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Os cinco mosqueteiros da década de 1980

“… e as crianças que você despreza

enquanto tentam mudar seus mundos

são imunes aos seus comentários.

Elas sabem bem o que está acontecendo com elas…”

David Bowie

Poucos realizadores souberam retratar tão bem as aspirações e contradições da juventude como o americano John Hughes (1950-2009), pai de Ferris Bueller e dos disruptivos adolescentes de “Clube dos Cinco” (“The Breakfast Club”, 1985), filme agridoce que embalou muitas Sessões da Tarde.

Esta última produção divide com “Curtindo a vida adoidado” (1986) o título de obra mais emblemática do diretor, produtor e roteirista que, como ninguém, ousou tratar dos problemas, crises, dilemas, ansiedades e dúvidas da adolescência utilizando não a elucubração filosófica adulta, mas o discurso romântico, despolitizado e hedonista de uma geração alienada, desnutrida pela falta de espírito crítico e perspectivas − e que ocupou o limbo deixado pelo esmaecimento das ideologias da década de 1960.

Na trama, cinco adolescentes indisciplinados (?) e aparentemente antagônicos são forçados a cumprir detenção durante um sábado. Praticamente toda ação dramática se desenrola nos corredores e salas da Escola de Ensino Médio Shermer (Shermer High School) − instituição de ensino situada no Estado de Illinois (EUA) −, ao longo do dia 24 de março de 1984.

Concentrado em poucos personagens e limitado pelo espaço físico – o que não se traduz em pobreza narrativa −, Hughes constrói sua ópera minimalista e amarga utilizando como argamaça o choque entre realidades distintas, mas imantadas de peculiaridades comuns que irão forçar uma aproximação entre nossos jovens protagonistas.

O liame narrativo é uma redação de mil palavras, imposta pelo diretor Richard Vernon (Paul Gleason), na qual os cinco terão de falar sobre si mesmos.

A narração em off com o texto de um dos trabalhos abre e encerra o filme, mas com cargas semânticas completamente diferentes, alteradas pelas circunstâncias. E dão o tom da transformação que se opera com o desenrolar dos conflitos − catalizadores de descobertas − entre os adolescentes.

Ainda sob os efeitos do som de Don’t you (Simple Minds), trilha musical que não deixa de reverberar em nossos ouvidos durante toda exibição, somos apresentados aos personagens em um momento de castração das potencialidades do indivíduo. Com sua visão deturpada por preconceitos e frustrações, Vernon enxerga nos alunos o que quer – e não vê esperança para o futuro dos adolescentes; adolescência que ele já enfrentou um dia, na pele de “vítima”.

De uma maneira simplista, como destacado por um dos estudantes repreendidos, o espírito consternado do docente imprime em suas retinas “o que melhor lhe convém”. Tacitamente os detidos são rotulados como: o nerd, o atleta, a louca, a princesa e o marginal. As palavras que forem colocadas no papel não farão a menor diferença no que tange a percepção do diretor da Shermer.

O veneno de Vernon é parcialmente neutralizado pela malícia e experiência do zelador Carl (John Kapelos) que, numa participação pequena, encarna uma espécie de observador onisciente. Carl, tranquilo e seguro, somente interfere no momento certo, tomando partido do lado mais fraco da corda e garantindo que a chama da picardia fique acesa por mais algum tempo.

Sob os rótulos de Vernon encontramos nossa trupe de anti-heróis: Brian “nerd” Johnson (Anthony Michael Hall), Andrew “atleta” Clark (Emilio Estevez), Allison “louca” Reynolds (Ally Sheedy), Claire “princesa” Standish (Molly Ringwald) e John “marginal” Bender (Judd Nelson).

Artífice da palavra que expõe as vísceras do humano, Hughes, ao trabalhar o roteiro, buscou o ponto limite no qual a galhofa, o inconformismo e a rebeldia adolescentes esbarram em reflexões existenciais mais sérias.

Na imposição do convívio, cada um começa a expiar seus fantasmas e dividir um pouco de suas aflições com o outro – atitudes que fermentam o amadurecimento. Brian considera o suicídio ao se sentir sufocado pela cobrança excessiva dos pais; Andrew está em ponto de ebulição por ser o depósito de todas as expectativas de seu pai − que não vê o fracasso como opção (bem típico da sociedade americana) –, e sofre com sua falta de autoafirmação, resultado de uma personalidade ainda em formação; Allison cria, com sua pseudoloucura, um escudo antiaproximação para justificar sua triste solidão; Claire, a popular rainha do baile de rosa-shocking − que vive de aparências sólidas como castelos de areia à beira mar −, por ter nascido em berço de ouro se acha superior aos outros, e acredita que as regras do jogo são diferentes para ela; John utiliza sua fachada marginal para extravasar os desesperos de um lar destruído pela ignorância, violência e falta de carinho.

Com essa fauna rica em estereótipos tão ímpares, amparada por diálogos ácidos, divertidos e inteligentes – carregados de cinismo, hipocrisia, medo, desconfiança e angústia –, está montado o palco para a garotada brilhar. Destaque para os personagens de Judd Nelson (o marginal) e Ally Sheedy (a louca), irretocáveis! Judd brilha, laçando o elenco com sua recalcitrância e levando todos para outro patamar, que não conseguiriam alcançar sozinhos. É a pedra fundamental do filme; a batida de asas da borboleta que tem como consequência o caos em um ambiente inerte.

Na cena antológica em que os cinco abrem sua alma, numa espécie de terapia de grupo não planejada, algumas linhas em particular dão o contorno da insatisfação inefável que pesa no ar. A troca entre eles vai mais ou menos assim:

Brian: “Será que vamos ser como nossos pais?”

Claire: “Nunca!”

Allison: “É inevitável. Quando você cresce, o coração morre.”

John: “Quem se importa?”

Allison: “Eu me importo.”


A bizarrice de cada um – catalizadora de atritos no começo − é pasteurizada e relativizada pelas seguintes palavras de Brian (o atleta que tem suas sinapses anabolizadas pela situação e vive alguns segundos de intelectual): “Todos somos estranhos, mas alguns escondem melhor que os outros.”

No início, quando pisaram na biblioteca da escola, estavam estigmatizados pela visão pré-concebida de Vernon. Mas, o nerd, ou melhor, Brian, em seu texto final, metamorfoseado pelas contingências, externa com palavras o fato de que todos sofreram uma lavagem cerebral. Agora, cada um deles possui um pouco de gênio, atleta, louca, princesa e marginal – a vitamina que nutrirá a personalidade de todos, para o bem ou para o mal.

O título original do filme, The Breakfast Club, evidencia o despertar dessa juventude para certos sentimentos, frutos do crescimento − exponenciado pelo compartilhamento de experiências −, que suavizam o que incomoda dentro do peito, alimentando a esperança de dias melhores – ou, pelo menos, algo diferente da rotina com a qual estão saturados. Amadurecer dói, mas é a perda da “virgindade” necessária para enfrentar desafios que a vida impõe.

A mensagem que John Hughes transmite de forma sub-reptícia é: Nunca deixe ninguém etiquetar você, nem convencê-lo do que é ou não capaz; ou aonde pode ou não chegar. Essas figuras medíocres são derrotados que derramam suas frustrações no tacho alheio, pois não podem mais suportá-las.


Nos estertores da encenação, os desejos se atropelam e o que parecia impossível acontece. Os sentimentos descarrilam rapidamente, e atingem as fronteiras vizinhas − e, nos acordes intensos, fugazes e enigmáticos da juventude, se dissipam como um sopro no ar, deixando um aroma de quero mais no nosso imaginário. Um trago virado num só gole, que desce morno e reconfortante, causando deslumbramento.

Hughes é um ícone da década de 1980, e seus filmes falavam a língua de quem se sentia incompreendido pelas instituições e órfão de alguém que aliviasse suas inquietações existenciais. Ele teve uma merecida homenagem póstuma (antes tarde do que nunca) na última cerimônia do Oscar – em sua 82ª edição. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood conseguiu reunir, entre outros atores que trabalharam direta ou indiretamente com Hughes, Matthew Broderick (o eterno ídolo Ferris!!!), Macaulay Culkin, Ally Sheedy, Molly Ringwald, Judd Nelson e Anthony Michael Hall.

E então? Dispostos a aproveitar um dia de folga curtindo o filme?

Carlos Eduardo Bacellar

Fiquem também com Simple Minds no vídeoclip de Don’t you (forget about me):

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

Desperte o Ferris Bueller que existe dentro de você

“A vida passa muito rápido. Se, de vez em quando, você não parar para aproveitá-la, vai acabar não vivendo.”

Ferris Bueller

Talvez o minério cinematográfico mais valioso da jazida do diretor, roteirista e produtor John Hughes seja “Curtindo a vida adoidado” (“Ferris Bueller’s day off”, 1986), que imortalizou Matthew Broderick no papel do inenarrável Ferris Bueller.

“Como é que esperam que eu vá para a escola num dia como este?”

Com esse sugestivo mote bordado em seu estandarte da galhofa, Ferris, estudante secundarista de uma escola na cidade de Chicago (EUA), resolve mandar às favas as convenções e orquestra uma folga, em pleno dia útil, durante o período letivo. Traduzindo: ele resolve matar aula na cara de pau e aproveitar um dia sabático, curtindo adoidado (a tradução do título não é exata, mas também não é das piores).

Para realizar tal empreitada, engana seus atenciosos e ingênuos pais com uma doença fictícia – encenada com técnicas desenvolvidas pelo jovem travesso que não perde uma oportunidade de fugir das obrigações e se divertir.

A transgressão de nosso protagonista transparece até na forma da realização: Ferris/Broderick (o intérprete e o personagem se confundem, tal é a simbiose entre os dois), amparado pelo brilhantismo de Hughes, quebra as regras de atuação e fala com o público durante a encenação.

A ousadia do garoto é fácil de explicar. Ferris está naquela fase em que excesso de autoconfiança se confunde com onipotência. Inebriado consigo mesmo, ele não enxerga limites e dança na corda bamba da condescendência – tensionada com a dúvida razoável − sobre cacos de vidro untados com reprovação.

E nosso herói consegue driblar a vigilância dos pais! Mas, como ninguém participa de uma bagunça sozinho, Ferris arrasta para seu turbilhão de irresponsabilidade o melhor amigo, Cameron Frye (Alan Ruck), e a namorada, Sloane Peterson (Mia Sara). Dando uma cambalhota por sobre o olhar atento do implacável diretor Ed Rooney (Jeffrey Jones), que representa o lado negro da força, Ferris consegue, sob falsos pretextos, liberar sua namorada do enclausuramento escolar. Tirar o neurótico e hipocondríaco Cameron – uma versão adolescente de Woody Allen − da inércia foi mais fácil. Forte influência sobre o amigo, Bueller só teve que gastar saliva para obrigá-lo a se levantar da cama.

Assim como amar, curtir a pé é lenha. O pai de Cameron possui uma Ferrari 250 GT Califórnia ano 1961, carro que ele ama mais que a própria vida. Não satisfeito com a lata-velha pilotada pelo amigo, Ferris resolve pegar emprestado a preciosidade sobre rodas guardada como joia na garagem da casa dos Cameron.

Uma vez juntos, e turbinados, os três partem para as mais loucas aventuras na cidade, curtindo galerias de arte, restaurantes, pontos turísticos, jogos de baseball e tudo mais que proporcionar momentos de descontração e escapismo da rotina diária.

Talvez a cena mais marcante do filme seja aquela em que Ferris invade um desfile – em homenagem ao barão Von Steuben, militar polaco-alemão que participou da Revolução Americana −, toma de assalto o carro de som e solta a voz ao som de Twist and Shout, música de Bert Russell e Phil Medley, interpretada pelos Beatles.

As personalidades do trio se equilibram. Ferris é o tipo destemido que acredita que nunca vai se dar mal, e que pode se livrar de qualquer situação; Cameron figura no polo oposto, já que seu estado letárgico e depressivo – fruto da ausência de atenção e carinho dos pais − serve de contraponto à animação contagiante de Bueller; no terceiro vértice temos a realista Sloane que, ligada ao mundo real, serve de fundação para as loucuras do namorado – que adora tentar voar sem rede de segurança.

O problema é que no encalço das estripulias hedonísticas deles está o invejoso Ed Rooney – que tem medo da popularidade do aluno desregrado, entendida quase como uma religião com a capacidade de converter inúmeros (in)fiéis, turba que poderia ser motivo de tormento no futuro −, e a raivosa e frustrada irmã de Ferris, Jean Bueller (Jennifer Grey), que vive em aflição por causa da capacidade do irmão de sempre se dar bem, enquanto ela sempre se estrepa nas ocasiões em que tenta sair da linha. Jeanie é vista como chata e empata foda, rótulos pejorativos que afastam as pessoas. Depois de acumular anos de recalque, ela entra em ebulição e resolve expor os deslizes do maninho.

Será que eles conseguirão se safar? A pergunta pode ser respondida pela atriz Jennifer Grey, que interpreta Jean. Ela diz que, “às vezes, o melhor caminho para amar alguém é odiar essa pessoa. Tem vezes que o amor não parece tão ardente como o ódio”. Ferris, afinal, pode conseguir uma aliada no local mais (im)provável. E sobreviver por mais um dia.

O grande mérito da produção é explorar o escapismo trabalhando a síndrome de Peter Pan que existe em cada um de nós. Ferris está na fronteira que separa a juventude da vida adulta, e é natural que ele queira adiar escolhas e evitar responsabilidades. Logicamente Bueller é um estereótipo extremado. Apesar disso, quando assistimos ao filme, somos tomados por essa vontade arrebatadora de fuga. Ben Stein, que encarna o professor de economia (um papel pequeno, mas emblemático) destaca que “qualquer um pode ter um dia desses. O segredo está na sua própria mobilidade interna, no seu próprio amor pela liberdade”.

John Hughes soube temperar muito bem o caldo cômico (premissa) que tinha em suas mãos com os ingredientes exatos: um roteiro fabuloso e um elenco entrosado e talentoso – que soube improvisar como poucos, no embalo da atriz Edie McClurg, que vive a secretária de Rooney, Grace: “no dia a dia, ocorrem comentários breves, que são feitos de lado, e que não podem ser roteirizados”. Reza a lenda que Hughes escreveu o roteiro em 6 dias.

O engraçado é como tudo conspira para o surgimento de um sucesso − que parece obra do acaso. Broderick, no início, teve dúvidas se deveria aceitar o papel. Não queria ficar estigmatizado por um tipo único de atuação. Alan Ruck quase foi preterido por causa de sua idade – ele beirava os trinta na época da escolha do elenco; achavam que ele seria velho demais. Graças a Deus os responsáveis caíram na real!

Arte que encontrei surfando na web: Ferris Bueller (à esquerda) e Cameron Frye (à direita). Mais do mesmo no blog “Um pulha: reflexões irrelevantes”
http://umpulha.posterous.com/artenha-curtindo-a-vida-adoidado-blake-loosli


Segundo Hughes, Ruck estava sendo cogitado para o elenco original do “Clube dos Cinco” (1985), mas acabou não integrando o grupo de atores final.

Na concepção do próprio Matthew Broderick, “Ferris é mais que uma soma de pessoas. Ele é uma atitude, um jeito de viver, uma espécie de líder”. Que sua alegria viva para sempre no nosso imaginário.

Quem quiser aproveitar um dia à moda Ferris Bueller e estiver sem companhia, é só entrar em contato com a gente. Nós não negamos fogo!

Carlos Eduardo Bacellar

A melhor música da trilha sonora do filme não é Twist and Shout, mas a esquisita e penetrante Oh Yeah − que mixa música eletrônica com a manipulação de vocais −, de Boris Blank e Dieter Meier, da banda suíça Yello. Dá o tom dos momentos mais engraçados da produção. Curtam!

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