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Teoria do Caos

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Marcus Messner, 1932-52, o único de seus colegas suficientemente desafortunado para ser morto na Guerra da Coreia, que terminou com a assinatura de um armistício em 27 de julho de 1953, onze meses antes que Marcus, caso tivesse sido capaz de tolerar a igreja e manter a boca fechada, se formasse na Universidade Winesburg – muito provavelmente como orador da turma –, podendo assim postergar o aprendizado daquilo que seu pai, embora pouco educado, vinha fazendo tanta força para lhe ensinar havia muito tempo: a forma terrível e incompreensível pela qual nossas escolhas mais banais, fortuitas e até cômicas conduzem a resultados tão desproporcionais.” (Indignação, de Philip Roth)

Ivan Locke (magistralmente interpretado por Tom Hardy) é um engenheiro civil acostumado à certeza e à frieza dos números. Para seu azar, a teoria do caos que direciona os desígnios da humanidade não permite que cálculos responsáveis pela solidez de edificações antevejam a ruína de uma vida como resultado de atitudes impensadas.

Ao final de mais um dia de expediente, o diretor de construção é surpreendido por uma notícia que adiciona uma incógnita ao seu futuro. Locke vai ser pai. Uma noite de solidão, desejos latentes e oportunidade, regada a álcool, após uma empreitada exaustiva, mas de sucesso, teve como resultado um filho fora do casamento. A bússola moral do empreiteiro altamente magnetizada pela sua experiência pessoal só aponta um caminho.

A partir desse momento, seu carro, onde transcorre praticamente toda a encenção nos pouco mais de 80 minutos do filme, se torna uma célula de sobrevivência – remetendo a “No tempo das diligências” (John Ford, 1939), “Líbano” (Samuel Maoz, 2009) e “Cosmópolis” (David Cronenberg, 2012) – por meio da qual ele deve gerenciar uma série de conflitos a caminho do hospital, entre eles o mais complexo de todos: seu conflito pessoal com a figura paterna numa sessão de terapia pouco convencional.

Com esses elementos, o diretor Steven Knight, mais conhecido por sua atuação como roteirista de séries de TV, cria um thriller psicológico pungente. Partindo dos esqueletos de metal e concreto de um canteiro de obras, Locke, por telefone, precisa se certificar de que sua vida pessoal e profissional não desmorone enquanto tenta chegar a tempo para o nascimento de seu filho – duas contruções pelas quais o engenheiro, cartesiano e pragmático, é responsável.

A fotografia de Haris Zambarloukos transforma jogos de luzes da cidade e das ruas que banham o carro num caleidoscópio que a cada curva, a cada caminho escolhido, propõe um reagrupamento de formas e possibilidades. Locke não acredita no resultado de seu comportamento, um desvio do padrão do pai de família cioso. O trabalho do diretor de fotografia confere uma atmosfera onírica à situação em que Locke se encontra – ou, num outro entendimento, transforma avenidas em cabos de fibra ótica em que a comunicação, impessoalizada pela distância, mas carregada de significados emocionais, não pode ser interrompida, segue num fluxo contínuo em sua própria velocidade. Desplugar não é uma opção.

O exercício primoroso de Zambarloukos com a luz se transforma numa jukebox com trilha sonora das perturbações de Locke, que só toca em seus próprios pensamentos.

O empreiteiro é uma esfera de metal de uma máquina de fliperama. Uma vez lançada (seus atos), desencadeia consequências que não podem ser controladas de todo. O material que a compõe não se deforma (valores), mas ela se desloca caprichosa, quase ao sabor do acaso, impulsionada por mecanismos imprecisos. O filme, que deveria figurar nas listas de melhores do ano, coloca Tom Hardy entre os grandes.

Do caos, dos fractais de um ser humano estilhaçado pelo passado, pelo presente e pelo futuro, Locke vai precisar extrair a ordem.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. “Locke”, que, se não estou enganado, foi lançado direto em DVD, é a melhor propaganda que a BMW já teve em toda sua existência.

 

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Sem armas e efeitos especiais mirabolantes: só cérebro

Quantas vezes você esperou ansiosamente por um filme e acabou se decepcionando no final? Eu já caí em várias roubadas e, em dias de fúrias, tenho vontade de pedir meu suado dinheirinho de volta.

É fato que a produção de trailers também é uma indústria – já diria Amanda Woods, personagem de Cameron Diaz em “O amor não tira férias” (2006), filme de Nancy Meyers. Para satisfação de aficionados por pôsteres, uma segmentação talvez capitalista dos cinéfilos, os estúdios também apostam na habilidade dos designers gráficos para aguçar a curiosidade por uma obra. E é justamente aí em que eu e “O espião que sabia demais” nos encaixamos.

De férias em Londres, fui metralhada por pôsteres de Gary Oldman no metrô, nos ônibus, por todos os lados daquela cidade fantástica. Minha primeira reação foi: “Opa, Gary Oldman?” A segunda: “Opa, Gary Oldman como protagonista?” Pronto, estava fisgada.

Em letras minúsculas, como em anúncios publicitários, outros nomes conhecidos: Colin “Mr. Darcy” Firth, Tom Hardy, Toby Jones, Mark Strong, Benedict Cumberbatch… Quem precisa de um trailer para se convencer de que um filme vai “arrasar quarteirões?”

Esperei mais de três meses até que a produção chegasse aos cinemas brasileiros. No fim de semana de estreia, lá fui eu, com o coração apertado e milhares de perguntas na minha cabeça – E se não for tudo isso? E se eu me decepcionar? Mas é possível se decepcionar com um Gary Oldman? Um Colin Firth? Às vésperas do fim do mundo, essa resposta eu tive: não é, meus caros.

O espião que sabia demais” é um filme inteligente, comedido, como há muito tempo não se via. Os espiões mais famosos do cinema (James Bond, Ethan Hunt e Jason Bourne) renderam-se aos efeitos especiais, aos músculos excessivamente torneados, às armas. George Smiley, de Gary Oldman, não faz parte desse clubinho, graças a Deus.

Smiley é um agente do MI6, que, após ser obrigado a se aposentar, recebe a missão de descobrir quem é o agente duplo infiltrado na organização. Recebe, na verdade, a mais inglória das tarefas: investigar os seus próprios parceiros, aqueles que deveriam ser fiéis aos mesmos propósitos que os seus. Já na casa dos 60 anos, ele fala baixo, tem gestos contidos e a reconhecida elegância inglesa, com seu terno bem cortado, casaco de chuva e cachecol de lã. Mal pega em uma arma durante os 127 minutos de filme; usa somente a inteligência e a observação minuciosa. A ausência de efeitos especiais não torna o filme nem um pouquinho menos interessante, tenha certeza disso.

O nome original – Tinker Tailor Soldier Spy – é curioso e explicado ao longo do filme, adaptado de uma obra de 1974 de John le Carré. Smiley, aliás, é um velho conhecido dos ingleses. No final da década de 70, era campeão de audiência na BBC.

Tom Hardy, sempre nos papéis do bonitão brutamontes, é uma boa surpresa da produção. Benedict Cumberbatch, que pode ser visto também em “Cavalo de Guerra”, continua, pra mim, uma incógnita. Vem sendo apontado por sites e revistas internacionais como uma das principais apostas para 2012, mas não teve uma atuação que justificasse tamanha expectativa. Colin Firth, para variar, só não supera Oldman.

Falando nele, 2012 pode corrigir uma das grandes injustiças desse mundo. Oldman não tem um Oscar. Ele nunca foi nem indicado a um, algo inimaginável até para Colin Firth, como revelou o intérprete do agente Smiley em entrevista ao The Sunday Times Magazine (vou vender meu peixe e sugerir que você confira essa matéria, ou pelo menos trechos dela, no meu blog).

Às vésperas do fim do mundo, eu torço pela paz mundial e pela salvação da humanidade, sem tanto esforço e tragédia como o anunciado no filme de Roland Emmerich. Também torço por menos injustiças; pela consagração de Gary Oldman, Meryl Streep de terno (sim, porque, assim como ela, ele pode fazer qualquer filme) e de um roteiro extremamente sagaz.

Tati Lima é autora do blog @osindicados e parceira querida do Doidos

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Encontrando a saída do (pseudo)labiríntico “A origem”

Não é nenhuma surpresa o interesse que o thriller onírico “A origem”, do diretor inglês Christopher Nolan, desperta nos consumidores de blockbusters órfãos da trilogia “Matrix”.

Ávidos por produtos que transcendam plataformas, esses inquietos consumidores de cultura pop estão sempre em busca de algo intrigante, que (supostamente) não possam explicar facilmente (ou se recusam a assimilar), mas que preencha de alguma maneira uma existência que não tem mais muita graça. Nada contra o escapismo saudável, encarado como entretenimento.

O filme de Nolan é mais uma ideia, rotulada por alguns de complexa, que molda comportamentos de massa com o intuito de gerar milhões de dólares – explorando com competência não só a produção em si, mas todos os seus reflexos no mercado. E vai catequizar muita gente, assim como a saga dos irmãos Wachowski, mas sem o mesmo elã.

Esqueça filosofia, metafísica, Einstein, Freud, Kant, Jung, George Orwell, Philip K. Dick… Duvido que Nolan tenha se preocupado excessivamente com isso. Não mais que um guri que vai atrás do último número da revista do Batman e, depois de lê-lo, o coloca de lado para jogar seu PS3. Responsável por um orçamento milionário, que precisa dar retorno, ele com certeza tem os recursos para comprar professores, intelectuais, nerds e outras figuras que adicionem um molho de conceitos acadêmicos-pop ao seu roteiro.

Mas a ideia, unidade de conceito mais resiliente do que qualquer outro parasita na face da terra, é assustadoramente simples. E esse é o motivo pelo qual ela germina de forma tão poderosa, florescendo no substrato da tecnologia, que permite que sonhos se tornem realidade diante de nossos olhos.

Como provou com “The dark night” (2008), Nolan sabe como ninguém contar uma ótima história aliando tecnologia aos dramas do que nos torna humanos. E é isso que seu novo filme é: uma excelente história. Mas é inegável que o realizador, aproveitando-se de elementos de filmes como “A cela” (2000), e alicerçando-se nas possibilidades digitais, levou sua criação a um outro nível. E assim montou seu quebra-cabeça estético (nível médio de dificuldade, sem desrespeitar seus fãs).

Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) é um escolado ladrão, mas não um larápio como outro qualquer. Ele é capaz de invadir sonhos e roubar segredos que de outra forma permaneceriam lacrados no inconsciente de seus alvos. A melhor definição seria um espião comercial do século XXI. Lá pelas tantas, ele é contratado para usar suas habilidades de forma não ortodoxa.

Cobb, em vez de extrair informações, precisará inserir uma ideia (daí o termo inception, título original do longa) na mente de um herdeiro do mercado de energia, de forma a desencadear uma nova postura estratégica e impedir um monopólio futuro, o que seria devastador em termos financeiros para o contratante do serviço de Cobb.

Além das dificuldades inerentes à empreitada, Cobb precisa lidar com projeções do seu próprio inconsciente que, tomando a forma de sua ex-mulher Mal (Marion Cotillard), tentam sabotar seus mergulhos em sonhos alheios. Uma âncora que Cobb carrega cravada bem no fundo de seus traumas, causados por equívocos do passado.

Auxiliado por uma equipe de peritos no assunto, que conta com a ajuda da arquiteta caloura Ariadne (Ellen Page), responsável por criar os labirintos estruturais que abrigam as ações dos belos adormecidos, Cobb se mistura às ondas cerebrais de sua vítima para (o que ele espera) dar cabo de seu último trabalho.

A trama é simples assim, maravilhosa assim. O resto são apêndices que têm como função deslumbrar o público sedento por cenas espetaculares, que não ofuscam, só engrandecem. Quem conferir não irá se decepcionar.

O repórter e crítico de cinema André Miranda, grande camarada, acondicionou a polpa de “A origem” em menos de 140 caracteres:

“Sinceramente, eu não acho que ‘A Origem’ seja um filme tão complicado como alguns dizem. É, sim, uma trama mais sofisticada. Mas bem simples.”

A simplicidade (uma vez despida de verborragia hawkingniana) não deve ser antagônica ao esmero com que Nolan criou a incrível roupagem de uma história de contornos surreais, que envolve e fascina. O avanço da tecnologia de computação gráfica é traduzido em imagens que não podem ser diferenciadas do que é concreto. Real e imaginário são conjugados, e o resultado é sublime para os sentidos.

Mas eu não vou perder um minuto sequer tentando entender as intenções metafísicas supratextuais (com implicações claramente comerciais) por trás de toda aquela pirotecnia gerada por computação gráfica e por diálogos na linha de “The big bang theory”.

A estrutura por trás do filme é como o show pirotécnico de Revéillon. Devemos apreciar, sem necessariamente entender os detalhes de como aquilo é realizado. É pólvora e pronto. Quando for curtir “A origem”, encoste-se na poltrona e sonhe de olhos abertos. Deixe as explicações para quem não tiver nada melhor para fazer e estiver disposto a perder tempo com isso. Com licença, pois vou voltar para o meu PS2.

Carlos Eduardo Bacellar

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