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“Frère Jaques”

Frère Jacques
Frère Jacques
Dormez-vous?
Dormez-vous?

Sonnez les matines,
Sonnez les matines.
Ding, ding, dong.
Ding, ding, dong.

De alguma esquina do mundo, canto e recordo o aniversário do Frère Jaques Morelenbaum, em 18 de maio. Aliás, se esta cantiguita de ninar reverberasse daquele violoncelo, como seria? Não sei. Só sei das alegrias e lembranças intermináveis que criatura e criação não param de nos oferecer.

São de Jaques Morelenbaum, algumas em parceria com Antonio Pinto, as belas trilhas sonoras de “Central do Brasil”, “Orfeu do Carnaval”, “Tieta do Agreste”, “O Quatrilho”, e, mais recentemente, “Lula, o Filho do Brasil” e “Olhos Azuis”, de José Joffily, que chega aos cinemas na sexta que vem, 28 de maio.

Aqui, a homenagem simbólica ao grande artista que ganhou o mundo do cinema e dos palcos. E a notícia: este ano, enquanto completa 35 anos de escuderia e amuleto de nomes como Tom Jobim, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gal Costa, Cesária Évora e Sting, prepara seu primeiro álbum solo, resultado do trabalho desenvolvido pelo Cello Samba Trio; que também reúne o violonista Lula Galvão e o baterista Rafael Barata.

“A música dá o clima para o que os olhos vêem, guia suas emoções, é a moldura emocional para o que as imagens mostram”, como certa vez apontou o americano David W. Griffith, cineasta e professor de todos como Charles Chaplin, Orson Wells e John Ford. Aí acima, “Central do Brasil”. Mr. David W. Griffith não disse tudo? Quase.  “Frère Jaques” floreia a trilha sonora da vida de todos. É, Jaques Morelenbaum, minha gratidão eterna.

Helena Sroulevich

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Expurgo dos pecados na busca pela humanidade

Credenciado pelos seis prêmios que arrematou no Festival de Paulínia 2009 − melhor roteiro (Paulo Halm e Melanie Dimantas), melhor atriz (Cristina Lago), melhor ator codjuvante (Irandhir Santos), melhor som (José Moreau Louzeiro) e melhor montagem (Pedro Bronz) −, “Olhos azuis”, novo longa do diretor paraibano José Joffily, aquece os motores para sua estreia no circuito nacional, marcada para o próximo dia 28.

Ontem à noite, num esforço sob o binômio divulgação/medição da receptividade do público, foi realizada sessão exclusiva do filme para blogueiros, no Unibanco Arteplex. E o Doidos marcou presença.

“Olhos azuis” é um thriller que abarca elementos de suspense, drama e aventura policial. O elenco cosmopolita é formado por atores americanos, argentinos, hondurenhos e brasileiros.

O primoroso roteiro de Halm e Dimantas – que, infelizmente, ficou congelado durante nove anos, aguardando viabilidade – ganha movimento e colorido hipnóticos por meio das lentes de Joffily, e nos leva à reflexão.

Somos apresentados ao chefe da imigração do Aeroporto JFK (Nova Iorque), Marshall (David Rasche), que, em seu último dia de trabalho, resolve extrapolar sua autoridade e abusar de um grupo de latinos que deseja entrar nos EUA. Entre eles está Nonato (Irandhir Santos), um brasileiro radicado nos States que retorna ao país após visitar a filha no Brasil; Assumpta (Valeria Lorca) e Martin (Pablo Uranga), dois poetas argentinos que acreditam que seus versos terão melhor ressonância na terra do Tio Sam; Calypso (a encantadora Branca Messina), uma bailarina cubana; e um grupo de lutadores hondurenhos, liderados por Augustin (Hector Bordoni).

Ladeado por dois subordinados que almejam uma promoção que engordará seus salários − Sandra (Erica Grimpel) e Bob (Frank Grillo) −, Marshall leva os imigrantes ao limite, expondo-os a situações cada vez mais constrangedoras. Descontrolado pela bebida, que entorna como se fosse água, o chefe da imigração acaba jogando o livro de conduta profissional no lixo e humilha Nonato até o ponto em que a indignação atropela a paciência. Tal atrito gera um confronto de consequência trágicas.

O duelo entre os dois atores produz um dos mais belos momentos do cinema. A sinergia dramática lembra, não por acaso, o desempenho de Christopher Walken e Dennins Hopper em “Amor à queima-roupa”, de Tony Scott. Talvez a troca de diálogos mais antológica das últimas décadas. Nas duas situações, dois talentos entram em rota de colisão: um entorpecido pelas drogas (não preciso comentar sobre Hopper, não é verdade?), o outro acuado pela aflição fruto da humilhação degradante.  O embate expõe a chaga da paranoia americana, que não parou de infeccionar após os atentados de 11 de setembro de 2001, em contraponto com o desespero de cidadãos latinos que só querem tocar suas vidas de forma digna.

Com o espírito empalado pela culpa, o americano parte numa jornada em busca da reparação – ele está além de qualquer redenção. Como um elemento extra de suspense, o ex-buldogue da alfândega americana está com os dias contados por causa de um câncer que o consome por dentro. Marshall, em seu calvário existencial e físico, abandona o Brasil dos cartões postais e atravessa o nosso Nordeste em busca da filha de Nonato, a quem deseja indenizar. Na companhia da prostituta Bia (Cristina Lago), que acaba se tornando sua fiel escudeira, ele cruza o sertão até encontrar a bela região do rio São Francisco, e o objetivo de sua jornada. Bia e Marshall possuem caminhos distintos que, em determinado momento, se cruzam por obra do acaso. Joffily fala que os dois personagens buscam suas origens, sejam elas geográficas ou humanas:

“A Bia não é apenas um personagem funcional na história. Ela vai sendo construída no sentido de entender o que leva uma pessoa a sair de sua casa, abandonar seu passado por um futuro incerto. Ela mesma sai do sertão para o Recife. E depois volta à sua raiz. O americano, faz o caminho inverso, ele sai do seu país para reencontrar sua natureza, o que ele perdeu em sua trajetória de embrutecimento.”

É interessante destacar a interpretação de Halm, que dá contornos distintos a cada dimensão espacial: “a migra é quase uma anti-sala do inferno, e a viagem pelo Nordeste, uma redescoberta que leva ao paraíso”.

Depois da desastrosa era Bush, é inevitável pensar em Marshall como uma metáfora imperialista. Mas, o diretor nunca imaginou o personagem dessa forma:

“Nunca tratei o Marshall (David Rasche) como uma personagem metáfora. A Sandra (Erica Gimpel) e ao Bob (Frank Grillo), que apesar de suas origens negra e latina, agem de forma preconceituosa, revelam que o preconceito não é só de fora para dentro. Ele também age nas entranhas do país.”

É cômodo também imaginar uma estrutura maniqueísta ditada pelo roteiro, mas Paulo Halm não iria subestimar a inteligência do público com didatismos anacrônicos. Joffily reforça esse pensamento:

“Não existem bons nem maus na história. Todos têm razão. O Marshall, alcoólatra e revoltado com a aposentadoria obrigatória, tem razão em muitas de suas falas. Ele está doidão, mas suas considerações estão presentes em corações e mentes americanas. Idem o Nonato (Irandhir Santos). Ele também interpela os oficiais de forma abusada, mas suas falas revelam um julgamento comum a boa parte dos latinos.”

A relativização da verdade também reforça as fronteiras ambíguas que separam direitos e deveres dos protagonistas. Na verdade, o antagonismo é determinado pela força da situação, como bem delineia Halm:

“Não existe uma verdade única, todos têm razões diferentes, a verdade se torna um mosaico, vai mudando à medida que o ponto de vista é deslocado. Ela toma a forma tanto do americano quanto dos latinos. O Marshall com toda a sua arrogância quer transformar o último dia dele na imigração num espetáculo. Mas ele perde o controle e a situação acaba se voltando contra ele.”

Destaques do filme, montagem, fotografia – capturada pelas lentes de Nonato Estrela, que explorou com competência as belíssimas paisagens do nordeste brasileiro − e som maravilham os sentidos e criam as condições necessárias para que ocorra a simbiose perfeita entre interpretação e encenação. A edição é definida por Halm como um jogo de espelhos que brinca com a faceta cronológica:

“Criamos uma duplicidade de leitura: a ideia de sair do inferno em busca do paraíso. A história é contada em tempos paralelos, criando um jogo dramático interessante. O tempo da migra, mais tenso e agressivo. E o tempo da viagem de Marshall (Recife a Petrolina), num ritmo de observação e percepção.”

A habilidade na utilização do som foi fundamental para definir os espaços e criar identidades para as ambientações, coroando tanto o trabalho de José Moreau Louzeiro como o de Jaques Morelenbaum (trilha sonora), como confirma Joffily:

“Assim como no tratamento fotográfico, também no som, procuramos distinguir os dois mundos, reforçar as diferenças também na edição de som: o espaço da migra e o Nordeste. A migra não comportava música, ali, apenas os ruídos deveriam reinar. Caprichamos nesse tipo de sonoridade, dispensando a melodia. A fotografia, a edição de som, a direção de arte, tudo foi numa única direção. A música atonal do Jaques (Morelenbaum), contribuiu generosamente com a ruidagem do filme. De modo que, algumas vezes, fica difícil identificar o que é uma e outra.”

Não há como ficar impassível às violências do filme – a psicológica; a que é imposta pelas circunstâncias de pobreza e privações; e a de fato. E o mais perturbador é perceber que nem toda repressão do mundo é à prova de falhas. Paulo Halm ilustra o discurso vazio do poder:

“Ironicamente os únicos que entram nos Estados Unidos estão com droga, os argentinos que são mulas, estão participando do logística do tráfico. Essa ironia torna o discurso do controle vazio e inócuo. Apesar de todo o aparato de controle da migra, o discurso não funciona. Da mesma forma que eles deixaram passar os caras que derrubaram as Torres Gêmeas.”

“Olhos azuis” tem um quê de militância. Muitos vão encará-lo como um libelo contra a intolerância. Nas palavras de Halm, o sinal amarelo está aceso:

“Qualquer pessoa que já viajou para fora do Brasil, passou, em algum grau, por constrangimento. Parece que o viajante cometeu algum crime. Em tese somos meliantes, contrabandistas. Seja na ida, seja na volta, devemos nos submeter a algum tipo de ritual de exceção, somos mal tratados fora e dentro do país. Inevitavelmente qualquer viajante vai passar por algum tipo de desconforto. Ocorre que as metrópoles estão recebendo hordas. Isso é uma bomba relógio.”

Na cena final, Marshall caminha em direção aos braços de Iemanjá e lava nossa alma com o que de melhor surgiu na filmografia nacional este ano. A água salgada deixa um gosto amargo em nossas gargantas, mas desidrata atitudes que escondem horrores, e abre o canal para o diálogo.

Carlos Eduardo Bacellar

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