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Mais estranho que a ficção

Fonte:deviantart

A possibilidade de ser outros é, mais que uma vantagem de um romancista, um dos encantamentos do ofício. Por meio da ficção é possível não somente experimentar outra realidade como um observador neutro, num exercício de “Quero ser John Malkovich” (Spike Jonze, 1999), mas, como um arquiteto onipotente, com ambições grandiosas e uma necessidade de controle extremo sobre sua obra, predicados do diretor de teatro Caden Cotard, interpretado por Philip Seymour Hoffman em “Sinedóque, Nova Iorque” (Charlie Kaufman, 2008), influenciar destinos – da mesma forma que Karen Eiffel (Emma Thompson), com sua imaginação, determina os passos do auditor Harold Crick (Will Ferrell) em “Mais estranho que a ficção” (2006).

Caden estabelece uma relação paradoxal com o escritor Calvin Weir-Fields (Paul Dano), projeto de Jerome David Salinger em “Ruby Sparks”, novo longa do casal de diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris, responsáveis pelo magistral “Pequena Miss Sunshine” (2006). Cotard erige sua obra-prima como uma representação teatral de sua biografia, ainda em andamento e sobre a qual não exerce nenhum controle, frustração que ele tenta sublimar enquadrando sua vida nos limites estéticos de um cenário monumental – fronteiras do palco de uma existência que se transformam num imenso divã psicanalítico. O diretor faz e refaz os episódios prosaicos de sua história – num estilo narrativo que lembra o do escritor Jonathan Franzen, condutor de ações mortas, que aceleram nos movimentos interiores dos personagens dando a falsa impressão de não agitar a superfície das relações, embore perturbe profundamente a conformação de círculos sociais – até que os mínimos detalhes estejam de acordo com suas idiossincrasias.

Calvin sente um incômodo semelhante ao de Caden, gerado por uma forte inadequação que se traduz quase numa misantropia. Tímido, angustiado, recluso, esquisito, confuso, com pinta de Michael Cera, sem traquejo social para lidar com pessoas, principalmente as mulheres, ele sofre com a expectativa de seus leitores, ansiosos por um segundo romance tão genial quanto o primeiro, sucesso de público e crítica. O problema é que Calvin sofre de um bloqueio criativo; não consegue mais escrever.

Para driblar a falta de inspiração, Calvin cria um enredo cuja protagonista, Ruby Sparks (Zoe Kazan; sim, neta do cineasta Elia Kazan e roteirista da produção, além de namorada de Dano na vida real), é a mulher perfeita segundo seus critérios subjetivos. Ocorre que perfeição é uma palavra refratária a gêneros e, como Narciso acha feio o que não é espelho (e não existe raça mais narcisista do que escritores, exceto jornalistas), o autor cria uma versão feminina que espelha seus desejos – ou melhor, uma visão movida a estrogênio de si mesmo. Tudo correria bem se, primeiro, ele não se apaixonasse por ela, e, segundo, se ela, num movimento woody-alleniano à moda de “A rosa púrpura do Cairo” (1985), não transpusesse as barreiras entre a ficção e a realidade.

Fonte:trumpetwithme

Neste momento, as experiências de Caden e Calvin encontram seu ponto dicotômico. O jovem escritor pode controlar sua criação (ou criatura?). Mas, como Ruby é uma idealização do imaginário de Calvin, ele a coloca num pedestal e, satisfeito com seu projeto, decide não mais influenciar os rumos de Ruby por meio de sua escrita. Tudo muito bem na teoria, até a garota resolver se emancipar, fugindo da narrativa planejada pelas palavras de Calvin. Perturbação, descontrole, decepção, impotên… Esse último substantivo pode ser corrigido na máquina de escrever. Controlar a vida de outra pessoa para enquadrá-la numa necessidade específica se torna irresistível. Ruby se torna uma caricatura das aspirações de seu idealizador.

Na proposta estética de Jonathan Dayton e Valerie Faris, a frustração é o efeito colateral do descompasso social que atormenta os personagens. Em “Pequena Miss Sunshine”, uma garotinha era o depósito de sonhos frustrados, instrumento de alívio para a incompletude alheia numa sociedade – a americana – que persegue o sucesso a qualquer custo. Ruby Sparks era a suposta panaceia para um vazio, embora fosse um espelho fraturado do próprio Calvin, no qual ficam patentes as imperfeições que ele tenta encobrir com artifícios da teoria literária que não dão conta das possibilidades do real – não existe teorização para viver.

Paul Dano atua com extrema competência; seu trabalho em “Sangue negro” (2007), do diretor Paul Thomas Anderson, atesta seu talento. Em “Ruby Sparks”, com seu semblante de dor e angústia ao estilo Jim Caviezel, prenunciando um choro a qualquer instante, expressa, com sua competência dramática, o esforço de seu personagem para se tornar J. D. Salinger – que, ironicamente, só o aproxima ainda mais de Holden Caulfield. Quando Calvin percebe que autor e criação são um só, mais um reflexo de seu paralelo com Caden Cotard, compreende que a surpresa de experimentar uma história a ser escrita é mais sadio que tentar controlar o incontrolável: sua própria narrativa fora do papel.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Mais artes alternativas de “Ruby Sparks” aqui.

Fonte:deviantart

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Moneyball

Ciências e humanidades. Áreas do conhecimento que “antagonizam” no campo das ideias, muitas vezes colocando em lados opostos lógica e intuição, podem provocar revoluções ao convergirem com inteligência para um ponto de menor tensão. Tal simbiose, nem sempre óbvia, nunca descomplicada, pode gerar, na interseção de habilidades, a criatividade necessária para transformar algo tão emocionante e mobilizador como o esporte. O ônus da empreitada, açoitada pelas exigências mercadológicas de práticas que não se bastam mais, pode ser a desromantização de uma instituição americana, o beisebol, no imaginário ianque.

Correndo riscos, o diretor Bennett Miller (“Capote”, 2005) desafia paixões ao transpor para as telas o romance Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game, do jornalista Michael Lewis, supostamente baseado numa história real. Em português o título escolhido foi “O homem que mudou o jogo”. E esse homem é o personagem de Brad Pitt.

Na briga pelo Oscar de melhor ator (vai entender a cabeça dos membros da Academia…), Brad Pitt interpreta Billy Beane, o gestor executivo da equipe Oakland Athletics, ou Oakland A’s para os mais chegados. Para ilustrar a situação da equipe, Beane se vale da espirituosidade: “Existem times ricos e pobres. Aí, tem 15m de merda e depois a gente.” Pelo menos o A’s está adubado…

Ex-promessa do esporte, Billy, quando jovem, teve suas expectativas frustradas em algum lugar entre a teoria e a prática. Agora, com um orçamento apertado em mãos, terá de fazer malabarismo financeiro para montar uma equipe competitiva.

Em uma de suas negociações de compra/venda/troca de atletas, Billy se depara com Peter Brand (Jonah Hill). Adepto das teorias de Bill James – que colocou o beisebol num quadro negro e desmebrou todo o contexto inerente ao termo em equações –, Brand é um economista formado em Yale que enxerga no beisebol não um rol da fama, mas um tabuleiro de xadrez em que cada peça serve a um propósito específico.

Limitado pela falta de grana, sem ter como competir nos moldes tradicionais, Billy aposta nas estatísticas e abstrações numéricas de Brand e monta uma equipe de renegados que, dentro de um padrão coletivo, desenhado pelos cálculos, pode gerar resultados com um aporte modesto de dólares. A nova relação custo/benefício implementada no A’s indispõe Billy com os cartolas do time e coloca seu futuro no mercado do beisebol em jogo.

Deixando de lado todo o beisebolês do filme, que pode assustar quem é proficiente em futebolês, “O homem que mudou o jogo”, ao apresentar a dicotomia entre números e sentimentos envolvidos em um jogo que vai além das vitórias e das cifras milionárias, perde um pouco de força ao desenvolver de modo ralo o tema da redenção, tão caro aos americanos.

Na tentativa de extrair poesia da matemática, o roteiroconstruído por Aaron Sorkin (“A rede social”, 2010) e Steven Zaillian sobre a história de Stan Chervin — entrelaça as oscilações da história de Billy com os rumos do Oakland A’s, tornando toda aquela conformação determinista esperada e piegas. Os melhores momentos de Pitt no filme passam longe das quadras em formato de diamante. Contracenando com Kerris Dorsey, sua filha Casey na ficção, ele transparece o lado paizão, doce e preocupado, distante da frieza pragmática com que promove trocas e demissões.

Por outro lado, para quem ainda tinha dúvidas, a produção consagra o talento de Jonah Hill. Em “Cyrus” (2010), Hill já havia demonstrado capacidade para segurar papéis que se esquivam do cômico caricato e se embrenham nas perspectivas do trágico – fragmentado em nuances interiores que vão da psicopatia à ingenuidade. O gordinho desajeitado e engraçado cresceu, deixando sua parte Jack Black de lado e assumindo cada vez mais seu lado Philip Seymour Hoffman.

Carlos Eduardo Bacellar

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Cool Clooney

 

Nossa veia não resiste ao declínio do Império Americano e vamos com “Tudo pelo Poder” na despedida de 2011. Quanto a George Clooney, confesso, é aquela chuva no molhado feminino com direito a Globo de Ouro.

Keep cool…

É verdade que nossos irmãos do Norte adoram a catarse sobre o poder deles. Mesmo assim, meu alento perdura ao sair da sala de cinema, ainda que a esquina do Leblon já tenha cervejeiro demais. Huum… Deve ser esse estilo Clooney (vide Nespresso): cool, original e temporão, um quê balzaquiano de boa safra. Quase noir, embora a cores, o filme é uma certeira síntese entre drama político e thriller, ficção, documento e POLÍTICA.

George, para os íntimos, vem de gostosa contenção. Com (aquele) olhar rasgado, narrador em terceira pessoa e personagem (Governador Mike Morris, candidato à presidência), traz lembranças de “Todos os Homens do Presidente”,”JFK”, “Nixon”, “Nos bastidores da notícia”, “O Presidente”, The West Wing e ainda o caso Monica Lewinsky, a estagiária de Bill Clinton. Porém, qualquer referência desta no personagem de Evan Rachel Wood, é uma mera coincidência, dado que para todo político charmoso há sempre uma boa estagiária…

Nada vulgar no filme, entretanto. Caricaturas passam ao largo. A lente se insinua pela fenda, digladia-se com a linhagem das obras sobre os escaninhos do poder, as campanhas presidenciais e o controle da informação. Violento é o cinismo e ferino é o vazio que se instala na medula da democracia made in USA.

Sim, a história política norteamericana está repleta de The Ides of March (título original de “Tudo pelo Poder”). Adaptação de uma peça de Beau Willimon, também co roteirista, a expressão se refere a 15 de março no calendário romano, ao ponto do meio, à lua cheia e a Julio César, quando um adivinho previne o imperador romano sobre os que tramam contra ele, no drama de William Shakespeare.

O protagonista do filme, o comunicador Stephen Myers (personagem do excelente Ryan Gosling), apesar de descrito como idealista nas sinopses em circulação, é por demais inteligente para ser naive. A interpretação, sob a batuta de Clooney, contém um tom necessário de farsa, desde o início. Ao se tornar o alvo da corrupção, o golpe de Stephen é de mestre, uma vendetta na democracia (como num regime autoritário). No clímax, o bloco do poder se assume intérprete da vontade cidadã. Rearranja-se, após ceder ao dono da área, o Senador Thompson (Jeffrey Wright), um negro, a propósito… Quanto à mídia, faz de tudo pelo poder, mas não é poder algum: apenas se ajoelha ao interesse dominante.

Mais que ilustres coadjuvantes — Philip Seymour Hoffman (Paul Zara), Paul Giamatti (Tom Duffy), Marisa Tomei (Ida Horowicz) — alicerçam a moldura. Como nas obras em círculo (vicioso), “Tudo pelo Poder” termina como começa. Stephen Myers (Ryan Gosling) será apenas — e sempre — o fantoche que antecede a cena do candidato. Não voltará a ser como antes, embora seja o mesmo.

Claudia Furiati

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O falso paraíso urbano

Pedofilia, estupro, assassinato, masturbação… Pois é, o diretor americano Todd Solondz não pega leve ao radiografar a classe média americana em “Felicidade” (1998), filme que muitos apontam como a obra-prima do autor de “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995).

Por meio de suas lentes implacáveis, o realizador detecta a massa cancerígena altamente agressiva que corrói as relações humanas de quem, teoricamente, tem tudo. Solondz implode a falsa ideia de que os subúrbios dos EUA abrigariam o paraíso na Terra, e erige uma obra carregada de selvageria psicológica. Já deu para entender que “Happiness” (título original) está mais para “Sadness”. Não há como não ficar incomodado.

Para a alegria de quem curte o trabalho do diretor, o DVD, mais um produto da grife-cult Lume Filmes, incrementa seus extras com uma entrevista concedida por Solondz ao crítico de cinema Carlos Helí de Almeida, pouco antes do lançamento do filme no mercado brasileiro, em 1998, e a íntegra da crítica escrita por Kleber Mendonça Filho.

“Ninguém sabe ao certo a cor, diâmetro ou aparência desse produto luxuoso e muito procurado chamado felicidade”. Assim Mendonça inicia, ironicamente, seu texto sobre a produção que ele considera um “réquiem para os emocionalmente excluídos”. Logo no início de “Felicidade”, ainda nas palavras de Mendonça Filho, Solondz “reflete acerca da importância de sermos amados, e o horror de sermos rejeitados.” Os hiatos nos diálogos são objetos de interesse estético do diretor. Mas, diferentemente de filmes como “Lemon Tree” (2008) e “O que resta do tempo” (2009), Solondz investiga o silêncio de situações constrangedoras com um senso de humor doente – e não espera que surjam entendimentos dele, mas rupturas azedas.

Segundo o crítico, “o talento do diretor conjuga ironia e féu”.

“O horror é explorado num clima de humor desconcertante que desperta nas plateias o riso de hienas. É preciso ter senso de humor demente para rir.”

As cenas nas quais fica implícito o comportamento criminoso e moralmente condenável de Bill Maplewood (Dylan Baker) – tratadas com certa inocência cômica e amarga − são chocantes e sintomáticas. E certificam a ousadia do diretor ao abordar temas tabus.

Mendonça Filho continua: “Nada é visualmente sombrio, e temos a impressão de estarmos numa sorridente propaganda de margarina, sonorizada como novela dos anos 50.”

Ao enfocar diferentes núcleos de personagens, ligados por laços familiares ou sociais, Solondz, sem a menor complacência, trata seus protagonistas com ironia e sarcasmo ao desvelar a indigência emocional que assola o íntimo de cada um.

A alienação, o hedonismo oco e os comportamentos psicóticos são cultivados como remédios para a depressão e o vazio existencial. Mendonça Filho alfineta nossa inércia moral dizendo que os personagens fazem “Os Simpsons parecerem as Chiquititas.”

Helí de Almeida enxerga no estereótipo do subúrbio americano (na ótica de Solondz), terreno fértil para os exercícios estéticos do diretor, “um depósito de traumas e perversões escamoteadas.”

Na essência, é um filme sobre a dissolução de relações pela ausência de comunicação — amplificada pelo individualismo trinitrotoluênico patente nas sociedades de consumo, que se definem pela riqueza material.

A autoralidade doentia (mas encharcada de lucidez) de Solondz não deixa ninguém indiferente. “Felicidade” penetra fundo em nossos valores, e sem lubrificante. Alguém se arrisca a responder onde vivem os monstros?

Carlos Eduardo Bacellar

Ah, sim… Já ia me esquecendo… Uma das trilhas musicais que embala os infortúnios vividos pelos personagens de Solondz em “Felicidade” é “All out of love“, do Air Supply. Mais uma música oferecida pela rádio pirata Doidos por Cinema. Do fundo do baú. Bem sugestiva:

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