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Peso da dor

Amour-film-poster

A racionalidade, condicionada a restrições morais, é a cortina de falsidades que escamoteia o teatro grotesco do instinto. O diretor teuto-austríaco Michael Haneke faz de seu cinema ferramenta de exploração dos impulsos mais abjetos do humano. O olhar desmedido, frio, por vezes cruel de Haneke, um voyeur psicopata, desvelou perversões em “A professora de piano” (2001), o envenenamento das ideias pela xenofobia em “Caché” (2005), a barbárie infundada em “Violência gratuita” (2007) e a gênese do mal que corroeu a Europa na primeira metade do século XX com uma alegoria sobre a incubação do nazismo em “A fita branca” (2009) – filme com o qual ganhou sua primeira Palma de Ouro em Cannes. A estética de Haneke conjuga suspense com tortura física e psicológica e explosões de violência. Situações aparentemente banais são sombreadas pela suspeita de uma tragédia, que parece estar sempre à espreita.

Amor”, filme que rendeu a Haneke sua segunda Palma de Ouro, apresenta uma proposta mais doentia. Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva, perfeita como um Dom Lázaro de saias), ex-professores de música, formam um casal octagenário que frui seus dias com a tranquilidade e despreocupação que a idade permite.

Uma suposta cirurgia para desobstrução da carótida, sinalizada por sintomas semelhantes aos de uma doença degenerativa, escarnece das probabilidades e corre mal. Anne sofre um derrame e seus efeitos nefastos começam a transformá-la gradativamente num vegetal. Georges e a família perdem o chão. A primeira atitude é um positivismo comedido da parte de Georges, que o obriga a uma adaptação cautelosa. Hábitos antigos são difíceis de serem alterados, e a cumplicidade com a esposa fica comprometida. As emoções agora precisam ser estudadas. A filha do casal, Eva (Isabelle Huppert), desmorona num surto de infelicidade, pena e incômodo. Para ela, há um problema que, se não pode ser resolvido, deve ser defenestrado com carinho. O que os olhos não veem, o coração não sente.

A decadência física e psicológica de Anne, mais do que indicar a proximidade da morte, transfere sua subjetividade para o outro. Ela não pensa mais, é pensada. Deixa de ser ativa e se torna passiva. Com essa inversão, o roteiro de Michael Haneke deturpa o amor que existe entre eles e confere a Georges responsabilidade e poder de decisão totais, sem haver necessidade de responder a ninguém por seus atos. Os instintos mais primitivos se confundem com querer bem, numa reflexão moral ambígua de certo e errado, poder e não poder, vida e morte.

Tristeza, impotência, indignação, asco, revolta, repúdio, aviltamento, frustração, desesperança… Choque! Alívio… Haneke expurga o amor de sua carga negativa filmando um homem dividido, mas que deseja escrever com suas palavras o necrológio do próprio sentimento, contaminado pelo hediondo. Equivoca-se ao pensar que se dedica à melhor narrativa para a esposa. Há justificativa, não há justificativa. Haneke é seco como seu protagonista. Georges não chora. Arrasta, impassível, o fardo de seu comportamento, seu pecado e sua salvação. Anne, meu bem, meu mal. Até a eternidade. Lágrimas cabem no espaço de um olho, mas pesam toneladas.

Carlos Eduardo Bacellar

Trailer_”Amor”

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Gêmeas?

O olhar mais desavisado poderia confundir as duas beldades. Seriam gêmeas? Na vida real, onze anos separam as duas. Se compararmos os recentes papéis na ficção, estamos falando de décadas.

A atriz ninfeta Maria-Victoria Dragus (16), na foto em preto e branco, interpreta Klara – projeto de adolescente que vive em uma comunidade conservadora, intolerante e opressora, no período que antecede a 1ª Guerra Mundial – na nova produção do diretor alemão Michael Haneke, “A fita Branca” (2009), que acaba de debutar no circuito exibidor nacional. O filme chega e chega forte, credenciado por uma Palma de Ouro fresquinha.

Kate Bosworth (27), na foto colorida, interpretou Louis Lane na última transposição para as telas das aventuras do Super-Homem (“Superman Returns”, 2006), assinada pelo nova-iorquino Bryan Singer, e fez mais estragos no coração do homem de aço do que kryptonita. Seu último longa foi “Quebrando a banca” (2008) — “21”, no original –, do diretor australiano Robert Luketic, no qual contracenou com Kevin Spacey e Laurence Fishburne (vulgo Morpheus!!!).

Carlos Eduardo Bacellar

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Cartão vermelho para a legendagem

Depois da legendagem, em Português lusitano, do episódio de estreia da última temporada de Lost, o que eu considero, no mínimo, uma falta de respeito ao telespectador brasuca, ontem foi a vez de os responsáveis por este ofício exprimirem, novamente, toda a sua “genialidade”, agora no cinema.

Acredito que eu e todos os amantes da sétima arte estávamos “secos” para conferir o novo filme do cineasta alemão Michael Haneke, “A fita branca” (“Das weisse band”, no original), vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2009.

O que eu não esperava, o que ninguém esperava, haja vista a indignação geral, era que os responsáveis pela tarefa de legendar o filme fossem ter a brilhante ideia de utilizar caracteres brancos. Nota importante: num filme em preto e branco, falado em alemão, e que abusa de paisagens bucólicas cobertas de neve. Conclusão: em muitas sequências do filme, quando os tons claros estouravam, fiquei sem entender absolutamente nada. A língua germânica e o idioma Na’vi para mim são a mesma coisa. Tive que preencher as lacunas com o bom-senso e a minha imaginação.

Tal fato ainda esculacha o trabalho dos tradutores, que se esforçam tanto na tarefa árdua de trazer ao nosso entendimento o conteúdo narrativo dos produtos estrangeiros. Não era necessário levar tão ao pé da letra o título da produção.

Custava utilizar a cor amarela nos caracteres? Resolvia o problema. Que falta de sensibilidade…

Carlos Eduardo Bacellar

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