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O som da ruína

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O som engolfa em seus ecos, que reverberam pelas estruturas afuniladas de condomínios de classe média em Recife. Arquitetura estéril, repetitiva e sufocante que mais lembra uma prisão ou manicômio. Dá no mesmo, aprisiona e perturba o olhar…

O som ao redor”, de Kleber Mendonça Filho, transforma autoritarismo, conservadorismo, preconceito e hipocrisia, alicerces precários do status quo da classe média, no alçapão que a derruba em suas perversões e neuroses.

É na leitura crítica de comportamentos do cotidiano que a observação de gestos e atitudes aparentemente banais desvela a bipolarida daquela amostra social enfocada por Kleber – já utilizada como balão de ensaio nos curtas “Vinil verde” (2004), “Eletrodoméstica” (2005) e “Recife frio” (2009). A desagregação do tecido social fica evidente na montanha-russa que chacoalha núcleos de personagens numa viagem emocional entre euforia, frustração e medo da perda de privilégios frágeis.

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Se o ventilador cair pela janela pode significar um tombo para uma classe inferior, talvez não segundo o Critério Brasil, mas certamente de acordo com critérios subjetivos dos medíocres, fermentados no individualismo e na inveja predatórios. Por isso ter uma televisão maior que a do vizinho pode ser motivo para um conflito fratricida. O acréscimo de R$ 300,00 na taxa de condomínio pode ensejar qualquer desculpa para mandar o porteiro embora por justa causa – mesmo que a peça acusatória seja baseada num vídeo captado por um tablet cujo diretor é um adolescente que não tem nada melhor para fazer e no fato de a revista chegar fora do plástico –, sendo desnecessário o pagamento do que é devido ao funcionário dedicado por anos de serviços prestados. Um cheque pode limpar a consciência, mas com certeza ela fica mais leve se esse valor puder ser convertido num bem de consumo durável para a família, mesmo após o fingimento de alguma preocupação com os direitos trabalhistas de um subalterno. Tudo decidido numa reunião de condomínio que mais parece um teatro do absurdo — espetáculo de constrangimento travestido de peça de defesa da probidade. Chantagem velada também pode economizar alguma grana. Por isso suicídio é usado como artifício de desvalorização de imóvel em uma negociação de compra, tudo por um desconto. E Kleber segue implacável: a mãe de família maconheira que se masturba na máquina de lavar, o playboy do condomínio que pratica furtos, o herdeiro que passa o dia fingindo que trabalha com a cabeça na garota com quem transou na noite anterior…

A classe média vive um paradoxo aflitivo: tem horror a pobre, na verdade pavor de um dia cair na pobreza, mas sonha integrar a elite da pirâmide sócio-econômica e se transformar num personagem da novela de Manoel Carlos, de modo a caminhar pela orla da Veneza brasileira – no caso das figuras recifenses de “O som ao redor” – assim como um ator global flana pelo Leblon até a confeitaria Kurt para se deliciar com um macaron de frutas vermelhas. Como se não houvesse amanhã.

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O resultado disso é a alienação, uma ambiguidade moral de espectro amplo, um egoísmo exacerbado, aspirações que não vão além da próxima compra com o cartão de crédito. Para cuidar do manicômio prisional só mesmo uma milícia. Liderada por Clodoaldo (o superlativo Irandhir Santos), impõe seus serviços de segurança propagandeando o medo que se infiltra pelas fraturas psicológicas daquela comunidade. Ela é assombrada pelos fantasmas criados por suas ilusões falidas; esperanças frustradas. Não só… O medo é personificado nas pessoas da favela ao lado.

Dentro desse engenhoso mosaico de relações interpessoais, Kleber Mendonça Filho estabelece elos entre passado e presente. O diretor instiga uma reflexão dialética ao trazer para as estruturas verticais de aço e concreto do século XXI hierarquia, subordinação, dominação e respeito, características da dinâmica entre sujeitos no Brasil patriarcal, desdobradas num contexto hodierno patrimonialista. Aglomerados, os edifícios formam a selva da modernidade. Fauna incluída. Infelizmente, apesar da falência moral, a classe média não é uma espécie em extinção.

Carlos Eduardo Bacellar

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O homem lobo do homem

“Bellum omnium contra omnes”

Alçado ao panteão dos anti-heróis do cinema brasileiro, à custa de muito sangue e lágrimas derramados – e muitos DVDs piratas vendidos −, com o filme “Tropa de Elite” (2007), o capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) Roberto Nascimento (Wagner Moura), agora tenente-coronel, volta às telas para tentar exorcizar seus demônios e livrar a cidade do Rio de Janeiro do mal “sistêmico” na continuação homônima, dirigida também por José Padilha.

O roteiro, assinado por Padilha e Bráulio Mantovani, traz um Nascimento desiludido e amargurado que precisa conciliar o trabalho na polícia com o relacionamento turbulento com o filho Rafael (Pedro Van-Held), a ex-mulher Rosane (Maria Ribeiro) e o atual marido dela, Fraga (Irandhir Santos), um militante de esquerda defensor ferrenho dos direitos humanos que antagoniza com o tenente-coronel. Além disso, Nascimento ainda precisa administrar a desconfiança de Matias (André Ramiro), agora capitão do Bope.

Por um desses acasos do destino, uma operação do Bope acaba saindo fora do planejado e Nascimento, envolvido na politicagem caça-votos, assume a Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro.

Absorvido pelo que ele define como o mal encarnado (fato do qual ele só se dará conta mais tarde), o dito sistema, Nascimento percebe que a estrutura de poder, com as altas esferas de tomada de decisão interligadas entre si num arranjo perverso, está infectada pelo vírus hobbesiano da corrupção, que utiliza as próprias forças de segurança para garantir esquemas que movimentam milhares de reais por mês.

Desta vez o inimigo não é o tráfico, mas outro câncer social: as milícias. Em constante transformação para detectar a melhor maneira de se dar bem e ganhar dinheiro em cima do próximo, fora do radar dos anticorpos da opinião pública, o vírus da corrupção oferece uma alternativa para policiais degenerados que não conseguem mais lucrar com o arrego dos traficantes, sufocados pela determinação de Nascimento e seu exército de preto.

Liderada pelo major Rocha, o Russo, interpretado por um inspirado Sandro Rocha, uma parte da banda podre da PM transforma as favelas livres do tráfico, na zona Oeste do Rio, em fontes de renda. O filme de Padilha nos mostra como se deu gênese das máfias cariocas e sua força como palanque de interesses políticos.

Abatido, curvado pelas circunstâncias, Nascimento enxerga nos meandros da política a podridão que coopta as forças de segurança e as transforma em adubo para outro tipo de mal – que floresce longe das áreas mais carentes da cidade, e se ramifica até Brasília.

Carlos Eduardo Bacellar

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Sincretismo e poesia da obra de Jorge Amado servem de guia para criação de ode à amizade lastreada no realismo mágico

“Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há.”

Quincas Berro Dágua

Quincas Berro Dágua é o alter ego do funcionário público Joaquim que, após desatar o nó de gravata das convenções que o sufocavam, dá um basta na mediocridade e chatice de sua vida careta. Com anos de farra incubada, o agora (e definitivamente) Quincas resolve abraçar a esbórnia e curtir uma vida de excessos regada a álcool. Rasga o traje esporte fino e por baixo aparece a farda da malandragem. Abandona mulher e filha para viver entre o lúmpen-proletariado de uma Bahia imersa numa atmosfera onírica; e que transpira possibilidades para quem deseja se perder de si mesmo. E assim você é apresentado ao nosso anti-herói, cuja história começa com uma morte e deveria terminar com outra morte, mas não foi bem assim…

Carregado pelo sincretismo e verve poética de Jorge Amado (1912-2001), o diretor (e conterrâneo de Amado) Sérgio Machado pede licença aos seus Orixás e faz uma oferenda para todos que curtem o bom cinema. Baseado no livro “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua” – cuja primeira edição data de 1961 −, do romancista baiano pai dos capitães da areia, chega às telas “Quincas Berro Dágua”, que traz no papel do morto-protagonista um Paulo José impagável!

A quizumba começa com o falecimento de Quincas, que bate as botas agarrado a uma garrafa de pinga num cortiço imundo de algum canto esquecido da Bahia. Pois é, toda putaria desenfreada uma hora cobra o seu preço.

No velório, a turba maltrapilha devota do boêmio mais famoso do Pelourinho é confrontada pela família do ex-funcionário público, que esconde da sociedade a verdadeira ocupação (ou melhor, falta dela) do falecido. Mariana Ximenes interpreta a filha de Quincas, e representa toda a castração da liberdade do indivíduo, abafada por quilos de exigências formais de uma classe média hipócrita que fantasia suas raízes.

O contraste (que define a discrepância social) é marcado pelos malandros profissionais (romantizados pelo diretor) representados por Frank Menezes, Luís Miranda, Flávio Bauraqui e Irandhir Santos (o cara do momento). Inconformados com a morte do companheiro, os quatro encasquetam que Quincas não partiu dessa para melhor, e resolvem levá-lo para uma última noitada. Os fiéis amigos paramentam Quincas com a indumentária da perdição e, numa versão brasileira de “Um morto muito louco” (Ted Kotcheff, 1989), partem com o corpo pelas ladeiras do Pelourinho em busca de diversão. Todos os esquetes são devidamente acompanhados por Quincas do limbo em que se encontra: narrador de suas próprias desventuras pós-morte.

Congraçando realidade e delírio, Sérgio Machado tangencia o fantástico para falar da amizade sincera, que se recusa a arrefecer mesmo depois do último suspiro. Quincas Berro Dágua é mais do que um maestro da orgia e da alegria, ele é um estilo, um modo vida. Ele é um Ferris Bueller que cresceu, mas se arrependeu, e resolveu voltar a curtir a vida adoidado, inspirando quem orbitava ao seu redor. Morre com ele um pouco daquele espírito da picardia que habita todos nós, mas que muitas vezes fica em estado latente, enterrado em corações de terno e gravata. Seus trapalhões soteropolitanos não querem se desapegar dessa centelha hedonística que torna mais leve vidas tão difíceis.

Destaque no filme para a voluptuosa cafetina Manuela (Marieta Severo), nos braços de quem Quincas consegue conjugar carinho e tesão: a puta com o coração de ouro que todo homem (heterossexual) sonha encontrar.

Ouvi de algumas pessoas que é difícil engolir a metamorfose repentina da filha de Quincas. Eu digo o seguinte: não é assim na vida real? O ser humano é bizarramente contraditório. Em tempos de padres que catequizam menores de idades nos meandros da saliência, nada menos surpreendente. Quem nunca conheceu alguém que foi reprimido e/ou violentado – física ou moralmente − durante grande parte de sua vida e, quando atingiu seu limite, despirocou? Mariana Ximenes, cansada da rotina monocromática e linear de sua vidinha de dondoca de classe média, abraça sua herança e se entrega aos prazeres da carne – como que chancelando as atitudes de seu pai e redimindo-se das privações ao gemer de prazer num quarto sujo de motel.

Não dá para deixar de exaltar o trabalho do diretor de fotografia Toca Seabra que, por meio de suas lentes, cria uma atmosfera deprimente, imunda, enigmática, decadente – tudo e nada ao mesmo tempo −, mas cheia de energia e expectativas. Seu trabalho dá vida a uma Bahia mágica, cantada nos versos de Dorival Caymmi.

Carlos Eduardo Bacellar

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Expurgo dos pecados na busca pela humanidade

Credenciado pelos seis prêmios que arrematou no Festival de Paulínia 2009 − melhor roteiro (Paulo Halm e Melanie Dimantas), melhor atriz (Cristina Lago), melhor ator codjuvante (Irandhir Santos), melhor som (José Moreau Louzeiro) e melhor montagem (Pedro Bronz) −, “Olhos azuis”, novo longa do diretor paraibano José Joffily, aquece os motores para sua estreia no circuito nacional, marcada para o próximo dia 28.

Ontem à noite, num esforço sob o binômio divulgação/medição da receptividade do público, foi realizada sessão exclusiva do filme para blogueiros, no Unibanco Arteplex. E o Doidos marcou presença.

“Olhos azuis” é um thriller que abarca elementos de suspense, drama e aventura policial. O elenco cosmopolita é formado por atores americanos, argentinos, hondurenhos e brasileiros.

O primoroso roteiro de Halm e Dimantas – que, infelizmente, ficou congelado durante nove anos, aguardando viabilidade – ganha movimento e colorido hipnóticos por meio das lentes de Joffily, e nos leva à reflexão.

Somos apresentados ao chefe da imigração do Aeroporto JFK (Nova Iorque), Marshall (David Rasche), que, em seu último dia de trabalho, resolve extrapolar sua autoridade e abusar de um grupo de latinos que deseja entrar nos EUA. Entre eles está Nonato (Irandhir Santos), um brasileiro radicado nos States que retorna ao país após visitar a filha no Brasil; Assumpta (Valeria Lorca) e Martin (Pablo Uranga), dois poetas argentinos que acreditam que seus versos terão melhor ressonância na terra do Tio Sam; Calypso (a encantadora Branca Messina), uma bailarina cubana; e um grupo de lutadores hondurenhos, liderados por Augustin (Hector Bordoni).

Ladeado por dois subordinados que almejam uma promoção que engordará seus salários − Sandra (Erica Grimpel) e Bob (Frank Grillo) −, Marshall leva os imigrantes ao limite, expondo-os a situações cada vez mais constrangedoras. Descontrolado pela bebida, que entorna como se fosse água, o chefe da imigração acaba jogando o livro de conduta profissional no lixo e humilha Nonato até o ponto em que a indignação atropela a paciência. Tal atrito gera um confronto de consequência trágicas.

O duelo entre os dois atores produz um dos mais belos momentos do cinema. A sinergia dramática lembra, não por acaso, o desempenho de Christopher Walken e Dennins Hopper em “Amor à queima-roupa”, de Tony Scott. Talvez a troca de diálogos mais antológica das últimas décadas. Nas duas situações, dois talentos entram em rota de colisão: um entorpecido pelas drogas (não preciso comentar sobre Hopper, não é verdade?), o outro acuado pela aflição fruto da humilhação degradante.  O embate expõe a chaga da paranoia americana, que não parou de infeccionar após os atentados de 11 de setembro de 2001, em contraponto com o desespero de cidadãos latinos que só querem tocar suas vidas de forma digna.

Com o espírito empalado pela culpa, o americano parte numa jornada em busca da reparação – ele está além de qualquer redenção. Como um elemento extra de suspense, o ex-buldogue da alfândega americana está com os dias contados por causa de um câncer que o consome por dentro. Marshall, em seu calvário existencial e físico, abandona o Brasil dos cartões postais e atravessa o nosso Nordeste em busca da filha de Nonato, a quem deseja indenizar. Na companhia da prostituta Bia (Cristina Lago), que acaba se tornando sua fiel escudeira, ele cruza o sertão até encontrar a bela região do rio São Francisco, e o objetivo de sua jornada. Bia e Marshall possuem caminhos distintos que, em determinado momento, se cruzam por obra do acaso. Joffily fala que os dois personagens buscam suas origens, sejam elas geográficas ou humanas:

“A Bia não é apenas um personagem funcional na história. Ela vai sendo construída no sentido de entender o que leva uma pessoa a sair de sua casa, abandonar seu passado por um futuro incerto. Ela mesma sai do sertão para o Recife. E depois volta à sua raiz. O americano, faz o caminho inverso, ele sai do seu país para reencontrar sua natureza, o que ele perdeu em sua trajetória de embrutecimento.”

É interessante destacar a interpretação de Halm, que dá contornos distintos a cada dimensão espacial: “a migra é quase uma anti-sala do inferno, e a viagem pelo Nordeste, uma redescoberta que leva ao paraíso”.

Depois da desastrosa era Bush, é inevitável pensar em Marshall como uma metáfora imperialista. Mas, o diretor nunca imaginou o personagem dessa forma:

“Nunca tratei o Marshall (David Rasche) como uma personagem metáfora. A Sandra (Erica Gimpel) e ao Bob (Frank Grillo), que apesar de suas origens negra e latina, agem de forma preconceituosa, revelam que o preconceito não é só de fora para dentro. Ele também age nas entranhas do país.”

É cômodo também imaginar uma estrutura maniqueísta ditada pelo roteiro, mas Paulo Halm não iria subestimar a inteligência do público com didatismos anacrônicos. Joffily reforça esse pensamento:

“Não existem bons nem maus na história. Todos têm razão. O Marshall, alcoólatra e revoltado com a aposentadoria obrigatória, tem razão em muitas de suas falas. Ele está doidão, mas suas considerações estão presentes em corações e mentes americanas. Idem o Nonato (Irandhir Santos). Ele também interpela os oficiais de forma abusada, mas suas falas revelam um julgamento comum a boa parte dos latinos.”

A relativização da verdade também reforça as fronteiras ambíguas que separam direitos e deveres dos protagonistas. Na verdade, o antagonismo é determinado pela força da situação, como bem delineia Halm:

“Não existe uma verdade única, todos têm razões diferentes, a verdade se torna um mosaico, vai mudando à medida que o ponto de vista é deslocado. Ela toma a forma tanto do americano quanto dos latinos. O Marshall com toda a sua arrogância quer transformar o último dia dele na imigração num espetáculo. Mas ele perde o controle e a situação acaba se voltando contra ele.”

Destaques do filme, montagem, fotografia – capturada pelas lentes de Nonato Estrela, que explorou com competência as belíssimas paisagens do nordeste brasileiro − e som maravilham os sentidos e criam as condições necessárias para que ocorra a simbiose perfeita entre interpretação e encenação. A edição é definida por Halm como um jogo de espelhos que brinca com a faceta cronológica:

“Criamos uma duplicidade de leitura: a ideia de sair do inferno em busca do paraíso. A história é contada em tempos paralelos, criando um jogo dramático interessante. O tempo da migra, mais tenso e agressivo. E o tempo da viagem de Marshall (Recife a Petrolina), num ritmo de observação e percepção.”

A habilidade na utilização do som foi fundamental para definir os espaços e criar identidades para as ambientações, coroando tanto o trabalho de José Moreau Louzeiro como o de Jaques Morelenbaum (trilha sonora), como confirma Joffily:

“Assim como no tratamento fotográfico, também no som, procuramos distinguir os dois mundos, reforçar as diferenças também na edição de som: o espaço da migra e o Nordeste. A migra não comportava música, ali, apenas os ruídos deveriam reinar. Caprichamos nesse tipo de sonoridade, dispensando a melodia. A fotografia, a edição de som, a direção de arte, tudo foi numa única direção. A música atonal do Jaques (Morelenbaum), contribuiu generosamente com a ruidagem do filme. De modo que, algumas vezes, fica difícil identificar o que é uma e outra.”

Não há como ficar impassível às violências do filme – a psicológica; a que é imposta pelas circunstâncias de pobreza e privações; e a de fato. E o mais perturbador é perceber que nem toda repressão do mundo é à prova de falhas. Paulo Halm ilustra o discurso vazio do poder:

“Ironicamente os únicos que entram nos Estados Unidos estão com droga, os argentinos que são mulas, estão participando do logística do tráfico. Essa ironia torna o discurso do controle vazio e inócuo. Apesar de todo o aparato de controle da migra, o discurso não funciona. Da mesma forma que eles deixaram passar os caras que derrubaram as Torres Gêmeas.”

“Olhos azuis” tem um quê de militância. Muitos vão encará-lo como um libelo contra a intolerância. Nas palavras de Halm, o sinal amarelo está aceso:

“Qualquer pessoa que já viajou para fora do Brasil, passou, em algum grau, por constrangimento. Parece que o viajante cometeu algum crime. Em tese somos meliantes, contrabandistas. Seja na ida, seja na volta, devemos nos submeter a algum tipo de ritual de exceção, somos mal tratados fora e dentro do país. Inevitavelmente qualquer viajante vai passar por algum tipo de desconforto. Ocorre que as metrópoles estão recebendo hordas. Isso é uma bomba relógio.”

Na cena final, Marshall caminha em direção aos braços de Iemanjá e lava nossa alma com o que de melhor surgiu na filmografia nacional este ano. A água salgada deixa um gosto amargo em nossas gargantas, mas desidrata atitudes que escondem horrores, e abre o canal para o diálogo.

Carlos Eduardo Bacellar

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