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Goodfella!

Hoje é aniversário do diretor Martin Scorsese. Parabéns para o mestre! Que continue fazendo por muito anos filmes incríveis.

Carlos Eduardo Bacellar

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Oliver “Extremamente alto & incrivelmente perto” Twist

Paris, década de 1930. Nas paredes da estação ferroviária de Gare Montparnasse, há mais do que os olhos podem perceber. Num local de transição, que do movimento incessante extrai uma de suas raisons d’être, existem sonhos inertes. Alguns desses sonhos estão aferrados a desilusões do passado, outros ficaram paralíticos precocemente, avariados pela perda, algo sempre complicado de aceitar. Se a estação tivesse sentimentos, seriam baseados no desejo de realizar sua essência.

O propósito de Gare Montparnasse é permitir a circulação. Se sonhos permanecem enclausurados entre concreto e aço, existe um desequilíbrio entre função e realização. O impedimento de ser plenamente instala uma crise existencial na estação antropomórfica. Tal disfunção só pode ser superada por meio de rachaduras, talhadas pela obstinação, permitindo que o sopro quente da esperança impulsione as velas da imaginação.

Martin Scorsese, apaixonado por cinema, sua fábrica de sonhos, não iria permitir que eles fossem sufocados por muito tempo. Baseado no livro A invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick – segundo o The New York Times parente de David O. Selznick, produtor de “E o vento levou” (1939) –, Scorsese fantasia em 3-D, com a diligência de um artífice que conjuga perfeitamente forma e mensagem, a história de um órfão que colide com a do cinema numa trajetória de aparente desesperança. Valendo-se da memória como reinvenção, e não como reprodução, Scorsese – mediado pelo olhar de criança, o qual se recusa a abandonar – presta homenagem à arte que o encanta e o leva a se deslumbrar em uma sala escura.

Hugo Cabret (Asa Butterfield) é o Cronos da estação ferroviária em questão. Após a trágica morte do pai, ele é arrastado pelo tio (Ray Winstone) para auxiliá-lo na manutenção dos relógios de Gare Montparnasse. Invisível, Hugo se faz presente no escorrer do tempo – como um sinfonia muda, dita o compasso de quem atravessa as plataformas.

Vivendo de pequenos furtos, o menino guarda como única recordação do pai um autômato em frangalhos. Ele acredita que o robô pode encerrar uma mensagem, e não poupará esforços para reconstruí-lo na tentativa de desvelar seus mistérios.

Numa loja de brinquedos que funciona dentro da estação, Hugo se mete num entrevero com um senhor ranzinza que se escuda atrás de segredos. Logo, logo ficamos sabendo que o rabugento é ninguém menos que o mágico, caricaturista, inventor e mecânico Georges Méliès (Ben Kingsley), o Roland ‘Rollie’ Tyler (“F/X”, 1986) do final do século XIX.

Méliès estava presente na primeira exibição do cinematógrafo dos irmãos Lumière. Hipnotizado pela bruxaria daquela tecnologia, que os Lumière entendiam como descartável, Méliès resolveu reproduzi-la. Em 1986, dando novos direcionamentos às suas habilidades como mago, ele inaugurou o Théatre Robert Houdin, transformado em cinema. Brincando com as possibilidades da fotografia, Méliès passou a criar efeitos ilusórios mambembes utilizando truques como sobreposição e stop motion, tornando-se o precursor de efeitos especiais para o cinema. Os irmão Lumière, apegados ao realismo, registravam o mundo com sua tecnologia. Já Méliès ficou trabalhando em seu estúdio, criando, segundo reza a lenda, centenas de obras fantásticas. Nasciam as distinções entre documentário e ficção.

Hugo é uma mistura de Oliver Twist com Oskar Schell (personagem de Jonathan Safran Foer no livro Extremamente alto & incrivelmente perto). Schell – inventor, desenhista e fabricante de joias, francófilo, vegan, origamista, pacifista, percussionista, astrônomo amador, consultor de informática, arqueólogo amador e colecionador de moedas raras, borboletas que morrem de causas naturais, cactos em miniatura, memorabiliados Beatles e pedras semipreciosas –, assim como Hugo, tenta resolver dentro de si a morte do pai. Enquanto Schell busca uma fechadura para sua chave, Hugo se aventura na procura de uma chave para se autômatometáforas de uma ligação que permanece palpável.

Na improbabilidade da ficção, os caminhos de Hugo e Méliès se chocam na encruzilhada do ceticismo e do desencanto. Só que a centelha latente na tristeza do olhar de ambos prenuncia o reavivamento de desejos murchados pelas circunstâncias. Para conferir ao filme leveza, drama e, ao mesmo tempo, o suspense das possibilidades, Scorsese escalou Sacha Baron Cohen como o inspetor da estação, algoz de meninos de rua que vagueiam por Gare Montparnasse, e Chloë “Hit-Girl” Grace Moretz como enteada de Méliès. Sua personagem, Isabelle, se torna parceira de Hugo em suas desventuras e o estimula com sua maturidade e autoconfiança.

Sem ser apanhado na zona de distorção do sentimentalismo, o diretor desfia do relacionamento entre um senhor que deixou de acreditar e um garoto que quer acreditar sua homenagem à sétima arte. Alguns filmes recuperados de Méliès são as ferramentas necessárias para fortalecer um relacionamento improvável e exorcizar cada um de suas negações. Ao compor seu “Super 8” (J. J. Abrams, 2011), às vezes resvalando num didatismo exagerado – arapuca criada por sua própria paixão –, Scorsese mostra competência para um determinado tipo de trabalho com o qual não estamos acostumados. Reiterando sua devoção ao seu ofício, o realizador de “Os bons companheiros” (1990) nos impede de sermos carcereiros de nossa própria fantasia. Foram US$ 170 milhões maravilhosamente gastos.

Aplausos para a sensibilidade do roteiro de John Logan, que já deixou claro sua paixão pelas referências cinematográficas legadas por grandes mestres ao roteirizar a animação “Rango” (2011), para o refinamento da fotografia de Robert Richardson, com quem Scorsese trabalhou em “A ilha do medo” (2010), e para toda a equipe de direção de arte, que realizou um trabalho incrível.

Não é à toa que “A invenção de Hugo Cabret” lidera o número de indicações ao Oscar 2012, somando 11.

 Carlos Eduardo Bacellar

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Martin Scorsese e “Ilha do Medo”: quem é rei nunca perde a majestade

O santuário – coexistência pacífica – cinematográfico conta com deuses: Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock, Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Robert Altman, Brian dePalma, Peter Bogdanovich e Woody Allen. Na história recente, Quentin Tarantino, Irmãos Coen, Clint Eastwood e Spike Jonze conquistaram estrelas. Soberanos, os diretores italianos – todos mencionados em posts anteriores -, floreiam de poesia o mais desgramado dos jardins – do éden. Mas unindo o velho ao novo mundo, Martin Scorsese é quem reina absoluto quando o assunto é decupar em quadros os mistérios da natureza humana.

Quem não se lembra do solitário Robert de Niro, veterano da Guerra do Vietnã, exorcizando medos, vícios e revoltas como “Taxi Driver” (1976)?  E do mesmo De Niro, na pele do psicopata, vingativo e estratégico Max Cady,  em “Cabo do Medo” (1991)? Em “Ilha do Medo”, Leonardo diCaprio (o Robert de Niro da vez na vida do Scorsese) explora lacunas e limites da mente esquizofrênica como o agente federal Teddy Daniels.

Em 1954, desembalsa na “fortaleza” de Shutter Island. Sua tarefa é investigar o misterioso desaparecimento de uma “paciente” (Rachel Solando). Sem a ajuda do staff do presídio psiquiátrico e suspeitando de tudo e todos (como qualquer americano pós Segunda Grande Guerra), Teddy só parece contar com o agente Chuck Aule (Mark Ruffalo).

Chuck toma em pílulas alucinógenas a genialidade do novo mentor e se firma como novo parceiro. Aos poucos, percebe que ele  não é nada além de uma ilusão: paciente terminal da própria mente. A capa autoconfiante cai e Teddy Daniels, em outras vestimentas, se revela atormentado por seu passado de soldado no campo de concentração e por algumas dezenas de fantasmas, como do assassino da esposa detento na ilha.

No limiar entre realidade e imaginação, a montagem do filme, apimentada por trilha sonora incidental – daquela de dar frio nas espinhas -, sugere um quebra-cabeças de opções. Teddy seria mesmo um agente federal e Chuck, seu parceiro? Ou Mr. Daniels seria mais um louco detido por crime hediondo representando para si próprio o personagem do agente federal? Viveria ele como homem bom em um universo terrível ou reinaria como monstro no paraíso? Ou, em última hipótese, seria ele vítima de uma conspiração cruel – e nazista – para elouquecê-lo?

Scorsese se supera nas sequências, descobre enquadramentos, duplica personagens, mostra flashbacks do Holocausto, abusa de transições sem cortes entre personagens  e revisita, de quebra e por osmose,  Kubrick e Hitchcock. Os labirintos da mente – seja por ela mesma ou por seu produto -, refém de pesadelos, são a coroa da vez. A Scorsese, laureado esse ano no Globo de Ouro pelo conjunto de sua obra (já não era sem tempo…), depois de “Ilha do Medo”, só o bordão: quem é rei nunca perde a majestade.

Helena Sroulevich


P.S. Sou obrigada a me pronunciar. Bati o pé e disse “de mim ninguém tasca o Scorsese”. Assim como “Avatar”, “O Segredo dos Seus Olhos” e “Bastardos Inglórios”, foi capaz de me pegar em todos os sentidos. E estava com a pulga atrás da orelha – e não cubos de gelo na bolsa, Carlinhos – desde que tinha lido no blog do Bonequinho, a observação acerca do filme, feita pelo André Miranda (“O Globo”), direto do Festival de Berlin. Dentre outras coisas, disse: “…o filme do Scorsese me decepcionou bastante. Com “Ilha do medo”, Scorsese fez um longa-metragem igual aos do M. Night Shyamalan. São aqueles filmes em que o diretor te conta uma história durante uma hora e 59 minutos. Aí, no último minuto, ele avisa: “Ó, otário, eu menti para você, tá bom? A história não é nada disso. Agora assista ao filme novamente para perceber como fui inteligente em criar situações ambíguas para justificar minha mentira!”. É… Tivemos opiniões completamente diferentes, pelo visto… E esse não é justo o barato do cinema?

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Scorsese na mira dos doidos

Acho que vocês, leitores,  merecem uma satisfação…

A crítica do novo filme do Scorsese (“Ilha do Medo”) ainda não foi publicada por causa de um arranjo interno. Mas fiquem tranquilos, pois ele não deixará de ser contemplado.

Por motivos pessoais, a Helena pediu aos outros doidos que a deixem publicar primeiro qualquer linha acerca da produção. Devo admitir que esses motivos são bem tarantinescos, banhados no molho da fria vingança de “Bastardos inglórios” — que os transformou em cubos de gelo que ela carrega para e lá e para cá dentro da bolsa; vez por outra dá uma chupada em um deles lentamente, com olhar paranóico e desvairado.

Como minha colega está fora do estado a trabalho, estou mordendo minhas caixas de DVDs para segurar minha verve.

Também tenho rezado bastante com a Bíblia do jornalista Peter Biskind a tiracolo: Easy Raiders, Raging Bulls: Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood (a bola da vez). Suas palavras  estão me ajudando a resistir à tentação.

Logicamente, eu já vi o filme. Mas só falo até aqui. Em breve o texto dela pintará no blog. Fiquem ligados!

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Helena, tenho certeza de que você tremeu na base ao ver a imagem do post hehehehehehe! Calma, estou me segurando 🙂

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