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Um quarto para extravasar os desejos do corpo e da alma

O diretor espanhol Julio Medem e o roteirista chileno Julio Rojas compartilham mais que o primeiro nome e o pendor para conceber enquadramentos com mulheres estonteantes em cenas tórridas: os xarás possuem a sensibilidade para transmutar dramas cotidianos em elegias.

Transbordando sensualidade em suas obras (muitas vezes flertando com o realismo mágico), Medem sorveu do roteiro de “Na cama” (2005), escrito por Rojas e dirigido por Matías Bize – filme que incendiou a polêmica sobre autoralidade ao questionar a boa-fé de “Entre lençóis”, do cineasta Gustavo Nieto Roa, produção ofuscada pelos holofotes da suspeita de plágio −, as linhas gerais para falar da atração irrefreável que desencadeia a paixão em seu novo longa, “Um quarto em Roma”.

As produções anteriores de Medem, como “Lucía e o sexo” (2001) e “Os amantes do círculo polar” (1998), deixam claro que o diretor encontra no sentimento de perda o catalisador da inquietação (e da pulsão) de seus personagens.

Desta vez, o extravio, ou melhor, a perda voluntária da identidade – detonadora de inibições e pudores −, provocada pelo deslocamento geográfico, permitindo a reinvenção arbitrária dos personagens, afastados de seus círculos sociais, entrelaça dois corpos que de outra maneira talvez jamais trocassem intimidades.

Itália, madrugada do primeiro dia de verão. A espanhola Alba (Elena Anaya) e a russa Natasha (Natasha “Deusa Grega!!!” Yarovenko) se envolvem na noite de Roma e, balançadas pelo desejo silencioso, inaudito, mas que transparece no arrepio da pele, na chama do olhar e na respiração descompassada, vagam pelas ruas desertas e terminam envoltas nos lençóis de um quarto de hotel − inebriadas com o seu one night stand.

Alba, mais atirada e impetuosa, eleva a energia estática do tesão entre quatro paredes de maneira a derreter o “doce” da insegura Natasha − agrilhoada a convenções, a “russinha” resiste ao chamado de seu sexo até que seu instinto ultrapassa os limites da entrega, sem o cinto de segurança da racionalidade. Num mundo à parte, como o expresso em “Um copo de cólera” (1999), o amálgama de pele e suor se despe de qualquer recato em busca do gozo psicotrópico.

Em meio ao extravasamento das necessidades urgentes da carne, responsável pela conivência improvável que só a loucura do sexo pode proporcionar, as duas trocam confidências acerca de suas vidas. Retraídas no começo, aproveitam a oportunidade para se tornar outro alguém, misturando fantasia e realidade em relatos ao estilo “As mil e uma noites”. O que é real, elas irão entender, depende de uma questão de percepção do momento.

Quando os laços afetivos ensaiam solidificação, cimentados pela confiança criada na troca de carícias e fluidos, a área de interseção entre o onírico e o real se torna mais clara, as máscaras caem e a entrega do corpo, consumada, progride para a entrega da alma. O sentido de fidelidade, que poderia castrar o momento mágico, é relativizado e se torna mais um elemento (dispensável, portanto) na construção da história das duas.

Condensada num período de aproximadamente 12h, a narrativa encontra na claustrofobia voluntária, circunscrita na geografia morna e úmida da cama estranha – templo pagão do hedonismo condenado (e, com certeza, incompreendido) pela etiqueta do preconceito −, o confessionário que colocaria o Papa Bento XVI de cabelo em pé. Sacrilégio, naquele instante, seria desperdiçar a química feromônica e ficar imaginando pelo resto da vida o que poderia ter sido, mas não foi.

Entregando-se uma à outra em cenas de sexo (metamorfoseado em amor) de provocar altas súbitas de pressão, suor frio e remelexo na poltrona, Alba e Natasha compreendem que somente o que existe ali é digno de fé, desconsiderando a cartilha inquisitória de quem não entenderia aquele sentimento, não assimilaria o que aconteceu ali.

História de amor que, concretizada num quarto adornado por motivos da Grécia Antiga e do período Renascentista – e embalada pela belíssima canção Loving strangers, escrita por Lourdes Hernández González e interpretada por Russian Red (pseudônimo da madrileña Lourde Hérnandez, cantora e compositora de música indie e folk) −, remete ao filme “Caótica Ana” (2007), do próprio Medem, e nos faz acreditar em ligações com outras vidas do passado.

Paixão que hasteia a bandeira da lascívia e faz dela o estandarte do excesso sexual necessário, do prazer libertário, prazer que vira nosso mundo de cabeça para baixo – no filme, literalmente (fique atento à última cena, patrocinada pelo Bing Maps, do Bill “Tio Patinhas” Gates).

Obrigado, Julio Medem!

Estreia prevista para a próxima sexta-feira, no Rio e em São Paulo.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Informação de segurança para aqueles do grupo dos cuecas que, assim como eu, ficam mais animadinhos com meninas que gostam de meninas: a calça jeans é obrigatória para quem não quer ter picos embaraçosos de “O virgem de 40 anos” (2005) no meio da sessão. Diferentemente do que ocorreu na cabine de imprensa, a sala provavelmente estará cheia.

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Obra-prima do Guillermo Arriaga espanhol

“Você acha este vestido muito decotado?”

Para o amigo Gabriel. O sociopata enrustido (e quem não é?) mais gente fina que já conheci. Graças à sua predileção por diretores que certamente seriam reprovados em exames psicotécnicos, conheci obras incríveis.

Pouco mais de sete meses e um oceano de distância separam a data e o local de nascimento dos diretores-roteiristas Guillermo Arriaga (México, 13 de março de 1958) e Julio Medem Lafont (Espanha, 21 de outubro de 1958). Porém, os dois cineastas (além da língua) se aproximam na estética não linear e labiríntica que imprimem em suas obras, conjugando na narrativa a existência (num primeiro momento estanque) de diferentes núcleos de personagens – a denominada trama mosaico.

Os traços estilísticos de “Babel” (2006) e “Vidas que se cruzam” (2008) – ambos dirigidos por Alejandro González Iñárritu, mas da lavra de Arriaga, roteirista dos dois longas o primeiro dirigido por Alejandro González Iñárritu, mas ambos da lavra de Arriaga, roteirista das duas obras e diretor de “Vidas…”, que marca sua estreia como realizador de longas − encontram ressonância nas produções “Os amantes do círculo polar” (1998) e “Lucía e o sexo” (2001) de Medem, e vice-versa.

Comecei a prestar atenção na filmografia de Medem há pouco tempo. Apesar da (ainda) pouco prolífica produção como diretor de cinema, iniciada em 1974 com o curta “El ciego”, com “Lucía e o sexo” – filme com o qual arrebatou dois prêmios Goya, o Oscar espanhol: atriz revelação (um convite à perdição chamado Paz Vega) e música original (trilha sonora de Alberto Iglesias) − Medem se consagra definitivamente como um dos grandes realizadores espanhóis.

Obra-prima do diretor, cultuado por tratar de forma poética e sensual dramas prosaicos da arquitetura social e afetiva de figuras comuns, “Lucía…” integra na tragédia diferentes personagens que possuem como fio condutor a garçonete homônima, interpretada por Paz Vega.

“Será que eu consigo fazer o Carlos esquecer a Julia Bacha e me alçar a musa do blog?

Lucía não tem medo de expressar seus sentimentos, e por meio da sinceridade descarada consegue conquistar o coração do escritor Lorenzo (Tristán Ulloa), com que mantém um relacionamento ardente. Tudo ia muito bem até que Lorenzo é surpreendido por desdobramentos do passado que há muito havia esquecido – ao buscar inspiração para seus livros no cotidiano de pessoas habituais, ele acaba descobrindo mais do que gostaria, porém, atravessado pelo desespero, entende que a literatura nasce da visceralidade, do esfacelamento de máscara de “normalidade” que esconde a verdadeira natureza humana. O escritor abandona a namorada que, cega pelas emoções, imagina que Lorenzo está morto.

“Isso nunca aconteceu comigo antes…”

Lucía parte em viagem para uma ilha mediterrânea, atrás de curas para as dores da alma. Chegando lá, seu destino se une, por obra do acaso, ao de outros personagens que direta ou indiretamente estão envolvidos no drama que estraçalhou o coração de seu amado.

Lucía fazendo (all!!!)less

Julio Medem utiliza como elemento de integração de histórias autônomas flashbacks que flertam com o espaço e o tempo dos personagens. Presente e passado se misturam com sonho e (re)construção mental de situações limite. A ilha idílica é o epicentro das catarses individuais, e confunde concretude com ilusão. A fotografia de Kiko de la Rica, estourando os claros, contribui para o sensação de irrealidade, de intangibilidade da encenação (e das emoções).

Imbricando literatura (ficção) com os dramas de seus protagonistas (realidade), o cineasta retroalimenta vicissitudes convergentes que encontram no sofrimento, na dor e na dificuldade de assimilar e recomeçar um denominador comum.

Regado de erotismo e poesia, “Lucía e o sexo” caminha sobre a linha tênue que separa razão de desejo – só vislumbrada nos momentos de dilaceramento que ocorrem após as perdas.

“O que acontece se eu apertar aqui?

É uma obra que merece uma segunda, uma terceira, uma quarta olhada para que seja possível captar todas as sutilezas com que o realizador relata o entrelaçamento por meio da separação – e a dor como catalisadora de envolvimentos fortuitos.

Medem foi contemplado no último Festival do Rio com o filme “Um quarto em Roma” (2009) – e eu não assisti… Snif… Snif…

Mas vou! E você?

Carlos Eduardo Bacellar

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