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No rastro de sangue autoral

À procura de algum filme que transgrida o arquétipo clássico do vampiro − imortalizado no cânone de Bram Stoker −, com a mesma autoralidade que consagrou “Deixa ela entrar” (2008), de Tomas Alfredson, e, mais recentemente, “Sede de sangue” (2009), de Chan-wook Park, exumei das estantes da locadora “Fome de viver” (1983) − “The hunger”, no original −, de Tony Scott.

Na bizarra trama de Scott, a senhora da escuridão (ex-bela da tarde), Miriam Blaylock, é interpretada pela musa Catherine Deneuve. Blaylock, além de colecionar objetos de arte, entulha o vazio de sua alma com amantes escolhidos a dedo, que são obrigados a compartilhar com ela – vetor de transmissão de uma espécie de anemia falciforme, que aproxima as ambições do roteiro, com assinatura de James Costigan, Ivan Davis e Michael Thomas (baseado no romance de Whitley Strieber), de “Blade” − sangue contaminado com a necessidade de se alimentar de… sangue.

“Acho que exagerei no ketchup…”

Interpretando o amante de Blaylock, John (o músico David Bowie) descobre que a imortalidade (infelizmente) não vem atrelada à juventude eterna. Sofrendo de degeneração celular acelerada – processo que o levará à mumificação – ele procura a médica Sarah Roberts (Susan Sarandon), especialista nos estudos de longevidade. Sarah repudia John, entendendo-o como louco, que é encaixotado para uma vida eterna claustrofóbica − e para longe das vistas de sua criadora − enquanto a doutora Roberts se torna a nova concubina de Blaylock.

Estilizando a figura do vampiro, Scott cria sanguessugas crepusculares: charmosos, sensuais e letais, no estilo neogótico – que relativizam a moral quando a fome aperta; e quando os pés de galinha começam a aparecer. O diretor não reinventa o gênero, como alguns alegam, mas ele se utiliza de parte da mitologia vampiresca para criar uma obra sobre a inexorabilidade do tempo e suas consequências ambíguas na psique de pessoas comuns. Ao mesmo tempo desejo e maldição, a imortalidade é o cálice sagrado que transborda de veneno, exacerbando o que há de melhor e de pior em cada um.

No desespero da decrepitude de John e na negação e inconformismo de Sarah, Tony Scott nos faz pensar acerca do conceito de finitude, seja ela existencial ou afetiva. Nossas aspirações de enganar o relógio biológico, e almejar o amor eterno, são questionadas com a seguinte dúvida: vale mesmo a pena? O término, tanto pela morte como pela desilusão (ou pelo fim da juventude), faz parte do ciclo natural da vida, necessário para que haja um novo começo, mesmo que regado a dor.

O melhor do filme? Catherine Deneuve e Susan Sarandon (com tudo em cima!) se pegando numa tórrida relação lésbica. Quem disse que vampiro não corta para os dois lados?

“É agora que eu traço você, bela da tarde! Vamos botar as aranhas para brigar é já!”

E parece que uma continuação vem por aí, dirigida pelo próprio Scott e ambientada em São Paulo. Veja a entrevista do realizador concedida ao ComingSoon.

Um aviso para os caçadores mais afoitos… Devagar com as expectativas. O filme não chega nem perto da qualidade estética e da ousadia de “Deixa ela entrar” e “Sede de sangue”. Passa longe…

Carlos Eduardo Bacellar

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Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

Luta contra inadequação relativiza moral

Já vai longe o tempo em que as distinções de sangue eram motivo para os conflitos da carne. Ou não? A premissa que polariza Montéquios e Capuletos no século XXI chama-se sobrenatural. Paradoxalmente, é também a argamassa que entrelaça almas separadas pelas circunstâncias.

O diretor sul-coreano Park Chan-wook resolve explorar o seu quinhão crepuscular realizando o “Deixa ela entrar” de olhos puxados (no que diz respeito à forma de subverter as linhas de Bram Stoker). Em “Sede de sangue” (2009), ele constrói uma narrativa acerca das consequências que a escolha religiosa pode provocar quando mascara e sufoca os desejos do corpo.

O abnegado padre Sang-hyeon (Song Kang-ho, “O Hospedeiro”) resolve, numa atitude suicida, participar de uma experiência científica cujo objetivo é encontrar a vacina para um vírus letal. Em vez de ser picado por uma aranha radioativa, o padre recebe sangue de vampiro, e é abençoado/amaldiçoado com dons sobre-humanos. Como não existe almo… ops… inoculação de graça, ele precisa se alimentar constantemente de sangue para evitar que o vírus se manifeste em seu organismo − sua porção vampiresca, por uma questão de sobrevivência, deve reinar sobre seu lado humano.

A castidade e os valores morais de Sang-hyeon são colocados em xeque quando ele conhece Tae-ju (Ok-bin Kim), esposa de um amigo de infância. Presa num relacionamento falido, Tae-ju enxerga no padre uma válvula de escape para seus desejos incubados, e resolve limpar as teias de aranha da perseguida com o que está intumescendo por trás da batina. Os dois começam a alimentar uma paixão proibida regada a sexo e sangue.

O padre, católico fervoroso, tem na ateia Tae-ju seu contraponto. Os dilemas e dúvidas que dilaceram o religioso se diluem na inconsequência da amante, que encontra no hedonismo irresponsável a cura para sua vida de privações afetivas. Sang-hyeon acaba se apaixonando pela perturbada moça, situação que irá flertar com o desastre.

Esgarçado entre Dr. Jekyll e Mr. Hyde, o devoto acaba se entregando ao lado monstro e dá adeus à batina. Quando a união dos dois é “oficializada” por um crime, o padre descobre que as diferenças (fisiológicas e morais) entre eles não podem ser pacificadas homogeneizando-se a dieta do casal. Ambos são perseguidos pelo fantasma da culpa, que azeda o entrosamento dos pombinhos.

O realizador Park Chan-wook utiliza o vampirismo como metáfora para a inadequação. O padre, acreditando que contraria desígnios divinos, luta entre fé e descrença para abafar seus instintos. No momento em que encontra Tae-ju, a perdição parece uma alternativa muito mais agradável do que a liturgia que enleva o espírito. As atitudes de Sang-hyeon relativizam os limites do que é moralmente aceitável. Como toda ação provoca uma reação, ele deverá arcar com o ônus de abandonar o sacerdócio e se tornar um ser humano “normal”, que pende entre qualidades e defeitos, muitos defeitos. Rezar não vai ajudar.

Carlos Eduardo Bacellar

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