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Reavaliação da paternidade por meio do erro

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Que tipo e forma de consciência estaria escondida lá dentro? – no interior daquele crânio rígido como uma bigorna velha? Será que lá dentro não existia mais nada? Será que, tal qual uma casa abandonada, a mobília e os objetos foram transportados e não existia mais nenhum indício das pessoas que moravam lá? Mas, mesmo assim, as paredes e o teto deveriam conter algumas das lembranças e das cenas vividas. O vazio não consegue se apoderar tão facilmente das coisas cultivadas durante tanto tempo.” (1Q84 – Livro 3, de Haruki Murakami)

Pais e filhos

Os laços de sangue falam mais alto que os afetivos? Mesmo se decantarmos o componente humano do mero determinismo biológico, um embate entre darwinismo e lamarckismo, a interrogação de simples não tem nada. Partindo dessa questão, que além da dúvida guarda angústia, o cineasta japonês Hirokazu Kore-eda, com extrema sensibilidade, trabalha, em “Pais e filhos”, a paternidade como instrumento de transformação de valores empedernidos na conservadora e ritualizada sociedade nipônica.

Duas crianças são trocadas na maternidade e criadas em lares que não podiam ser mais diferentes: um permissivo e desregrado, o outro intransigente e exigente. A troca é identificada pelo hospital e os pais enfrentam o dilema da escolha – fio narrativo análogo ao do essencial “O filho do outro” (2012), descontada a conotação política, de Lorraine Lévy. Ryota (Masaharu Fukuyama), arquiteto bem-sucedido com uma relação distanciada do filho de criação, encontra nos genes a resposta para a frustração de suas expectativas. Só uma desculpa que conta para si mesmo para justificar suas falhas como pai.

Kore-eda, num exercício de brilhantismo, desfia a questão-problema para questionar o instinto materno; estimular Ryota a rever suas atitudes como pai e como filho, forçando-o a encarar seus erros e se desvincular da herança paterna; incutir no arquiteto a filosofia de vida carpe diem de um comerciante, considerado um fracassado, e salvá-lo de si mesmo; e registrar o comportamento de duas crianças cuja ingenuidade é perturbada pela força de circunstâncias incompreensíveis – bênção da idade.

O único porém são as ações mecânicas e desprovidas de phatos de Ryota ao descobrir que o garoto que criou não é seu filho biológico, mesmo levando em conta a habitual frieza de suas relações com o rebento, a esposa e os pais – bem como alguma inexorabilidade no código de conduta e tradição japoneses. Seu suposto arrependimento numa virada não inusitada, mas desajeitada e pouco crível, torna mais precária a construção do arco dramático de seu personagem. Nada que comprometa este belíssimo filme acerca da sobreposição de razão e emoção numa situação que desafia resoluções cartesianas.

Nas sombras do coração há mais segredos do que a genética pode alcançar. Nelas, negativos da memória foram tatuados pela convivência/experiência, marcas que nem o amor de mãe pode apagar ou colocar sob suspeição, mas o afeto de pai pode reforçar.

Carlos Eduardo Bacellar

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