Escalas” é um embarque nas relações contemporâneas repleto de significados, e deixa seus vitimados à flor da pele.

Helena Sroulevich

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