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Long Tracking Shots: os planos-sequência!

Instigada pelo twitter do Carlinhos Mattos (amigo é para essas coisas…), dono de um blog MUST READ http://carmattos.wordpress.com, dormi pensando em planos-sequência. E acordei disposta a cavar tudo que eu podia ou não na internet…

Planos-sequência são aquelas cenas longas de caráter investigativo e revelador, em que não há cortes. Quando assistirem a “O Mensageiro” (Moverman) e “O Segredo dos Seus Olhos” (Campanella), ambos em cartaz, serão brindados com belos exemplos! Aliás, a cena do estádio do filme do Campanella , que o Carlinhos Mattos encontrou na rede, virou peixe aqui. Olhem desde já!

Outras preciosidades, capazes de atiçar o cinéfilo incubado em todos nós, podem ser encontradas no blog “Daily Film Zone”. Além de ser uma excelente fonte de informação sobre o cinema, o cara faz uma seleção de 20 long tracking shots inacreditavelmente belos; que certamente entrariam entre os mais belos da minha conta. Tem o I Am Cuba (1964) – The Rooftop – dir. Mikael Kalatozov, que é genial (e que vale à pena ser conferido como filme e como documentário, versão do meu amigo Vicente Ferraz). Tem o meu poeta, o Antonioni. Tem a “mulher que bomba”, a indicada ao Oscar Kathryn Bigelow, que já despertava curiosidade na sua câmera há muito tempo… Não há o que falar. Confiram: http://www.dailyfilmdose.com/2007/05/long-take.html

Um dos grandes acertos da lista acima está na seleção dos filmes, uma vez que na época em que a maioria dos longas foi realizada, planos-sequência daquela magnitude exigiam verdadeiras engenharias de maquinária; além de muita criatividade e talento dos técnicos envolvidos. Não havia gruas enormes, daquelas de cinema americano, que fazem a gente babar, e que aqui só encontramos versões nano no Projac ou na RecNov. É fato.

O cinema brasileiro, entretanto, nunca deixou a desejar. Tem lindos exemplos de planos-sequência, que não encontrei na rede, mas estimulo que sejam vistos por vocês. O primeiro deles está em “Os Fuzis”, do Ruy Guerra. Há quem tenha pinimba com o cineasta, mas eu vejo um belo diretor ali, principalmente neste filme, e em “A Queda” (vencedor do Urso de Prata em Berlim). Show de cinema. Outro bom exemplo é “Terra em Transe”, do Glauber Rocha, em que o Dib Lufti, nossa grua do Cinema Novo, faz verdadeiros malabarismos com a câmera. Este título revi recentemente nas aulas do meu professor Bigode (Luis Carlos Lacerda). É de arrepiar. Procurem no Cineclube mais próximo ou no Canal Brasil. E se você tiver algum plano-sequência bacana para compartilhar, escreve aí. Me amarro em câmeras doidas! Segue o plano-sequência.

Helena Sroulevich

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Fogo amigo que expõe a dor

O filão das produções de guerra parece ser inesgotável. Mas na linha não ortodoxa de filmes como “Guerra ao terror” e “Trovão tropical” – este atacando na comédia e aquele detonando cargas dramáticas -, que trouxeram um novo frescor ao gênero, o diretor-produtor-ator Oren Moverman traz para as telas “O mensageiro”.

O drama trata dos reflexos da guerra em solo americano – prisma incomum que poucas vezes é explorado, já que afeta o ego do cowboy ianque imbatível. Os personagens de Woody Harrelson e Ben Foster são militares encarregados da difícil tarefa de notificar parentes acerca das baixas (mortes, no português claro, livre do ranço gramatical militar) de seus entes queridos, geradas por conflitos, muitas vezes distantes, que civis dificilmente compreendem.

O capitão Tony Stone (Harrelson) é um burocrata cascudo que nunca provou o sabor do conflito. O jovem sargento Will Montgomery (Foster) é um herói de guerra que, alguns meses antes de sua baixa no exército, é recrutado para acompanhar o capitão Stone na missão que se mostrará a mais desafiadora de sua vida.

Um trabalho que, em princípio, parece banal e entediante para um soldado habituado ao combate, acaba ganhando contornos complexos. Stone verá que pode ser mais fácil lidar com o fogo inimigo do que com o sofrimento de americanos que, de repente, encaram a face real dos conflitos, quando corpos são enviados de volta para casa para serem enterrados.

Ao dilacerar a alma humana e revelar o que ela tem de mais frágil – por meio da pior notícia que alguém poderia receber -, Moverman expõe a seiva da dor. É com sumo de espíritos afetados pela perda que os dois militares precisam lidar.

O mais irônico do filme reside no fato de que tanto o capitão Stone como o sargento Montgomery não seriam os mais indicados para lidar com pessoas em momentos críticos. Stone é um alcoólatra inveterado, metido a garanhão, que se engana na tentativa de largar o vício. Montgomery sofre com seqüelas da guerra e mantém um relacionamento com uma mulher compromissada (Jena Malone), prestes a subir no altar. Além de lidar com a tormenta sentimental catalisada pela dor da perda, eles precisam exumar os próprios fantasmas. Freud explica tal escolha do exército americano…

Tanto Stone como Montgomery, unidos pelo acaso, tentam encontrar uma forma de enfrentar o estresse pós-traumático dos outros e sair ilesos, o que não parece possível. Em “terreno inimigo”, o sargento acaba se apaixonando por Olivia Pitterson (Samantha Morton), enquanto o capitão vivido por Harrelson se entrega à bebida. Ambos irão descobrir que a pior batalha pode ser a que travamos dentro de nós mesmos; e que o pior da guerra não está nos caixões que voltam enrolados em bandeiras, mas nos sentimentos que eles detonam, estraçalhando uma nação.

Carlos Eduardo Bacellar

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

O Mensageiro (ainda bem que) tem Roteiro

“O Mensageiro” chegou antes aqui no Blog. Com data de estreia para a próxima semana, o filme dirigido pelo (bom) roteirista Oren Moverman tem na história o seu ponto forte. Nada gratuita a conquista do Urso de Prata de Melhor Roteiro, em Berlim, no ano passado. Entretanto, afirmo que o Oscar 2010 de melhor roteiro original ninguém tasca do Tarantino. Não haveria absurdo maior se o melhor filme de 2009 (na minha opinião!) não ganhasse a estatueta no dia 07 de março… Alô, acadêmicos da Grande Los Angeles, o roteiro é 10 nota 10!

Voltando às notícias frias, a história começa na nomeação do sargento Will Montgomery (Ben Foster) a Mensageiro (Messenger) no exército americano. Juntamente ao quase tira da pesada Tony Stone (Woody Harrelson), será responsável pelas mensagens póstumas – frias e calculistas – às famílias de oficiais vitimados na guerra do Iraque. Trabalho ingrato. E triste: as cenas em que familiares são avisados da morte de seus parentes deixam qualquer coração em frangalhos.

Vítimas de suas histórias de vida, o foco do enredo está na maneira distoante de Tony e Will em lidar com os familiares dos mortos . Will vive assombrado por memórias e sequelas da guerra e por um contentamento descontente com o novo cargo useless. Já Tony, seu mentor, busca convencê-lo o tempo todo da sobriedade do novo cargo, mesmo em momentos de “conflito ético”, como no “encantamento” que nutre até o fim (claro que tinha que ter uma paixãozinha para apimentar a história!) pela viúva de um dos oficiais. Ponto para Samantha Morton pelo ótimo desempenho.

O Mensageiro (ainda bem que) tem Roteiro. Nota-se que o Diretor é Roteirista (roteiristas não peçam a minha cabeça!), pois peca na cinematografia global da obra. Há alguns planos-sequencia bem legais, mas, em geral, a câmera é acadêmica, ortodoxa e nada criativa (quem lê o blog já sabe da minha predileção por câmeras cheias de alma, identidade, nervosas, que jogam junto). A montagem também derrapa nos cortes e nas passagens de tempo, dificultando o entendimento do espectador, e deixando a poltrona da sala de cinema um lugar para um quase repouso… forçado.

Helena Sroulevich

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