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Adaptação do primeiro romance da trilogia Millennium chega às telas amparada pela força comercial da obra literária

O que existe de melhor (alguns diriam mais comercial) na literatura policial das últimas décadas ganhou as telas dos cinemas na expectativa de angariar o mesmo sucesso – e os milhões de fãs – que sua versão literária.

A produção “Os homens que não amavam as mulheres” (2009), dirigida pelo realizador dinamarquês Niels Arden Oplev, é baseada no romance homônimo do jornalista sueco Stieg Larsson – que morreu de ataque cardíaco em 2004, aos cinquenta anos. Além de atuar como profissional de imprensa, Larsson dedicou-se às causas políticas e à luta pelos direitos humanos. No comando da revista Expo, fundada por ele, denunciou organizações neofacistas e racistas – ativismo que fica claro em seus livros.

“Os homens…” é a primeira parte da trilogia Millennium (os outros dois volumes são “A menina que brincava com fogo” e “A rainha do castelo de ar”) – todos publicados no Brasil entre 2008 e 2009, chancelados pela venda de milhões de exemplares no mundo todo. Reza a lenda que Larrson passou desta para melhor pouco depois de entregar a trilogia aos seus editores. Mas o objetivo deste post não é servir como um guia de consumo literário. É fácil se perder em devaneios alimentados pela força envolvente do livro, que disseca inúmeras tramas em suas mais de 500 páginas.

Nosso assunto é filme. A coprodução entre Suécia, Alemanha, Dinamarca e Noruega chega com a promessa de espantar o frio nórdico com uma trama noir envolvendo a classe dominante sueca, mais precisamente a proeminente família Vanger, dona de um império industrial.

Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist), editor da revista Millennium, é contratado pelo industrial (e patriarca da família todo poderosa) Henrik Vanger (Sven-Bertil Taube) para investigar o desaparecimento da neta de seu irmão Richard, Harriet Vanger, que ocorreu em 1966 – contextualizando: o caso, que Henrik insiste em não arquivar em sua memória, ocorreu há quase 40 anos atrás.

No momento da proposta, Mikael vive uma situação difícil em sua vida pessoal e profissional. Ele acaba de ser condenado por difamação ao publicar uma matéria supostamente mentirosa contra o financista Wennerström. Seu imbróglio com a justiça arranhou a credibilidade de sua revista, e afastou anunciantes – e, consequentemente, a grana que mantém viva a chama do jornalismo.

Henrik acredita que Harriet foi assassinada por um dos membros do clã. Na ocasião do sumiço, toda família Vanger estava confinada numa ilha − em virtude de um encontro anual − cuja única ligação com o continente havia sido obstruída por um acidente de trânsito. Desde então, o velho Vanger recebe todo ano, no dia de seu aniversário, uma flor emoldurada – mesmo presente que sua herdeira costumava lhe dar. Ele acredita que são lembranças macabras do assassino, que tripudia do seu sofrimento.

Mais pelo fator econômico (e de autopreservação) do que por questões morais, Mikael aceita a tarefa − Henrik lhe oferece uma saída financeira para a Millennium. No livro, além de patrocinar a publicação, o magnata diz ter provas contundentes contra Wennerström.

O jornalista, no processo de investigação, acaba cruzando o caminho da misteriosa e sombria hacker Lisbeth Salander (Noomi Rapace, a alma de toda essa quizumba), que se junta a ele na montagem do quebra-cabeça do sumiço de Harriet. Gênio da computação e dotada de uma prodigiosa memória fotográfica, Lisbeth rapidamente se torna ativo precioso na complicada tarefa de Blomkvist – ela é uma espécie de Sherlock Holmes punk da era digital.

Os dois, ao devassar os fatos e o passado do clã industrial, descobrem que os segredos dos Vanger têm tentáculos extensos e espinhosos. O rastro pernicioso se ramifica em Harriet, e leva nossos protagonistas em direção à verdade aterradora – que envolve apologia do nazismo, traumas da infância, estupros, torturas, deturpação de citações bíblicas, assassinatos e antissemitismo.

O livro tem diversas tramas paralelas que, logicamente, não podem ser satisfatoriamente contempladas num filme de 153 minutos. O roteiro, sob responsabilidade de Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg, direcionou o foco das lentes do diretor para a relação entre Mikael e Lisbeth, negligenciando muito material que Larsson explora em sua obra. Esse posicionamento pode incomodar puristas, mas enxuga a gordura estética e dá dinamismo à ação, que de outra maneira poderia se tornar intrincada e comprometer o entendimento – o próprio livro tem alguns furos, que comprometem o conjunto da história, mas não deixa de ser uma leitura hipnótica.

O que prejudica o filme são as atuações pouco expressivas do elenco. Optando por atores desconhecidos (pelo menos do lado de cá do Atlântico), o diretor fez uma aposta alta, e perdeu. A interpretação de Michael Nyqvist é sofrível. Ele, no papel do protagonista Mikael Blomkvist, deveria ser o buraco negro que atrai toda atenção das plateias. Além de pouco carismático e talentoso, o cara é feio de doer. As demais “estrelas” do elenco não merecem menção, pois fazem apenas papéis de satélites distantes que gravitam em torno de Blomkvist e sua hacker de estimação (única exceção ao pífio desempenho dramático da trupe).

O principal acerto dos roteiristas – acerto muito bem trabalhado pelo diretor − foi manter na estrutura da história transposta para a telona alguns dos momentos mais fortes do livro, como as cenas de estupro e a vingança (justiça?) de Lisbeth contra seu tutor doentio e devasso – ele sentiu na pele e na “porta dos fundos” todo ódio explosivo de Salander.

Noomi Rapace é o nome do filme (e do livro), e salva o trabalho de Oplev da perdição total. Ela brilha no papel de uma garota atormentada por sofrimentos inconfessáveis do passado, e que refletem suas atitudes ariscas e desconfiadas no presente. Lacônica, utiliza a expressão corporal e seu olhar negro como o fundo de um poço abandonado para externar seus sentimentos (ou ausência deles).

Como todo fã é irracional, não acredito que meus comentários farão muita diferença para quem se encantou com a trilogia. Agora, não se esqueçam de que o filme teve sua estreia marcada para a mesma data de “Robin Hood” (2010), de Ridley Scott. Resultado: sala vazia ontem. A maior parte da galera preferiu curtir Russel Crowe de arco e flecha. Vida dura para quem corre por fora do mainstream (leia-se não nada na corrente hollywoodiana).

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Como não consegui me decidir entre duas artes de divulgação do filme, publiquei as duas.

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