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Triângulo escaleno (pseudo)amoroso

Já é difícil dividir as atenções da pessoa amada com qualquer outro ser, animado ou inanimado. Afinal, todos nós queremos exclusividade. Imagine, então, ter que disputar o objeto de desejo com seu melhor amigo.

Esse é o argumento de “Amores imaginários” (2010), do diretor canadense Xavier Dolan, produção que integra a seção dor de cotovelo do Festival do Rio. Quem leu o primeiro parágrafo deve estar imaginando que é mais um filminho de amor não correspondido, mais um dentre milhares que jorram aos borbotões. Pois bem, imaginou errado.

Dolan, também roteirista do longa, colocou a criatividade para funcionar e resolveu brincar com a congruência dos lados de um triângulo equilátero amoroso convencional, colocando os inseparáveis amigos Francis (o próprio Dolan) e Marie (Monia Chokri) em cantos opostos do ringue na disputa pelo coração de Nicolas (Niels Schneider), Adônis que incendeia a libido (e a imaginação) dos dois.

O detalhe é que Francis é gay, fato que fará com que a mulherada repense seriamente a opção de manter um amigo homossexual tão próximo do seu microcosmo de interesses amorosos.

O trio acaba se aproximando e criando elos ambíguos – mutantes dentro da escala que vai da paixão ao ódio − em torno da figura andrógina e maldosamente lúdica de Nicolas.

Ignorados por seu objeto de desejo (que parecer tripudiar dos sentimentos da dupla), Francis e Marie disputam um jogo de antropofagia sentimental – caracterizado pelo silêncio malicioso, intrigas e sutilezas egoístas, pelo menos até o momento em que máscara estoica cai, e o decoro é mandado às favas − carregado de projeções e obsessões, e colocam sua amizade em risco por uma idealização ilusória.

Emulando a fotografia almodovariana, e moldando sua direção de arte com elementos de temática kitsch e vintage, o realizador canadense procura criar uma assinatura estética própria. Atores talentosos e afinados, diálogos inteligentes e carregados de bom-humor (encorpados no patético), encenação bipolar (oscilando da depressão à euforia, variação típica dos apaixonados).

“Amores…” mistura o estouro de cores de “Volver” (Almodóvar, 2006) + a melancolia e a direção de arte de “Hora de voltar” (Zach Braff, 2004) + a espirituosidade e a criatividade narrativa ao retratar o tema rejeição de “500 dias com ela” (Marc Webb, 2009) e emplaca seu tratado (inusitado) acerca do pé na bunda em língua francesa.

Focando suas lentes nos lados desse triângulo (pseudo)amoroso escaleno, de ângulos indecifráveis pela geometria sentimental subjetiva de cada um dos protagonistas, o incipiente diretor não transcende, mas desperta a atenção da crítica e do público.

Interessou-se? A última sessão do filme no Festival foi exibida no último dia 26. A culpa não é minha… Estava ocupado assistindo aos filmes.

Agora só resta rezar para que “Amores…”  seja distribuído por aqui.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. A trilha sonora é outro componente que singulariza o clima da produção. Os personagens oscilam da desesperança à expectativa, voltando ao estado depressivo, numa ciranda de autossabotagem, na suavidade explosiva de “Bang Bang”, interpretada por Dalida. Saiba mais sobre a trilha aqui.

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp