Arquivo da tag: Stanley Tucci

Robert De Niro fora de controle

Atenção, produtores! Vocês ganharam mais um concorrente. Calma, gente… Somente na ficção. Robert De Niro acaba de chegar à locadora mais próxima de sua casa na pele do produtor de cinema Ben.

“Fora de controle” (2008)“A noite americana” (Truffaut, 1973) que, desta vez, coloca os holofotes sobre os produtores –, dirigido pelo americano Barry Levinson, acompanha duas semanas da atribulada rotina de Ben (para não dizer enlouquecida).

Tendo que chupar cana e assoviar ao mesmo tempo para dar conta dos abacaxis que precisa descascar no trabalho e, ao mesmo tempo (por isso eles sempre possuem mais de um celular), gerenciar seus relacionamentos pessoais, ele é o estereótipo do pau para toda obra, ligado 24h no ritmo 220V, que atua nos bastidores para que as coisas aconteçam.

Além de negociar com chefes de grandes estúdios, lidar com agentes problemáticos, diretores perturbados e gerenciar o ego de astros temperamentais, Ben precisa enfrentar encrencas mais prosaicas, como resolver sua relação com as ex-mulheres e se envolver na criação dos filhos.

A produção aposta num elenco estrelar para alavancar as locações: além de De Niro, atuam no filme Sean Penn, Catherine Keener, John Turturro, Robin Wright Penn, Stanley Tucci, Kristen Stewart (ela mesmo, a Bella Swan), Michael Wincott e Bruce Willis (encarnando ele mesmo).

É uma comédia inteligente, com toques de drama e humor negro, que aposta no carisma de seus astros, principalmente De Niro (impecável!), para desmistificar o glamour que há na imagem tapete vermelho que temos dos produtores.

Como no filme de Truffaut, nós compreendemos (em parte) como uma realização consegue ser erigida, mesmo que tudo saia errado. Os produtores escrevem errado por linhas tortas, mas a indústria precisa entender aquela caligrafia canhestra para manter as engrenagens rodando. Eles mordem o osso e realizam o tipo de trabalho que ninguém mais está disposto a encarar.

Agora eu entendo por que a Helena sempre chega atrasada nos almoços que nós marcamos. E aprendi a decifrar o código dos produtores.

Estou chegando quer dizer, na linguagem desta fauna hiperacelerada, que eles ainda nem saíram do escritório e você ainda vai ficar plantado pelo menos 1h. Caso você insista, e o celular esteja desligado, isso é uma maneira elegante de eles dizerem para você parar de encher o saco. A desculpinha para o atraso? O trânsito caótico, mesmo que seja num domingo, dentro de um feriado prolongado.

Carlos Eduardo Bacellar

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

Distante do paraíso

Impossível ficar inerte ao trabalho do oscarizado Peter Jackson, pai adotivo da trilogia “O senhor dos anéis” – o pai biológico é o escritor e professor universitário sul-africano John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973), autor da obra literária que inspirou o filme.

Em sua mais nova empreitada, “Um olhar do paraíso” (“The lovely bones”, no original), Jackson não abandona totalmente a fantasia, e retrata de forma feérica a história (nesta vida e na outra) de Susie Salmon (Saoirse Ronan, mais conhecida como Briony, a menina vouyer e estraga prazeres – leia-se empata foda – de “Desejo e reparação”), uma jovenzinha que tem sua vida (e seus sonhos) brutalmente interrompida aos 14 anos. O diretor neozelandês mais uma vez sorve da literatura as ideias para suas realizações – o longa é baseado no livro “Uma vida interrompida”, da romancista americana Alice Sebold.

Logo no início da trama, Susie é assassinada por seu vizinho George Harvey, um sociopata encarnado por Stanley Tucci. Destruídos pelo acontecimento trágico, os pais da menina (Mark Wahlberg e Rachel Weisz) e seus dois irmãos tentam superar a dor e continuar suas vidas. Só que o ponto de interrogação manchado de sangue não abandona o lar dos Salmon. O mais afetado é o pai, que não consegue aceitar a perda da filha e parte em busca de respostas. O que eles não esperavam é contar com a ajuda da menina morta que, presa numa espécie de limbo para almas com assuntos não resolvidos (in between), procura dar uma forcinha para que seus parentes descubram quem é o monstro que a matou, e possam ter paz de espírito.

Peter Jackson acerta na forma inteligente com que constrói o episódio do violento assassinato de Susie. Com elipses regadas a metáforas, o diretor sensibiliza sem despir aos olhos do público um fato hediondo. O universo onírico (que abusa de todas as cores da paleta) em que Susie lança sua âncora afetiva também é um regalo para os olhos. No mesmo compasso de produções como “A cela” (Tarsem Singh, 2000) e “Amor além da vida” (Vincent Ward, 1998), Jackson encanta e surpreende nossa imaginação ao utilizar o poder da computação gráfica para criar uma nova Terra-Média – desta vez não habitada por hobbits, anões e elfos, mas sim almas com questões pendentes – que fascina os sentidos.

Outro ponto marcado da linha de três metros pelo responsável por turbinar a área de turismo na Nova Zelândia é a escalação de Susan Sarandon para dar vida à descolada (beirando a inconsequência) e moderninha vovó Lynn. Mesmo em um papel pequeno, Susan impressiona e deixa sua marca.

Agora, ao contrário de produções como “Invisível” (2007), do realizador americano David S. Goyer, Jackson erra ao tentar criar pontes fluidas entre dois mundos. A realidade dos vivos e o limbo habitado pelo espírito de Susie ficam separados em dimensões estanques, e os elos criados pelo diretor não têm força para modificar a realidade de forma convincente (que é o que todos esperamos), muito menos nossas emoções, como no filme de Goyer. O lirismo não transborda para terra firme, ficando só na leve sugestão.

Um drama que poderia explorar o melhor do suspense hitchcockiano, alimentando toda a nossa angústia, acaba tangenciando a arte para cair no fosso das surpresas de filmes que se utilizam de sustos esporádicos com pouca qualidade. A ação dramática tem o mesmo tom monocromático de “Fim dos tempos” (M. Night Shyamalan, 2008), protagonizado pelo próprio Wahlberg, filme que gera grandes expectativas, mas promove desencantamento com uma trama mal destrinchada e resolvida. Como exceção, destaco o momento em que a irmã de Susie, Lindsey Salmon (Rose Mclver), encontra provas de que seu vizinho é realmente o responsável pelo crime. Tanto ela como Tucci nos fazem prender o fôlego por vários minutos. Ao emergirmos, não queremos ser resgatados pela embarcação do tédio.

O final funciona como uma resposta politicamente correta aos anseios do público, ávido por um encerramento que foge do estilo “Seven” (David Fincher, 1995). Peter Jackson acaba deixando seus fãs sem água na boca ao perder o ponto da massa do lembas que deveria alimentar esta sua criação. Vale o ingresso? Se for meia entrada, sim. Caso contrário, não vai se arrepender quem aguardar o lançamento em DVD. Não esperem muita coisa.

Carlos Eduardo Bacellar

Deixe um comentário

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar