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Revisionismo histórico estimula revanchismo catártico da consciência coletiva

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A vingança é o agente anticoagulante que potencializa a estética hemorrágica do diretor Quentin Tarantino. Com “Bastardos inglórios” (2009), Tarantino abriu as feridas da História para expurgá-la de seus horrores propondo um revisionismo dos fatos como forma de estimular o revanchismo catártico da consciência coletiva. “Sacanas sem lei” – o genial título do filme em Portugal – é uma obra audiovisual politicamente (in)correta da História Mundial, que, por meio da paródia, deturpa tudo que aprendemos nos livros didáticos. A correção na ficção dos tropeços da humanidade torna a disciplina, ensinada à Leandro Narloch, muito mais interessante. O alvo (ou vítimas) de Aldo Raine, o Apache, e seu grupo de açougueiros treinados em técnicas militares eram os nazistas.

Django livre” volta os olhos injetados de sangue criativo do realizador de “Cães de aluguel” (1992) para a escravidão em solo americano no período pré-Guerra de Secessão (1861-1865), conflito que colidiu os Estados Confederados do Sul – latifundiário, aristocrata e pró-escravidão –, que entraram numa de se separar da União, com o Norte industrializado, avesso à dinâmica desumana entre a casa-grande e a senzala e cujo lema era unidos venceremos. O título do filme faz alusão ao “Django” (1966) de Sergio Corbucci, em que Franco Nero, que faz uma ponta na versão tarantinesca abolicionista, interpreta o pistoleiro misterioso que carrega um caixão-paiol onde repousa uma metralhadora Gatling pronta para aerar carne humana. Apesar disso, não deixa de ser uma homenagem ao primeiro diretor que vem à cabeça quando pensamos no rótulo spaghetti western, de quem Tarantino é fã: Sergio Leone.

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O Django (Jamie Foxx, apostando no mesmo tipo metidão de sempre, um rapper invocado de esporas e pistolas, tentativa de emular a atitude cool, distanciada, debochada e paródica do pistoleiro sem nome interpretado por Clint Eastwood na trilogia dos dólares de Leone) de Tarantino é um escravo que arrasta grilhões no traslado para ser comercializado no atacado. A alta do mercado de corpos faz com que seu caminho cruze com o do doutor King Schultz (Christoph Waltz brilhante, mesmo evitando sair da zona de conforto ao decalcar sua atuação da que empreendeu em “Bastardos…”, filme em que interpretou o coronel poliglota nazista Hans Landa), um ex-dentista que mudou de ramo pela força das circunstâncias e agora trabalha como caçador de recompensas. As extrações continuam, só que agora de vidas.

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Django, auxiliado pela providência, troca sua alforria por informação. Os dois unem forças para ganhar alguns dólares adubando o solo com cadáveres de procurados pela justiça. O novo colecionador de cartazes wanted dead or alive aprende rápido a derramar sangue sem macular seus pudores. Em troca do auxílio de Django Freeman, sobrenome que ironicamente expressa a nova condição social do ex-escravo, Schultz se compromete a dividir um quinhão de seus lucros e a ajudar o novo amigo a resgatar sua amada Brunhilde (Kerry Washington, a Sheron Menezzes do Bronx) do tronco. Django e Brunhilde sofreram penalidades draconianas por tentarem escapar do antigo dono. Foram separados e tiveram os corações despedaçados a chibatadas.

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Na realidade, resgatar não seria o melhor verbo, já que Brunhilde é propriedade do latifundiário Calvin Candie (Leo DiCaprio, psicopata no papel de um vilão de trejeitos circenses arrotando francofilia), um dos precursores do MMA nos EUA do século XIX. Django e Schultz precisam negociar Brunhilde como mercadoria, sem despertar as suspeitas de Candie para algo além de uma simples transação. O problema é que, em suas fileiras de lacaios, Candie conta com a astúcia e a experiência do velho negro Stephen (Samuel L. Jackson, soberbo no papel do corvo de mau agouro que desconfia até da própria sombra e deseja se refestelar em carniça).

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Macarronada à Tarantino de US$ 100 milhões

O força do filme está no que Tarantino, em quem a palavra predomina sobre a imagem, tem a oferecer de melhor. Anote aí a receita da macarronada à Tarantino:

Subversão das convenções;

inversão do binômio causa e efeito, quebrando a cronologia da narrativa;

diálogos digressivos e extensos, que suspendem a ação e sublinham a falta de lógica da interação, funcionando como jogos retóricos que dificultam a apreensão do real objetivo dos personagens – as longas conversas prolongam os momentos prévios e posteriores aos atos de violência em si, o que aumenta a expectativa de quem assiste;

cenas prosaicas que comportam o absurdo;

momentos de reverência ao cinema exploitation americano da década de 1970, no caso de “Django livre”, blaxploitation, e ao cinema de horror italiano das décadas de 1970-1980 (capitaneado por Dario Argento, mestre do subgênero giallo), que lançam, junto com a crueldade mórbida, um olhar irônico sobre as sequências de glóbulos vermelhos em profusão;

utilização de flashbacks na construção narrativa, mas infensos ao cinema clássico, em que remetem à subjetividade do personagem (rompem com a linearidade respeitando a causalidade por meio do ato de lembrar): em “Django livre”, em um estratagema semelhante, mas não tão radical como na montagem labiríntica de “Cães de aluguel” – filme no qual os flashbacks são apresentados como segmentos sem aparente relação causal, (des)organizados com o objetivo de impedir que o espectador reordene os eventos em sequência cronológica enquanto assiste –, há a interferência lúdica de um narrador que manipula a trama ao retornar no tempo;

fotografia hiper-realista (herança da estética de Sam Peckinpah), clicada por Robert Richardson, que explora ao máximo situações de agressão e choque;

paródia com que trata o spaghetti western e o tema tabu da escravidão;

humor negro;

trilha sonora magistral, que aproveita nos créditos de abertura a música tema do filme original, composta pelo argentino Luis Bacalov, além de contar com a contribuição do mitológico compositor italiano Ennio Morricone, cuja biografia – atrelada a parceiras antológicas com Sergio Leone – se mescla com o conceito do subgênero spaghetti western, em quatro faixas: The braying mule, Sister Sara’s theme, Ancora qui (em coautoria com a cantora e compositora italiana Elisa Toffoli) e Un monumento;

pólvora a gosto.

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O roteiro de “Django livre”, assinado pelo próprio Tarantino, subverte o protocolo da ideologia escravista como forma de cuspir na cara do preconceito e arreliar valores morais viciados. Django, após ser libertado, rapidamente assume o papel de liderança e contraria o pensamento atrofiado, passando de figurante a protagonista. Schultz, eclipsado pelo ímpeto do companheiro, entuba sua nova condição de wingman. Algo semelhante ocorre nos domínios de Candie, que passa por idiota quando Stephen desvela a verdadeira intenção dos inusitados convidados do patrão e demonstra que é muito mais que um simples escravo responsável por gerenciar a casa-grande. Ele é o cérebro de um sistema que perpetua a ideologia da dominação, invertida para o espectador no jogo cênico de Tarantino. De quebra, o diretor ainda brinca com os especialistas ao embaralhar as categorias empedernidas do Oscar.

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Os únicos poréns são as encheções de linguiça – desnecessárias, prolongam a duração do filme, que contabiliza 165 minutos, com poucas viradas, e encurtam nossa paciência – e alguns personagens que, apresentados, não se realizam, meras distrações. Nada no cinema de Tarantino até então foi mal resolvido, mas, neste filme, um roteiro cheio de gorduras passa essa impressão. É complicado afirmar isso, pois Tarantino é doutor em cinema.

Campeão mundial das teses: novo defloramento sem necessidade de reconstituição cirúrgica do hímen e homossexualismo subjacente ao roteiro

Primeira tese tarantinesca: Like a virgin, da Madonna > “A história de uma mulher rodada, que já tinha dado muito, e acontece o quê? Um dia ela encontra um cara com a piroca enorme que faz ela sentir a pressão de quando era virgem.”

Segunda tese tarantinesca: “Top gun” (1986) > “Lembra desse filme? Filme de viado, moscão, varejeira, por quê? O Tom Cruise e o Iceman [Val Kilmer] passam o filme inteiro suado, sujinho de areia, jogando vôlei e trocando olhares em câmera lenta e decidindo quem é que vai na traseira de quem.”

Roteiros seriam fragmentos de um épico

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Fonte:weheartit.com

Se a tendência for mantida, qual será a próxima correção histórica que Tarantino irá nos propor? O obrigatório curta “Tarantino’s mind”(2006), da produtora 300ml, de cujo roteiro extraímos as teses tarantinescas supracitadas — a segunda uma reflexão acerca da homossexualidade latente em “Top gun” que Tarantino explicita numa ponta como ator na produção “Vem dormir comigo” (2004), de Rory Kelly –, gaba-se de ter decifrado o código criado pelo diretor de “Pulp fiction” (1994). Na lógica do curta, protagonizado por Selton Mello e Seu Jorge, todos os roteiros de Tarantino são na verdade um só filme épico, dividido em várias partes – com exceção de “Jackie Brown”, adaptação de Rum Punch, romance do escritor americano Elmore Leonard. Só é preciso juntar as peças do quebra-cabeça.

Kill cowboy!

Que tal um exercício de imaginação? Aldo Raine, o Apache, escalpelador de nazistas… Django, um John Wayne com excesso de melanina e desvantagem vertical de 15cm em relação ao Duke… Se um filme envolvendo a releitura das iniquidades impingidas à cultura indígena dos EUA estiver nos planos do realizador de “À prova de morte” (2007), um “Rastros de ódio” (1956) ao avesso, tarantiniano, conferindo novas conotações ao termo peles vermelhas, John Ford e Howard Hawks devem estar golpeando a tampa de seus caixões como a Noiva enterrada viva de “Kill Bill: Vol. 2” (2004).

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Uma curiosidade… Jeff Dawson explica que o nome de Tarantino é a junção de Quentin, heroína de O som e a fúria, romance do Nobel de Literatura americano William Faulkner, com o sobrenome do pai biológico do diretor. Tarantino substituiu Zastoupil, sobrenome de seu pai adotivo, Curt.

p.s.2 Quase 3h de filme é um desafio para o controle de necessidades fisiológicas. Para não perder um segundo de “Django livre” eu estava disposto a comprometer minha dignidade, mas me segurei bravamente. Líquidos em excesso e ar condicionado não são uma boa combinação. Tarantino valeria uma cueca encharcada.

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Trailer_”Django livre”

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Coração a 180km/h

A franquia “Transporter” só vingou até o terceiro filme porque não havia concorrência. Com “Drive”, filme baseado no livro homônimo escrito por James Sallis, o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn acabou com o monopólio de Frank Martin (Jason Statham).

Quem pode tirar Frank do mercado é o Motorista encarnado por Ryan Gosling, galã hollywoodiano da atualidade e o Steve McQueen do século XXI. Na trama de ação com alta octanagem de romance (ou seria um romance aditivado com tomadas de ação?), o personagem de Ryan (soberbo no papel) é um mecânico que faz bicos como dublê de filmes de ação e ganha um extra alugando sua habilidade no volante para empreitadas ilícitas. Ele é o cara que você vai querer contratar quando precisa de extração eficiente da cena do crime.

O Motorista alude ao arquétipo do Pistoleiro sem Nome encarnado por Clint Eastwood na Trilogia dos Dólares, de Sergio Leone – que bagunçou com o conceito de retidão de caráter e com o de maniqueísmo no Velho Oeste, imortalizados na figura icônica de John Wayne. Anti-herói pronto para dar uma de Anderson “Spider” Silva e transformar qualquer recinto numa arena de MMA, se for necessário, soturno, lacônico, independente, cínico e intuitivo, ele transita com seus veículos, guiado por sua moral ambígua, às margens da lei, na interseção do que deveria ser feito com o que é necessário para sobreviver.

Sua situação se complica quando ele conhece Irene (Carey Mulligan, a mulher que durante alguns segundos me fez esquecer Anne Hathaway), sua vizinha de porta. Sempre elas… A garçonete, necessitada, exala feromônios de carência ao receber a atenção do Motorista. Standart (Oscar Isaac), marido de Irene, sujeito que não teve o bom-senso de contratar os serviços do Driver na hora de desafiar para um pega o Código Penal, amarga um tempo atrás das grades. A beldade, sempre de olho em seu filho Benicio (Kaden Leos), não precisa acessar o site de traição The Ohhtel para engatar um relacionamento extraconjugal. É só bater no apartamento ao lado. Pseudorrecatada, olhando para o Motorista com cara de cadelinha abandonada, ela pensa com seus botões: “Quero você dentro de mim agora, mas, por causa da minha [falsa] moralidade, vou tentar refrear minha luxúria e fazer jogo duro enquanto você se debate de desejo tentando encontrar a forma certa de abrir a porta da garagem.” Ele, como não podeira deixar de ser diferente, capota por ela na primeira curva.

O clima de romance dura pouco. Irene vem com alguns opcionais que o Motorista pode não estar disposto a bancar. Standart sai da cadeia e envolve o novo amigo da esposa numa jogada para tentar livrá-lo da agiotagem penitenciária. A adrenalina, combustível da produção, vem batizada com chantagem, traição, vingança e dólares da máfia. Não há moto…, quero dizer, coração que resista… É a deixa para Nicolas Winding Refn mostrar que aprendeu direitinho os ensinamentos da cartilha hemorrágica de Quentin Tarantino, amante dos filmes de violência e vingança americanos. Se fosse em 3-D, o sangue espirraria da tela. Apaixonado, o Motorista parte numa cruzada autodestrutiva e sangrenta contra os mafiosos de pizzaria – à moda “Gomorra” (2008) –, liderados por Bernie Rose (Albert Brooks, o Michael Corleone do diretor dinamarquês, frio e pragmático) e Nino (Ron “Hellboy” Perlman), para assegurar um futuro para Irene e Benicio.

A fotografia de motel de quinta, a cargo de Newton Thomas Sigel, estoura nos contrastes, conferindo o meio-tom da realidade delirante, mistura do hiper-realismo com a ilusão – o trabalho do diretor de fotografia encontra paralelo no de Vittorio Storaro, responsável pela estilização dos enquadramentos em “Apocalypse Now” (1979) e “O fundo do coração” (1982), ambos do diretor Francis Ford Coppola.

A montagem de Matthew Newman evoca as soluções criativas e ousadas empregadas pelo editor Frank P. Keller em “Bullitt” (1968). Newman consegue manter o suspense com hiatos de expectativa e um ritmo que intercala apreensão e alívio. No processo de escaletagem, a inteligência de Newman modificou a linearidade temporal com segurança, criando opções para o (re)ordenamento de causa e efeito, como Tarantino em “Cães de aluguel” (1992).

E a trilha sonora… Ah, a trilha sonora… A real hero, da College e Tick of the clock da Chromatics embalam sentimentos exacerbados e atiçam nervos expostos naquela atmosfera urbana de sonhos e sangue, um Romeu e Julieta contemporâneo no qual quem toma o veneno somos nós, espectadores.

Gerenciando todos esses elementos, a mão segura de Nicolas Winding Refn, premiado no último Festival de Cannes com a láurea de melhor diretor.

 Agora, caro leitor, o que você só lê aqui…

 Stuntman Mike: a origem

Spoilers à frente! Continue a ler por sua conta e risco…

O dublê psicopata interpretado por Kurt Russell em “À prova de morte” (2007), dirigido por Quentin Tarantino e parte do projeto Grindhouse – em parceria com Robert Rodriguez, autor de “Planeta Terror” (2007), e outros três cineastas que filmaram trailers falsos –, foi gestado no filme de Nicolas Winding Refn.

Na sequência final de “Drive”, o Motorista é esfaqueado por um mafioso. Entre a vida e a morte, ele, assim como Johnny Blaze em “O motoqueiro fantasma” (2007), faz um pacto com o diabo. Em troca de sua alma, o Motorista e seu carro são amaldiçoados e obrigados a vagar sem rumo pelas estradas americanas. Sempre que encontra uma jovem voluptuosa e lubrificada, implorando por sexo casual, o Motorista, agora sob o pseudônimo de Stuntman Mike — a jaqueta agora não é mais prateada, mas negra –, enxerga nela sua Irene. Como sabe que nunca poderá ficar com “ela”, pois poderia comprometê-la com a máfia, ele opta pelo homicídio doloso, utilizando seu carro satânico como instrumento de carnificinas e alavancando o número de mortes no trânsito a cada ano nos EUA.

Quero saber agora se a mulherada não vai pensar dez vezes antes de aceitar carona do Ryan Gosling.

 Carlos Eduardo Bacellar

 p.s. Porra, Ruy!

 p.s.2 Se estiver interessado em esmiuçar as músicas que compõem a trilha de “Drive”, a gente ajuda: clique aqui.

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Estética tarantiniana influencia Ana Luiza Azevedo

Não, não é uma cena de “À prova de morte” (2007), de Quentin Tarantino. Felizmente o para-brisa da foto não pertence à célula de tortura do carro do psicótico Stuntman Mike.

A imagem, pinçada de “Antes que o mundo acabe”, novo longa da diretora Ana Luiza Azevedo, sublinha (mesmo que de forma acidental), na prosaica viagem de três adolescentes pelas estradas do Rio Grande do Sul, o fetiche que obceca Tarantino, aproximando os dois realizadores de uma forma inusitada.

Você, que pensou em um filme e projetou sua preocupação no outro, pode respirar aliviado. A viagem não terá como resultado corpos desmembrados, somente corações despedaçados.

Podólatras de plantão, eu vi os delicados pezinhos da atriz Bianca Menti primeiro.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. No meio do turbilhão do Festival do Rio, estou correndo de uma sala de cinema para outra. Assim que um filme me marcar fundo, colocarei as impressões aqui. Até agora conferi excelentes produções, mas nada que me levasse ao êxtase.

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Anatomia da loucura

“Amor é uma palavra muito grande. Poucos podem se dar ao luxo de o ter conhecido.”

A chocante e indelével cena em “Irreversível” (2002), na qual a personagem incorporada pela atriz Monica Bellucci é estuprada em uma passagem subterrânea, é o cartão de visitas da ousada e perturbadora cinematografia do diretor e roteirista franco-argentino Gaspar Noé.

Polêmico e ácido na construção de seus roteiros, utilizando suas câmeras como testemunhas (omissas) – ou abutres ávidos por carniça − da exacerbação do lado negro do ser humano, o que muitas vezes o relega a seções, nas locadoras, de diretores que certamente seriam reprovados em exames psicotécnicos (setores que contemplam realizadores rorschachianos* como Quentin Tarantino, John Waters, Bigas Luna, David Cronenberg e Lars Von Trier), Noé possui obras de inquestionável qualidade estética, mas pouco difundidas. Mesmo tendo seu talento reconhecido no circuito mais autoral, seus trabalhos continuam sendo negligenciados pelos mais suscetíveis. Mas sem dúvida é um dos gênios do circuito marginal alternativo.

“Sozinho contra todos” (1998) é uma dessas produções que incomoda públicos acostumados com enredos mais leves, como o de “A noviça rebelde” (1965). Nada contra o filme de Robert Wise, muito menos contra a noviça imortalizada por Julie Andrews, só para deixar claro. Digamos que “Sozinho…” é um filme que não seria a pedida mais inteligente para um encontro romântico ou uma tarde de entretenimento com a família.

Depressiva e patética, a produção de Noé trata da história do açougueiro John Doe (ou seja, impessoalizado pela insignificância com que o diretor o ungiu), interpretado pelo excelente Philippe Nahon. Abandonado pela mãe aos 2 anos, ficou órfão de pai durante a segunda grande guerra. Com 6 anos, descobriu que seu pai foi um militante comunista executado num campo de concentração na Alemanha nazista. Após uma vida de sacrifícios, ele experimentou breve período de prosperidade administrando seu próprio negócio, mas agora se encontra no fundo do poço de “O chamado” (2002) – situação que teve como estopim uma atitude intempestiva −, digladiando-se com seus monstros internos.

“Nascer contra a sua vontade. Comer. Enfiar a pica. Dar vida. E morrer. A vida é um grande vazio. Sempre o foi e sempre o será.”

Fruto de um lar estilhaçado pelas contingências do mundo cão, e pai de uma menina por quem nutre desejos doentios, ele acaba preso ao interpretar de forma equivocada a mácula do desabrochamento de sua filha para a vida adulta. O ciúme se confunde com honra que se confunde com dever paterno catalisando uma fúria que ele resolve externar, com a sensibilidade de Michael Myers, no primeiro infeliz que aparece em seu caminho.

Após cumprir pena, destituído de todos os bens que possuía (materiais e imateriais) ele luta, desesperançoso, para conseguir encher a barriga e sobreviver até o dia seguinte. Pária social, torna-se um fantasma em uma França devastada pela guerra e seus reflexos. Acaba mergulhando na areia movediça de um segundo relacionamento, e encomenda um novo rebento. Enfurnado na casa da sogra com sua broxante mulher, padece na mediocridade e na falta de perspectivas de sua vida. Ele mesmo define sua existência como “um sombrio túnel.”

“Foder não vale a pena. Sai muito caro.”

O açougueiro, externamente um banana ao estilo do matemático David Sumner, em “Sob o domínio do medo” (1971), por dentro é consumido pela caldeira da fúria alimentada por recalques, sentimentos xenófobos e homófobos, ojeriza à classe burguesa (que enxerga como algozes dos menos favorecidos) e frustrações destrutivas. Ele acaba fechando-se num mundo de esquizofrenia que o torna cada vez mais selvagem e perigoso. A narração em off acompanha o mergulho do homem na perda de si mesmo; ilustra seu distanciamento do sujeito que um dia foi – mas, agora, quase esvaziado de sua humanidade pela perda da fé no homem e em suas instituições, torna-se somente id, relegando ego e superego ao limbo.

Gaspar Noé aduba a loucura crescente do personagem até o ponto em que os frutos podres da autodestruição envenenam a alma do açougueiro com os vermes da perda do bom-senso. O fluxo de pensamento que embaça a mente doentia do protagonista, nutrido pelo desespero, é como um jorro de facas em sua autoestima e seu amor próprio, e funciona para ele como justificativa para sua situação de indigência.

A fotografia, carregada de tonalidades sépia, acompanha a decrepitude da realidade sombria projetada pela degeneração psicológica do protagonista. As lentes de Dominique Colin dão a conotação de um livro há muito fechado, com uma história que não deveria ser contada, mas que teima em existir.

A capa do DVD, ao estilo do traço meio tosco de Robert Crumb, exala o cheiro podre da solidão e nos remete ao pessimismo kafkaniano, evocando desilusão. O filme é um dedo na garganta que coloca tudo para fora após aquele porre, mas mesmo assim o enjoo permanece.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Spoiler!!! Neste filme, a marca d’água de Noé fica patente na cena em que o açougueiro soca a barriga de sua segunda mulher, que espera um filho dele.

*Rorschach é um dos personagens de ‘Watchmen’, antológica criação em quadrinhos de Alan Moore, com ilustrações de Dave Gibbons. O status psicológico do (anti-)herói criado por Moore pode ser de completa insanidade ou extrema lucidez, dependendo do ponto de vista.



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Cortem-lhe a cabeça!

O selo Lume Filmes acaba de nos presentear com “Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia” (1974), obra de David Samuel Peckinpah (1925-1984), estuprador de retinas sensíveis que, munido de seu estilo inconfundível – traço estético que o consagrou como o poeta da violência −, elabora uma narrativa acerca das atitudes amorais que acometem o ser humano em determinadas circunstâncias. O filme é uma das apostas da distribuidora, com sede no Maranhão, para aquecer o mercado de DVDs alternativos.

Nessa produção pouco badalada de Peckinpah, mais conhecido por obras como “Cruz de ferro” (1977), “Sob o domínio do medo” (1971) e “Meu ódio será sua herança” (1969), o diretor americano explora a putrefação dos valores morais, corroídos pela acidez da mesquinharia humana, por meio de uma trama bizarra, para dizer o mínimo.

Ao ser deflorada e engravidar de um Don Juan local, situação que colocou suas virtudes sob suspeita, a filha de um abastado latifundiário mexicano é pressionada pelo pai (Emilio Fernández) a revelar o nome do homem que a desencaminhou. Estimulada “carinhosamente” pelos jagunços de El Jefe, ela confessa que o DNA de seu futuro rebento possui cromossomos de Alfredo Garcia. Como por aquelas bandas honra maculada deve ser lavada com sangue, muito sangue, o furioso progenitor oferece uma recompensa de US$ 1 milhão pela cabeça do dito cujo. E quando digo a cabeça, falo no sentido literal, não metafórico: como uma Rainha de Copas ensandecida, o sujeito quer como prova do homicídio o souvenir fruto da decapitação do pai de seu netinho. Logo abaixo da palavra Procurado, tatuada com pólvora na foto de Alfredo Garcia, lia-se Cortem-lhe a cabeça!

Na caçada a Alfredo, os emissários da morte do latifundiário se deparam com o músico fracassado Bennie (Warren Oates), que fica curioso com o interesse de pessoas tão refinadas pelo estado de saúde de Garcia. Arrivista nato, Bennie fareja a oportunidade de acertar na loteria, e resolve entrar na jogada (ou roubada). Ele se junta à prostituta Elita (Isela Vega), amante de Garcia, ao descobrir que ela conhece o paradeiro do perseguido, ou melhor, do cadáver dele, já que a vida do pobre diabo foi ceifada num acidente de carro.

Bennie (Warren Oates) exibindo toda sua cafajestagem, com direito a bigode safado, roupas que deixariam Glória Kalil de cabelos em pé e óculos escuros

A partir daí, o que as câmeras de Peckinpah registram é a degeneração de um indivíduo que venderia a própria mãe para conseguir alguns dólares. Elita, que aposta numa cruzada perdida por amor, é a consciência moral que teima em servir como contraponto à perda de escrúpulos progressiva de Bennie.

Tudo que tornou célebre o diretor está lá: o cinema realista cheio de violência (não gratuita, mas inerente à manipulação fluida dos caracteres de seus personagens); as tomadas em câmera lenta, que Quentin Tarantino incorporou em suas vitaminas estéticas; o mundo deserdado de mitos, mas repletos de homens comuns e suas contradições, defeitos e qualidades; o ataque à moral hipócrita (como forma de tentar redimi-la, ou sublinhá-la com sangue) da sociedade burguesa, mas atropelando moralismos; as reflexões de personagens dilapidados de seus valores pelas vicissitudes que atravancam seus caminhos, suas escolhas, decisões, tomadas éticas e perturbações dali decorrentes.

Peckinpah é um mestre, uma versão rodriguiana ianque que se inclinou para o cinema, optando pela dialética do movimento. Chocante, seco e direto, ele procura formas diferentes de levar o homem ao seu limite, de modo a observar suas reações em ambientes extremos. Dustin Hoffman que o diga. Em “Sob o domínio do medo”, ele incorpora todo o seu primitivismo no pacato protagonista (David Sumner) que é colocado numa ratoeira estética. A claustrofobia provocada pela fúria cega de terceiros obriga David a extravasar o que existe de mais desumano para sobreviver. Em “Tragam-me…”, a ratoeira se chama cobiça. Podemos dizer que Peckinpah faz coro a uma leitura existencialista do marxismo, segundo a qual o homem é produto do meio em que vive. Ou seja, a bestialização é só uma questão de fornecer o substrato certo.

Devastado pela bebida (o álcool atiçando seus fantasmas internos), erigiu uma obra indigesta para os mais conservadores e puritanos, mas verdadeira em sua essência crua, despida de qualquer pudor ao retratar o mundo como ele é – um grito grotesco para que não nos esqueçamos de como ele deveria ser.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Só o que me incomoda um pouco nos primeiros filmes do diretor é aquele Plasticor vermelho que ele utilizou como sangue. Trash!

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Tarantino na estante

Confiram a dica literária do Luiz Zanin, um dos críticos de cinema que eu mais respeito. O cara é muito bom! O texto foi publicado no blog que o crítico assina na plataforma digital do jornal O Estado de São Paulo.

É óbvio que estou comprando o livro enquanto digito este post. Tenho certeza de que muito crítico por aí já está lendo (isso se não já leu).

Aproveito para relembrá-los de um post da Helena sobre o Tarantino. Nele minha amiga superlativa destaca um vídeo no qual Selton Mello e Seu Jorge trocam ideias sobre as ligações insuspeitas que existem entre as obras do diretor de “Pulp Fiction”. Impagável! Mexeu com a minha cabeça. Merece uma nova olhada.

Carlos Eduardo Bacellar

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Michael Douglas leva “Countdown to Zero” à ONU

Celebrando a oitava Conferência da Revisão do Tratado de Não Proliferação (de armas nucleares), que tem 189 países como signatários, Michael Douglas foi ontem à sede da ONU (Organização das Nações Unidas) para a exibição de “Countdown to Zero”.

Antes da projeção-ato político pelo desarmamento nuclear, que contou com a presença do Secretário Geral das Nações Unidas Ban Ki-moon, a estrela hollywoodiana afirmou que o filme “…vai além de ressaltar a questão da ameaça nuclear, pois sublinha o papel e a responsabilidade dos distintos meios neste debate…” E versou favoravelmente à produção de documentários desta estirpe, pois, segundo ele, tornam-se instrumentos poderosos de informação à sociedade e uma sociedade informada é difícil de ser parada e desprezada por políticos.

Exibido este ano em world premier no Festival de Sundance e depois na Conferência do TED, o documentário, dirigido pela britânica Lucy Walker e financiado pelo multimilionário canadense Jeff Skoll (*), fundador do portal eBay, tem estreia confirmada no mercado americano em julho próximo. Mas antes, viaja à França em participação hors-concours no Festival de Cannes. Por lá, os participantes do festival encontrarão o produtor Lawrence Bender, o simpático aí da foto, e muito competente. Vem trilhando uma carreira vitoriosa à frente das produções de Quentin Tarantino, inclusive do último lançamento “Bastardos Inglórios”.  No ramo dos documentários, vale lembrar que é dele também o oscarizado “An Inconvenient Truth” (Uma Verdade Inconveniente), que colocou  as questões climáticas na ordem do dia da agenda global.  Viva, Lawrence!

Helena Sroulevich

(*) Como já sabem, me amarro nas palestras do TED. Aqui, o Jeff Skoll, logo após a produção de “An Incovenient Truth”. Ele fala de seu investimento em filmes para mudar o mundo. Tem pouco mais de 15min e legendas em português: http://www.ted.com/talks/lang/por_br/jeff_skoll_makes_movies_that_make_change.html

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