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Dicotomia almodovariana

Almodóvar encontra na perversão a melhor forma de expressar a interseção entre amor e ódio. Quando os dois sentimentos são sobrepostos pela ruptura, as externalizações do desejo se tornam multifacetadas variando do carinho à loucura homicida.

Em “A pele que habito”, o cirurgião Robert Ledgard (Antonio Banderas) é o vetor das perturbações de Almodóvar. Destroçado pela morte da mulher que comete suicídio após um acidente de carro que a deixa deformada e da filha que sofre de distúrbios mentais, acentuados depois de uma suposta tentativa de estupro , Ledgard direciona suas obsessões para um plano de vingança que envolve seu trabalho. Criador de uma pele sintética revolucionária, ele encontra no sofrimento o combustível para conciliar o acerto de contas com suas pesquisas de metodologias questionáveis.

Após a sessão, não procure entender ou justificar o comportamento de Ledgard. A arte de Pedro Almodóvar se funda em incertezas. O cineasta espanhol não tentar delinear, no caleidoscópio do desejo doentio, o que pode ser definido como vingança, possessividade, loucura, obsessão, imoralidade, perversidade. Tudo se confunde dentro de uma mente avariada pela dor, ofuscada pelas fagulhas geradas pela superposição entre amar e odiar.

Uns gostam do filme e se identificam com a forma inortodoxa por que o realizador exprime seus entendimentos acerca das nuances referentes à primeira dimensão; outros detestam e acreditam que Almodóvar, falido esteticamente, vem deturpando suas obras com apelos chocantes, mas vazios. Assista e tire suas próprias conclusões.

Não sei não… Algo me diz que Todd Solondz cronista dos traumas e perversões escamoteadas da classe média ianque e Pedrito iam se entender muito bem.

O Festival do Rio 2011 começou para os Doidos! Vamos que vamos!

 Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Em tempo… Todd, o ingresso para “Dark Horse” já está na mão!

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

La Piel que Habito

Não adianta. Pedro Almodóvar é o rei da transgressão. E eu poderia parar por aqui.

Fã de carteirinha do rapaz (quem me conhece, sabe…), tenho aquela predisposição para amar tudo que ele faz. Mas não é gratuito. Juro. O cara ousa completamente. Em tudo. Em “La Piel que Habito”, parte da mostra competitiva aqui de Cannes, conta a história de amor, “re-amor”, ódio, vingança e sangue — muito sangue — que envolve a troca de sexo (i.e. vaginoscopia) de Vicente/Vera (Jan Cornet/Elena Anaya) pelo cirurgião plástico Robert (Antonio Banderas, DEMAIS!). Nas entrelinhas, Almodóvar ainda critica os métodos inescrupulosos e politicamente incorretos, como o uso de transgênicos, que “doutores” usam para operar pacientes.

Este é daqueles filmes que TÊM QUE SER vistos. Ponto final. Almodóvar no alto da maestria (aliás, que roteiro!!). Meu pai saudoso, Nei Sroulevich, adoraria! É o tipo de filme dele. Aliás, as comuns tiradas brasileirinhas, também parte deste filme, que revelam um afeto especial de Almodóvar pelo nosso país, não devem ser gratuitas. Almodóvar ganhou o Brasil e a América Latina com “O Matador” (1986) e “A Lei do Desejo” (1987) no antigo FestRio. E quem dirigia o Festival era o papai. Ou seja, o mundo dá voltas, mas sempre cai no mesmo ponto. 😀

Helena Sroulevich

P.S. Minha ótima professora de redação Raquel Falabella diria para eu jamais começar um texto com “Não”. Mas NÃO teve jeito. Porque, SIM, Almodóvar é o rei da transgressão.

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Arquivado em Filmaço!!!, Helena Sroulevich

Almodóvar para presente

“Porque o amor é a coisa mais triste do mundo, quando se desfaz.”

Trecho da música “Amor em paz”. Composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Pedro Almodóvar já ficou tempo demais longe deste blog. Há poucas semanas, motivado por aquela comichão cinéfila, me embrenhei no universo almodovariano e tive uma overdose de obras-primas num intervalo de 2 dias: “Tudo sobre minha mãe” (1999), “Fale com ela” (2002), “Má educação” (2004) e “Volver” (2006).

Dos quatro, “Fale com ela” chamou minha atenção pela forma com que o realizador espanhol trata da incomunicabilidade do indivíduo, derivada do isolamento sentimental voluntário. Isolamento que pode ser motivado pelo(a) medo, orgulho, dúvida, egoísmo, perda. A paleta emocional é sortida.

Almodóvar, homossexual assumido, procura sublinhar temas considerados tabus – muitos polêmicos − em algumas de suas obras mais significativas. “Tudo sobre minha mãe” aborda o transexualidade; “Má educação” expõe escândalos de pedofilia envolvendo a Igreja; já em “Fale com ela”, Almodóvar manda a liturgia para o espaço e permite que suas câmeras profanem assuntos que deixariam qualquer carola de cabelo em pé. A produção conjuga psicopatia, coma, estupro, amor e amizade num roteiro brilhantemente construído, escrito pelo próprio diretor.

O cineasta espanhol abre seu filme rendendo uma homenagem ao teatro, de forma que sua encenação fique perdida entre o improviso e a instantaneidade dos palcos e o controle e o método captado pelas lentes − instinto versus racionalidade. Sentados lado a lado na plateia do espetáculo Café Müller, da coreógrafa alemã Pina Bausch, que mistura elementos do teatro e da dança, os protagonistas de “Fale com ela” se encontram pela primeira vez, por obra do acaso: Benigno Martín (Javier Cámara) e Marco Zuluaga (Darío Grandinetti). Este chora emocionado, enquanto aquele contempla por breves segundos as lágrimas do vizinho.

No drama, os dois núcleos de personagens, impelidos pelo amor (que alimenta a fornalha da esperança), se chocam novamente (e definitivamente) nos corredores frios de uma clínica particular. Descobrimos que Benigno Martín é o abnegado enfermeiro responsável por Alicia (Leonor Watling), uma paciente em estado de coma. Já o jornalista Marco Zuluaga, após convalescer de uma frustração amorosa no passado − que deixou cicatrizes profundas −, encontrou novamente o caminho para a felicidade nos braços da toureira Lydia González (Rosario Flores). Só que o destino teima em ser cruel com Zuluaga, que testemunha Lydia ser atropelada por um touro de meia tonelada ao exercer seu ofício. Resultado: a toureira é condenada ao estado vegetativo para o resto de sua vida, condição similar à de Alicia.

No ambiente asséptico da clínica, duas formas de afeto, metamorfoseadas em sentimentos distintos, aproximam os dois. Benigno, que vem cuidando de Alicia ao longo de quatro anos, acaba se apaixonando por ela (ou acreditando que está apaixonado). O enfermeiro conversa com a paciente como se ela pudesse entendê-lo, o que mitiga conflitos ao transformar a “relação”, que deveria ser construída com base na troca, em um monólogo.

Já Zuluaga desenvolve uma aversão por Lydia. Sem compreender que a relação dos dois já passava por turbulências antes do acidente, ele acredita que agora não existe mais possibilidade de estabelecer conexão com a pessoa que ama. Não consegue nem mais tocá-la. Amparado por Benigno, Zuluaga, ao velar por Lygia, vai decodificar o silêncio por meio das palavras de terceiros, e enxergar o que nem mil verbalizações poderiam ilustrar com tal clareza. Lygia estava mais distante de Zuluaga do que Plutão da Terra.

Um diálogo entre os dois protagonistas merece ser destacado:

Benigno (em resposta à frustração do amigo): “Fale com ela (Lydia). Conte isso a ela.”

Zuluaga: “Gostaria, mas ela não pode me ouvir.”

Benigno: “Como você tem certeza disso? A mente da mulher é um mistério, ainda mais neste estado. Tem de prestar atenção nelas, falar com elas… Pensar nos pequenos detalhes… Acariciá-las. Lembrar que existem, que vivem e que são importantes para nós. Esta é a única terapia.”

A história sofre sua reviravolta quando Benigno ultrapassa limites éticos e é acusado de um ato moralmente condenável. Almodóvar, trabalhando com o talento do ator, aflora a ambiguidade sexual e moral do enfermeiro, que, numa interpretação apressada e preconceituosa, poderia nos levar a imaginar que Benigno flerta com a misoginia. Com toda sua qualidade dramática, Javier Cámara carrega seu personagem de tons ingênuos, o que relativiza a má índole de seu comportamento. E a situação acaba se invertendo, com Zuluaga retribuindo ao amigo o conforto que lhe foi dispensado na clínica, agora em outro ambiente sufocante.

Alicerçado por uma estrutura narrativa não linear, que dá saltos temporais intercalando passado e presente, o realizador espanhol traça o contorno de um discurso alegórico sobre os obstáculos da vida a dois, e como eles podem ser galgados (ou, pelo menos, compreendidos) ao se estabelecer um canal de comunicação com o outro. Nós, finalmente, entendemos o verdadeiro motivo do choro mudo de Zuluaga no início da produção. O que o emocionava não era a peça, mas o fato de não poder partilhar aquele momento com a mulher amada.

É curioso como, neste filme, Almodóvar torna pouco evidente o expressionismo das cores que funciona como espécie de assinatura do diretor. Praticamente toda a exacerbação da aquarela se restringe às touradas, época em que os olhos de Zuluaga voltaram a brilhar, norteando seu coração para uma nova paixão.

“Fale com ela” também destaca o fascínio do diretor pelo Brasil. As referências são várias: a música que acompanha uma das cenas de tourada é Por toda a minha vida, na voz da Elis Regina; Caetano Veloso faz uma ponta no filme interpretando, com o músico Jacques Morelenbaum, a canção Cucurrucucu Paloma, de Tomás Mendez Sosa; Zuluaga elogia explicitamente Caetano no filme, e ainda faz referência a um trecho de letra musical composta por Tom e Vinicius.

Aí está o pacote completo: teatro, cinema, música, dança, Almodóvar, amor, polêmica e Brasil.

Fecho este post com um diálogo entre Benigno e a enfermeira Rosa (Rosario Fuentes), no momento em que ela duvida que Alicia possa um dia acordar:

Rosa: “Depois de 4 anos seria um milagre.”

Benigno: “Acredito em milagres. Deveria acreditar também.”

Rosa: “Por que eu?”

Benigno: “Porque precisaria deles. Pode até acontecer um, mas como você não crê, nem perceberia.”

Carlos Eduardo Bacellar


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