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Biohazard: crítica de “Resident Evil: Afterlife”

“Sempre sonhei com meu momento Trinity.”

Novamente publicarei aqui, mais do que uma crítica, um serviço de utilidade pública para tentar livrá-los de uma roubada.

A franquia “Resident Evil” deveria ter circunscrito a sanha da protagonista Alice (a estonteante Milla Jovovich) pela destruição de mortos-vivos, que teimam em suplantar os humanos como espécie dominante, aos consoles de videogame − e evitado propagar o vírus da mediocridade para as telas de cinema com o lançamento do quarto filme da série: “Resident Evil: Afterlife”, que estreia nesta sexta no Brasil.

Nesta nova versão caça-níqueis da história − a série original foi criada por Shinji Mikami e desenvolvida pela Capcom; hoje está disponível para diversas plataformas de jogos eletrônicos −, dirigida pelo diretor inglês Paul W.S. Anderson (que de bobo não tem nada: já levou Milla para o altar e continua as experiências genéticas do projeto Alice em âmbito doméstico, longe das câmeras), Alice continua sua luta inglória para tentar encontrar um porto seguro livre do vírus T (que torna seres humanos figurantes do vídeoclip Thriller, de Michael Jackson), exterminando todo zumbi papa-cérebro que aparece em seu caminho. E olha que são muitos… O parasita é produto das traquinagens da Umbrella Corporation, espécie de Iniciativa Dharma de tons mais sombrios, na seara da engenharia genética.

“Quem disser alguma gracinha, ou rosnar algo ininteligível, leva bala!”

Desta vez a cidade locação é uma Los Angeles distópica, infestada de antagonistas com lepra e câncer de pele em estágio avançado. E como todos nós sabemos, os zumbis são como cabelos brancos: você mal acaba com um, já crescem mais três.

Sinceramente, a trama é tão rala e descartável, que nem me lembro dos últimos filmes. E não faz muita diferença… Alice continua, com suas roupas de couro apertadas e armada até os dentes, numa mescla de “Blade” com Roland Deschain de Gilead, protagonista de um dos universos fantásticos de Stephen King, exterminando tudo que não pertence mais a este mundo.  E perdendo amigos pelo caminho…

“É hoje que rola aquele ménage à trois pelo qual espero há tanto tempo. Vamos começar com as preliminares: dança do maxixe!”

Lutam ao lado dela, entre outros itens do cardápio dos não humanos, Claire Redfield (Ali Larter, que disputa com Milla o posto de quem-usa-roupas-mais-apertadas-que-realçam-a-silhueta-de-forma-mais-sexy), que não se contentou com a última porcaria, e Chris Redfield (Wentworth Miller), que deve ter alguma cláusula de uso obrigatório da mão de obra em seu contrato − que o impede de ficar na inatividade por muito tempo − e se torna mais uma depravação num roteiro que minha mãe escreveria assistindo ao Domingão do Faustão (momento no qual bate aquela vontade forte de sair por aí estourando miolos).

“Paul, se você olhar para a comissão de trás da Eli novamente, eu realizarei uma operação de fimose em você com a minha arma.”

Com acrobacias que desafiariam especialistas do Cirque du Soleil – algumas cenas ultrapassam a fronteira do absurdo, que cada vez mais é rechaçado pelo realismo de sequências de ação como as que revitalizaram o espião 007 −, escrutinadas pelas filmagens à moda Sam Peckinpah, que usam e abusam do bullet time, efeito celebrizado na trilogia “Matrix”, a produção é uma sucessão de violência gratuita que tenta sustentar uma trama apocalíptica. Uma inversão de valores que desrespeita o público. Os desmembramentos faraônicos de zumbis são despautérios completos: diretores americanos de filmes exploitation das décadas de 1950, 1960, 1970 ficariam com vergonha ao provarem dos frutos podres adubados por seus legados.

O roteiro chega ao cúmulo de plagiar o gigantesco carrasco demoníaco de “Silent Hill” (2006) − excelente filme de suspense que saiu de uma dimensão paralela para a nossa pelas lentes do realizador francês Christophe Gans −, com o objetivo de heterogeneizar a espécie zumbi e incrementar a encenação. Verdadeiro pastiche cara de pau…

[Sim, já fui avisado de que o carrasco demoníaco ao qual me refiro no parágrafo supracitado não é uma cópia do seu sósia, que aparece no filme ‘Silent Hill’ (também baseado no jogo eletrônico homônimo), e sim um personagem do game ‘Resident Evil 5’: leia minhas explicações clicando aqui]

“Não consigo enxergar direito quem eu tenho que decapitar com este saco na minha cabeça…”

A produção, que chega a esta quarta edição glamurizada pelo suporte em 3D, é um videogame, com montagem hiperativa, que não funciona nas telas, nem como entretenimento. E podem se preparar… Vem uma continuação por aí… Se Deus quiser o último despropósito que irá raspar o tacho de nossas economias e saciar a gana por grana de Hollywood, pelo menos em relação a esta franquia específica.

Felizmente assisti ao filme de graça, e economizei umas 24 pratas. Aviso às distribuidoras e às produtoras: podem me convidar sempre para as cabines de imprensa que eu gosto. E olha que de vez em quando eu até falo bem dos filmes.

Cinema de graça, pela manhã, com a sala vazia, é a maior diversão!

Carlos Eduardo Bacellar

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21 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Fuja dessa roubada!!!