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Impressionismo francês

Períodos de transição são turbulentos e inevitavelmente provocam danos colaterais. Entre mortos e feridos, nem todos se salvam. Foi assim entre as décadas de 1920 e 1930, quando o cinema sacramentou o casamento entre imagem e som*. Esse relacionamento não teve uma lua de mel fácil: havia quem apostasse na união e quem era contra.

De acordo com as pesquisas de Fernanda A. C. Martins, doutora em Estudos Cinematográficos e Audiovisuais pela Universidade de Paris-3 (Sorbonne Nouvelle), existem ao menos dois tipos de cinema mudo: um autenticamente mudo, ao qual “faltava” a palavra e que “exigia” a invenção de uma técnica de reprodução sonora, e outro que, ao contrário, assumiu e buscou sua especificidade na “linguagem das imagens”.

É da fricção entre esses dois tipos que o diretor parisiense Michel Hazanavicius consegue extrair as faíscas que iluminam seu “O artista”. A produção franco-belga, orçada em modestos US$ 15 milhões, cerca de luz e sombras as angústias do ator George Valentin (Jean Dujardin humilhando a concorrência na disputa pela estatueta de melhor ator), que se sente obsoleto vagando na interseção entre o antiquado e o moderno. Ícone do cinema mudo, Valentin encontra em Peppy Miller (Bérénice “Me beija que eu sou cineasta!” Bejo, mulher do diretor francês, com quem tem dois filhos), figurante de Malhação na luta por uma papel de protagonista na novela das 21h, sua antagonista nas artes dramáticas.


Representante do verbo, que ensurdeceu os intertítulos com os gritos da novidade, Peppy se afasta do caminho pretérito de seu ídolo seguindo as estrelas da calçada da fama de outros artistas que aderiram ao som. O problema é que seu coração ficou ancorado em Valentin, que amarga nas sombras o ocaso de uma era – confundida com sua vida, suas paixões. Devastado pelo fracasso, enraivecido e obstaculizado pelo orgulho, Valentin repudia um sentimento que começa a se fortalecer nas fronteiras da transição. Peppy, furacão de alegria que entra nos estúdios com o mesmo espírito de quem entra num parque de diversões, ascende profissionalmente, mas, de coração murcho, sente-se incompleta. Nesse descompasso silencioso de sentimentos, o inventário de uma época.

Sustentando a qualidade da interpretação – e do filme – em sua expressividade, Jean Dujardin dá uma aula de atuação. Seu desempenho rivaliza com o trabalho de Hauptmann Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) em “A vida dos outros” (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck, obra que levantou a estatueta de melhor filme estrangeiro em 2007. O diretor soube como ninguém sorver alguns ensinamentos do Impressionismo francês e privilegiou o enfoque subjetivo, explorando o fragmentado estado psicológico de Valentin, relegado ao ostracismo e entregue a divagações shakespearianas: “Ser ou não ser, eis a questão.”

Calma, clama… Vou falar do fofo cachorrinho Uggie. Que coisa! Não esqueci… Sim, ele dá um show. Suas gracinhas em cena aumentam ainda mais a simpatia pelo filme. Não há como não se apaixonar por ele.

É importante sublinhar também algumas participações especiais: John Goodman, imprimindo uma implacabilidade doce ao papel do produtor Al Zimmer; James Cromwell como o abnegado mordomo Clifton; e Malcolm McDowell encarnando… Bom, ele estava lá, acredite.

A qualidade técnica do diretor de fotografia Guillaume Schiffman – cuja sensibilidade para conferir significações ao brilho e à escuridão é similar à de Roger Deakins em “O homem que não estava lá” (2001), dos irmãos Coen – captura em preto e branco todas as nuances do crepúsculo do deus Valentin.

Seria uma homenagem ao cinema hollywoodiano das décadas de 1920-1930? Certeza?

Vamos de Nanda Martins mais uma vez… Durante a Primeira Guerra Mundial, “quando as companhias cinematográficas europeias se viram forçadas a reduzir sua produção, uma grande leva de filmes americanos foi importada para suprir a demanda do mercado europeu. A partir desse momento, os EUA se tornariam o maior fornecedor de filmes do mercado cinematográfico do mundo, posição que ocupam até hoje. Em face da hegemonia, a França tenta reformar a sua produção e imprimir às imagens fílmicas um poder de expressão que só se realizará na forma de uma arte.” Seria no mínimo irônico perceber o filme de Hazanavicius como uma subversão desse raciocínio, num momento em que os ianques passam por um sufoco econômico e a França exporta uma mostra de cinema da melhor categoria. Acredito que o orgulho ferido com a expressão french fries – ícone americano, mas invenção dos franceses foi vingado.

Numa época de imagens aceleradas, vertiginosas e epilépticas, que logram associar o óbvio das ofertas à predileção seletiva e à alienação artística, “O artista” contribui para a arte muda, expressão utilizada pela Nanda – e reforça a tendência primordial desse cinema de fazer valer a linguagem universal das imagens.

A produção concorre a 10 Oscar este ano, perdendo em número de indicações apenas para “A invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese, que contabiliza 11. Para assistir ontem!

 Carlos Eduardo Bacellar

*É importante salientar que ‘cinema mudo’ não seria a melhor expressão para designar o conjunto de obras de uma época. Mesmo naqueles tempos remotos, pós-Primeira Guerra Mundial, a música acompanhava as projeções dos filmes. E, em suas narrativas, os personagens falavam entre si, mesmo que os espectadores não pudessem ouvi-los. À guisa de exatidão…

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Rejeitados pelo diabo


Rob Zombie deve estar preocupado… Em competições de empilhamento de corpos, o título ostentado pelos açougueiros do clã Firefly, cujos integrantes são conhecidos como “Rejeitados pelo Diabo” (2005), está ameaçado pelo pastor Abin Cooper (Michael Parks, espetacularmente insano) e seu séquito de fanáticos homicidas.

Em “Red State”, o diretor Kevin Smith que também atua (“Dogma”, 1999), escreve roteiros (“Procura-se Amy”, 1997, produção que também dirigiu), produz (assinou a produção executiva de “Gênio indomável”, de Gus Van Sant, 1997) e se destaca como quadrinista (escreveu, entre outras, histórias do Demolidor, Besouro Verde e Batman, além de ser dono de uma comic-shop, a Secret Stash) — degenera o extremismo religioso, elevando a interpretação das escrituras sagradas à insanidade.

No meio-oeste americano, a seita assassina liderada por Cooper — temida até pelos neonazistas — resolve decalcar o livro do Apocalipse das páginas da Bíblia e pregar, com veemência macabra, uma doentia intolerância, deteriorada por preconceitos, no raio de atividade da paróquia da Igreja das Cinco Pontas. Barricados numa fazenda isolada, armados até os dentes, os integrantes da Cinco Pontas, em vez de promover quermesses para ajudar os necessitados ou se engajar em causas sociais, sequestram homossexuais e todos os demais que consideram hereges. As vítimas pagam por sua suposta apostasia com a vida, sacrificadas no altar da igreja pelos pecados cometidos.

Investigada por atividades suspeitas, danosas à segurança doméstica, a família Manson de Cooper está sob vigilância das autoridades americanas. Uma força policial liderada por Joseph Keenan (John Goodman) é despachada numa missão de busca e apreensão que prenuncia o pior. A batida interrompe um ritual de expurgo de três jovens infiéis Travis (Michael Angarano), Billy-Ray (Nicholas Braun) e Jarod (Kyle Gallner), capturados numa emboscada pelos falos intumescidos, que desviaram a irrigação sanguínea de seus cérebros para regiões periféricas, o que comprometeu o raciocínio do trio —, e os agentes acabam entrando em confronto com os fanáticos.

Numa tecnicalidade política com o intuito de preservar a imagem das autoridades ianques, Cooper e seus devotos são rotulados como terroristas por alguém em um escritório, e Keenan recebe ordens de executar tudo o que se mexer dentro do perímetro. A missão é realizar uma sequência de “A casa dos mil corpos” (Zombie, 2003), transformando a fazenda num mausoléu.

O filme possui uma premissa que inspira possibilidades e atiça expectativas. Só que Kevin Smith peca na construção do roteiro, que abandona a discussão acerca da perversão da fé utilizada como arma de dominação e instrumento de lobotomia moral —, centrada no indivíduo, e descamba, após profusão de capítulos e versículos da Bíblia despejados pelo pastor sobre seu rebanho de lobos em pele de cordeiros, para um filme de tiroteio.

Smith perde uma excelente oportunidade de focar nos desdobramentos da violência psicológica infligida por aquela doutrinação perniciosa, trabalhada somente de forma epidérmica. Essa é a diferença dele para um Frank Miller, autor de Batman: ano um, quadrinho que revela os conflitos, incertezas e pudores de Bruce Wayne nos primeiros anos como o homem morcego.

Melissa Leo se sobressai. Na pele de Sara, a atriz veterana esbanja recursos dramáticos — que a consagraram em produções como “Rio congelado”(2008) e “O lutador” (2010) — para explorar a lavagem cerebral que programou sua personagem para obedecer cegamente, como um autômato desprovido de humanidade. Michael Parks, perfeito, é o resultado de uma ideologia retrógrada e radiotiva, que remonta ao século XIX e a Ku Klux Klan e teima em vicejar em tempos de inseguranças. A fotografia de David Klein, parceiro de Smith em trabalhos anteriores, exponencia a tensão em enquadramentos claustrofóbicos e sujos, dignos de “O massacre da serra elétrica” (2003). Uma pena que a sensibilidade de Kevin Smith para o humano deixou a desejar.

Carlos Eduardo Bacellar

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Os Coen no caminho da vingança sangrenta de Tarantino

A frente fria que chegou ao Rio não pode esfriar o ânimo cinéfilo, ainda mais a alguns dias da cerimônia do Oscar. Para aquecer o espírito, tomei dois tragos do mais puro e artesanal destilado dos irmãos Coen. De uma só golada, coloquei para dentro o primeiro longa da dupla, “Gosto de sangue” (1984) − “Blood simple”, no original − e o laureado “Barton Fink” (1991), que encaçapou em Cannes os prêmios de melhor ator para John Turturro, melhor diretor para Joel Coen e ainda arrebatou a Palma de Ouro por unanimidade. Fiquei embriagado na hora.

Nos dois filmes podemos perceber todo o potencial da verve criativa dos Coen − que culminaria com obras-primas como “Fargo” (1996), “Onde os fracos não têm vez” (2007) e “Queime depois de ler” (2008) − sendo gestado.

Em “Gosto de sangue”, Francis McDormand − ainda novinha e encabulada, um mero reflexo do talento que esbajaria no divertidíssimo “Fargo” −, interpreta uma mulher insatisfeita que se envolve com um dos funcionários de seu marido. O corno não engole muito bem a traição, e resolve externar sua frustração da forma mais estúpida possível: contrata um investigador particular para apagar os dois. A história não começa nem termina bem, com vários tiros saindo pela culatra.

John Turturro, no pertubador “Barton Fink”, vive um dramaturgo – homônimo ao título − elogiado pela crítica teatral que é contratado pela indústria hollywoodiana para escrever roteiros para a telona. O que ele não esperava é ter um bloqueio criativo ao chegar a Los Angeles. Lá ele conhece o obscuro e carismático Charlie Meadows (John Goodman) e se envolve com a charmosa Audrey (Judy Davis), a assistente de um famoso escritor e roteirista. As novas amizades de Barton viram sua vida de pernas para o ar. O novato roteirista vai acabar encontrando inspiração no cenário mais hediondo de sua até então pacata existência.

Ali, no início da década de 1980, quando o trabalho dos irmãos Coen começava a atrair a atenção dos holofotes, já podemos encontrar um embrião da narrativa inteligente e ácida que se tornaria marca registrada da dupla. A construção do texto pelas mãos do produtor/roteirista Ethan e do diretor/roteirista Joel – geralmente a configuração dos créditos é assim, apesar de ser notório que as funções e decisões são compartilhadas pelos dois – beira o tarantinesco, com cenas cruas de violência, não movidas pela vingança, como é comum nas obras do diretor de “Bastardos inglórios” (2009), mas por conflitos e contradições internas. Um mistura de frustração, inconformismo e inadequação seria o motor dramático que impulsiona as ações das figuras criadas pelos irmãos. Algumas experimentações ousadas de câmera também despertaram minha atenção, especialmente em “Gosto de sangue”. Coisa de jovens impetuosos (a Nova Hollywood não teria existido sem eles).

Seja investindo em tramas policiais, em comédias, em dramas, ou destrinchando a equação que mistura os gêneros (sempre equilibrando o cálculo com doses de suspense), os dois americanos exalam um humor negro muito particular, explorando diálogos criativos (e muitas vezes a falta deles) e situações inusitadas, além de brindar o público com personagens desajustados e marcantes. Explorar o lugar-comum fugindo da mesmice e expondo o que há de mais bizarro nas relações humanas, acho que é por aí (esta última frase foi um devaneio).

A dobradinha “Gosto de sangue”/”Barton Fink” foi uma boa pedida para entender um pouco mais sobre os dois. Não preciso dizer que também serviu como estimulante para atiçar a curiosidade sobre a nova empreitada dos Coen, “Um homem sério”, produção que concorre, junto com outras nove realizações, a estatueta de melhor filme – e ainda disputa o prêmio de melhor roteiro original, escrito pelos próprios Coen.

Barton Fink declara, logo no início do filme, que os textos de um escritor deveriam vir das entranhas. Tal fato distingue um trabalho bom de outro meramente adequado. Ethan e Joel arrancam cada palavra de suas entranhas, estejam certos disso. Só quem tem um intestino delgado mais longo é Quentin Tarantino.

Apesar de o criador de “Pulp fiction” (1994) ter utilizado a faca-espada apache de Aldo Raine (morra de inveja, Rambo!) para retirar cada letra ensangüentada de seu âmago, a disputa promete. Tarantino tem o meu voto no quesito roteiro original, mas não custa nada dizer: olho vivo porque a faca dos Coen também é grande, e está cada dia mais afiada!

Carlos Eduardo Bacellar

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