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Harry Potter em busca das relíquias da vida

A função da literatura é criar, partindo do material bruto da existência real, um mundo novo que será mais maravilhoso, mais durável e mais verdadeiro do que o mundo visto pelos olhos do vulgo.” (Oscar Wilde)

Harry Potter cresceu. Inevitável. Um dia todo mundo cresce, mesmo que seja só verticalmente. As taxas hormonais em ascensão e a fita métrica não me deixam mentir. Mas é possível perceber algo mais em seu semblante, marcado por uma cicatriz em forma de raio, que frustra interpretações epidérmicas. Harry amadureceu. Outro tipo de crescimento que nenhum fisiologista poderia auferir objetivamente. O desenvolvimento emocional depende do que a vida nos impõe; e de como reagimos a essas imposições.

No oitavo filme da franquia idealizada no âmbito literário pela inglesa J. K. Rowling sob a responsabilidade do diretor David Yates , o bruxinho mais famoso da história do cinema (e da literatura), e digo isso sem titubear, entende o verdadeiro significado da palavra sacrifício. Harry, em sua caçada às horcruxes de Voldemort, enfim compreende seu papel na concepção de um mal que o assombra (e a todos os seus) desde o berço. E o que precisa ser feito não para resguardar a si próprio, mas para proteger as pessoas que ama. O autruísmo autodestrutivo máximo.

Neste encerramento cinematográfico dos capítulos finais do sétimo livro roteirizado por Steve Kloves , Rowling submete Harry a provações que não o fortalecem, muito pelo contrário. Elas o envolvem no sudário da resignação. Mais do que aceitar seu destino trágico, Potter o sorve de um gole só, como se fosse a poção mágica responsável pela desinfecção de todas as chagas: as aparentes (da carne) e as envoltas pelo manto de invisibilidade chamado coração, as quais feitiço nenhum pode desvelar. Ironicamente, essas marcas invisíveis entalhadas em nosso íntimo podem ser alcançadas tanto pelo veneno como pela cura, dependendo da forma com que construímos nossa retórica emocional após as perdas (sejam elas quais forem). E Harry, ao perceber que continuar ou não só depende dele, coloca o niilismo de lado e se agarra à amizade como a muleta de que precisa para ficar em pé outra vez.

No duelo final com Voldemort, nosso herói canhestro desperta para sua imperfeição a interseção que existe dentro dele entre o bem e o mal, criando uma zona cinza chamada livre arbítrio que se equilibra entre o certo e o errado; e o que é mais desafiador, entre o mal e o menos mal, ou o certo e o mais certo. O maniqueísmo, impresso por Rowling até na disposição das casas da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts (eu não queria ser da Sonserina nem a pau!), é dissolvido na construção psicológica de seu principal personagem. A escritora simplifica o plano estrutural por um lado, mas complexifica o íntimo de cada personagem de outro. Alguém disse trama infanto-juvenil? Sério? Estou assustado com esses adolescentes…

Bom, voltando… Aceitar o lado negro (o que existe de pior em nós) e aprender a lidar com ele talvez seja um desafio maior para Harry do que eliminar seu antagonista, encarnação do mal em estado concentrado, uma metáfora (talvez) do que não queremos que prevaleça nas relações humanas. Na verdade, Voldemort não pode ser aniquilado no que entendemos por vida real, somente contido. As relíquias da morte? Esqueça… São presentes de grego da morte. O verbo, caro leitor, é mais poderoso que qualquer artefato mágico.

Alvo Dumbledore é um sábio quando diz: “Palavras, na minha não muito humilde opinião, são as mais inesgotáveis fontes de mágica. Capazes de infligir a dor ou curá-la”.

Rowling sinaliza que nem sempre escolheremos a sintaxe correta, impecável, mas não podemos deixar de buscá-la, mesmo perseguidos (sempre seremos) pela carga semântica representada por Lord Voldemort, inerente ao que é humano. Harry Potter, por meio da dor das perdas e do sacrifício, assimilou isso e cresceu. E nós crescemos junto com ele. Obrigado novamente, J. K. Rowling!

Carlos Eduardo Bacellar

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Lumos Maxima nos cinemas!

Aguardo todos para o embarque!

Uma curiosidade para ilustrar como a vida é engraçada…

Recentemente cortei minha testa por acidente, tentando andar no escuro, com sono, pelo meu quarto. É sério! Como o corte não ficou muito preciso, pedi ao Aldo Raine para dar o ajuste fino. Isso não é tão sério assim 🙂 De qualquer forma, vou a caráter!

Obrigado, J. K. Rowling! Não só por colocar um pouco de magia em nossas vidas… Toda uma geração que não pegava nem em gibi (com todo respeito aos gibis, dos quais sou fã), passou a ler por sua causa. E isso é muita coisa. Muita coisa…

Carlos Eduardo Bacellar

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Espirituosidade recheando as entrelinhas de J. K. Rowling

Os fãs (ou seriam detratores?) de Harry Potter descobriram uma forma bem criativa de extravasar a ansiedade (ou a repulsa) enquanto aguardam a segunda parte do sétimo (e último… snif… snif…) filme das aventuras do bruxinho, criação da inglesa J. K. Rowling.

Contorcendo-me de tanto rir, como que sob o efeito do feitiço Cruciatos, resolvi republicar aqui as divertidas montagens que rolam na Internet.

Cortesia do blog parceiro @osindicados, que garimpou, na rede, as espirituosas imagens. Estamos juntos na contagem regressiva para a estreia nos cinemas. Anote na agenda: dia 15 de julho.

EU NÃO AGUENTO ESPERAR!!! Perdão… Foi só um desabafo…

Carlos Eduardo Bacellar

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Ressonância da ideologia das Cobras de Verissimo

“[…] O homem é essencial para qualquer conceito de universo. Sem ele, o universo existiria, mas não seria concebido. Este é o milagre do homem. Ele pode imaginar a infinitude terrível e assombrosa do universo, e mesmo assim não ter medo. Mas diante do mistério do tempo e da iminência da morte ainda consegue rir, trabalhar, criar… E amar. […]”

Trecho do diálogo entre os personagens Richard Burton (1925–1984) e Elizabeth Taylor no filme “Adeus às ilusões” (1965), de Lester Anthony Minnelli (1903–1986), diretor americano conterrâneo de Barack Obama, mais conhecido como Vincente Minnelli.

Nos créditos do roteiro salta aos olhos o nome de Dalton Trumbo (1905-1976), famoso pelo seu talento como escritor e por integrar, em 1947, época de caça às bruxas (leia-se supostos comunistas nas entranhas da indústria) promovida pela agenda macartista, a lista negra de Hollywood.

Lendo reportagem acerca do lançamento de livro em homenagem à tirinha As Cobras, de Luis Fernando Verissimo, comecei a imaginar que o roteirista hollywoodiano devia ter um serpentário em rebuliço permanente provocando sua massa cefálica.

Detalhe inusitado: Trumbo, Veríssimo e Harry Potter têm mais em comum do que possam imaginar.

Ambos são ofidioglotas (capacidade de falar e entender a língua das cobras).

Felizmente, fora do universo de J. K. Rowling, essa habilidade, explorada com competência pela ironia de Veríssimo e a filosofia sentimental de Trumbo, não é associada às forças das trevas, mas, sim, ao entendimento da realidade política, social e, no caso de “Adeus às ilusões”, complexo-afetiva que precisamos (ao menos tentar) interpretar sem vícios e preconceitos para um entendimento plural de quem somos e para onde vamos (ou para onde não vamos).

Leia aqui a matéria assinada pela Cora Rónai, publicada no jornal O Globo de hoje, sobre a antologia das Cobras de Veríssimo que chega às livrarias. O escritor merece o nosso carinho.

Carlos Eduardo Bacellar

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