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Que opinião pública?

Antes de qualquer coisa, peço permissão às centenas de leitores diários deste blog. Não é um texto de cinema. Mas é quase.

As verdades da “opinião pública”:

O PT é corrupto. Se comparado a outros, o PT é um dos partidos menos corruptos da história. Só que durante o Governo do PSDB (não falarei de Lula ou FHC para tirar o ingrediente “pessoalidade” do debate) as instituições simplesmente não funcionavam. Entendem-se instituições como a Polícia Federal, o Ministério Público e tantas outras inabilitadas pelo choque de “Reformas” privatizantes, onde (tímidas) denúncias de corrupção floresceram, mas não contaram com o eco da (tímida) “opinião pública”. E como muito bem lembrou a Krista (que também assina este texto), é da base do PT que nasceram iniciativas como o orçamento público participativo e a implantação de conselhos consultivos que permitem um maior controle social do Estado pela população – instrumentos fundamentais para a Transparência e combate à Corrupção.

O PV tem projeto para o país e a Marina Silva era uma excelente candidata às eleições presidenciais. Só a “opinião pública” acredita nisto. Com o eleitorado do candidato do PSDB já conquistado/saturado, a “opinião pública” inflou a candidatura da Marina Silva na reta final do primeiro turno para forçar o segundo turno das eleições presidenciais. E como fizeram isto? Enaltecendo o discurso (descompromissado) da candidata do PV que, durante o processo eleitoral inteiro, se posicionou como “terceira via” – sem projeto -, alguém acima do bem e do mal, que não era direita nem esquerda. E assim conquistou a parcela da população alijada do debate político, que surfa na onda da “opinião pública”. Agora, a Marina Silva e o que ela representa está acima do PV. É  a incorporação do debate ambiental. O Brasil (lá fora) é percebido como role model em Sustentabilidade, mas tem sofrido com as questões ambientais  – quem se lembra das enchentes do início do ano? Ainda não demos conta de resolver a nossa agenda ambiental iniciada com o trabalho da Marina Silva à frente do Ministério do Meio Ambiente do atual Governo, e que conseguiu reduzir os índices de desmatamento e  melhorar os de saneamento básico. E incorporar a meta de recursos para pesquisa e desenvolvimento de energia limpa no Fundo do Pré-Sal.

Um futuro Governo do PT não representará avanços para o país. O Brasil precisa de (justo) um Governo do PT para seguir avançando em questões começadas e não concluídas. Como a “opinião pública” enxerga o marco regulatório do Fundo do Pré-Sal em um futuro Governo do PSDB? E a questão das cotas raciais? E o processo de privatização? E a política habitacional? E os canais de diálogo e discussão, instituições criadas no Governo do PT, para debater questões importantes, como a democratização da mídia, a redistribuição de recursos da Cultura e tantos assuntos mais?  E como ficará a Cultura, esquecida nos debates, mas que é realidade no atual Governo? Foi NESTE Governo que os recursos foram ampliados de R$ 300 milhões para R$ 2 bilhões. Além disso, a Cultura foi além do eixo Rio-Sampa, incorporou a periferia e o interior com diversas manifestações artísticas. Mas a pauta descrita acima é ignorada pela “opinião pública” que prefere focar no conservadorismo da discussão da legalização do aborto.

O Governo do PT não é essa maravilha toda. Eu até concordo com a “opinião pública” neste quesito, mas discordo dos porquês. Do ponto de vista de Sustentabilidade, o projeto desenvolvimentista do atual Governo penaliza comunidades locais. E em nome das obras de infra-estrutura (do PAC) onera o setor público e dá louros/lucros ao setor privado. É um modelo de desenvolvimento bastante questionável. Além disto,  apesar de avanços, há questões estruturais gravíssimas na Educação e na Saúde. E, inegavelmente, em nome da governabilidade, concessões e arranjos políticos – nem sempre os melhores – foram feitos. Só que foi NESTE mesmo Governo que 36 milhões de brasileiros subiram à condição de classe média e outros 28 milhões deixaram a linha de extrema pobreza; e tudo isto graças às políticas de geração de emprego e renda antenadas com as necessidades da maioria da população. Sem falar que foi  ESTE Governo que conseguiu manter variáveis econômicas controladas, como inflação, taxa de juros e câmbio. E é ESTE Governo que está interessado em saber o que eu penso do país. Há vários espaços criados que permitem um diálogo mais equilibrado entre Estado e Sociedade – há todo um sistema de conferências e conselhos que encouraja a participação de todos nas discussões relevantes para o futuro do país.

Mas é quase sempre o mesmo papo quando chega a época das eleições.  Parece coisa de cinema. A sessão é iniciada. Confortavelmente acomodados, assistimos a uma história mais ou menos linear que em um determinado momento apresenta um novo ingrediente capaz de mudar o curso dela. Geralmente é algo bem polêmico ou antes inimaginado.  Como o aborto. Agora, o aborto é nosso turning point. Só que turning point para a história do país foi a ascensão do atual Governo. A verdade que a “opinião pública” omite.

Helena Sroulevich e Krista Lillemets (minha amiga estoniana residente no Brasil)


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