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Wes Anderson e Todd Solondz: duas faces da mesma moeda

Fonte:deviantart

Não sou jovem o suficiente para saber tudo” (Oscar Wilde)

Numa disputa de cara ou coroa entre Wes Anderson e Todd Solondz, jogando para o alto a moeda de Harvey Dent/Duas Caras, instrumento/juiz que entrega à probabilidade questões relativas à família, Anderson sempre vai escolher o lado imaculado, enquanto Solondz, seu duplo degenerado, vai escolher a face arranhada.

O diretor de “Felicidade” (1998), cronista das perturbações dissimuladas da classe média americana, enxerga a família ianque, cujo hábitat natural são os subúrbios – retratados em suas produções como verdadeiros depósitos de traumas psicológicos, conflitos e perversões escamoteadas, maquiados pela fragilidade das aparências e da hipocrisia –, com pessimismo e desesperança.

Já Anderson, mesmo reconhecendo as disfuncionalidades inerentes a um núcleo familiar, aproveita essas mesmas anomalias para estreitar laços entre personalidades conflitantes e criar narrativas singelas e lúdicas acerca do amadurecimento emocional de pessoas ligadas pelo sangue. As ovelhas negras em suas obras, figuras de destruição/reconstrução, são sempre transformadas em velocinos de ouro pela condescendência do olhar delicado.

Em “Os excêntricos Tenenbaums” (2001), a doença terminal do patriarca, um advogado falido interpretado por Gene Hackman, é o remédio produzido pela necessidade para cicatrizar desavenças, rancores, incompreensões e corações partidos. “A vida marinha com Steve Zissou” (2004), com Bill Murray no traje de mergulho de uma paródia de Jacques Cousteau, é um ensaio de Anderson sobre a paternidade tardia e seus efeitos colaterias, desvirtuados pela dor da perda e a sede de vingança, como a tentativa de recuperar o tempo perdido e ao mesmo tempo lidar com um sentimento novo e incômodo: o afeto por um filho cujo parentesco não resistiria a um exame de DNA. “Viagem a Darjeeling” (2007) trata da jornada espiritual de três irmãos. Viajando pela índia a bordo de um trem, são obrigados a aproveitar o tempo juntos para se harmonizarem e discutirem o relacionamento que tiveram com o pai falecido e a mãe que os abandonou. Cheirando a incenso, é o “Nós e eu” (Michel Gondry, 2012) da era analógica para maiores de 18 anos de Anderson.

Solondz formula seus trabalhos com ironia, sarcasmo, violência psicológica, individualismo e senso de humor doentio. Anderson manuseia transparência de sentimentos, inocência, pureza, ingenuidade e solidariedade.

A trilha autoral construída com os negativos do realizador de “A vida durante a guerra” (2009) e “Dark Horse” (2011) nunca foi um caminho viável para Anderson. Ele optou pela via positiva que o levou até “Moonrise Kingdom”, seu último longa, produção que rivaliza com a animação “O Fantástico Senhor Raposo” (2009) – sobre, adivinhe?, uma família de canídeos que se encrenca porque o papai raposo não consegue negar sua verdadeira natureza – pelo posto de melhor projeto do portfólio de Anderson.

Ah, o primeiro amor… A história de dois pré-adolescentes que descobrem (e vivem) intensamente o amor é adaptada na matriz familiar do maior fã de Bill Murray de que se tem notícia – Ruben Fleischer deve estar se mordendo todo e se autoinfectando com o vírus da inveja, aproveitando o trocadilho canibal para fazer referência a “Zumbilândia” (2009). O escoteiro Sam (Jared Gilman) tem um missão ordenada por seus hormônios. Ele abandona sua tropa, acampada em algum local na nova Inglaterra, década de 1960, para fugir com sua amada Suzy (Kara Hayward). Os pais da moça, Walt (Bill murray) e Lara (Frances McDormand) Bishop, não aceitam muito bem o relacionamento. Junto com o líder escoteiro da tropa de Sam, Ward (Edward Norton), seus asseclas mirins e o capitão da polícia local, Sharp (Bruce Willis), empreendem uma operação de busca e salvamento da virgindade perdida. Sam é o Charlie, sobrenome “As vantagens de ser invisível”, da família adotiva que o rejeita. Esperto, pragmático, aplicado, introspectivo, retraído, solitário, tachado como esquisito por causa de seu comportamento singular. Suzy é a Dawn Wiener do clã Bishop. Introvertida, leitora voraz, tímida, sonhadora, voluntariosa, explosiva, incompreendida. Almas gêmeas.

Fonte:deviantart

Wes Anderson e seu conceito estético vintage, influência dos anos 1960 – como se tivesse dado caixas de lápis de cor para crianças pintarem os cenários de “Mad Men”, os quais serviriam como locações para seus filmes –, emolduram, com imposições sociais (as incongruências e distúrbios da família), uma história sobre o florescimento do amor em seu estado mais inocente, repleto de dúvidas, descobertas e expectativas – portanto, mais intenso e inabalável. A primeira paixão, o primeiro entrelaçamento de mãos, o primeiro beijo, a primeira apertada de peitinho, a primeira ereção… Anderson torna o constrangimento e o desconforto encantadores e poéticos.

Os personagens caricaturais, a ambientação que tangencia o irreal, as situações inverossímeis, o olhar infantilizado, os silêncios que maturam as ações, as tomadas em câmera lenta, os exageros habituais das histórias em quadrinhos são elementos da grife Anderson, que assina o roteiro com Roman Coppola. Tudo fotografado por Robert D. Yeoman, colega de trabalhos anteriores que, ou por uma falha no tratamento do filme (segundo o IMDb, o formato original do negativo era 16mm; posteriormente foi convertido para 35mm), ou por opção, confere à projeção um aspecto granulado, escurecido e de pouca definição, característico do formato Super-8 – proporcionando uma atmosfera cult. O diretor faz do cinema sua caixa de brinquedos, com a qual volta no tempo e realiza suas fantasias mais íntimas. Seu jogo LEGO de US$ 16 milhões.

Moonrise Kingdom” é a versão cor-de-rosa de Wes Anderson para “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995), em que, diferentemente da ficção desencatadora de Solondz, sobre o lado odioso da natureza humana, os melhores sentimentos prevalecem.

 Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Anderson é extremamente conservador na escolha do elenco. Apostar em Bill Murray e Anjelica Huston é sempre recompensador. Os irmãos Owen e Luke Wilson e Jason Schwartzman também são figurinhas fáceis em seus filmes. Felizmente, desta vez ele abriu espaço para Frances McDormand, Bruce Willis e Edward Norton. Os dois últimos brilham, especialmente Norton, um líder que ainda está aprendendo o significado de liderança. McDormand desempenha um papel inexpressivo – que ramifica a trama num envolvimento extraconjugal para afirmar mais uma vez os problemas que solapam as relações familiares nas obras de Anderson –, assim como Tilda Swinton, numa ponta como assistente social.

p.s.2 Muitos críticos se rasgam de elogios para a trilha sonora dos filmes de Anderson, no meu entendimento superestimada. Manohla Dargis, crítica do Times, destaca em sua resenha O Guia da Orquestra para Jovens, obra do compositor inglês Benjamim Britten, que disseca os naipes de uma orquestra durante os créditos de “Moonrise Kingdom”. Quem assina a trilha é Alexandre Desplat, mito da indústria. Para eles, só digo dois nomes para encerrar o assunto: Cameron Crowe e Nancy Wilson. Segurem essa!

Fonte:deviantart

 

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Os Simpsons taciturnos de Todd Solondz

Em “Dark Horse”, o diretor americano Todd Solondz continua sua incansável faxina estética – cujos marcos são “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995), sua obra-prima, “Felicidade” (1998), e “A vida durante a guerra” (2009) –, espanando com fúria inteligente a purpurina que escamoteia os traumas e distúrbios da classe média ianque.

Os subúrbios americanos, locais em que se aglutinam as famílias Simpson taciturnas de um país em crise, são zonas de quarentena sob o olhar aguçado de Solondz. Armado de realismo cruel, cinismo, humor ácido, ironia, sarcasmo e do politicamente incorreto, o realizador desvela, disfarçados sob a maquiagem das aparências, os agentes patogênicos – diagnosticados como medo, ansiedade, depressão, perversão, hipocrisia, insegurança, falência da comunicação entre gerações – que atacam o equilíbrio psicológico de seus personagens.

Abe (Jordan Gelber, o Seth Rogen de Todd, que torna constrangedoramente cômica a existência patética de seu personagem) é o azarão da vez. Anomalia típica de uma família de classe média alta americana, cujos progenitores são Jackie (Christopher Walken, excepcional como um zumbi ambulante, contaminado pelas desilusões que a vida lhe impôs) e Phyllis (Mia Farrow, decadente como a matriarca atolada num casamento que segue na comodidade do piloto automático), ele é a ovelha negra do clã.

Alienado, disfuncional, sem ambições, egoísta, parasita dos rendimentos da família e inebriado por ilusões de gandreza, Abe passa seus dias fingindo que trabalha na empresa do pai – o que lhe dá um salvo-conduto de consciência para torrar dólares no moto-perpétuo da incineradora engendrada pela indústria do consumo.

Desprovido de objetivos (acadêmicos e profissionais), sentindo-se diminuído pelas conquistas do irmão Richard (participação especial de Justin Bartha, que ganhou o cachê mais fácil de sua vida) e incomodado pela preocupação lenientemente frouxa dos pais, ele se torna um adulto sem traquejos sociais, irresponsável, inconveniente e incapaz da autossuficiência. Desestruturado emocionalmente, Abe utiliza como reboco para preencher os buracos de seu coração – que grita mais pela necessidade (biológica) da procriação e (cultural) do prazer efêmero do que pela vontade de forjar qualquer laço afetivo mais substancial – um relacionamento fictício com a problemática Miranda (Selma Blair, atriz-assinatura de Solondz, num estado de torpor manicomial, cujo personagem é movido a substâncias químicas. Miranda, ex-Vi, surgiu pela primeira vez em “Histórias proibidas”, filmaço lançado por Solondz em 2001. Na trama, composta de segmentos independentes, ela participa da episódio Ficção).

Sem conseguir se ajustar em algum lugar entre o hedonismo e a despreocupação da adolescência e os compromissos e a inflexibilidade de regras do mundo adulto, Abe cria mecanismos de defesa para gerenciar sua fragmentação psicológica, permanecendo em constante estado de surto. Ele passa a transitar entre realidade e sonho, orientado tanto no lado de lá com no lado de cá por Marie (Donna Murphy), fiel funcionária da empresa do pai e uma segunda “mãe”. Marie, produto da competência e dos recursos dramáticos de Donna, é a responsável pela melhor atuação no longa. A cougar de Solondz, devoradora de homens em pele de senhora recatada, migra com desenvoltura da subserviência à autonomia, da ingenuidade à malícia, colocando panos quentes na negligência de Abe ao mesmo tempo que tenta transformá-lo em um homem de verdade. Horas extras espontâneas, fora da folha de pagamento, que lhe renderão algumas rugas a mais.

A fotografia de Andrij Parekh é caudatária das lentes de Maryse Alberti (“Felicidade”) e Edward Lachman (“A vida durante a guerra”). Quebra expectativas ao tingir de colorido algo sombrio, que se putrefaz em mentiras. Repetidas diversas vezes, como um mantra, depois de algum tempo elas reluzem como verdades.

Dark Horse”, roteirizado por Todd, torna-se mais significativo em meio aos desdobramentos da crise econômica dos EUA, como o movimento Ocupem Wall Street. Para quem os americanos vão legar essa militância ideológica? Pensando melhor, talvez a pergunta mais pertinente seja: que ideologia (ou ausência dela) é esta que dissolve valores e desconsidera o outro?

Carlos Eduardo Bacellar

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Embate crítico: Bacellar x Rocha

“A vida durante a guerra”, ansiolítico tarja preta estético do diretor americano Todd Solondz (“Bem-vindo à casa de bonecas”, 1995), dividiu a opinião dos críticos da blogosfera.

Carlos Eduardo Bacellar, fã de longa data da autoralidade sardônica de Solondz, (com lágrimas nos olhos) acredita que o novo filme do diretor passa longe do brilhantismo de obras anteriores, como “Histórias proibidas” (2001) e “Felicidade” (1998), matriz desta produção. E arremata dizendo que “A vida…” frustra a expectativa de quem esperava ver o cronista da esquizofrenia dissimulada da classe média americana em sua melhor forma.

Mattheus Rocha, parceiro e autor do site Cinema na Rede − é um prazer tê-lo aqui no Doidos, amigo − do qual o Bacellar é um dos colaboradores, exulta o filme dizendo que o longa apresenta um mosaico de densos conflitos íntimos, que mais parecem guerras durante as vidas de duas sofridas famílias. E destaca os diálogos brilhantes e atuações viscerais, amplificadas pela belíssima direção de arte.

Duas análises antípodas (adorei essa palavra que aprendi com o Ely Azeredo e uso para impressionar as mulheres). Contrapontos interpretativos que enriquecem a discussão sobre cinema.

Vamos aos textos:

Quem acompanha o blog sabe do carinho que tenho pelo cineasta americano Todd Solondz. Ironia, sarcasmo, violência psicológica, senso de humor doentio e ousadia em abordar temas considerados tabu são alguns dos traços da assinatura estética do diretor.

No Festival do Rio, o realizador foi representado por “A vida durante a guerra” (2009), que estreia no circuito comercial dia 19 de novembro, pela Imagem Filmes.

Infelizmente a produção passa longe do brilhantismo autoral de “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995) e “Histórias proibidas” (2001), e frustra a expectativa de quem esperava ver o cronista da esquizofrenia dissimulada da classe média americana em sua melhor forma.

Tentativa malsucedida de emplacar uma continuação de “Felicidade” (1998) – que muitos apontam como a obra-prima da cinematografia de Solondz −, “A vida…” não consegue transcender sua matriz e desliza na sina das franquias: as sequências (na maioria esmagadora das vezes) deixam a desejar. Estaciona no plano da mediocridade.

A narrativa retoma o cotidiano das irmãs Jordan, que servem de amostra para que Solondz exerça sua alquimia reversa e transforme ouro em algum tipo de material radioativo. Aos poucos, o veneno do diretor deteriora a hipocrisia moral e revela uma sociedade profundamente transtornada.

Os subúrbios americanos, retratados como verdadeiros depósitos de traumas e perversões escamoteadas, são terreno fértil para os exercícios estéticos ácidos de Solondz, o Pasolini do american way of life.

Desta vez a história traça um paralelo entre o que aconteceu com as irmãs-protagonistas Joy, Trish e Helen, interpretadas neste novo filme por Shirley Henderson, Allison Janney e Ally Sheedy respectivamente, e o legado de perturbações psíquicas que seus círculos de relações sociais e familiares (principalmente os filhos de Trish) herdaram.

O H2SO4 (ácido sulfúrico) estético derramado por Solondz no verniz que disfarça o poço de neuroses e falsa moralidade no qual se afoga a classe média ianque não teve o mesmo efeito corrosivo de “Felicidade”. Talvez por ser uma fórmula gasta, explorada sem maior criatividade. O filme mais parece uma obrigação contratual (caça-níqueis) da qual o diretor quis se livrar logo.

Alguns diálogos depressivo-inteligentes (que nos forçam a ler nas entrelinhas), marcas da excelência de trabalhos anteriores, salvam determinadas cenas e impedem “A vida…” de ser um fracasso total, mas é só. Doeu no coração ter de escrever tudo isso…

Carlos Eduardo Bacellar

“A Vida Durante a Guerra” é um filme muito bem resolvido (técnica e conceitualmente) sobre pessoas mal resolvidas, vítimas de fracassados relacionamentos amorosos e/ou familiares, que resultaram em algum pesado trauma, carregado penosamente como um fardo aparentemente inseparável de suas ordinárias vidas. Apesar de referências a Israel (a maioria dos personagens é de origem judaica) e ao impasse da Terra Santa, a guerra não é exterior, e sim interior. O diretor e roteirista Todd Solondz − de “Felicidade” (1998) e “Histórias Proibidas” (2001) − apresenta um mosaico de densos conflitos íntimos, que mais parecem guerras durante as vidas de duas sofridas famílias.

As relações surrealistas têm início com diálogos brilhantes e atuações viscerais, amplificadas pela belíssima direção de arte de Roshelle Berliner, de “Preciosa − Uma História de Esperança” (2009). Cada intervenção é dotada de uma latente busca pela sanidade perdida (inconscientemente) pelas vicissitudes da vida, que elevam a história a uma espécie de busca por uma catarse coletiva. Os valores morais aspirados são expostos em uma constante terapia em grupo ou autoanálise (não propositais), mas a dualidade dos personagens leva a contradições que chegam a ser risíveis (delicioso humor negro nonsense), como a mãe que protege seu filho de um pai pedófilo, mas dá Rivotril para a filha mais nova, ainda uma criança.

A montanha russa de sentimentos é alimentada pela culpa, ressentimento, depressão, amores e desamores. “A Vida Durante a Guerra” vai ganhando força à medida em que a projeção avança, como o garoto que se torna adulto, e a ligação entre os personagens é mostrada de uma forma um tanto quanto bizarra. O palco desta história − que é continuação de “Felicidade” − é um subúrbio na Flórida, paranoico pelo pós 11 de setembro. A busca pela redenção passa pela reflexão e tem o perdão como ápice de um ser simplesmente humano, que, com suas fraquezas e ambiguidades, prefere estar com um ente querido do que refletir sobre questões essenciais à vida em sociedade. “Eu não me importo com a liberdade e a democracia. Só quero meu pai”.

Mattheus Rocha

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Todd Solondz fracassa

Quem acompanha o blog sabe do carinho que tenho pelo cineasta americano Todd Solondz. Ironia, sarcasmo, violência psicológica, senso de humor doentio e ousadia em abordar temas considerados tabu são alguns dos traços da assinatura estética do diretor.

No Festival do Rio, o realizador foi representado por “A vida durante a guerra” (2009), que estreia no circuito comercial dia 19 de novembro, pela Imagem Filmes.

Infelizmente a produção passa longe do brilhantismo autoral de “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995) e “Histórias proibidas” (2001), e frustra a expectativa de quem esperava ver o cronista da esquizofrenia dissimulada da classe média americana em sua melhor forma.

Tentativa malsucedida de emplacar uma continuação de “Felicidade” (1998) – que muitos apontam como a obra-prima da cinematografia de Solondz −, “A vida…” não consegue transcender sua matriz e desliza na sina das franquias: as sequências (na maioria esmagadora das vezes) deixam a desejar. Estaciona no plano da mediocridade.

A narrativa retoma o cotidiano das irmãs Jordan, que servem de amostra para que Solondz exerça sua alquimia reversa e transforme ouro em algum tipo de material radioativo. Aos poucos, o veneno do diretor deteriora a hipocrisia moral e revela uma sociedade profundamente transtornada.

Os subúrbios americanos, retratados como verdadeiros depósitos de traumas e perversões escamoteadas, são terreno fértil para os exercícios estéticos ácidos de Solondz, o Pasolini do american way of life.

Desta vez a história traça um paralelo entre o que aconteceu com as irmãs-protagonistas Joy, Trish e Helen, interpretadas neste novo filme por Shirley Henderson, Allison Janney e Ally Sheedy respectivamente, e o legado de perturbações psíquicas que seus círculos de relações sociais e familiares (principalmente os filhos de Trish) herdaram.

O H2SO4 (ácido sulfúrico) estético derramado por Solondz no verniz que disfarça o poço de neuroses e falsa moralidade no qual se afoga a classe média ianque não teve o mesmo efeito corrosivo de “Felicidade”. Talvez por ser uma fórmula gasta, explorada sem maior criatividade. O filme mais parece uma obrigação contratual (caça-níqueis) da qual o diretor quis se livrar logo.

Alguns diálogos depressivo-inteligentes (que nos forçam a ler nas entrelinhas), marcas da excelência de trabalhos anteriores, salvam determinadas cenas e impedem “A vida…” de ser um fracasso total, mas é só. Doeu no coração ter de escrever tudo isso…

Carlos Eduardo Bacellar

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O falso paraíso urbano

Pedofilia, estupro, assassinato, masturbação… Pois é, o diretor americano Todd Solondz não pega leve ao radiografar a classe média americana em “Felicidade” (1998), filme que muitos apontam como a obra-prima do autor de “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995).

Por meio de suas lentes implacáveis, o realizador detecta a massa cancerígena altamente agressiva que corrói as relações humanas de quem, teoricamente, tem tudo. Solondz implode a falsa ideia de que os subúrbios dos EUA abrigariam o paraíso na Terra, e erige uma obra carregada de selvageria psicológica. Já deu para entender que “Happiness” (título original) está mais para “Sadness”. Não há como não ficar incomodado.

Para a alegria de quem curte o trabalho do diretor, o DVD, mais um produto da grife-cult Lume Filmes, incrementa seus extras com uma entrevista concedida por Solondz ao crítico de cinema Carlos Helí de Almeida, pouco antes do lançamento do filme no mercado brasileiro, em 1998, e a íntegra da crítica escrita por Kleber Mendonça Filho.

“Ninguém sabe ao certo a cor, diâmetro ou aparência desse produto luxuoso e muito procurado chamado felicidade”. Assim Mendonça inicia, ironicamente, seu texto sobre a produção que ele considera um “réquiem para os emocionalmente excluídos”. Logo no início de “Felicidade”, ainda nas palavras de Mendonça Filho, Solondz “reflete acerca da importância de sermos amados, e o horror de sermos rejeitados.” Os hiatos nos diálogos são objetos de interesse estético do diretor. Mas, diferentemente de filmes como “Lemon Tree” (2008) e “O que resta do tempo” (2009), Solondz investiga o silêncio de situações constrangedoras com um senso de humor doente – e não espera que surjam entendimentos dele, mas rupturas azedas.

Segundo o crítico, “o talento do diretor conjuga ironia e féu”.

“O horror é explorado num clima de humor desconcertante que desperta nas plateias o riso de hienas. É preciso ter senso de humor demente para rir.”

As cenas nas quais fica implícito o comportamento criminoso e moralmente condenável de Bill Maplewood (Dylan Baker) – tratadas com certa inocência cômica e amarga − são chocantes e sintomáticas. E certificam a ousadia do diretor ao abordar temas tabus.

Mendonça Filho continua: “Nada é visualmente sombrio, e temos a impressão de estarmos numa sorridente propaganda de margarina, sonorizada como novela dos anos 50.”

Ao enfocar diferentes núcleos de personagens, ligados por laços familiares ou sociais, Solondz, sem a menor complacência, trata seus protagonistas com ironia e sarcasmo ao desvelar a indigência emocional que assola o íntimo de cada um.

A alienação, o hedonismo oco e os comportamentos psicóticos são cultivados como remédios para a depressão e o vazio existencial. Mendonça Filho alfineta nossa inércia moral dizendo que os personagens fazem “Os Simpsons parecerem as Chiquititas.”

Helí de Almeida enxerga no estereótipo do subúrbio americano (na ótica de Solondz), terreno fértil para os exercícios estéticos do diretor, “um depósito de traumas e perversões escamoteadas.”

Na essência, é um filme sobre a dissolução de relações pela ausência de comunicação — amplificada pelo individualismo trinitrotoluênico patente nas sociedades de consumo, que se definem pela riqueza material.

A autoralidade doentia (mas encharcada de lucidez) de Solondz não deixa ninguém indiferente. “Felicidade” penetra fundo em nossos valores, e sem lubrificante. Alguém se arrisca a responder onde vivem os monstros?

Carlos Eduardo Bacellar

Ah, sim… Já ia me esquecendo… Uma das trilhas musicais que embala os infortúnios vividos pelos personagens de Solondz em “Felicidade” é “All out of love“, do Air Supply. Mais uma música oferecida pela rádio pirata Doidos por Cinema. Do fundo do baú. Bem sugestiva:

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Bem-vindo ao inferno, escola de psicopatas

Dawn Wiener (Heather Matarazzo) encontra-se na sétima série do ensino fundamental de alguma escola americana na década de 1980. Retraída, inocente, introvertida, desajeitada e tímida, ela sonha em ser uma garota popular, apesar de não se enquadrar no padrão de beleza das meninas que fazem sucesso. Rotulada como esquisita (=diferente), ela sofre com as agressões físicas e psicológicas perpetradas pelos colegas de escola. Na linguagem moderna, Dawn é vítima de bullying.

Ao se defender, é tachada de antissocial, problemática e perturbada. Excluída das “panelas” − recheadas de comportamentos padronizados pela linha de montagem social da deformada juventude americana −, sofre com a solidão. Quem não teve sua cota de problemas à época do colégio que atire o primeiro Nauru, ou a primeira Revista Capricho. Em casa é preterida pela irmã mais nova (“ela consegue tudo tão fácil”), a queridinha da mamãe e do papai, e é esnobada pelo irmão mais velho, com quem não consegue estabelecer diálogo. O inferno existencial está armado.

Dawn é a inglória heroína do filme “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995), do diretor americano Todd Solondz, que também assina o roteiro. Transpirando autoralidade, Solondz se serve do título como metáfora para, utilizando a rotina da menina como microscópio sociológico, dissecar as aparências que encobrem horrores na classe média da sociedade americana. Amostragem do que o american way of life deixou de herança para as futuras gerações, a família de Dawn disfarça a implosão de seus valores com quilos de maquiagens à base de aparência e hipocrisia. Só que a alergia às muletas pseudomorais, que só servem como paliativo para uma situação insustentável, não tarda a parecer.

Cáustico, impiedoso e destilando seu humor negro atávico – que pode ser conferido em trabalhos posteriores, como “Felicidade” (1998), que alguns consideram sua obra-prima, e “Histórias proibidas” (2001) −, Solondz incomoda com um filme corajoso e perturbador.

Implacável, ele agride nosso conformismo cômodo ao radiografar a casa da família Dó-Ré-Mi e descobrir a metástase dos valores morais. Por baixo do verniz perfeccionista e da atmosfera artificial, as lentes de Solondz encontram a podridão sem cheiro, mas altamente ácida, de uma classe média fadada a desmoronar na alienação, no egoísmo e na falta de comunicação. E o combustível de alta octanagem da leviandade, à moda Scott Fitzgerald no livro “Este lado do paraíso”, acelera o deterioramento das relações humanas, que, na verdade, não passam de um teatro de fantoches.

Assistindo ao filme, um grito engasga em nossas gargantas: o que nós vamos legar para nossos filhos? Chega a ser irônica a escolha do nome e do sobrenome da protagonista: Dawn (que na tradução para o português significa amanhecer) e Wiener (mesma sonoridade de winner, que quer dizer vencedor[a] em nossa língua) respectivamente. Esse tipo de realidade é a escola de psicopatas do futuro. É o terreno fértil para que outros protagonistas de “Tiros em Columbine” (2002) ganhem as manchetes do noticiário.

O diretor integra um talentoso grupo de realizadores autorais americanos (formado por artistas de várias gerações) dos quais destaco Noah Baumbach, autor de “A lula e a baleia” (2005) e “Margot e o casamento (2007); Judd Apatow, na seara da comédia, arrebatando elogios com “O virgem de 40 anos” (2005) e “Ligeiramente grávidos” (2007); Courtney Hunt, diretora de “Rio congelado” (2008); Jim Jarmusch, o capitão das naus estéticas “Estranhos no paraíso” (1984) e “Down by Law” (1986); o oscarizado Jonathan Demme, que horrorizou os mais conservadores emplacando Anthony Hopkins no papel do psicopata canibal Hannibal Lecter em “O silêncio dos inocentes” (1991), e foi o responsável por organizar o “Casamento de Rachel” (2008); Alexander Payne, que conseguiu uma atuação antológica de Paul Giamati em “Sideways − entre umas e outras” (2004); e Rebecca Miller, responsável por “The privates lives of Pippa Lee” (2009), cujo título no Brasil é “Vidas cruzadas” – não se enganem com a capa do DVD, com Keanu Reeves e Monica Bellucci estampados abaixo do título. Apesar de o filme ser interessante, os dois só estão ali para te fisgar, já que interpretam papéis terciários.

Em 1996, “Bem-vindo à casa…” arrebatou o Grande Prêmio do Júri do Festival Sundance de Cinema, berço da autoralidade nos EUA que embala para o sucesso (ou não) produções independentes. O filme é de uma crueza arrepiante, mas necessária. Imperdível!

Carlos Eduardo Bacellar

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