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Antes que o Cinema Brasileiro não tenha mais espaço

2º Festival de Paulínia, 2009: Melhor filme (prêmio da crítica), Melhor direção, Melhor fotografia, Melhor direção de arte, Melhor música, Melhor figurino

33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, 2009: Prêmio Itamaraty (melhor filme brasileiro da mostra)

Abro este post com as credenciais do filme “Antes que o mundo acabe”, da diretora gaúcha Ana Luiza Azevedo, que acaba de se espremer na grade do circuito exibidor aqui no Rio. E o verbo espremer traduz bem o paradoxo desesperador que aflinge muitas produções do Cinema Brasileiro (quando elas conseguem se untar com o óleo do reconhecimento dos festivais e da crítica e passar com dificuldade pelos poros dos filtros de mercado).

O laureado filme de Ana Luiza não conseguiu mais do que uma (1) sala de cinema em solo carioca. Não bastasse isso, ficou circunscrito a dois (2) horários, sendo que um deles só vigora até a próxima quarta-feira (22/9). Acreditem vocês… Unibanco Arteplex (RJ): às 15h20min (até qua) e às 19h40min.

“Bá, tchê! Somente em uma sala?! Isso é um absurdo… Bom, depois podemos assistir ao ‘Avatar 3D’?”

Como sou um militante da causa dos fracos e oprimidos, preteri produções mais privilegiadas no quesito número de salas e fui conferir o filme da Ana. E os prêmios não maquiam a qualidade da produção.

Sócia da Casa de Cinema de Porto Alegre, produtora independente que se tornou polo de cultura e referência para o cinema nacional, Ana Luiza, amadurecida pela sua longa relação com a sétima arte – ela já foi continuísta, corroteirista, dirigiu curtas e médias-metragens e documentários, enfim, um currículo extenso –, desta vez apontou suas câmeras para a confusão emocional (e a aditivação hormonal) que torna a adolescência uma época tão aflitiva e, ao mesmo tempo, tão saborosa.

Em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, somos apresentados ao Daniel (Pedro Tergolina). Adolescente típico, Daniel superestima seu microuniverso e acredita que ele é o universo em si, em constante expansão (afinal, nada é impossível quando se tem entre 14 e 17 anos). Títere dos encantos de Mim (a devoradora de corações incautos chamada Bianca Menti), uma colega de escola insegura com suas escolhas afetivas, e parceiro inseparável de Lucas (Eduardo Cardoso), Daniel vai da depressão à euforia em meio às descobertas do crescimento. Os amigos mapeiam a pequena cidade de bicicleta e, além de se mostrarem insatisfeitos com suas limitações geográficas, flertam com as fronteiras ambíguas de seus sentimentos.

“É por causa desse sorriso que vou repetir de ano… Como querem que eu aprenda química desse jeito?! Só se for outra química…”

O relacionamento entre os três começa a descarrilar quando Mim dá um fora em Daniel e começa a se engraçar com Lucas. E uma menina, como todos nós sabemos, é a barra de sódio que entra em contato com a plácida água do lago da amizade: Bum!

Quem nunca se apaixonou por aquela garota poliândrica no colégio que atire o primeiro iPod. Ela – sim, aquela gostosona que tripudiou do seu sincero carinho, mas hoje, felizmente, é uma baranga − (acha) que pensava da seguinte forma:

“Minha mãe me falo que eu preciso casar

Pois eu já fiquei mocinha

Procurei um alguém e ele disse

— Meu bem, você quer entrar na minha

Acontece porem que eu não sei me entregar

A um amor somente

Quando ando nas ruas, fico só namorando

E olhando pra toda gente […]”


Então, o amigo vira concorrente rapidinho. A estrutura rígida do triângulo só é fundamentada nos cálculos da geometria. Na vida real, quando acrescentamos sentimentos aos vértices, o resultado pode ser a estrutura geométrica mais instável de que se tem notícia.

“Carlos, como boa adolescente poliândrica acho que posso gerenciar um quadrilátero amoroso. Ainda mais se tratando de você, meu crítico favorito. Só não prometo não magoá-lo. É por sua conta e risco.”

O roteiro – assinado por Paulo Halm (o Charlie Kaufman brasuca), Jorge Furtado, Giba Assis Brasil e a própria diretora − adiciona um componente a mais na vitamina de amadurecimento do nosso protagonista. Daniel passa a receber cartas de seu pai, que nunca conheceu. Fotógrafo que partiu pelo mundo com o objetivo de imortalizar imagens únicas, antes que a humanidade seja pasteurizada e as peculiaridades culturais sejam completamente homogeneizadas, Daniel (o pai, interpretado por Eduardo Moreira) tem uma crise de valores e resolve entrar em contato com o filho.

A relação dos dois é construída a partir de momentos que o fotógrafo capturou em suas aventuras mundo afora, e a intimidade é criada a distância, pela identificação com o que existe de universal no diferente: a dor, as alegrias, as dificuldades, as barbaridades, as restrições, os problemas…

A narrativa é costurada pela verborragia inocente da pequena Maria Clara (a sensacional Caroline Guedes), que, abusando da criatividade da infância, faz o contraponto entre o limbo de dúvidas e frustrações que engolfam Daniel e o mundo adulto, representado pela mãe do menino, Elaine (Janaína Kremer), e pelo padrasto, Antônio (Murilo Grossi).

“Ai…Ai… É chato ser a estrela do filme. O que eu posso fazer?”

Fruto da geração Y, conectada com o fluxo dinâmico da Internet, Daniel desacelera e reflete acerca de sua vida no relacionamento epistolar com o pai. E passa a dar importância ao que está além da tela do computador − realidades humanas que passavam despercebidas.

Ao som de Beat acelerado, hit da banda Metrô, sucesso na década de 1980 – da qual retirei alguns versos para retratar o sinuoso comportamento de uma adolescente hipotética algumas linhas acima −, “A menos que…” embarca nas indecisões de garotos, atolados no terreno movediço (natural) que separa as inconsequências da infância das responsabilidades da vida adulta.

“Acho que engoli uma mosca… Finja que é um chocolate, finja que é um chocolate…”

Qual o diferencial deste filme para a concorrência brasileira que (até o momento) apostou na mesma seara? A indeterminação patente no time de jovens protagonistas, que exala toda ambiguidade emocional e moral da idade, época em que não existem certezas. O que é bom hoje, não será mais amanhã. A falta de segurança, motivada pela falta de experiência, de adolescentes que lutam para se tornar sujeitos – que ocasiona inúmeros tropeções construtivos para a formação do caráter.

A realização merecia mais carinho do mercado distribuidor. Faço minha parte assistindo ao excelente trabalho da Ana e imortalizando minhas impressões. Espero que elas encontrem eco. Negligenciada, a produção, como todo adolescente problemático que muitas vezes só quer ser chamar a atenção, pode precisar de ajuda para ser ouvida. E eu pretendo ser o psicólogo.

Sim, sou um idealista… Um caso perdido… E nunca vou deixar de gritar. Mesmo que sozinho.

Quem quiser continuar acompanhando o sucesso do filme pode acessar o site da produção ou o blog.

Carlos Eduardo Bacellar

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Expurgo dos pecados na busca pela humanidade

Credenciado pelos seis prêmios que arrematou no Festival de Paulínia 2009 − melhor roteiro (Paulo Halm e Melanie Dimantas), melhor atriz (Cristina Lago), melhor ator codjuvante (Irandhir Santos), melhor som (José Moreau Louzeiro) e melhor montagem (Pedro Bronz) −, “Olhos azuis”, novo longa do diretor paraibano José Joffily, aquece os motores para sua estreia no circuito nacional, marcada para o próximo dia 28.

Ontem à noite, num esforço sob o binômio divulgação/medição da receptividade do público, foi realizada sessão exclusiva do filme para blogueiros, no Unibanco Arteplex. E o Doidos marcou presença.

“Olhos azuis” é um thriller que abarca elementos de suspense, drama e aventura policial. O elenco cosmopolita é formado por atores americanos, argentinos, hondurenhos e brasileiros.

O primoroso roteiro de Halm e Dimantas – que, infelizmente, ficou congelado durante nove anos, aguardando viabilidade – ganha movimento e colorido hipnóticos por meio das lentes de Joffily, e nos leva à reflexão.

Somos apresentados ao chefe da imigração do Aeroporto JFK (Nova Iorque), Marshall (David Rasche), que, em seu último dia de trabalho, resolve extrapolar sua autoridade e abusar de um grupo de latinos que deseja entrar nos EUA. Entre eles está Nonato (Irandhir Santos), um brasileiro radicado nos States que retorna ao país após visitar a filha no Brasil; Assumpta (Valeria Lorca) e Martin (Pablo Uranga), dois poetas argentinos que acreditam que seus versos terão melhor ressonância na terra do Tio Sam; Calypso (a encantadora Branca Messina), uma bailarina cubana; e um grupo de lutadores hondurenhos, liderados por Augustin (Hector Bordoni).

Ladeado por dois subordinados que almejam uma promoção que engordará seus salários − Sandra (Erica Grimpel) e Bob (Frank Grillo) −, Marshall leva os imigrantes ao limite, expondo-os a situações cada vez mais constrangedoras. Descontrolado pela bebida, que entorna como se fosse água, o chefe da imigração acaba jogando o livro de conduta profissional no lixo e humilha Nonato até o ponto em que a indignação atropela a paciência. Tal atrito gera um confronto de consequência trágicas.

O duelo entre os dois atores produz um dos mais belos momentos do cinema. A sinergia dramática lembra, não por acaso, o desempenho de Christopher Walken e Dennins Hopper em “Amor à queima-roupa”, de Tony Scott. Talvez a troca de diálogos mais antológica das últimas décadas. Nas duas situações, dois talentos entram em rota de colisão: um entorpecido pelas drogas (não preciso comentar sobre Hopper, não é verdade?), o outro acuado pela aflição fruto da humilhação degradante.  O embate expõe a chaga da paranoia americana, que não parou de infeccionar após os atentados de 11 de setembro de 2001, em contraponto com o desespero de cidadãos latinos que só querem tocar suas vidas de forma digna.

Com o espírito empalado pela culpa, o americano parte numa jornada em busca da reparação – ele está além de qualquer redenção. Como um elemento extra de suspense, o ex-buldogue da alfândega americana está com os dias contados por causa de um câncer que o consome por dentro. Marshall, em seu calvário existencial e físico, abandona o Brasil dos cartões postais e atravessa o nosso Nordeste em busca da filha de Nonato, a quem deseja indenizar. Na companhia da prostituta Bia (Cristina Lago), que acaba se tornando sua fiel escudeira, ele cruza o sertão até encontrar a bela região do rio São Francisco, e o objetivo de sua jornada. Bia e Marshall possuem caminhos distintos que, em determinado momento, se cruzam por obra do acaso. Joffily fala que os dois personagens buscam suas origens, sejam elas geográficas ou humanas:

“A Bia não é apenas um personagem funcional na história. Ela vai sendo construída no sentido de entender o que leva uma pessoa a sair de sua casa, abandonar seu passado por um futuro incerto. Ela mesma sai do sertão para o Recife. E depois volta à sua raiz. O americano, faz o caminho inverso, ele sai do seu país para reencontrar sua natureza, o que ele perdeu em sua trajetória de embrutecimento.”

É interessante destacar a interpretação de Halm, que dá contornos distintos a cada dimensão espacial: “a migra é quase uma anti-sala do inferno, e a viagem pelo Nordeste, uma redescoberta que leva ao paraíso”.

Depois da desastrosa era Bush, é inevitável pensar em Marshall como uma metáfora imperialista. Mas, o diretor nunca imaginou o personagem dessa forma:

“Nunca tratei o Marshall (David Rasche) como uma personagem metáfora. A Sandra (Erica Gimpel) e ao Bob (Frank Grillo), que apesar de suas origens negra e latina, agem de forma preconceituosa, revelam que o preconceito não é só de fora para dentro. Ele também age nas entranhas do país.”

É cômodo também imaginar uma estrutura maniqueísta ditada pelo roteiro, mas Paulo Halm não iria subestimar a inteligência do público com didatismos anacrônicos. Joffily reforça esse pensamento:

“Não existem bons nem maus na história. Todos têm razão. O Marshall, alcoólatra e revoltado com a aposentadoria obrigatória, tem razão em muitas de suas falas. Ele está doidão, mas suas considerações estão presentes em corações e mentes americanas. Idem o Nonato (Irandhir Santos). Ele também interpela os oficiais de forma abusada, mas suas falas revelam um julgamento comum a boa parte dos latinos.”

A relativização da verdade também reforça as fronteiras ambíguas que separam direitos e deveres dos protagonistas. Na verdade, o antagonismo é determinado pela força da situação, como bem delineia Halm:

“Não existe uma verdade única, todos têm razões diferentes, a verdade se torna um mosaico, vai mudando à medida que o ponto de vista é deslocado. Ela toma a forma tanto do americano quanto dos latinos. O Marshall com toda a sua arrogância quer transformar o último dia dele na imigração num espetáculo. Mas ele perde o controle e a situação acaba se voltando contra ele.”

Destaques do filme, montagem, fotografia – capturada pelas lentes de Nonato Estrela, que explorou com competência as belíssimas paisagens do nordeste brasileiro − e som maravilham os sentidos e criam as condições necessárias para que ocorra a simbiose perfeita entre interpretação e encenação. A edição é definida por Halm como um jogo de espelhos que brinca com a faceta cronológica:

“Criamos uma duplicidade de leitura: a ideia de sair do inferno em busca do paraíso. A história é contada em tempos paralelos, criando um jogo dramático interessante. O tempo da migra, mais tenso e agressivo. E o tempo da viagem de Marshall (Recife a Petrolina), num ritmo de observação e percepção.”

A habilidade na utilização do som foi fundamental para definir os espaços e criar identidades para as ambientações, coroando tanto o trabalho de José Moreau Louzeiro como o de Jaques Morelenbaum (trilha sonora), como confirma Joffily:

“Assim como no tratamento fotográfico, também no som, procuramos distinguir os dois mundos, reforçar as diferenças também na edição de som: o espaço da migra e o Nordeste. A migra não comportava música, ali, apenas os ruídos deveriam reinar. Caprichamos nesse tipo de sonoridade, dispensando a melodia. A fotografia, a edição de som, a direção de arte, tudo foi numa única direção. A música atonal do Jaques (Morelenbaum), contribuiu generosamente com a ruidagem do filme. De modo que, algumas vezes, fica difícil identificar o que é uma e outra.”

Não há como ficar impassível às violências do filme – a psicológica; a que é imposta pelas circunstâncias de pobreza e privações; e a de fato. E o mais perturbador é perceber que nem toda repressão do mundo é à prova de falhas. Paulo Halm ilustra o discurso vazio do poder:

“Ironicamente os únicos que entram nos Estados Unidos estão com droga, os argentinos que são mulas, estão participando do logística do tráfico. Essa ironia torna o discurso do controle vazio e inócuo. Apesar de todo o aparato de controle da migra, o discurso não funciona. Da mesma forma que eles deixaram passar os caras que derrubaram as Torres Gêmeas.”

“Olhos azuis” tem um quê de militância. Muitos vão encará-lo como um libelo contra a intolerância. Nas palavras de Halm, o sinal amarelo está aceso:

“Qualquer pessoa que já viajou para fora do Brasil, passou, em algum grau, por constrangimento. Parece que o viajante cometeu algum crime. Em tese somos meliantes, contrabandistas. Seja na ida, seja na volta, devemos nos submeter a algum tipo de ritual de exceção, somos mal tratados fora e dentro do país. Inevitavelmente qualquer viajante vai passar por algum tipo de desconforto. Ocorre que as metrópoles estão recebendo hordas. Isso é uma bomba relógio.”

Na cena final, Marshall caminha em direção aos braços de Iemanjá e lava nossa alma com o que de melhor surgiu na filmografia nacional este ano. A água salgada deixa um gosto amargo em nossas gargantas, mas desidrata atitudes que escondem horrores, e abre o canal para o diálogo.

Carlos Eduardo Bacellar

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Paulo “Kaufman” Halm nos delicia em apenas 90 minutos

Paulo Halm é o Charlie Kaufman do Spike Jonze de realizadores do quilate de José Joffily, Sandra Werneck, Sérgio Rezende e Hugo Carvana. Assim como Kaufman, que não conseguiu manter seu talento circunscrito ao universo do texto, e se aventurou na direção com o complexo e reflexivo “Sinédoque, Nova Iorque” (2008), Halm sentou na cadeira de diretor e transpôs para as telas seu roteiro do longa “Histórias de amor duram apenas 90 minutos” – ele já tinha experiência na direção de curtas e médias-metragens.

Assim como Kaufman, Halm brinca com a metalinguagem para estruturar seu excelente enredo. A narrativa é embalada pelo triângulo amoroso entre Zeca (Caio Blat, irrepreensível), um aspirante a escritor com trinta anos na cara que não consegue sair da página 50 de seu primeiro romance, sua mulher, a determinada e ambiciosa professora Júlia (a belíssima Maria Ribeiro), e a estonteante gringa Carol (a argentina Luz Cipriota, que me fez entender a escolha de Matt Damon), que com seu jeito descolado e provocador incendeia desejos.

Acometido pelo ciúme fruto da falta do que fazer, Zeca dá vazão às fantasias mais loucas de sua imaginação e enxerga um caso entre Júlia e Carol, passando a viver entre realidade e loucura. A beleza e o charme da suposta amante perturbam o rapaz, que acaba se apaixonando por ela (ou melhor, achando que se apaixona).

O turbilhão emocional que esgarça Zeca ganha forças na sua relação com seu pai Humberto (Daniel Dantas). Ele mesmo uma promessa de escritor que nunca se realizou, utiliza o filho como repositório de sua insatisfação. Humberto, como muitos pais, via em seu filho uma caderneta de poupança que, infelizmente, foi confiscada por circunstâncias da vida.

O filme – no qual Halm trança com habilidade e sutileza drama e comédia − é o reflexo de uma geração que vive num limbo entre a realização e a depressão. Geração caracterizada pelo fato de ser incompleta, de não concretizar nada, de deixar tudo para depois – o tempo passa e os projetos são abandonados ao longo do caminho. Quando consegue alguma estabilidade (estagnação, para ser mais preciso) em sua vida pessoal e (pseudo) profissional, Zeca se sabota, com medo do diferente – ele não quer descobrir aonde seu talento e suas emoções podem levá-lo.

Ao ser comparado com o escritor Rubem Fonseca (o maior contista brasileiro vivo), Zeca se irrita e repudia tal comentário, mas em casa tem uma estante cheia de livros do autor de “Feliz Ano Novo”, a quem venera e inveja nas sombras. Balizado for um deturpado senso de moral, ele não acha correto se relacionar com duas mulheres ao mesmo tempo – somente porque lhe convém: a amante lhe dá mais tesão que sua própria esposa.

Em determinado momento, nosso protagonista reflete sobre os porquês de seu bloqueio criativo. Ao imaginar personagens, toda ficção criada em torno delas acaba voltando para o ponto de origem: o próprio escritor. Como sua vida não anda, seu texto segue o mesmo caminho e esbarra no excesso de páginas e falta de tinta da frustração.

Com diálogos inteligentes, Halm, mostrando-se seguro no ofício, acaricia gentilmente a metalinguagem, para depois pegar no dente a calcinha da função e virá-la do avesso. Zeca questiona as escolhas da personagem de seu romance inacabado, que troca o terreno sólido de uma profissão liberal para se entregar às incertezas da arte (como o Rubem Fonseca, não é verdade?). Cuspindo na refeição que ele mesmo preparou, desavisadamente coloca em xeque sua própria existência. Por meio da literatura, nosso protagonista vomita em suas escolhas pessoais, em sua vida medíocre – e transpira toda sua contradição ao andar de roupa social nas areias de Ipanema e se entregar a práticas sexuais impensáveis para alguém que se imaginava heterossexual convicto.

A semelhança entre Kaufman e Halm não para nos filhos únicos na seara de longas (por enquanto) paridos pelos dois no comando das câmeras. As lentes de ambos perfuram a couraça de suas criações e atingem o cerne de cada uma, que é alimentado pela angústia. Assombrado pelo medo da rejeição e do fracasso, Zeca dá as mãos para a dor da personagem de Nicolas Cage (o próprio Kaufman) em “Adaptação” (2002). Nos dois filmes, situações extremas levam os protagonistas a tentar escalar em direção à saída do poço. Se eles vão conseguir sair é outra história que não pode ser resolvida em noventa minutos. Apesar disso, cada segundo capturado pelas lentes de Halm é imperdível!

Carlos Eduardo Bacellar


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Amor: encontros, desencontros e dois filmes iguais!

Mulher adora uma comedinha romântica. E lá fui eu me meter a assistir a dois filmes – iguais – hoje. “Idas e Vindas do Amor” (que acaba de estreiar) e “Ah… O Amor!” só têm de diferente a nacionalidade.

“Ah… O Amor!” é italiano, cheio de personagens hiperbólicos (falam demais, gritam demais, são excessivamente melosos e dramáticos…) e assim se consideram doutores em relações amorosas. Se metem em historinhas previsíveis – crise da meia-idade com trilha sonora”Sex Bomb” (de chorar de rir!), do divórcio, da mulher apaixonada pelo padre, da briga por custódia dos filhos, dos pais confrontados com a iniciação sexual dos filhos e etc etc – e passam boa parte do filme acreditando na razão que a própria razão desconhece; como homens vítimas de mulheres coração de pedra. Será? Bom, lindinho é o romance do casal jovem que monta o quebra-cabeças do amor à distância. Ambientado entre a França e a Nova Zelândia, eles nos surpreendem, encantam, desencantam, têm a nossa torcida, deixam a gente quase no desespero para, enfim, viverem juntos para sempre. É bonito de ver o amor embalado por Creed, James Blunt e suas baladinhas que fazem o coração bater mais forte, como no – é um spoiler – encontro dos dois na escada rolante do aeroporto de Hong Kong, no final do filme. Claro que não faltaria um aeroporto. Quantas dezenas de vezes aeroportos já foram sinônimos de encontros e desencontros amorosos na história do cinema?

O casal jovem valeu o ingresso. Desperdício foi “Idas e Vindas do Amor”. Por que não me deixei influenciar pelo Ely Azeredo, crítico de “O Globo”, que dificilmente erra e já tinha aniquilado o filme esta manhã? Por quê? A tentativa foi de repetir o filme inglês (bonitinho) “Love Actually” (2003), com aeroporto, é claro, mas sem Colin Firth, Hugh Grant e Rodrigo Santoro. É um elenco de primeira, em que Anne Hathaway (a musa do Carlinhos aqui do Blog) e Jennifer Garner se destacam, enquanto ótimas atrizes como Kathy Blates e Shirley MacLaine e seus fantasmas me perseguem perguntando o que fazem ali. As obviedades se cruzam, como em “Ah… O Amor!”, e todas levam ao final feliz. A “amizade” de Julia Roberts e Bradley Cooper no avião rende um bom texto e desenlace de fazer qualquer mulher se desesperar… Assistir ao Bradley Cooper nos braços de um – é um spoiler – jogador americano é triiiste. Fiquei mal. E para completar o festival dos horrores, o filme ainda” surpreende” com um casamento indiano em pleno dia dos namorados, celebrando a infelicidade das mulheres solteiras. Se você ainda não se convenceu, see for yourself. Agora, se confia na opinião de quem vos escreve, não perca seu tempo. Mesmo.

Finais felizes merecem vida real, pois ter que engolir mesmices no cinema é chatíssimo. O tempo do amor na vida cinematográfica dura 2h ou 90 min, como Paulo Halm sugerirá em poucos dias, assim que “Histórias de Amor duram apenas 90 minutos” entrar em circuito comercial. Até lá, “filmes de amor” permanecerão iguais nos encontros e desencontros.

Helena Sroulevich

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