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Necrológio do amor

No livro Tóquio proibida Uma perigosa viagem pelo submundo do crime, do jornalista americano Jake Adelstein, aprendemos que os japoneses têm nomes tão sutis e complexos para tristeza que as traduções não lhe fazem justiça. Segundo Jake, setsunai se traduz normalmente como “triste”, mas se refere a um sentimento tão forte de tristeza e solidão que provoca uma opressão no peito, como se impedisse a pessoa de respirar. É uma tristeza física e palpável.

É esse o tipo de sentimento que assola Enoch Brae (Henry Hopper, disfarçando sua insegurança com a de seu personagem) em “Restless” (no original), experimentação poética de Gus Van Sant (“Gênio indomável”, 1997) acerca da morte e das escarificações talhadas por ela em seu duplo, a vida.

Na história de tons sombrios escrita para as telas por Jason Lew, debutando como roteirista, a morbidez é o formol estético que preserva o sentido de importância do tempo e das pessoas que amamos.

Brae é um jovem abalado pela perda, que não conseguiu resolver dentro de si a morte dos pais, vítimas de um acidente de carro que quase o matou também. Como paliativo anestésico para o fato de não ter comparecido ao enterro, ele frequenta funerais alheios para compartilhar um adeus engasgado na garganta, soluços asfixiantes e lágrimas que teimam em não secar. Como herança de uma experiência de quase morte, ele se relaciona com o fantasma de um piloto japonês kamikase, Hiroshi Takahashi (Ryo Kase), que espatifou o avião sob seu comando contra as forças inimigas do exército nipônico durante a Segunda Guerra Mundial.

A tristeza de Enoch Brae não seria agridoce o suficiente se não tivesse conhecido Annabel Cotton (a inspiradora Mia Wasikowska, que nos faz sonhar acordados), a menina dos sonhos com uma bomba-relógio na cabeça: um tumor cerebral.

A paixão com data de validade opera transformações. Sem saber quanto tempo lhes resta, Enoch e Annabel são arrebatados por um sentimento que ofusca as sombras e é intensificado pela urgência e alimentado pelas descobertas. Trabalhando o amor fadado ao luto, Gus Van Sant ilustra, por meio de uma inocência que jamais amadurecerá (e por isso mesmo de delicadeza singular, digna de ser sorvida com atenção, por causa da suavidade dos detalhes), a necessidade de aproveitar momentos significativos, cacos de felicidade espalhados por nossa existência que oferecem algum sentido ao ato de respirar e continuar. Mais assustador que o flagelo da ausência é o vazio de não sentir: duas faces do óbito.

O Romeu de Van Sant, que em breve perderá sua Julieta, desiste do suicídio social e utiliza o veneno da morte como antídoto para o torpor e o suplício do espírito. O desenlace da história de Enoch e Annabel não pode ser confundido com uma elegia da solidão, mas, sim, da salvação. “Inquietos” é o melhor filme do Festival do Rio conferido por este Doido até o momento.

Quer impressionar uma garota? Este é o seu filme.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. A trilha sonora de “Restless” é um show à parte.

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Dramas humanos não distinguem opção sexual

Amigos leitores,

Republico aqui no blog (com uma ou outra pincelada) as linhas principais da minha crítica do filme “Minhas mães e meu pai”, da diretora Lisa Cholodenko, que estreia no circuito amanhã.

Tive a oportunidade de conferir a produção no último Festival do Rio. A cineasta radiografa os conflitos emocionais de um casal homossexual, interpretado por Julianne Moore e Annette Bening, que precisa lidar com os distúrbios afetivos causados pela intrusão de Paul (Mark Ruffalo), pai biológico — leia-se doador de sêmen — dos dois filhos das lésbicas, na intimidade da família .

Vamos ao texto:

Nas planilhas Excel de quem transitou pelo circuito do Festival do Rio, disposto a conferir o máximo de filmes possível, uma das produções obrigatórias era “The kids are all right” (no original).

A diretora californiana Lisa Cholodenko, que tem o currículo recheado de experiências com séries de televisão, aproveitou o fascínio da atriz Julianne Moore por projetos mais autorais e a cooptou para, ao lado de Annette Bening, desmistificar os dramas de um casal de lésbicas às voltas com os desafios de criar uma família (dita) não convencional.

“Pães” de Joni (Mia Wasikowska, a Alice versão Senhor do Anéis de Tim Burton), de 18 anos, e Laser (Josh Hutcherson), de 15, ambos concebidos por inseminação artificial, Nic (Annette) e Jules (Julianne) são pegas de calcinha na mão quando os filhos resolvem conhecer Paul, o pai biológico, digo, doador do sêmen que os gerou, interpretado por Mark Ruffalo.

À força de sua postura descolada e um estilo de vida desencanado e liberal, Paul conquista seus “filhos” e obriga Nic e Jules a lidarem com a eventualidade de um elemento estranho no seio da família.

O macho-alfa vivido por Paul é o composto trinitrotoluênico que adiciona testosterona ao excesso de estrogênio e explode as camadas superficiais de compostura, revelando as inseguranças do casal homossexual. Inseguranças universais.

O refinamento deste drama, temperado com humor inteligente, é percebido na composição emocional dos personagens; e na forma como interagem uns com os outros. Nic e Jules trafegam pelo ciúme, preocupação, desejo, excitação, frustração… Sentimentos que acometem qualquer ser humano.

E aí é que está… Lisa Cholodenko confirma que o preconceito é algo tão ultrapassado que passa longe da construção moral e comportamental daquele núcleo familiar. Sem esquematismos ou estereótipos, Julianne Moore e Annette Bening retransmutam o (que não deveria ser) extraordinário para o (que sempre foi) ordinário de forma orgânica.

O brilhantismo reside aí: duas pessoas que se amam tentando criar seus filhos da melhor maneira, sem nem sequer se darem conta de que suas atitudes não são (graças a Deus!) condicionadas por rótulos estúpidos – às vezes o pior preconceito é o alimentado pelo sujeito paciente. Família disfuncional sim, mas como a minha e a sua, ponto final.

As dificuldades na construção e manutenção de um relacionamento – e a convulsão emocional inerente − são assexuadas.

Carlos Eduardo Bacellar


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Dramas humanos não distinguem opção sexual

Nas planilhas Excel de quem transita pelo circuito do Festival do Rio, disposto a conferir o máximo de filmes possível, uma das produções obrigatórias é “The kids are all right” (no original).

A diretora californiana Lisa Cholodenko, que tem o currículo recheado de experiências com séries de televisão, aproveitou o fascínio da atriz Julianne Moore por projetos mais autorais e a cooptou para, ao lado de Annette Bening, desmistificar os dramas de um casal de lésbicas às voltas com os desafios de criar uma família (dita) não convencional.

“Pães” de Joni (Mia Wasikowska), de 18 anos, e Laser (Josh Hutcherson), de 15, ambos concebidos por inseminação artificial, Nic (Annette) e Jules (Julianne) são pegas de calcinha na mão quando os filhos resolvem conhecer Paul, o pai biológico, digo, doador do sêmen que os gerou, interpretado por Mark Ruffalo.

À força de sua postura descolada e um estilo de vida desencanado e liberal, Paul conquista seus “filhos” e obriga Nic e Jules a lidarem com a eventualidade de um elemento estranho no seio da família.

O macho-alfa vivido por Paul é o composto trinitrotoluênico que adiciona testosterona ao excesso de estrogênio e explode as camadas superficiais de compostura, revelando as inseguranças do casal homossexual. Inseguranças universais.

O refinamento deste drama, temperado com humor inteligente, é percebido na composição emocional dos personagens; e na forma como interagem uns com os outros. Nic e Jules trafegam pelo ciúme, preocupação, desejo, excitação, frustração… Sentimentos que acometem qualquer ser humano.

E aí é que está… Lisa Cholodenko confirma que o preconceito é algo tão ultrapassado que passa longe da construção moral e comportamental daquele núcleo familiar. Sem esquematismos ou estereótipos, Julianne Moore e Annette Bening retransmutam o (que não deveria ser) extraordinário para o (que sempre foi) ordinário de forma orgânica.

O brilhantismo reside aí: duas pessoas que se amam tentando criar seus filhos da melhor maneira, sem nem sequer se darem conta de que suas atitudes não são (graças a Deus!) condicionadas por rótulos estúpidos – às vezes o pior preconceito é o alimentado pelo sujeito paciente. Família disfuncional sim, mas como a minha e a sua, ponto final.

As dificuldades na construção e manutenção de um relacionamento – e a convulsão emocional inerente − são assexuadas.

Confira as próximas sessões do filme no Festival aqui.

E não quero ninguém aperreado caso não consiga ingresso. “The kids are all right” já tem distribuição garantida. E não só ele. Veja quais são os outros filmes que reservaram seu espaço no mercado exibidor nacional aqui (todo crédito para a jornalista Erika Azevedo, do jornal O Globo). Alguém disse ufa?

Carlos Eduardo Bacellar

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Alice (de volta) no País das Maravilhas

No início deste ano, “Sherlock Holmes”, dirigido por Guy Ritchie, chegou às telas. O Lord inglês esguio, vestindo sobretudo e cap xadrez, cedeu lugar a um detetive cartesiano e antenadíssimo dichavado entre bíceps de Van Damme e atitudes de 007. Há quem tenha odiado, mas era a nova safra repaginada que se anunciava e que hoje conta com mais um título: “Alice no País das Maravilhas”, de Tim Burton.

O filme que acaba de estrear, livremente inspirado em contos de Lewis Carroll, revela a  (n0va) jovem Alice (Mia Wasikowska). Se no passado seguia o Coelho Branco — o de colete e relógio no bolso –, apenas impulsionada pela descoberta infantil, agora busca a auto-afirmação do começo da fase adulta. Sofrendo pressão da sociedade britânica para definir seu futuro — se casar –, segue o rastro do coelho até cair no poço. No fim da queda, (re)encontra o “País das Maravilhas”, onde a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) reina soberana na maldade enquanto sua irmã, a Rainha Branca (Anne Hathaway), e o Chapeleiro (Johnny Depp) a aguardam heroína e capaz de restaurar o Bem no mundo da fantasia.

Durante pouco mais de 1h40min, o que se vê na ousada obra de Tim Burton (grande animador e designer) é uma mistura de espetáculo visual surpreendente — mais pela Direção de Arte do que pelos efeitos 3D — com roteiro de corajosa autoralidade. Como no caso de “Sherlock Holmes”, a releitura da obra clássica vem impregnada de ação, buscando aproximar o público do que seria um super-herói contemporâneo. “Elementar, meu caro Watson”.

No mano a mano, entretanto, Guy Ritchie é mais feliz. Favorecido, principalmente, pela excepcional montagem, o “Sherlock” do século XXI convence do início ao fim. No caso de “Alice”, a personagem altiva, guerreira e senhora do seu destino que aparece no final do filme merecia um tratamento mais contundente, emotivo e até reflexivo ao longo da narrativa. Tim Burton não convence. A Alice cheia de dúvidas lá do começo da história não passa por experiências (de transformação) suficientes para torná-la tão valente no final. E quase tudo, do meio até o fim da obra, acaba sendo meio gratuito. Uma pena.

Helena Sroulevich

p.s. “Alice no País das Maravilhas” era a estreia da temporada mais aguardada por mim. O frenesi foi tamanho que garanti meu ingresso — para a primeira sessão legendada e em 3D do Arteplex –, há mais de uma semana, enquanto recebia atualizações via Twitter e Facebook de amigos sortudos que já tinham assistido ao filme no Brasil ou no exterior. Não sei se foi por conta da minha ansiedade, mas a sessão, originalmente programada às 17h30, atrasou em 1h, desafiando os funcionários do Unibanco Arteplex que não conseguiam fazer a cópia (digital) funcionar. A eles e aos impacientes que não esperaram a resolução do problema, segue o manual da Disney para projeções 3D de Alice. Divirtam-se:

http://digitalcinema.disney.com/assets/pdf/BV-AIW_Proj-Notice_FNL-MECH.pdf

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Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Helena Sroulevich, Quase uma Brastemp